Visita ao Bernardo


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Bernardo, o eremita, é um personagem fictício de João Batista Freire, criado para a Universidade do Futebol.

Ontem encontramos Bernardo.

Foi o jovem João Paulo, o JotaPê, quem arranjou o encontro.

Não nos prometeu coisa alguma. Disse apenas que, se tivéssemos sorte, Bernardo poderia quebrar mais uma vez os votos e nos receber para uma visita.

A turma toda quis ir, é claro, mas nem todos puderam. E não é todo dia que se pode conhecer um ermitão. Ainda mais, um ermitão como Bernardo!

Como bem sabemos, Bernardo é um eremita que abriu mão dos escândalos da política brasileira, da falta de ética e da vergonha na cara, que respingam no futebol e na educação deste país. Foi viver no fundo de uma caverna, na companhia de três simpáticos personagens: Aurora, sábia coruja e companheira de muitas noites; Oto, adorável morceguinho e fiel mensageiro; e Arnaldo, o bagre cego deslumbrado com os prazeres mundanos.

JotaPê nos alertou sobre vários cuidados que deveríamos ter no contato com seu velho amigo. Pensar dez vezes antes de falar ou responder alguma coisa eram dois deles. O motivo? Algumas palavras poderiam relembrar traumas antigos. A sigla ‘CBF’ e a palavra ‘Brasília’ estavam praticamente deletadas do nosso vocabulário temporário.

Perguntas? Infelizmente, apenas uma por pessoa. A justificativa era que o tempo seria curto demais e todos ali eram questionadores natos.

Celular ou qualquer outra coisa que fizesse barulho também estava terminantemente proibido.

– Imagine se Bernardo escuta um toque polifônico, tipo 007 ou Cidinho e Doca… Nunca mais teríamos notícias do meu amigo. – reforçou JotaPê.

Demoramos menos do que imaginávamos e, apesar do atraso de ÁS e Luquinha, nosso comboio aproximou-se da caverna lá pelo início da noite. Estávamos em cinco pessoas, incluindo este que vos escreve.

JotaPê parou em frente a caverna e encorpou a voz chamando pelo amigo:

– Bernardo! Bernardo! Sou eu, João Paulo.

Em poucos segundos, algo saiu zumbindo da caverna. Era Oto, que deu um rasante por nossas cabeças sobrevoando o grupo. Voou em círculos por algum tempo, fez uma manobra arriscada e entrou novamente no buraco. O mensageiro era eficiente no reconhecimento de estranhos. Pouco depois, uma voz grave ecoou da caverna:

– Quem está com você, João Paulo? – a voz dava forma à imagem na minha cabeça. Bernardo começava a se materializar finalmente!

– São do bem e de confiança, meu amigo. Vim lhe pagar aquela aposta e arrisquei trazê-los comigo. Há tempos que me pedem este favor.

– Que safra é? – perguntou o ermitão, confundindo alguns. Ninguém sabia da aposta, muito menos qual era o pagamento.

– 1973. – respondeu JotaPê, tirando da mochila uma garrafa de Chateau Mouton.

– Você nunca se esquece de nada, não é mesmo, meu bom amigo? – agradeceu o eremita, com uma voz mais próxima e sem tanto eco.

JotaPê caminhou até a entrada da caverna e colocou no chão batido a garrafa da safra famosa. Em seguida afastou-se e voltamos a olhar numa só direção.

Mais um rasante. E outro! Eram Oto e Aurora que anunciavam a chegada do ilustre habitante.

Finalmente, surgia Bernardo! Um rosto simpático, de um metro e setenta de altura, encoberto por cabelos e pêlos longos e mal aparados. Vestia um manto de trapos bem cerzidos que lhe encobriam até abaixo dos joelhos. As canelas, com algumas marcas profundas, denunciavam, quiçá, um atacante habilidoso que outrora sofrera muito com beques lentos e maldosos. Vinha segurando o prêmio da aposta como quem segura um recém-nascido.

– Desculpem-me pela aparência, mas não costumo receber visitas. – apresentou-se o famoso eremita.

Todos vibraram silenciosamente com a apresentação, mas ninguém arriscou fugir ao protocolo e estender a mão.

– Oto! – gritou Bernardo. – Por favor, vá acalmar o Arnaldo lá dentro. Ele está assistindo novamente o canal da TV Senado e fica empolgado com o tom da voz e as palavras difíceis daquele político de Alagoas. Além disso, a bateria da TV está no fim e hoje a noite tem jogo.

Oto obedeceu imediatamente e sumiu caverna escura a dentro.

Bernardo nos contou depois, que há muitos anos desistiu de argumentar com Arnaldo sobre sua simpatia por pessoas que discursam bem. Para o bagre cego, a regra era clara: Nuzman no céu e Ricardo Teixeira na terra. Mas nos últimos tempos, o senador alagoano vinha correndo por fora com seu imponente linguajar, desafiando a supremacia dos ídolos de sempre.

Pensei comigo: como é que um bagre cego assiste a alguma coisa… E se o Nuzman ou o Ricardo Teixeira eram referência em oratória. Mas, deixa pra lá.

JotaPê foi o primeiro a se aproximar do antigo amigo. Deu-lhe um abraço demorado, com cuidado para não pressionar a garrafa contra o peito de Bernardo.

– Bernardo, estes são meus amigos que lhe falei. A maioria deles já escreveu alguma coisa sobre suas ideias e talvez não pareçam tão estranhos assim. – foi a deixa de JotaPê para que pudéssemos fazer as perguntas.

– Como é que a sua TV funciona, se não vejo fios de energia aqui por perto? – indagou Luquinha.

– O jovem João Paulo, me presenteou com esta maravilha na última vez em que esteve aqui. Trouxe do Oriente e é movida a bateria solar. Uma vez por semana, brindo-a com o sol da manhã, aqui mesmo onde estamos. Tem autonomia para até quatro jogos, com prorrogação e pênaltis. – completou.

– Do que você mais sente falta? – foi a vez de ÁS.

– Dos dribles do Rivellino e do Mário Sérgio, meu querido amigo. Todos entenderam que a resposta não precisava de explicação.

– O senhor acha que o Brasil tem jeito? – perguntou Rodrigo.

– Acho sim. Veja o caso do João Paulo, que há décadas se empenha para fazer do futebol um instrumento de educação, cultura e cidadania. E, cada vez mais, sinto que outros adeptos e colaboradores compartilham desta visão com ele. Outro dia mesmo, Oto me trouxe uma carta de uma menina, que assinava por Aninha M. Ela insistia em dizer que iria mudar o país através do vôlei. Se mais sementes destas germinarem, o Brasil terá jeito sim! E como digo sempre: me dê uma bola que eu ensino qualquer coisa… geografia, história, matemática… – suspirou.

– Qual foi o melhor jogador de todos os tempos do seu time de coração? – emendei.

– Rogério Ceni. – respondeu Bernardo de prima. – E olha que eu já vi até o mestre Ziza jogar… – continuou na defesa da escolha.

Na vez de JotaPê, preferiu não fazer pergunta alguma. Sabia que o velho amigo tinha gostado da visita e do vinho.

– Vou guardar meia garrafa para a sua próxima visita. – agradeceu Bernardo já em tom de despedida.

– Obrigado meu amigo. Sinto a sua falta nessa caminhada para mudar as coisas. – respondeu com voz de saudades o jovem João Paulo.

No caminho de volta, iria me criticar pela pergunta banal. Simples demais. Boba até! Mas confesso que naquele momento, o espontâneo deu lugar ao decorado e saber quem era a sua maior referência no futebol e seu time de coração era o que importava.

De repente vibra um celular. Mensagem SMS recebida.

Nos olhamos preocupados em assustar Bernardo ou lembrá-lo de vícios de uma civilização que um dia abandonara. Quem poderia ter deixado o aparelho ligado depois das orientações tão claras do JotaPê?

E foi o próprio Bernardo quem pediu desculpas para sacar do bolso do monte de trapos cerzidos o celular e ler a mensagem recebida.

“Você é uma gracinha!” – leu em voz alta.

Concordou que era hora de jogar fora aquele aparelho pré-pago e sem créditos que havia encontrado dentro do armário.

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6 comentários

  1. Fabiano · junho 23, 2010

    Tega,

    O texto está muito legal mesmo. Bem escrito e gostoso de ler!

    Agora, Rogerio Ceni? Sério???

    abs

    Fabiano

  2. Alcides Scaglia · agosto 7, 2009

    Tega parabéns. Mais um excelente texto. Seus textos estão cada vez melhores.
    Abraços

    • Tega · agosto 8, 2009

      Obrigado pelo carinho de sempre, ÁS! Um forte abraço!

  3. Antonio Afif · agosto 5, 2009

    Esqueceram de mim (Parte V). Quem sabe se na próxima serei lembrado com tal honraria. Deixo o precioso líquido a cargo dos entendidos.

    • Tega · agosto 8, 2009

      Pô, Mestre! Você é inesquecível! Fui um simples convidado nesta expedição à caverna do Bernardo. Na próxima, seguiremos juntos, com certeza!
      Um abraço!

  4. Lucas Leonardo · agosto 5, 2009

    Seeeeeeenssssssssacionalllllllllllllllllllllllllll……… Tega, ontem foi um dia muito especial para mim. A Universidade do Futebol está permitindo que realize sonhos de quem milita por uma nova educação física.
    Hoje, graças a um risco que resolvi correr em minha vida que andava bem pras bandas de Campinas, posso dizer com alegria que tenho a oportunidade de compartilhar meus pensamentos com grandes nomes como João Paulo Medina, Alcides Scaglia, Rofrigo Leitão, Eduardo Tega, Luís Gustavo e por fim, com o “Bernardo” rsrs… ontem realizei um sonho que adiquiri durante meus anos de universidade e tive a oportunidade não só adentrar à caverna do Bernardo, mas fazer isso com tão grandes e ilustres personagens.
    Agradeço muito a todo empenho seu e do jovem joão paulo, pois graças a vocês tenho vivido grandes realizações em minha vida!
    Guarderei esse texto, como uma lembrança de uma tarde, noite e início de madrugada tão especiais em minha vida!
    Abraços,

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