Gente Diferenciada


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por Eduardo Tironi

“Uma cidade só para ricos contraria a ideia de cidade.” A frase é de Richard Rogers, arquiteto brilhante que, entre outras coisas, criou o Centro George Pompidou, em Paris, obra que antecipou o conceito de museus para grandes massas.

Rogers defende que uma cidade só é uma cidade se diferentes classes sociais conviverem em um mesmo espaço, sem guetos.

O assunto é pertinente quando há uma polêmica em torno da construção de uma estação de metrô em Higienópolis, bairro de classe alta em São Paulo. O projeto foi abortado depois do protesto de moradores.

Entre outras alegações, teve gente dizendo que não queria “gente diferenciada” por ali. Entenda-se por gente diferenciada pessoas de outros bairros, mais pobres.

O assunto também é pertinente quando vemos cada vez mais segregação a torcedores visitantes em nossos estádios.

No Campeonato Mineiro, terminado domingo, só a torcida do Cruzeiro entrou na Arena do Jacaré. Na semana anterior, só a do Atlético.

Em São Paulo, o Santos destinou 700 ingressos para corintianos no jogo final na Vila. Semana anterior, 5% da capacidade do estádio ficaram para os santistas no Pacaembu. É desta maneira que vamos criando nossos guetos dentro dos estádios.

Pedindo licença para parafrasear Rogers, “um estádio só para uma torcida contraria a ideia de estádio.” Se um jogo de futebol é uma disputa, ela também é uma disputa na arquibancada. E claro, não se está falando aqui de violência. Isso não é o esporte. Mas a disputa saudável de qual torcida é a mais animada, qual consegue fazer a festa mais bonita, qual ajuda de fato um time.

Um estádio com torcida única é como um bairro em que não entram pessoas que não sejam dali. Um local em que só pode ter pessoas vestidas de preto e branco, alviverde, tricolor nada mais é do que um gueto. Impedir pessoas de irem ver o seu time é segregar.

Algumas alegações para se impedir presença de torcida visitante em estádios são discutíveis. A violência é uma delas. Todo mundo sabe que existem confrontos fora do estádio, onde o policiamento é menos presente. Ali ocorrem mortes em emboscadas, brigas, tiroteios etc.

A de que o estádio tem dono e ali se faz o que o dono quer também se discute. Foi esta a alegação que fez o São Paulo destinar apenas 10% dos ingressos ao Corinthians no Morumbi em passado recente.

A partir desta medida, a relação entre os dois clubes azedou. Hoje, são adversários dentro de campo e inimigos fora dele, com todo prejuízo que isso acarreta para um lado e outro.

Se há algo democrático em nosso país é o futebol. Ricos, pobres, negros, brancos, homens, mulheres… gostam de futebol. Assim, a proibição de torcedores visitantes não combina. O estádio é um lugar para todo tipo de gente, “diferenciada” ou não, conviver.

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