Por dentro da Cabeça do Craque


0,,41609302,00.jpg

“Novas pesquisas revelam que os craques têm raciocínio mais rápido – e que o talento para brilhar na Copa está no cérebro, não nos pés dos jogadores”

Revista Época

O público quer ver golaços, jogadas improváveis e dribles impossíveis na Copa do Mundo que começa nesta sexta-feira, dia 11, na África do Sul. Foi assim na Copa de 1958, da Suécia, quando Pelé, com apenas 17 anos, deu um chapéu em um adversário e fez um gol inesquecível na final. E em 1986, no México, quando Maradona driblou toda a defesa da Inglaterra desde o meio de campo e marcou um dos mais belos gols da história do futebol. E também em 2002, no Japão, quando Ronaldo, superando duas cirurgias no joelho, teve raciocínio rápido para aproveitar um rebote do goleiro alemão Kahn e abriu o placar na decisão contra a Alemanha. Nesta Copa, os torcedores esperam ver jogadas assim sair dos pés do brasileiro Kaká, do português Cristiano Ronaldo ou do argentino Lionel Messi; ou então testemunhar as brilhantes defesas do goleiro brasileiro Julio César. Todos sabem que, em comum, eles têm um preparo físico excepcional, agilidade e força. Agora, segundo alguns dos mais avançados estudos da ciência do esporte, começa a ficar claro que todos eles também são donos de um cérebro com desempenho acima da média. O segredo da genialidade dos jogadores de futebol não está nos pés, mas – como para todos os gênios da humanidade, de Einstein a Mozart – na cabeça.

Nos últimos anos, pesquisadores tentaram compreender cientificamente aquilo que para o torcedor comum é apenas motivo de encanto. Estudaram como agem e raciocinam os atletas de elite. Compararam esses resultados ao desempenho de jogadores iniciantes – e de “mortais” como nós, sem intimidade com a bola. E concluíram que a diferença entre uma pessoa comum e um craque não é apenas coordenação motora. Eles também têm memória e raciocínio privilegiados. “Eles são duas vezes melhores do que uma pessoa s comum em termos de memória e agilidade visual”, diz o neuropsicólogo Erik Matser, da Universidade de Maastricht, Holanda, uma das referências na área. “Apenas uma em 1 milhão de pessoas tem um desempenho tão acima da média nessas duas habilidades.” Esse é o resultado de um estudo, antecipado a ÉPOCA por Matser, que será publicado no próximo semestre.

Matser trabalhou com jogadores do Chelsea, o campeão inglês, e de times profissionais da Holanda. Começou estudando os efeitos das pancadas no cérebro de boxeadores, nos anos 90, em Nova York. Acabou descobrindo que, mesmo expostos a riscos ao longo da carreira, eles tinham um desempenho acima da média da população para memorizar informações e perceber estímulos visuais. De volta à Holanda, em 1996, Matser fez testes de raciocínio com jogadores de futebol e acompanhou seu desempenho por dez anos. Ao fim, comparou os resultados dos convocados para a seleção holandesa aos dos não convocados. Como esperava, o desempenho dos jogadores da seleção foi melhor.

“Não é verdade aquela história de que atletas são muito bons com o corpo, mas não com o cérebro”, diz o neurologista John Krakauer, um dos diretores do laboratório de desempenho motor da Universidade Colúmbia, em Nova York. “O que leva um jogador a ser tão bom é antecipar e entender as ações dos outros colegas e adversários para fazer a melhor jogada.” Krakauer investigou o mecanismo que permite a atletas de alto desempenho processar em milésimos de segundos uma infinidade de variáveis. Ele e outros dois colegas publicaram recentemente, na revista científica Nature Neuroscience, uma hipótese para explicar o que acontece na mente de jogadores excepcionais, como Kaká ou Messi. Eis o que o cérebro deles faz melhor:

1. processar com rapidez os estímulos visuais do ambiente, como a posição dos jogadores no campo;

2. memorizar um grande repertório de jogadas;

3. antecipar o movimento de outros atletas;

4. combinar, numa fração de segundo, todas as informações para tomar a melhor decisão.

A cada ano, milhões de crianças começam a praticar o futebol sonhando em disputar uma Copa. Apenas 736 têm esse privilégio a cada quatro anos. O torneio reúne apenas aqueles com um talento extraordinário, como Kaká. Na África do Sul, o meia do Real Madrid, da Espanha, disputa seu segundo mundial. “Desde pequeno, ele mostrava uma visão de jogo fora do comum”, diz Milton Cruz, auxiliar técnico do São Paulo. Ele treinou Kaká nas divisões de base. Aos 8 anos, o menino já chamava a atenção. “Com muita facilidade, ele deixava os companheiros na cara do gol.” Em 2001, a um mês de completar 19 anos, Kaká foi escalado no time adulto do São Paulo, contra o Botafogo, durante a final do Torneio Rio-São Paulo. Aos 34 minutos do segundo tempo, colocou-se de frente para o gol. Recebeu uma bola na entrada da área, tirou a defesa da jogada, enganou o goleiro e marcou seu primeiro gol como profissional. O segundo veio na mesma partida e deu o título ao São Paulo. Começava ali uma carreira de fama internacional, cujo ápice – por enquanto – foi o título de melhor jogador, concedido pela Fifa, em 2007.

A capacidade de Kaká de escolher o companheiro de time mais bem colocado para receber o passe é a primeira característica que, segundo os cientistas, faz um craque. É a chamada agilidade visual. Um estudo conduzido por dois pesquisadores da Universidade John Moores, em Liverpool, na Inglaterra, mostrou que é possível distinguir os jogadores de elite dos amadores mesmo entre iniciantes de 9 e 17 anos. Eles exibiam o vídeo de uma jogada e congelavam a imagem antes do desfecho. Os voluntários tinham de hierarquizar os jogadores de maior importância para a conclusão do lance. Aqueles que já treinavam num clube de futebol obtiveram desempenho 47% melhor.

É previsível que, se um dia participar de um estudo como esse, o argentino Lionel Messi tenha um dos melhores índices de acerto. Prestes a completar 23 anos, Messi, que disputa sua segunda Copa, é considerado o melhor atacante do mundo. É também o mais caro: seu passe está avaliado em e 80 milhões. Sua inteligência em campo é tamanha que compensa sua baixa estatura, 1,69 metro (num esporte cujos jogadores são cada vez mais altos e fortes). Messi começou a jogar bola aos 5 anos, no Club Grandoli, na Argentina. Suas chances de progredir esbarraram num problema médico. Nenhum clube argentino queria pagar pelas injeções de hormônio do crescimento necessárias para ele atingir uma estatura mediana. Sem conseguir pagar pelo tratamento, os pais de Messi levaram-no para a Espanha, na esperança de que seu talento com a bola conseguisse financiar um tratamento hormonal. Os dirigentes do Barcelona, impressionados com o menino de 13 anos e 1,40 metro, deram-lhe uma chance e bancaram as injeções. Aos 16 anos, estreou no time principal e, hoje, é o melhor jogador do mundo.

Messi ainda leva desvantagem no corpo a corpo com zagueiros 20 centímetros mais altos. Mas compensa essa deficiência com um infindável repertório de jogadas que surpreendem os adversários. A memória prodigiosa que permite a Messi buscar a melhor opção entre as inúmeras possíveis é a segunda característica do craque. Exímio finalizador e habilidoso no drible, Messi costuma partir para uma sequência de embates individuais com adversários. Leva a melhor na maioria das vezes. Numa partida contra o espanhol Getafe, em 2007, driblou quase o time todo antes de marcar um gol digno de Pelé e Maradona.

Desvendar como um jogador pensa num lance como esse é difícil até para os próprios atletas. Para eles, montar o cenário da jogada e partir para ação é algo intuitivo, quase automático. Por isso, os cientistas acreditam que o cérebro dos jogadores conte com um mecanismo especial, que torna mais fácil recuperar informações. Um estudo realizado no ano passado pela Universidade de Aix-Marseille, na França, mostra como a memória de jogadores experientes é mais ágil do que a dos iniciantes. Eles pediram a um grupo de atletas que decorassem sequências de imagens e palavras s e, em seguida, completassem as lacunas criadas pelos cientistas. Os inexperientes demoravam mais: respondiam, em média, em 2,155 segundos. Os profissionais faziam a mesma tarefa em 2,034 segundos. Num campo de futebol, essa pode ser a diferença entre vitória e derrota.

A explicação dos cientistas para a maior eficiência dos atletas de elite é a maneira como eles armazenam e acessam as informações. Tendo visto uma única vez uma jogada (ou imagem, no caso do estudo), os profissionais gravam a informação direto na memória destinada ao longo prazo, enquanto os outros armazenam esse dado numa memória temporária, chamada “memória de trabalho”. Às vezes, é mais fácil para todos nós lembrarmos uma história da infância (da memória de longo prazo) do que aquilo que comemos na hora do almoço (da memória de trabalho). Por usar outro tipo de memória para armazenar informações recentes, os craques ganham agilidade.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s