Quem lucra com os Campeonatos Estaduais


ricardoteixeira

 

Um mesmo ciclo negativo se repetirá no próximo domingo: mais de 20 mil profissionais do futebol brasileiro estarão desempregados, incluindo atletas, treinadores, assistentes técnicos, preparadores físicos, supervisores, roupeiros e massagistas, entre outros.

São profissionais que pertencem a centenas de clubes espalhados pelo Brasil e que ficarão sem atividades até o final do ano, em função do atual calendário promovido pela CBF e suas respectivas federações. Muitas destas equipes irão se despedir da temporada com menos de 18 jogos e as federações repetirão o discurso de que, sem os estaduais, a situação seria ainda pior.

Já os clubes considerados grandes, na outra ponta, poderão jogar um número excessivo de partidas, o que impede uma preparação mais adequada e que impacta diretamente na qualidade do espetáculo.

Em alguns casos serão mais de 80 jogos, número 40% superior ao número de partidas que são disputadas pelas principais equipes da Europa, por exemplo, numa mesma temporada.

Qualquer presidente de federação ou confederação defenderá em tom romântico que o campeonato estadual é responsável por gerar empregos e movimentar a economia nos primeiros meses do ano, mesmo que os números digam o contrário.

Os campeonatos estaduais são unanimidade em modelo deficitário para torcedores, clubes e imprensa.

Exceto para quem organiza e transmite a competição.

Diminuir a quantidade de jogos dos grandes, ao priorizar as principais competições, e aumentar consideravelmente a quantidade de jogos dos clubes de menor porte é fundamental para iniciarmos esse movimento benéfico ao esporte no país.

Os estaduais são um patrimônio histórico e cultural de cada Unidade Federativa, mas há a necessidade de se adequarem à importância que eles têm hoje em dia.

A situação de falência em que se encontram por todos os Estados do Brasil está diretamente relacionada à manutenção dos feudos das federações.

Para eles, maior tempo de calendário para os estaduais significa mais poder e dinheiro.

O atual modelo de governança do futebol brasileiro concentra riquezas nas federações e na CBF, que cavam um buraco ainda maior para os clubes se enterrarem.

É necessário criar viabilidade para clubes do interior, ao resgatar as rivalidades regionais e fomentar a atividade econômica que gira em torno deles.

Mas, essencialmente, os clubes do interior precisam competir, já que não conseguem criar e manter um vínculo com seu torcedor, que hoje passa mais da metade do ano sem ver seu time jogar e assiste aos jogos de equipes grandes pela TV. Principalmente equipes e ligas internacionais.

Um novo formato para os estaduais deve urgentemente ser discutido e implementado por quem dirige o futebol brasileiro.

Mas como os interesses dessas entidades e de seus dirigentes passam longe do desenvolvimento do futebol brasileiro, os clubes ou o Governo deveriam intervir imediatamente.

Os clubes lutam para pagar suas contas, tributos e dívidas; e tem com as federações a mesma relação que um devedor tem com seu gerente de banco.

Já o Governo, tenta fazer da MP 671 um instrumento de decência em conceitos básicos como gestão responsável e limites de mandatos às federações, para inspirar o mesmo formato em outros esportes e levar democracia e gente séria às entidades que deveriam, no mínimo, organizar as competições com competência.

Verdadeiramente, somente teremos mudanças significativas tendo em vista o desenvolvimento do futebol nacional quando o colégio eleitoral da CBF e das federações for ampliado. Quando todos os atletas e clubes tiverem direito a voto na Assembleia Geral e fóruns decisórios das entidades que organizam as competições que estiverem disputando, com o mesmo peso dos demais.

Não é a toa que está esculpida em pedra no Museu Olímpico de Lausanne, na Suíça, a seguinte frase:

“Sem o atleta não há esporte.”

 

Publicado no mesmo dia no Blog do Juca:

http://blogdojuca.uol.com.br/2015/04/os-20-mil-desempregados-do-futebol/

 

 

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