Caderno de Campo

Entradas do agosto 2009

Guerra e Futebol

31/08/2009 · Deixe um comentário


A semana passada foi bem incomum por aqui.

Primeiro, que não pude dedicar-me o quanto gostaria, em função de um extenso projeto de pesquisa para seleção de mestrado.

E segundo, porque o último post O Cambista-Oficial da Copa do Mundo rendeu além de milhares de acessos, um relativo trabalho em retornar as dezenas de emails e comentários de indignação com a denúncia.

E para começarmos bem a semana, publico um maravilhoso anúncio espanhol do Atlético de Madrid, que retrata a Guerra Civil de 1937 e o poder do futebol em mudar as coisas.

Apreciem!




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O Cambista Oficial da Copa do Mundo

26/08/2009 · 36 comentários

Quantos brasileiros conseguirão comprar ingressos para a Copa de 2014 de maneira limpa e sem ágio?

Em 2006 na Alemanha, Brasil e Gana faziam em Dortmund o primeiro jogo da segunda fase. A equipe de Ronaldo venceria por 3 a 0 e iria enfrentar a França de Zidane e Henry…

Neste mesmo dia, gravei um vídeo que somente agora consegui editar e que revela a existência de um esquema para a venda de ingressos da Copa do Mundo.

Perdoem-me, mas a edição não é das melhores. Nem a gravação…

Notem o barrigudo de óculos e camisa amarela da seleção sem escudo. Vou chamá-lo a partir de agora de ‘cambista-oficial’.

Numa BMW X5 preta, acompanhado por uma mulher que nunca deixava o carro, ele surgia nos arredores dos estádios onde o Brasil faria seus jogos e organizava a venda de ingressos oficiais da FIFA, conforme poderão conferir no vídeo.

As vendas eram diretas ou intermediadas por alguns “laranjas” (senhor de agasalho azul-marinho no vídeo) e que eram cooptados pelo próprio ‘cambista-oficial’ na porta dos estádios.

Foram gravados vários atos de venda, e o mais nítido está identificado a partir do trecho 01′ 20″ do vídeo, onde se vê claramente a troca de ingressos por dinheiro.

Consegui gravar alguns dos ingressos vendidos pelo cambista-oficial’ e registrar a quem supostamente deveriam estar endereçados.

Abaixo, segue a relação de nomes que aparecem nestes ingressos:

Rony Anderson Rezende, Flávio Talarico, Osmarina Theis, Elton Tedesco, Lincoln Berretta, Sueli Raymundo, José Lima e Eduardo Barella.

Um dos ingressos vendidos pelo 'cambista-oficial'.

E todos eles pertenceriam a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Ou pelo menos é o que está gravado em cada ingresso.

Caso sejam nomes reais, poderiam ajudar a esclarecer o porquê de seus ingressos estarem sendo comercializados por um ‘cambista-oficial’ na Copa do Mundo.

Naquele mesmo dia, a partir do depoimento de um dos laranjas, soubemos que o esquema de distribuição dos ingressos para os “cambistas-oficiais” era realizado num hotel de luxo em Frankfurt, com direito a um andar privativo, diga-se de passagem. Em média, cada ‘cambista-oficial’ recebia de 300 a 500 ingressos por jogo. Aliás, este mesmo laranja já estava ‘escalado’ para ‘trabalhar’ no jogo entre Brasil e França.

Ou seja, um sistema semi-profissional de comercialização de ingressos. Vendido por brasileiros e comprado por brasileiros.

Pergunta: quantos de nós irão conseguir comprar ingressos para a Copa de 2014 de maneira limpa e sem “ágio” ?

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A Maturidade no Futebol Brasileiro é…

19/08/2009 · Deixe um comentário

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O que significa ter maturidade no futebol?

… criar canais de capacitação para a grande indústria do futebol.

… erradicar a violência nos estádios.

… ter grande presença de público nos jogos.

… pensar o futebol em sua dimensão educacional.

… investir no processo de desenvolvimento de atletas muito além do “treino” e da “engorda”.

… ter um campeonato nacional emocionante de pontos corridos.

… exportar campeonatos (TVs pay-per-view) e não atletas com 18 ou 19 anos.

… priorizar atletas e torcedores e não TVs e Federações.

… fazer de uma Copa do Mundo um evento de transformação e desenvolvimento do país.

… fazer da marca “futebol brasileiro” sinônimo de qualidade na formação de atletas, técnicos e gestores do futebol.

… valorizar seus ídolos.

… respeitar o torcedor.

… fazer com que seus estádios sejam seguros e confortáveis.

… criar infra-estrutura pública de transporte adequada ao tamanho do espetáculo.

… não utilizar clubes e instituições para objetivos políticos.

… incentivar a renovação nas políticas de gestão.

… ser transparente na prestação de contas com os investidores, sócios e torcedores.

Outras sugestões serão muito bem-vindas.

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No Anonimato da Multidão

18/08/2009 · 1 comentário

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Pesquisa derruba mitos sobre os componentes de torcidas organizadas

via Carta Capital

Marginais. É assim que muita gente enxerga quem participa de torcidas organizadas de futebol, especialmente se no jogo houve alguma briga, tumulto ou morte. É mais fácil imaginar que sejam vândalos, bárbaros, do que se confrontar com uma realidade que pode surpreender: talvez sejam gente comum. É o que constata em trabalho inédito a pesquisadora da Faculdade de Educação Física da Unicamp Heloisa Reis. “Os resultados põem por terra a generalização de que torcedores organizados são vadios.”

Para chegar a essa conclusão, a coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas de Futebol fez um perfil minucioso do torcedor organizado. O trabalho, a que CartaCapital teve acesso, será concluído em setembro e pesquisou 813 filiados da maior torcida organizada de cada um dos três principais times da capital paulista (Corinthians, São Paulo e Palmeiras). Além de informar as características sociais, eles opinaram sobre as causas da violência dentro e fora dos estádios. Interessada nesse tema, Heloisa pesquisou apenas o gênero e a faixa etária dos principais algozes e vítimas de atos violentos – homens entre 15 e 25 anos.

Em vez de pobres marginalizados, encontrou rapazes instruídos, de famílias estruturadas. “Os torcedores organizados têm bom nível educacional, moram com os pais e, além disso, têm noção da própria responsabilidade nos acontecimentos violentos”, expõe Heloisa. O próximo passo será pesquisar todo o País. Conhecer a fundo o torcedor é, segundo a pesquisadora, indispensável para enfrentar a violência de forma eficaz. “Na Europa, as mudanças partiram desse diagnóstico.”

Para o ministro do Esporte, Orlando Silva, os resultados reforçam a convicção de que não faz sentido marginalizar o torcedor organizado. “São grupos legítimos com quem o Estado precisa dialogar cada vez mais”, disse à CartaCapital. O ministério financiou o estudo.

Apesar de cores e hinos diferentes, a condição social e as opiniões de palmeirenses, são-paulinos e corintianos são muito parecidas. “As informações se repetem independentemente do time”, diz Heloisa. E morre outro clichê: o de que existem torcidas da elite e outras mais carentes.

(mais…)

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Futebol e Fama – O Tiny Dancer Brasileiro

17/08/2009 · Deixe um comentário

Grande sequência do filme “Quase Famosos”, ao som de Tiny Dancer.

Quase famoso. Este é o esmagador perfil do atleta profissional de futebol brasileiro.

Que recebe em média salário mínimo.

Sonha em receber milhões, jogar na Europa e andar de carro importado. Mas apenas uma minúscula parcela chega lá.

A impressionante maioria não teve oportunidade de combinar a escola com o futebol e acaba rodando o país (e o mundo) atrás de um holerite.

Depois volta pra casa, geralmente com esposa e filhos e tenta alguma função no meio da bola.

Geralmente como empresário de atletas. Assistente técnico também serve, já que a vida lhe ensinou na prática o que fazer.

Vira um minúsculo dançarino, assim como o tema do filme, e que dança conforme a música.

Vida que segue.

Atualização (em 21/08)

Dados divulgados no II Encontro Nacional sobre Legislação Esportivo-Trabalhista:

77% dos atletas profissionais de futebol no Brasil ganham até R$ 1 mil

13% recebem entre R$ 1 mil e R$ 9 mil

10% têm salários acima de R$ 9 mil.

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Copa 2014 – A Voz do Povo

14/08/2009 · Deixe um comentário

O que o povo diz sobre a Copa de 2014?

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Um Livro às Quintas

13/08/2009 · Deixe um comentário

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Veneno Remédio, O Futebol e o Brasil, José Miguel Wisnik.

Companhia das Letras, 2008.

Uma análise feita em detalhes sobre o futebol e a sua relação com o Brasil. O autor trata desde questões históricas, antropológicas, sociológicas e de construção da cultura e do modo de vida do país. O livro é uma das obras mais completas que lida com temas pouco desenvolvidos sobre o assunto, fazendo analogias e lembrando de autores que já haviam notado a relevância do futebol para o Brasil.

Além de demonstrar a importância da modalidade para a criação de uma cultura particular e única no planeta, José Miguel Wisnik também conta como o esporte pode e deve ser enxergado como um objeto de estudo.

“Veneno remédio: o futebol e o Brasil” une, de maneira exemplar, a simplicidade de um linguajar claro com a erudição de autores, compositores, filósofos, músicos, artistas, etc. Exatamente como a modalidade nos campos brasileiros, juntando a simplicidade de jogar com lances magistrais.

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Vai Mudar?

13/08/2009 · Deixe um comentário

Por Oliver Seitz, Via Universidade do Futebol

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“…enquanto o futebol brasileiro continuar obedecendo a eventuais leviandades dos tomadores de decisão, nada vai melhorar. Nem se mudar o calendário.”

Existem dois motivos que dão suporte à transição do calendário do Campeonato Brasileiro para o formato Europeu. O primeiro, e mais óbvio, é a adequação às janelas de transferências. Jogadores que hoje saem no meio do Brasileirão poderão sair no começo ou no fim, sem afetar a montagem do time. O segundo motivo é a possibilidade de clubes brasileiros começarem a disputar amistosos e torneios de pré-temporada, coisa que vem crescendo, apesar de tudo indicar que não deve durar muito, dada a ligeira insipidez dessas competições.

O primeiro movimento para essa mudança foi dado. A CBF acenou com a possibilidade. A imprensa comemorou.

Mas há motivo para preocupações.

Se dois motivos dão suporte à mudança, pelo menos, outros cinco sugerem que essa alteração do calendário pode gerar alguns efeitos negativos. Vamos a eles:

1) Motivação: ao que tudo indica, a ideia já existente da adequação do calendário só veio a acontecer mesmo por causa do pedido que o presidente Lula fez a Ricardo Teixeira, que prometeu estudar a sugestão. E Lula pediu isso porque viu seu time do coração, campeão da Copa do Brasil, e, até poucas semanas atrás, também candidato ao título brasileiro, vender alguns titulares e começar a jogar mal. Se isso tivesse acontecido com outro time, é possível que Lula não fizesse o pedido.

Além do que, Lula pode até ser um grande torcedor e acompanhar bastante os jogos, mas está longe de ser um profundo conhecedor sobre a dinâmica da matéria.

A motivação, portanto, é fraca. O pensamento é extremamente superficial. E quando uma transformação com essa profundidade tem esse tipo de motivação, a tendência de dar problemas é grande.

2) Geografia: existe uma razão clara para que a temporada européia comece em agosto e termine em maio, e ela se chama verão. Não há futebol no mundo que possa competir com o verão e com as férias escolares. No verão, o público não sustenta o jogo. A praia ganha mais força, o sol fica até mais tarde e as pessoas tendem a assistir menos televisão. Muita gente faz viagens longas. Nessa época, o futebol perde valor tanto como evento físico, dentro do estádio, como produto de entretenimento, como a televisão. Em suma, no verão existe muito mais coisa pra fazer do que assistir uma partida de futebol. E no inverno, que não tem nada pra se fazer, também não vai ter futebol.

3) Público: com mais opções de lazer, viagens e afins, o futebol tende a perder o público casual, ficando relegado ao público mais ligado ao clube, ou seja, àqueles mesmos torcedores de sempre que já não têm mais produtos pra consumir. Isso é ruim. Pior é que nas férias de final de ano, ninguém quer gastar mais dinheiro que não seja em presentes e coisas do tipo.

Algumas empresas, possivelmente, perderão interesse em ter camarotes entre dezembro e o carnaval. A classe média vai para a praia, e para lá também vão os anunciantes e aqueles interessados em fazer ações promocionais. O futebol certamente perde valor corporativo.

4) Transferências: Jogadores continuarão a ir embora. Com a adequação do calendário de jogos à Europa, também ocorrerá a adequação do calendário de preparação física, o que pode incentivar clubes de fora a contratarem brasileiros no meio do campeonato sem ter receio em relação ao esgotamento físico dos jogadores.

Além do que, eles também podem focar na contratação do meio da temporada para poder haver tempo suficiente de adaptação ao país e à cultura antes do ano seguinte. Isso já aconteceu com o Pato e com o Thiago Silva. Pode vir a acontecer ainda mais.

5) Eleições: Não sei exatamente qual é a dificuldade em se mudar datas de eleições no estatuto de um clube, mas certamente que alguns clubes terão que alterá-las para não correrem o risco de trocar de presidente no meio do campeonato.

Existe, obviamente, muita coisa a mais. E os pontos aqui também merecem um debate mais aprofundado, com mais tempo e pontos-de-vista. Com exceção, é claro, do primeiro, que não é especulação, é fato. E esse é justamente o que mais preocupa, porque enquanto o futebol brasileiro continuar obedecendo a eventuais leviandades dos tomadores de decisão, nada vai melhorar. Nem se mudar o calendário.

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Professores Melhores, Alunos Melhores

10/08/2009 · Deixe um comentário

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Alunos cubanos são melhores que os brasileiros porque seus professores sabem mais, diz pesquisador.

Via Folha de hoje

Avaliações internacionais revelam que o desempenho de estudantes cubanos em matemática e linguagem é bastante superior ao dos brasileiros. E, segundo o pesquisador da Universidade de Stanford Martin Carnoy, há uma razão para essa performance diferenciada na ilha de Fidel: lá a qualificação dos docentes é melhor e o envolvimento, maior.

“A causa principal (para Cuba se destacar nas provas) é que os professores têm mais domínio da disciplina e têm uma clara ideia de como ensiná-la”, afirmou o pesquisador.

Carnoy estudou as diferenças nos sistemas de ensino do Brasil, de Cuba, e do Chile. Os resultados foram sintetizados no livro “A vantagem acadêmica de Cuba”, publicado no Brasil pela Ediouro em parceria com a Fundação Lemann.

A boa formação do magistério em Cuba é traduzida em alta cobrança aos estudantes – e isso cria um círculo virtuoso, já que os melhores alunos acabam se tornando professores no futuro. “Tudo isso acontece, porque o sistema apoia o professor, ensinando-o a lecionar”, finaliza.


Nota do Autor:

Imagine um círculo virtuoso, onde os atletas são estimulados a estudar e participam de torneios e campeonatos com a condição de alcançarem boas notas.

E professores são motivados e comprometidos em ensinar muito além dos fundamentos e aspectos técnicos do futebol, ao introduzirem noções de cultura, educação e cidadania através da bola rolando.

Utopia?

Os EUA estão correndo por fora e, em pouco tempo, poderão se tornar o maior centro de desenvolvimento de atletas talentosos do mundo, onde educação caminha junto do esporte, desde que me entendo por gente.

Em tempo: que inveja da ilha da família Castro!

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Arte no Boxe

10/08/2009 · Deixe um comentário

Talentoso jogador de xadrez e uma das personalidades mais criativas da sétima arte.

Singela homenagem ao senhor Charles Spencer Chaplin Jr.

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Um Livro às Quintas

06/08/2009 · Deixe um comentário

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“…oferece muito mais do que uma leitura superficial de textos fundamentais para o entendimento do mundo.”

Aprender a Viver, Luc Ferry.

Editora Objetiva, 2006.

Luc Ferry é um dos principais defensores do Humanismo Secular – visão de mundo que se contrapõe a religião, por conta de seu compromisso com o uso da razão crítica em lugar da fé, na busca de respostas para as questões humanas mais importantes. Foi Ministro da Educação na França de 2002 a 2004. Com Aprender a Viver venceu o prêmio Aujourd’hui 2006, uma das mais conceituadas premiações de não-ficção contemporânea da França. Enquanto ministro, foi dele a proibição de uso de trajes religiosos (isto é, véus sobre a cabeça e rosto de mulheres islâmicas) em escolas públicas da França.

Uma leitura prazerosa, onde o autor apresenta o essencial da filosofia em linguagem acessível para leigos, mostrando como a sabedoria pode ser o caminho para uma vida melhor.

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Visita ao Bernardo

05/08/2009 · 6 comentários

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Bernardo, o eremita, é um personagem fictício de João Batista Freire, criado para a Universidade do Futebol.

Ontem encontramos Bernardo.

Foi o jovem João Paulo, o JotaPê, quem arranjou o encontro.

Não nos prometeu coisa alguma. Disse apenas que, se tivéssemos sorte, Bernardo poderia quebrar mais uma vez os votos e nos receber para uma visita.

A turma toda quis ir, é claro, mas nem todos puderam. E não é todo dia que se pode conhecer um ermitão. Ainda mais, um ermitão como Bernardo!

Como bem sabemos, Bernardo é um eremita que abriu mão dos escândalos da política brasileira, da falta de ética e da vergonha na cara, que respingam no futebol e na educação deste país. Foi viver no fundo de uma caverna, na companhia de três simpáticos personagens: Aurora, sábia coruja e companheira de muitas noites; Oto, adorável morceguinho e fiel mensageiro; e Arnaldo, o bagre cego deslumbrado com os prazeres mundanos.

JotaPê nos alertou sobre vários cuidados que deveríamos ter no contato com seu velho amigo. Pensar dez vezes antes de falar ou responder alguma coisa eram dois deles. O motivo? Algumas palavras poderiam relembrar traumas antigos. A sigla ‘CBF’ e a palavra ‘Brasília’ estavam praticamente deletadas do nosso vocabulário temporário.

Perguntas? Infelizmente, apenas uma por pessoa. A justificativa era que o tempo seria curto demais e todos ali eram questionadores natos.

Celular ou qualquer outra coisa que fizesse barulho também estava terminantemente proibido.

- Imagine se Bernardo escuta um toque polifônico, tipo 007 ou Cidinho e Doca… Nunca mais teríamos notícias do meu amigo. – reforçou JotaPê.

Demoramos menos do que imaginávamos e, apesar do atraso de ÁS e Luquinha, nosso comboio aproximou-se da caverna lá pelo início da noite. Estávamos em cinco pessoas, incluindo este que vos escreve.

JotaPê parou em frente a caverna e encorpou a voz chamando pelo amigo:

- Bernardo! Bernardo! Sou eu, João Paulo.

Em poucos segundos, algo saiu zumbindo da caverna. Era Oto, que deu um rasante por nossas cabeças sobrevoando o grupo. Voou em círculos por algum tempo, fez uma manobra arriscada e entrou novamente no buraco. O mensageiro era eficiente no reconhecimento de estranhos. Pouco depois, uma voz grave ecoou da caverna:

- Quem está com você, João Paulo? – a voz dava forma à imagem na minha cabeça. Bernardo começava a se materializar finalmente!

- São do bem e de confiança, meu amigo. Vim lhe pagar aquela aposta e arrisquei trazê-los comigo. Há tempos que me pedem este favor.

- Que safra é? – perguntou o ermitão, confundindo alguns. Ninguém sabia da aposta, muito menos qual era o pagamento.

- 1973. – respondeu JotaPê, tirando da mochila uma garrafa de Chateau Mouton.

- Você nunca se esquece de nada, não é mesmo, meu bom amigo? – agradeceu o eremita, com uma voz mais próxima e sem tanto eco.

JotaPê caminhou até a entrada da caverna e colocou no chão batido a garrafa da safra famosa. Em seguida afastou-se e voltamos a olhar numa só direção.

Mais um rasante. E outro! Eram Oto e Aurora que anunciavam a chegada do ilustre habitante.

Finalmente, surgia Bernardo! Um rosto simpático, de um metro e setenta de altura, encoberto por cabelos e pêlos longos e mal aparados. Vestia um manto de trapos bem cerzidos que lhe encobriam até abaixo dos joelhos. As canelas, com algumas marcas profundas, denunciavam, quiçá, um atacante habilidoso que outrora sofrera muito com beques lentos e maldosos. Vinha segurando o prêmio da aposta como quem segura um recém-nascido.

- Desculpem-me pela aparência, mas não costumo receber visitas. – apresentou-se o famoso eremita.

Todos vibraram silenciosamente com a apresentação, mas ninguém arriscou fugir ao protocolo e estender a mão.

- Oto! – gritou Bernardo. – Por favor, vá acalmar o Arnaldo lá dentro. Ele está assistindo novamente o canal da TV Senado e fica empolgado com o tom da voz e as palavras difíceis daquele político de Alagoas. Além disso, a bateria da TV está no fim e hoje a noite tem jogo.

Oto obedeceu imediatamente e sumiu caverna escura a dentro.

Bernardo nos contou depois, que há muitos anos desistiu de argumentar com Arnaldo sobre sua simpatia por pessoas que discursam bem. Para o bagre cego, a regra era clara: Nuzman no céu e Ricardo Teixeira na terra. Mas nos últimos tempos, o senador alagoano vinha correndo por fora com seu imponente linguajar, desafiando a supremacia dos ídolos de sempre.

Pensei comigo: como é que um bagre cego assiste a alguma coisa… E se o Nuzman ou o Ricardo Teixeira eram referência em oratória. Mas, deixa pra lá.

JotaPê foi o primeiro a se aproximar do antigo amigo. Deu-lhe um abraço demorado, com cuidado para não pressionar a garrafa contra o peito de Bernardo.

- Bernardo, estes são meus amigos que lhe falei. A maioria deles já escreveu alguma coisa sobre suas ideias e talvez não pareçam tão estranhos assim. – foi a deixa de JotaPê para que pudéssemos fazer as perguntas.

- Como é que a sua TV funciona, se não vejo fios de energia aqui por perto? – indagou Luquinha.

- O jovem João Paulo, me presenteou com esta maravilha na última vez em que esteve aqui. Trouxe do Oriente e é movida a bateria solar. Uma vez por semana, brindo-a com o sol da manhã, aqui mesmo onde estamos. Tem autonomia para até quatro jogos, com prorrogação e pênaltis. – completou.

- Do que você mais sente falta? – foi a vez de ÁS.

- Dos dribles do Rivellino e do Mário Sérgio, meu querido amigo. Todos entenderam que a resposta não precisava de explicação.

- O senhor acha que o Brasil tem jeito? – perguntou Rodrigo.

- Acho sim. Veja o caso do João Paulo, que há décadas se empenha para fazer do futebol um instrumento de educação, cultura e cidadania. E, cada vez mais, sinto que outros adeptos e colaboradores compartilham desta visão com ele. Outro dia mesmo, Oto me trouxe uma carta de uma menina, que assinava por Aninha M. Ela insistia em dizer que iria mudar o país através do vôlei. Se mais sementes destas germinarem, o Brasil terá jeito sim! E como digo sempre: me dê uma bola que eu ensino qualquer coisa… geografia, história, matemática… – suspirou.

- Qual foi o melhor jogador de todos os tempos do seu time de coração? – emendei.

- Rogério Ceni. – respondeu Bernardo de prima. – E olha que eu já vi até o mestre Ziza jogar… – continuou na defesa da escolha.

Na vez de JotaPê, preferiu não fazer pergunta alguma. Sabia que o velho amigo tinha gostado da visita e do vinho.

- Vou guardar meia garrafa para a sua próxima visita. – agradeceu Bernardo já em tom de despedida.

- Obrigado meu amigo. Sinto a sua falta nessa caminhada para mudar as coisas. – respondeu com voz de saudades o jovem João Paulo.

No caminho de volta, iria me criticar pela pergunta banal. Simples demais. Boba até! Mas confesso que naquele momento, o espontâneo deu lugar ao decorado e saber quem era a sua maior referência no futebol e seu time de coração era o que importava.

De repente vibra um celular. Mensagem SMS recebida.

Nos olhamos preocupados em assustar Bernardo ou lembrá-lo de vícios de uma civilização que um dia abandonara. Quem poderia ter deixado o aparelho ligado depois das orientações tão claras do JotaPê?

E foi o próprio Bernardo quem pediu desculpas para sacar do bolso do monte de trapos cerzidos o celular e ler a mensagem recebida.

“Você é uma gracinha!” – leu em voz alta.

Concordou que era hora de jogar fora aquele aparelho pré-pago e sem créditos que havia encontrado dentro do armário.

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Vossas Excelências?

05/08/2009 · Deixe um comentário

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Duas razões que podem explicar o comportamento cada vez mais descarado de nossos políticos:

1) Nosso povo é bunda-mole acomodado e acredita que na política, as coisas são assim mesmo.

2) Brasília fica muito longe.

Se a vergonha se transformasse em vontade de mudanças e se o lugar onde se faz política estivesse mais próximo dos grandes centros, duvido que ainda estariam no comando do país pessoas como Renam Calheiros, Agaciel Maia e Fernando Collor.

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Regras do Futebol de Rua

04/08/2009 · 1 comentário

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por Luis Fernando Veríssimo, Para Gostar de Ler – Volume 7

1. A BOLA

A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do irmão menor.

2. O GOL

O gol pode ser feito com o que estiver à mão: tijolos, paralelepípedos, camisas emboladas, chinelos, os livros da escola e até o seu irmão menor.

3. O CAMPO

O campo pode ser só até o fio da calçada, calçada e rua, rua e a calçada do outro lado e, nos clássicos, o quarteirão inteiro.

4. DURAÇÃO DO JOGO

O jogo normalmente vira 5 e termina 10, pode durar até a mãe do dono da bola chamar ou escurecer. Nos jogos noturnos, até alguém da vizinhança ameaçar chamar a polícia.

5. FORMAÇÃO DOS TIMES

Varia de 3 a 70 jogadores de cada lado. Ruim vai para o gol. Perneta joga na ponta, esquerda ou a direita, dependendo da perna que faltar. De óculos é meia-armador, para evitar os choques. Gordo é beque.

6. O JUIZ

Não tem juiz.

7. AS INTERRUPÇÕES

No futebol de rua, a partida só pode ser paralisada em 3 eventualidades:

a) Se a bola entrar por uma janela. Neste caso os jogadores devem esperar 10 minutos pela devolução voluntária da bola. Se isso não ocorrer, os jogadores devem designar voluntários para bater na porta da casa e solicitar a devolução, primeiro com bons modos e depois com ameaças de depredação.

b) Quando passar na rua qualquer garota gostosa.

c) Quando passarem veículos pesados. De ônibus para cima. Bicicletas e Fusquinhas podem ser chutados junto com a bola e, se entrar, é Gol.

8. AS SUBSTITUIÇÕES

São permitidas substituições no caso de um jogador ser carregado para casa pela orelha para fazer lição ou em caso de atropelamento.

9. AS PENALIDADES

A única falta prevista nas regras do futebol de rua é atirar o adversário dentro do bueiro.

10. A JUSTIÇA ESPORTIVA

Os casos de litígio serão resolvidos na porrada.

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Eficiência da Defesa ou Ineficiência do Ataque?

03/08/2009 · Deixe um comentário

Sorte ou Azar?

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