Atletas tipo Exportação


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“Se o Santos F.C. é uma fábrica de craques que produz espetáculos, por que não tirar vantagens deste ambiente e assumir seu papel de exportador com Selo de Qualidade?”

Os diretores executivos de futebol deveriam perguntar –se “como é que eu insiro meus atletas na concorrência global e nas oportunidades que surgem a cada dia e como prepará-los para tamanha diversidade cultural?”

Trocando em miúdos:

como fazer para que o meu atleta tipo exportação possa se valorizar e potencializar a marca do meu Clube e abrir novos mercados ?

Entre 2005 e 2009, tivemos uma media de 987 atletas deixando o Brasil com contrato de trabalho para equipes do exterior. Isso mesmo: 90 equipes inteiras – do goleiro ao atacante – sendo exportadas para os cinco continentes, todos os anos.

Neste período, pela mesma média, outros 503 atletas retornaram ao país, ano após ano.

Ou seja, mais de 50% dos atletas que saem do país, retornam para o mercado brasileiro.

Motivos? Vários.

Vamos falar de alguns deles no processo de expatriação.

Segundo a psicóloga intercultural Andrea Sebben, a migração envolve todas as pessoas que estão em contato com o jogador: seus pais, filhos, esposas, namoradas, empresários e amigos. O esforço dedicado para que ele tenha sucesso e para que “se adapte, aproveite, e seja feliz” é imensurável.

No entanto, para muitos, viver no exterior acaba tornando-se um fardo, uma obrigação a cumprir, um desafio para além de suas forças.

O atleta e seus acompanhantes no exterior, muitas vezes, irão se deparar com sentimentos como ansiedade, insegurança, medo, despreparo, solidão, saudades, sentimentos de inferioridade/superioridade, graus de preconceito, estereotipia ou racismo, entre outros.

A volta, ou o retorno prematuro destes jogadores, além de enormes prejuízos financeiros, traz muito sofrimento, não só para eles, mas para todos aqueles que estiveram esperando.

Sentimentos de derrota, fracasso, menos-valia, vergonha, culpa entre tantos outros, permeiam o imaginário dessas pessoas quando percebem que não estão conseguindo realizar seu propósito.

Os jogadores expatriados trazem todo o suporte cultural e étnico para o novo mundo onde irão se integrar. Porém, é pelo menos a cultura de três personagens que se encontram e que tornam esse processo de aculturação ainda mais dramático: a cultura brasileira, a cultura do Clube onde irão jogar e a do país onde irão viver – conclui a especialista.

A maioria dos jogadores, por exemplo, é proveniente de uma faixa da população de classe média baixa – e a diferença “entre mundos” é gritante. Como adaptar-se? Como aprender o idioma? Como seguir regras e símbolos até então irreconhecíveis? Como tornar realidade as expectativas antes do embarque para esse mundo novo?

Auxiliar, compreender e preparar as pessoas para esses fenômenos migratórios é tarefa da chamada Psicologia Intercultural.

A Psicologia Intercultural é uma área nova da ciência. É uma ciência bastante estudada e aplicada na Europa, Canadá e EUA e muito gradualmente emergindo no Brasil. Seu objeto de estudo é a relação entre cultura e o comportamento dos povos e, conseqüentemente, os complexos fenômenos migratórios vivenciados por aqueles que migram.

Como são os brasileiros? Como se comportam os espanhóis? Como perdoam os árabes? Quais crenças religiosas se baseiam os chineses? E o mais importante: Como educar para tanta diversidade?

De tempos em tempos, os Clubes brasileiros de maior porte, faturam milhões na venda de seus melhores craques ao exterior. Vale ressaltar que ainda não existe a preocupação de investir no método que sirva para “elevar o nível do mar”, permitindo uma melhora considerável no produto tipo exportação.

Mas quantos destes Clubes investem para ter atletas mais preparados para vencer fora do território nacional?

Surpreende o fato que as expatriações destes atletas aconteçam ainda de forma tão “artesanal”, muitas vezes proporcionada por pessoas de fora do clube: pais e empresários, de maneira geral.

Neymar por exemplo, foi captado pelo Santos F.C. em 2004, quanto tinha apenas 12 anos. O Clube enxergava a pedra preciosa que tinha em mãos e logo tratou de proteger seus interesses remunerando o atleta e sua família com luvas e ajudas de custo a peso de ouro. Com 14 anos, já recebia montantes que se igualavam aos salários dos atletas profissionais da equipe principal.

Hoje, com 18 anos, tem a multa contratual mais cara do futebol brasileiro, superando os 80 milhões de reais. Se algum clube do exterior quiser tirá-lo do Santos F.C., terá que desembolsar aos seus cofres uma quantia próxima a este valor.

É fato que o clube do litoral tem localização privilegiada para a captação de atletas talentosos e que seus negócios – exportação de atletas – tenham se tornado mais expressivos que o de outros grandes clubes.

Também é fato que o clube pretende fazer muito dinheiro com o jovem atleta, assim como procurou fazer com Robinho e Diego.

Mas em seis anos, desde a chegada de Neymar ao clube, e sabendo da jóia preciosa que tinha em mãos, qual foi o investimento na direção deste processo? Que aumentassem as probabilidades deste atleta ter sucesso no exterior e, consequentemente, potencializasse os negócios do clube que um dia também captou Pelé?

Nas últimas semanas, Neymar disse que não era preto, que pinta o cabelo de loiro, que pretende comprar um Porsche e uma Ferrari, que será obrigado a tirar título de eleitor e que não sabe quem são os candidatos à Presidência do Brasil. Disse também que acha que é metrossexual.

Apesar de toda a bola que carrega este jovem craque, Neymar é apenas um jovem, vítima da desigualdade social e que teve pouco acesso às lições de cidadania e ao aprendizado mais adequado à sua carreira de atleta profissional.


Se o Santos F.C. é uma fábrica de craques que produz espetáculos, por que não tirar vantagens deste ambiente e assumir seu papel de exportador com Selo de Qualidade?

No mundo ideal, seríamos exportadores de Campeonatos PayPerView e capazes de permanecer com quem proporciona o espetáculo.

E, para isto, não basta apenas que o futebol brasileiro tenha tanto glamour quanto o europeu.

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9 comentários

  1. Gabriel Marini · maio 16, 2010

    Olá Eduardo,
    Texto excelente, concordo plenamente com suas opinões, que hoje os jogadores são vítimas da grande desigualdade social existente aqui no Brasil, e infelizmente crescem apenas pensando em jogar futebol e ganhar dinheiro, e por isso acabam por não conseguir virar cidadões, já que não estudam, e não se importam com isso. Acho que a família, o clube e os empresários tem um papel fundamental na vida destes garotos, e deveriam observar que a profissão de jogador de futebol é curta e de muito perigo, já que nunca sabemos quando uma contusão pode acabar com a carreira de alguém. Por isso, a importância de estudar.
    Hoje, temos formados jogadores profissionais de alta qualidade cada vez mais cedo, e estes tem abandonado os estudos cada vez mais cedo também, devido a uma alta rotina de treinos e jogos. Tenho como grande objetivo profissional ser Agente de Jogadores de Futebol, e gostaria de mudar este cenário.

    • Tega · maio 16, 2010

      Oi Gabriel. Obrigado pelo comentário. Fico feliz com seu entendimento e iniciativa em buscar conhecimento para auxiliar futuros atletas numa formação mais completa. Pode contar comigo no que estiver ao meu alcance. Acredito que a http://www.universidadedofutebol.com.br poderá lhe auxiliar bastante nesta jornada. Um abraço!

  2. Vitor Canale · maio 6, 2010

    Olá Tega, mto bom o texto e essa nova especialidade tem tudo para ajudar na formação dos atletas, não só visando a exportação, mas também o ganho na qualidade de vida desses meninos que abandonam o ensino formal muito cedo.
    Sobre os jogadores brasileiros no exterior tem um artigo muito legal da Carmen Rial, chama-se Rodar: a circulação dos jogadores de futebol brasileiros no exterior, o link para lê-lo é http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832008000200002&lng=en&nrm=iso&tlng=pt

    Acho que pode lhe interessar.

    Abraços!

  3. Carlos Alberto de Souza Lima · maio 5, 2010

    Olá Tega. Muito bom e verdadeiro teu texto. Lamentamos que o interesse de muitos que vivem do futebol sejam apenas as cifras. Pouco se preocupa com o desenvolvimento humano e a formação de cidadania. No Brasil o esporte é fim, quando deveria ser meio. Meio de desenvolvimento étnico, cultural, social e claro profissional. Bom, creio na mudança, sempre. Darei minha contribuição, assim como voce o faz quando redige tão belo texto. Parabéns!

    • Tega · maio 6, 2010

      Obrigado pela sua contribuição, Carlão. O mais importante é saber que existem profissionais de campo responsáveis como você que se dedicam ao processo e não ao sistema. Um abraço!

  4. Mauro Bellenzier · maio 4, 2010

    Ótimo texto! Mas iria além. O Neymar é a pedra preciosa do processo, mas e aqueles que ficaram pelo caminho? O que será deles? Conciliar esporte e educação é fundamental para que os clubes tenham um “produto” melhor para oferecer ao mercado do exterior. Porém deveria ser também uma premissa ética básica de qualquer sociedade esportiva, já que assim estariam cumprindo um papel fundamental na sociedade brasileira, a de formar cidadãos.

    • Tega · maio 6, 2010

      oi Mauro! Muito obrigado por dar sempre ótimas contribuições por aqui. Um abraço e obrigado, Tega

  5. Thiago Passos · maio 3, 2010

    Belo texto, Caro colega Eduardo!
    Enquanto esse tipo de negociação acontecer pela mão de empresários que só pensam na venda de cada jogador como fonte de lucro fácil, e não em desenvolver o ser humano como um todo, isso continuará acontecendo. Veja o exemplodas universidades americanas, que mesmo com o jogador sendo estrela, ele ainda é obrigado a se formar e se repetir matérias, pode se complicar na Universidade…Talvez um exemplo a se basear livremente…
    Grande abraço e keep up the great work!

    • Tega · maio 3, 2010

      oi Thiagão! É sempre bom ler vc por aqui. Sem dúvida: a cultura do esporte americano é muito inspiradora! Pena que no Brasil a tabelinha Esporte e Educação ainda esteja tão distante…
      Um forte abraço!

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