O Jogo de Futebol como um Sistema: a Questão do Encaixe



de Luiz Lima, engenheiro.

Quando, lá atrás, comecei a enxergar o jogo como um sistema dinâmico e funcional, penso ter dado um passo importante – vejo isto claramente, hoje – na compreensão do futebol. Todavia, como Norbert Wiener e os cibernéticos da primeira geração, eu não conhecia a natureza intrínseca do sistema, mas sabia o que ele fazia ou realizava o que já era algo de valor. Evidentemente que o Minotauro continuava a me aguardar, no labirinto escuro do mundo da bola (sic), mas o tênue fio de Ariadne começava a se mostrar e orientar meu caminho.

Assim, uma das qualidades ou características do jogo que me despertou especial atenção foi a do “encaixe” (uso o termo na linguagem comum do esporte de propósito). Considero-a tão extraordinária que a pergunta mais dramática ou mais embaraçosa que se pode fazer a um treinador (ou a um analista esportivo) é indagar-lhe das razões pelas quais um time “se encontra” dentro de campo, desenvolve uma prática esportiva eficaz e agradável aos olhos, ditando o ritmo do jogo e auferindo uma vitória daquelas que “vence e convence”, ao final do encontro.

Não deixa de ser curioso, pois a qualidade do “encaixe” de um time pode ser apreendida inclusive a olho nu. Aliás, qualquer menino que acompanha seu pai ao estádio logo percebe se seu time do coração está jogando bem, ou se os atletas estão batendo cabeças. Outra coisa, bem diferente, é sermos capazes de avaliar o status de “encaixado” de uma equipe, ou mesmo de um atleta isolado, lançando mão de algum meio adequado.

O fator que faz a diferença: o “encaixe”

É comum ver pessoas que trabalham ou analisam o futebol preocupadas em identificar aqueles elementos cruciais, que a seu juízo “fazem a diferença” no jogo.

Tais fatores podem ser a entrega, a doação, a determinação, a disciplina, a atitude, a obediência tática, o jogador diferenciado, o esquema tático, o preparo físico, os treinos, o dedo do técnico, a estrutura oferecida pelo clube, o jogo inteligente, e assim por diante.

Na investigação científica, esta é a etapa da identificação e seleção das variáveis que, por suposição, têm o maior poder explicativo ou alta correlação com a variável explicada. Em outras reflexões que faremos neste espaço, oportunamente, voltaremos a este assunto, já que a elaboração de um modelo transita por esta etapa, de forma crucial.

Quando os estudiosos e especialistas em futebol elegem as variáveis acima (ou outras) como as mais importantes ou determinantes para se compreender o modus operandi do jogo, e deixam de fora o “encaixe”, como se fora uma quantité négligeable (*), elas estão cometendo aquele erro fatídico que nos meios acadêmicos é conhecido como “jogar fora o bebê junto com a água do banho”. O bebê, no caso, é o “encaixe” do time.

Não sou um especialista em futebol, longe disso! Mas arrisco um palpite: o móvel do jogo (sic), sua pedra de toque (Santo Graal, El Dorado, Fonte da Eterna Juventude, Abre-te, Cézamo! etc.) atende pela denominação usual de “encaixe”.

O “encaixe” é, verdadeiramente, a conditio sine qua non para o sucesso de uma equipe. Os demais fatores, citados anteriormente, fazem parte das condições necessárias e indispensáveis, enquanto que o “encaixe” é a condição suficiente. Na linguagem popular, “a cereja do bolo”.

Qual mistério se esconde por detrás do “encaixe”? Por que um time “se encontra” dentro de campo e joga bem, enquanto que seu adversário não consegue fazê-lo, a despeito das boas intenções, da determinação e dos esforços despendidos para obter a vitória?

Eis o maior contrassenso do futebol, a meu ver. Como pode acontecer que um fator tão discricionário, na prática do jogo, tenha passado despercebido de tanta gente, de tantos estudiosos, de tantos especialistas e profissionais da área? Pois se o jogo não é um produto da força e sim do jeito (sic), então este jeito tem a ver com a forma pela qual se processa a interatividade dos atletas.

O “encaixe” tem uma rica sinonímia. Pode ser chamado de “time que se ajusta”, “time que se acerta”, “time que se entende”, “time que se encontra”. E, em outras palavras pode ser ainda o “entrosamento”, “conjunto”, “sintonia”, “harmonia”, “cadência”, “compasso”, “ritmo ou padrão de jogo”, “sincronia”, “ordenamento”, “música”, “balé”. Por minha conta e risco, acrescentaria mais dois sinônimos à lista: “convergência” e “acoplamento”.  Elegi estes sinônimos quando estudei – na condição de aluno ouvinte – Teoria dos Sistemas Dinâmicos dos cursos de mestrado e doutorado do Departamento de Física da Universidade Federal do Paraná, em 2001 e 2002.

Resta dizer que as qualidades do “time apático”, do “time ansioso” ou do “time perdido em campo” formam o contraditório do “time encaixado”. Um é a contrapartida do outro. Um é a imagem especular do outro.

Sensibilidade às condições iniciais

O fato de o jogo de futebol ser um sistema funcional e, como tal, produzir alguma coisa, não significa dizer que seja fácil revelar seus segredos. É sabido, a propósito, que a velha Mãe Natureza é ciosa de seus fenômenos e por isso sempre resiste à decifração.

Em face das dificuldades para se descrever o jogo – não um apenas, mas todos eles como se fossem um só – as pessoas o cercam de mistério. Até certo ponto, elas têm razão. A julgar pelas aparências, o exercício do jogo se comporta não apenas de maneira incerta e duvidosa, mas até mesmo de forma contraditória. Como disse anos atrás aquele treinador do Deportivo La Coruña, às vésperas da decisão do título da Liga de Espanha, para acalmar os ânimos da torcida: “Por favor, calma! No futebol, quando você pensa que vai dar tudo certo aí mesmo é que dá tudo errado!”.

Um dos fatores mais efetivos e que, possivelmente, venha a ser responsabilizado ou sirva para explicar essas idiossincrasias do futebol, é o da sua extrema sensibilidade. Refiro-me àquilo que é conhecido normalmente como “sensibilidade às condições iniciais”. A sensibilidade às condições iniciais é uma das características requeridas para se definir um sistema que contém caos. A outra é que tal sistema seja de natureza fractal ou auto reprodutiva.

Até onde alcanço, através da observação atenta e da pesquisa objetiva, o jogo é um sistema extremamente sensível a quaisquer mudanças em suas condições de partida. Realmente, a mexida no time pode transformar um time perdedor em um vencedor e vice-versa. Assim que as alterações interpostas na escalação que iniciou o jogo podem acarretar consequências boas ou funestas.

Apesar da ligeireza com que um jogo muda de direção, não creio que o futebol seja caótico. Não obstante, há controvérsias, pois o fenômeno é tão complexo que chega a dar a impressão de que não se pode descrevê-lo, tal o seu caráter errático e indômito.

Por exemplo, o engenheiro naval Jairo dos Santos, que trabalhou por mais de 25 anos como observador da CBF (e da antiga CBD, acho), manifestou a opinião de que “o futebol é a Teoria das Probabilidades”. Mas fez uma advertência, ao dizer que “há um caráter caótico no futebol, pois às vezes o técnico faz a coisa errada e acaba dando certo”. Ora, se é assim, o espião (sic) da CBF deveria ter acrescentado que outras vezes o treinador faz a coisa certa, mas que acaba dando errado. Pois o efeito borboleta de Edward N. Lorenz tanto pode desencadear uma tormenta como extingui-la.

As evidências deste traço comportamental do futebol, o de sua alta sensibilidade às condições iniciais, podemos encontrar facilmente nos registros ou protocolos dos jogos, comumente denominadas de “Fichas-Técnicas” (FTs).

Um parêntese para dizer que a riqueza informacional das FTs tem passado despercebida dos jornalistas esportivos e até mesmo dos que exercem suas atividades profissionais nos clubes, dentre eles o próprio treinador. De certo modo, a culpa recai sobre a chamada “mídia especializada”, pois o jornalista esportivo brasileiro, salvo algumas exceções, por comodidade ou falta de atenção, ainda não aprendeu a colocar nas FTs o detalhe (?) do tempo de substituição dos atletas. Pergunto: como seria possível estudar um sistema que se move no tempo, sem saber o que tal sistema andou fazendo, ao longo de sua trajetória de vida?

O surgimento do Diário Lance! em 1997, constituiu um avanço importante, pois as FTs produzidas pelo jornal sempre trazem a informação mostrando quando um atleta saiu e outro entrou, além da hora em que um jogador foi expulso, por exemplo.

Antes, Placar já produzia fichas dinâmicas (desde 1992), mas apenas aquelas do Brasileirão. Não obstante, ainda nos dias de hoje, a falha é geral. Basta abrir um desses “cadernos de esporte” dos jornalões para se dar conta deste fato. Felizmente, a revolução aconteceu com a chegada de alguns sites maravilhosos na Internet, que dão um verdadeiro show de informações.

Estou me detendo nesta digressão porque encontrei muitas dificuldades no estudo dos jogos, pois o traço marcante do dinâmico está associado ao do sistêmico. Exemplifico! Na prática, como eu deveria proceder para analisar uma partida na qual o Time A faz 2 a 0, no 1º tempo, e na etapa completar sofre 3 gols, terminando a partida pelo placar de 3 a 2 em favor do Time B?  Qual a configuração (leia-se, escalação ou condição inicial) que deveria tomar por base, na hora de simular o jogo? A da primeira parte ou a da segunda? Ou quem sabe de ambas, se considerasse que foi “um jogo de dois tempos distintos” como dizem os comentaristas?

Pode até parecer um fato de somenos importância, mas a precisão da informação é vital para o estudo que eventualmente possa levar à compreensão do fenômeno do jogo. Por outro lado, sei que a abordagem que faço, como se verá mais adiante, vai em direção do heterodoxo, do desafiador, do novo. E o novo suscita inquietudes, como é sabido. Ainda mais quando tal abordagem traz consigo algumas críticas aos conceitos e paradigmas normalmente aceitos. E só para piorar ainda mais as coisas, os reparos surgem de alguém que não é do ramo, como me disseram uma vez.

Longe deste engenheiro a ideia de solapar as bases do edifício em que são guardados os cânones do conhecimento futebolístico vigente. Mesmo porque se eles estão aí e são preservados é porque têm seus méritos comprovados. Mesmo que não tenham dado conta, ainda, de desvelar por completo o mistério tido como insondável da “caixinha de surpresas”. Todavia, não posso deixar de aproveitar a oportunidade que me confere o Prof. João Paulo Medina, justamente um dos expoentes do preparo desportivo e cuja mente aberta e irrequieta levou à criação do site Universidade do Futebol, cuja metodologia se propõe justamente uma inquirição científica do fenômeno do jogo.

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