Pra pensar…


 

 

 

 

 

 

 

” (…) O problema é que pensava-se em produtividade a partir da especialização, do desempenho ótimo de funções fixas: como na produção fordista, um indivíduo que repetiu milhares de vezes a mesma função tem mais chances de ser mais rápido e menos chances de errar no exercício daquela função determinada. Isso é válido, por certo, para a reprodução mecânica das mesmas ações. Aplicado ao futebol, porém, contribui para eliminar a criatividade, sobretudo a criatividade coletiva, quer dizer, o ambiente favorável à criação, à inovação. Instaura-se assim o futebol reprodutivo, a fábrica de jogar bola da sociedade industrial.

Nesse ambiente reprodutivo o que se destaca é o craque (o indivíduo), não o time (a rede social composta pelos jogadores interagindo segundo determinado padrão). Porque, em tais circunstâncias estruturais da rede centralizada (configurada pelo jogo retrógrado, quer dizer, pelos caminhos escassos que a bola percorre), só a genialidade individual pode romper o esquema, surpreender, sair fora da caixa. Tudo então passa a depender dos craques, dos indivíduos. É o futebol-burro com a sobressaliência dos pontos fora da curva, daqueles indivíduos inteligentes capazes, como se diz, de definir a partida com um lance magistral.

E é por isso que se atribui, não raro, o sucesso do Barcelona à genialidade do craque Messi. Sim, Messi é de fato um jogador excepcional, mas o futebol do Barcelona não depende de suas jogadas excepcionais. Com toda certeza as interações da dupla Xavi Hernandez – Andrés Iniesta e deles com o restante do time (com Lionel Messi inclusive) são mais decisivas para o excelente comportamento coletivo (do time) do que os lances geniais individuais do fabuloso artilheiro argentino. Essas bobagens são ditas porque ainda é bastante generalizada a crença de que o comportamento coletivo pode ser explicado a partir dos atributos dos indivíduos, de que a inteligência coletiva é a soma das inteligências dos indivíduos e não uma nova qualidade que emerge das relações entre eles.

Os gritos enraivecidos de ontem, comemorando a eliminação do Barcelona (sim, porque o time não perdeu o jogo, foi desclassificado pela tabela), revelam que existe base social para legitimar mais um retrocesso no futebol. Dir-se-á que o “estilo-barsa” esgotou-se, que o “futebol-arte” não pode resistir ao “futebol-de-resultados”, que “Messi entrou numa fase ruim” e outras besteiras semelhantes. Já se dá até como certa a derrota do Barcelona para o Real Madrid no campeonato espanhol (e isso pode acontecer mesmo).

Assistiremos, provavelmente, a mais uma das tristes revoltas daqueles escravos que introjetaram a escravidão a tal ponto que em vez de lutarem para se libertar dessa condição, não suportam ver que existem pessoas livres e querem torná-las também escravas como eles.”

Trecho retirado do texto “Barcelona e a Nova Ciência“, do Prof. Augusto de Franco, um dos maiores especialistas em redes e conexões em nosso país.

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1 comentário

  1. Peixe Vivo · maio 1, 2012

    Belo texto. Concordo com tudo. Só espero que estilo Barça conquiste cada vez mais adeptos.
    Até porque o estilo Barça tem suas origens no Santos e Seleção Brasileira de 50/60.
    Estava vendo a final Brasil e Suécia em 58. E vários aspectos são semelhantes.
    A defesa marcando avançada. Dois volantes (Zito e Didi) que eram também armadores. O Vavá que era um cetroavante que recuava e fazia o papel de meia. O Pelé que ocupava todas as posiçoes do ataque. E um ponta genial aberto.

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