Renê Simões perdeu a chance de marcar um golaço


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“Senhor, neste mundo contaminado de pecados e radioatividade tu não culparás tão somente uma empregadinha de loja”. (Oração por Marilyn Monroe, Ernesto Cardenal)

por Lúcio de Castro, via Espn.com.br

Místico, sacerdote, revolucionário, profeta, poeta. Ernesto Cardenal é uma daquelas luzes que habitam por aí, e devem estar sempre no nosso raio de ação. Em algum momento, suas palavras podem iluminar o caminho, principalmente nos momentos de treva. Cometo o pecado da repetição porque ele é muito mais simpático que o da omissão. Pela terceira vez aqui copio o mesmo verso do nicaraguense. Num curto espaço de tempo. Faz sentido. Ao menos para mim. Não encontro algo tão forte que sintetize o que penso sempre que vejo o dedo apontando para uma peça com defeito e esquecendo de apontar para a grande engrenagem. Diz o provérbio chinês que “quando o dedo aponta a lua, uns olham para o dedo e só uns poucos veem a lua” (diz um sábio que quando não se sabe a origem do provérbio, manda que é chinês que pega bem, da ar de sabedoria!).

A razão dessa introdução é Neymar. Claro. Os comentários se repetem: um deslumbrado, mascarado, mala, despreparado, nível intelectual baixo, etc, etc…Ora, isso é o óbvio, chover no molhado, constatar o que qualquer um pode verificar mesmo de longe. Escrevi aqui dois artigos chamados “Vinte anos de desrespeito ao ECA criou bichos no futebol” onde constatava exatamente isso: que esses meninos acabam virando uns bichos na engrenagem do futebol. Monstro é exagero, e chegaremos lá. Quando Renê Simões discorre durante minutos apontando o dedo para Neymar e deixando de olhar toda a engrenagem, comete um equívoco profundo. Como disse, e ninguém precisa lembrar, constatar que Neymar é um garoto bobinho, mascarado, etc, é o óbvio. Vale tentarmos entender as razões para que o negócio-futebol atual esteja criando tantos bichinhos, tantos bobinhos…

No episódio de Renê, foi mais do que um equívoco. Quase uma leviandade. Quase uma covardia.

Não conheço Renê Simões. Falam bem dele. Mas estando há tanto tempo no futebol, tendo visto tanta coisa, tanta indignidade, por que diabos só foi ser veemente assim agora? Gostaria tanto de ter visto Renê Simões, no momento seguinte a final olímpica com o futebol feminino, no lugar de um discurso emotivo, ter tido a mesma veemência contra Ricardo Teixeira e sua negligência com aquelas meninas. Que aliás continua mais negligente do que nunca. Gostaria de ter visto se insurgindo contra os cartolas com quem trabalhou. Ou será que jamais trabalhou com nenhum monstro? Ou contra os empresários ruins que reinam no seu universo profissional.

Contra o desrespeito pelas leis no mundo das categorias de base do futebol. Contra os criadouros do futebol. Contra o desrespeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente que o futebol ignora, rasgando os artigos 17 e 19 todos os dias. Contra o desrespeito as leis da Fifa, que são varridas para baixo do tapete, sob o olhar cúmplice do mundo do futebol. De técnicos como ele, da imprensa, de cartolas…

Por que não se pronunciou com veemência, afirmou que iam criar um monstro quando, ao arrepio da lei, o empresário botou Neymar debaixo do braço e levou para o Real Madri? Em março de 2006, com 14 anos.

Não é possível passar por cima disso agora. Monstros são criados em anos, não em uma noite. Em anos de desrespeito a lei, as regras. Por gente gananciosa. Quando foi levado a tiracolo para a vitrine do Real Madrid, aos 14 anos, o artigo 19 da Fifa era desrespeitado. A lei rompida. Como também o artigo 239 do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Todo mundo conhecia o fato. Por que só agora, quatro anos depois resolve dizer que Neymar está virando um monstro e precisa de educação? Podia ter denunciado tal empresário na ocasião mas se omitiu, assim como todo mundo no futebol. A lei estava sendo burlada, como é todos os dias. Por que não gritou? Perdeu boa chance. Agora está sendo ofendido pelo empresário que deixou de denunciar naquele momento. Que não culpe “apenas a empregadinha da loja”. Que não olhe para o dedo no lugar de olhar pra lua.

Ainda dá tempo para Renê Simões marcar esse golaço. Falar publicamente contra a lavagem de dinheiro no futebol. Máfias. Bandidos. Empresários que tratam meninos como mercadorias. Ir a público e falar que meninos são levados para a Europa com 14 anos para serem exibidos na vitrine contrariando a lei. E que assim se criam monstros.

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1 comentário

  1. Benê Lima · setembro 17, 2010

    De fato, Renê portou-se como oportunista. Mas, se devemos dar chances[plural] a Neymar [e na verdade devemos sim] é importante darmos chance[singular] também a Simões. As chances a Neymar poderão representar acréscimos à sua formação humana. A chance a Renê é para que ele, assim como nós todos, possamos nos redimir de nossa covardia. Afinal, nada de relevante temos feito para expurgarmos as excrescências do mundo do futebol. Somos todos, em algum grau, covardes.

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