Um Livro às Quintas

n_meros_do_jogo_abre“É inacreditável o quanto você não sabe do jogo que tem jogado a vida toda.” (parafraseando Michael Lewis, autor de Moneyball, o homem que mudou o jogo)

Segue um dos meus trechos preferidos dos autores Chris Anderson e David Sally:

“Ficou para trás o tempo em que se confiava puramente no instinto, no palpite e na tradição para saber o que era bom e mau futebol. Em vez disso, agora podemos recorrer a provas objetivas. O uso de informações objetivas está mexendo com o equilíbrio do jogo bonito. O futebol não é mais comandado por uma mistura de autoridade, costume e adivinhação, e está entrando em uma fase nova, mais meritocrática.

Isso é uma ameaça para os poderosos tradicionais do esporte, porque indica que eles deixaram de ver alguma coisa, durante todo esse tempo.

Nesse sentido, o futebol é um pouco de religião: sempre houve a percepção de que, para se tornar um especialista, era preciso ter nascido no lugar certo e ter sido iniciado nos rituais desde a mais tenra idade. O futebol tem credos, dogmas, a comunhão com os coirmãos, confissões, códigos de vestimenta, rituais de imersão, cantorias e tudo o mais.

Mas, se os dados permitem que qualquer um se torne um especialista, alguém com uma opinião bem embasada, aqueles que praticam os métodos antigos se tornam menos poderosos, menos especiais, mais sujeitos a questionamento. No limite, eles podem acabar sendo desmentidos; e quanto mais forem desmentidos, menos poder terão.

Se eles são os sacerdotes e os fazedores de papas, nosso papel, como autores de Os números do Jogo, é ensinar a você como ser e como apreciar os iconoclastas e os combatentes da reforma do futebol.”

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Os Números do Jogo também é um relato honesto sobre a menos romântica das situações: o momento em que o futebol parou de ser 100% jogado no campo para ser pré-definido em números. 

Mas como não ser romântico sobre futebol quando o fator humano está presente em cada momento do jogo e insiste em ignorar nossas certezas?

Entender para Transformar – o futuro do futebol brasileiro em jogo.

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O grupo O JOGO, formado por João Paulo Medina, Sandro Orlandelli, Thiago Scuro e este que vos escreve, buscou neste período de reflexões e encontros propostos pelo Futebol do Futuro, responder a estas questões. Embora tenhamos juntado e construido vários elementos para respondê-las, é fundamental, a partir de agora, que estes questionamentos técnicos entrem nas agendas dos responsáveis e dirigentes do futebol brasileiro.

1) Que tipo de jogo os clubes pretendem que suas equipes (principal e categorias de base) joguem no atual cenário do futebol mundial? Já existe esta referência? Como ela é (ou pode ser) construída metodologicamente? Os clubes têm noções claras sobre a importância destas questões estratégicas?

2) Podemos dizer que temos hoje uma “Escola Brasileira de Futebol” que defina modelos de jogo, estilo, padrões táticos? Neste aspecto, em que estágio estamos em relação a, por exemplo, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Holanda?

3) Continuamos produzindo “talentos” (craques) em profusão para o futebol como em décadas passadas? Se não, sabemos por quê? Não haveria um mecanismo de “exclusão” dos verdadeiros talentos (jovens mais habilidosos, mas fracos fisicamente) no atual processo de seleção de atletas na maioria dos clubes do futebol brasileiro, ao se priorizar apenas jogadores que sejam bem dotados fisicamente e mais aptos para ganharem campeonatos e competições nas categorias de base?

4) Os clubes tem clareza sobre como desenvolver seus processos de seleção, captação e desenvolvimento de atletas, sintonizados com as demandas do século XXI e seu processo intenso de globalização?

5) As instituições responsáveis, direta ou indiretamente, pela prática do futebol no Brasil (Confederação, Federações, Clubes, Escolinhas de Futebol, Ministério do Esporte…) tem consciência da importância estratégica de desenvolvermos mecanismos e processos de formação, capacitação e atualização profissionais no futebol (e não apenas para o alto rendimento)? Como são formados hoje os profissionais que atuam no futebol? Este tema está na agenda de nossos dirigentes?

O Rei está Nu

Poder

Estamos no início de novos tempos para o nosso futebol. Não sou vidente, mas é claro o sentimento que mudanças estão por acontecer. E intuo que muitas delas, virão para o bem, ou pelo menos, virão para gerar uma maior reflexão crítica do que vem sendo realizado até então, seja na gestão do espetáculo, na gestão dos clubes ou na maneira de tratar o desenvolvimento dos nossos atletas.

Sempre acreditei que faríamos bem mais pelo futebol brasileiro (e através dele) do que foi realizado nas últimas décadas e o que se percebe é que existe muita gente boa espalhada pelo Brasil na gestão de campo, em especial, os que estão envolvidos nas categorias de base, mas reféns, quase sempre, da estrutura e cultura vigente do clube ou de interesses capazes de mudar a lógica da proposta da formação do atleta, ou da gestão esportiva em si.

E o conhecimento, mesmo que seja considerado relevante, inovador e bem-vindo, torna-se igualmente refém da questão mais antiga na cadeia de evolução da raça humana: as relações de poder.

Ou seja, o quanto de poder vou perder com a chegada dessa pessoa, dessa nova ideia, dessa nova proposta ou projeto?

Quantas vezes estivemos na posição do ameaçador ou do ameaçado?

Comunicação e humildade

Tenho entrevistado ou tido contato com vários profissionais, principalmente treinadores em atividade. Nessas oportunidades, acabamos por discutir as metodologias de trabalho que algumas das principais equipes do mundo desenvolvem, bem como suas aplicações práticas e percebo um índice altíssimo de respostas da maioria desses treinadores, afirmando realizar o mesmo tipo de trabalho que as referências discutidas.

Por exemplo, se discutimos sobre Periodização Táticaque é a maneira de organizar os períodos do treino tendo como norte o modelo de jogo da equipe – escuto que fazem exatamente a mesma coisa no seu dia-a-dia (e sei que NÃO o fazem…).

Se conversamos sobre um trabalho focado em princípios de ataque ou de defesa, também escuto a mesma resposta: “– Faço exatamente isso! ” – mesmo sabendo que esse profissional não tem discernimento sobre um trabalho relacionado à lógica do jogo (inteligência coletiva) de um trabalho fragmentado do jogo.

O que se procura concluir com essa reflexão é que, a grande maioria dos nossos treinadores tem acesso às teorias e conhecimentos produzidos acerca da evolução do “como treinar“, mas não conseguem sistematizá-los na prática. Continuam com uma visão distorcida e fragmentada da construção do jogo, o que vem resultando no nosso distanciamento entre outras tradicionais escolas de futebol.

Precisamos urgentemente de um grito avisando que o rei está nu e um posicionamento mais humilde desta porção de treinadores super valorizada, muitas vezes insensível à revisão de seus conceitos, em função do momento de transição em que se encontra o futebol brasileiro. Em tese, significaria conhecer (entender) teorias que direcionassem seus métodos de trabalho, sem interferir necessariamente no estilo de cada um.

Esta reciclagem conceitual, por exemplo, facilitaria a comunicação entre os profissionais da comissão técnica e atletas, visando o melhor entendimento dos métodos de treinamento e, principalmente, aproximá-los da realidade encontrada no próprio jogo.

Treinar para deixar de dar tanto a posse de bola para o adversário, ou para manter as linhas de zagueiros e volantes sempre próximas e compactadas dos recuos e avanços da equipe ou para aumentar a troca de passes entre seus jogadores.

Alinhar nomenclaturas já poderia ser considerado um primeiro passo dessa reciclagem, onde muitos profissionais poderiam rever detalhes que seus jogadores não conseguiram executar, muitas vezes em função de uma comunicação mal feita do que se pretendia obter no treinamento.

Só dessa forma mais pessoas entenderão o que realmente está acontecendo com o futebol brasileiro, em especial, os próprios treinadores.


Inteligência Coletiva

O êxito no futebol depende do bom rendimento de cada jogador ou do trabalho conjunto da equipe?
O canal espanhol Odisea produziu este interessante documentário analisando a importância da visão coletiva e a relevância das estratégias de um grupo no âmbito futebolístico, a partir da perspectiva da complexidade.

Vale a concentração.

Um Livro às Quintas

“Una red de significado interpretada desde el paradigma de la complejidad”

El Modelo de Juego del FC Barcelona – Oscar P. Cano Moreno

MC Sports, 2010.

Oscar Moreno condena e derruba a barreira existente entre teoria e prática, nos conduzindo pelo sinuoso universo das teorias dos sistemas dinâmicos e nos convidando a entender a complexidade do jogo –  desde as evidências da imprevisibilidade à análise minusciosa da construção do modelo de jogo do F.C. Barcelona.

Ambição e Desambição no Futebol

Técnicos e atletas estão divididos entre a ousadia e a prudência, a ambição e a desambição

por Tostão

Nota do autor: Como é bom ler um mestre da bola e das palavras como o filósofo Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, que simplifica nossa crença sobre o futebol, em sua realidade, sua complexidade e suas tendências.

Falam que esquema tático bom é o que dá certo. Nem isso podemos dizer, pois há muitos outros fatores envolvidos no resultado de um jogo.

Muito mais importante que o desenho tático, os números, é a estratégia, a filosofia. É saber onde começa a marcação, com quantos jogadores um time ataca e defende, se há muitos ou poucos espaços entre os setores, se a prioridade é o domínio do jogo, a posse de bola ou os contra-ataques e vários outros detalhes.

Ruim é não ter nada bem definido. Um técnico é melhor que outro quando seus jogadores executam com mais eficiência o que foi planejado, e não por causa do esquema tático. Todos têm vantagens e desvantagens.

Como temos o hábito de tentar achar uma única causa para explicar o resultado, para mostrar sabedoria -ou ignorância-, fica mais fácil dizer que um time ganhou ou perdeu por causa da escalação, da substituição ou porque o técnico colocou um jogador cinco metros mais para a direita ou para a esquerda.

Os treinadores, supervalorizados, muitas vezes, iludidos e prepotentes, pensam também que seu esquema tático decidiu o jogo.

A maioria das equipes começa e termina uma partida com os jogadores nas mesmas posições, compartimentados, robotizados. Volante não se mistura com meia. Há armadores pela direita e pela esquerda. O meia dá o passe, e o centroavante faz o gol.

Há exceções.

Até hoje, ninguém sabe se Xavi, do Barcelona, é volante ou meia, se joga mais pela esquerda ou pela direita. O veloz e aguerrido Herrera, do Botafogo, marca o lateral e ainda faz dupla de ataque com Loco Abreu.

Esquema tático bom é o que deixa o comentarista ansioso, tentando descobrir, pela movimentação dos jogadores, ocasional ou habitual, qual foi a mudança tática que o técnico fez durante a partida. Algumas vezes, o técnico nem percebe.

Os treinadores ficam divididos entre a ousadia e a segurança. Querem arriscar e, ao mesmo tempo, não querem dar chance ao adversário. O conflito costuma terminar em conciliação, por prudência ou por covardia. Assim é também na vida. É a disputa entre o princípio do prazer e a realidade, entre o desejo e a razão.

O sonho da maioria dos treinadores é atingir o equilíbrio perfeito. Como os atletas são, como os humanos, imperfeitos, emocionalmente instáveis e também divididos entre a ambição, o desejo de ser herói, e a desambição, o equilíbrio perfeito nunca é atingido. Ainda bem. Ficaria muito chato.

A Grande Sacada para as Categorias de Base: Capacitar seus Atletas

“Chegará o dia em que estará criado um processo irreversível nas categorias de base, onde trocas de comando de um clube – técnicas, administrativas ou políticas – não terão o efeito necessário para que os atletas deixem de refletir e contestar os métodos de treinamento.”

Em tempos de crises e mídias sociais, muita coisa vem acontecendo por todo o planeta. Corruptos são presos pela manhã e soltos à tarde, países ricos ficam pobres ao anoitecer e a consciência coletiva de que algo precisa ser feito pela nossa subsistência e qualidade de vida deixa de ser clichê.

E o futebol (ah o futebol!), também vive suas particularidades. Apesar dos clubes continuarem a gastar mais do que recebem e das seleções tradicionais não mais figurarem isoladas no topo do ranking da FIFA, mais pessoas comuns analisam o jogo: estudiosos, curiosos e gente interessada em saber de verdade o que acontece dentro das quatro linhas.

Principalmente no continente europeu, onde há décadas se estudam e aplicam as novas teorias relacionadas ao jogo e treinamento do futebol e, muito em função disso, começamos a perceber um distanciamento qualitativo de algumas equipes e seleções em relação ao resto do mundo. E, infelizmente, o Brasil está incluído neste resto.

O grande desafio nos próximos anos será pela busca da popularização em solo tupiniquim, desse olhar mais científico, lógico e nem menos apaixonante sobre o futebol.

Muito embora as novas maneiras de enxergar o jogo e o treino do futebol sejam positivas, permitindo inclusive que alguns desvios no processo de formação de atletas sejam corrigidos, resistências a este novo olhar sempre irão ocorrer. E as comparações entre metodologias de trabalho, muitas vezes sem embasamento científico, serão inevitáveis.

Como treinar uma equipe de futebol aproximando-a da imprevisibilidade (e realidade) do jogo, e como trabalhar nas equipes técnicas de maneira integrada e com mais qualidade, são questões essenciais a serem respondidas por quem pretende estar à frente do seu tempo.

Nos esportes coletivos, e no futebol em particular, pesquisadores e especialistas dissecaram as dinâmicas do jogo, que apontaram para eventos comuns e com padrões que se repetem. Foram identificados quatro momentos que nos permitem entender as tais dinâmicas: defesa, transição ao ataque, ataque e transição à defesa.

Nessas quatro situações, todos os jogadores tem um comportamento muito particular em campo, com ou sem a bola.

Os jogadores se relacionam e formam um todo organizado, que é a equipe. Cada equipe tem seus próprios jogadores que se relacionam uns com os outros de maneira particular e essas relações variam quando a equipe está atacando, defendendo e realizando as transições.

Por exemplo: com a bola, os jogadores agem com o objetivo de manter a sua posse na busca pelo gol adversário. Os atletas irão se relacionar dentro do campo de uma forma bastante específica para que isso ocorra. Quando a equipe está sem a bola, os jogadores irão criar dificuldades para que a equipe adversária progrida no campo de jogo e consiga chegar à sua meta. Nestes dois exemplos, os comportamentos e intenções dos jogadores e da equipe são bem distintos.

E o treinador pode moldar a forma como a equipe joga nesses momentos. Modelo de Jogo é o nome dado à forma como a sua equipe deve se comportar no jogo de uma maneira geral, ou seja, como ela defende, ataca e faz as transições. Está intrinsecamente ligado à estrutura da equipe, ou seja, como ela pretende construir o seu jeito de jogar.

A escolha dos atletas é realizada respeitando essas características e devem estar sintonizadas com as ideias do treinador, que por sua vez, irá procurar estar conectado com a cultura e filosofia do clube.

O comportamento dos jogadores e da equipe, em cada momento, pode variar com intenções diferentes, ou seja, o treinador pode influenciar a forma como a relação entre os jogadores acontecerá em cada um dos quatro momentos do jogo.

Na teoria, chamamos de princípios estruturais a forma como os atletas devem se posicionar no campo de jogo. Já princípios operacionais é o nome dado ao que fazer em cada momento do jogo (defesa, ataque e transições).

O futebol é um jogo complexo e saber fazer funcionar as relações entre os jogadores durante a partida é a chave para a obtenção de sucesso.

Saber o que e como fazer nos momentos do jogo é o xis da questão.

A partir deste entendimento é que podemos moldar a forma de como a equipe deve treinar, aproximando-a da realidade da partida e do que ela poderá encontrar diante de um adversário. Inicia-se a construção do jogar da equipe, ou seja, o Modelo de Jogo começa a ganhar vida.

Os jogos reduzidos e adaptados tem papel importante em algumas propostas metodológicas no futebol. Mas como qualquer remédio, não basta apenas ler a bula para aplicá-lo. Um médico deve ser consultado e, de preferência, um que reconheça e reflita o valor das teorias antes de sair cortando com seu bisturi.

De maneira muito incipiente, algumas boas iniciativas começam a ser percebidas em nosso país, muito em função da sensibilidade de profissionais em cargos de direção e coordenação, que partem para um processo de reciclagem de seus recursos humanos, particularmente dos profissionais que atuam dentro de campo.

E mesmo restrito às categorias de base, alguns clubes brasileiros dão seus primeiros passos em direção aos novos tempos, criando ambientes de aprendizagem aos gestores de campo, buscando reciclar suas equipes técnicas com profissionais mais sintonizados com esta nova perspectiva.

A próxima e mais importante etapa, será a conscientização e capacitação dos atletas das categorias de base, melhorando o canal de comunicação com seus treinadores e facilitando o diálogo sobre o porquê deste ou daquele tipo de treinamento.

Dessa forma, estará criado um processo irreversível, onde trocas de comando de um clube – técnicas, administrativas ou políticas – não terão o efeito necessário para que os atletas deixem de refletir e contestar os métodos de trabalho

Entrevista com Júlio Garganta, doutor em Ciência do Desporto

via Universidade do Futebol

“No meu ponto de vista, o futebol se joga com ideias. O bom futebol se joga com boas ideias. O mau futebol se joga com más ideias ou sem ideias. Portanto, (no futebol) as questões táticas e estratégicas são fundamentais”. (Júlio Garganta)

A discussão sobre a importância do treino no desenvolvimento do talento esportivo no futebol permeia o ambiente acadêmico e profissional. Entre diversas referências, o Prof. Dr. Júlio Manuel Garganta da Silva tem contribuído de maneira decisiva para esse tipo de análise e reflexão.

O restante da entrevista inédita e exclusiva com este especialista português pode ser acompanhada aqui

Será que Estaremos Vivos?

FUTEBOL/CORINTHIANS/TREINO

A falha de Júlio César, a mais recente entre as diversas de goleiros, coloca em debate a metodologia de treino

de Eduardo Barros, via Universidade do Futebol

Após as finais dos Estaduais-2011, muitas rodas de conversa sobre futebol tiveram como assunto principal a falha do goleiro corintiano Júlio César na jogada que terminou com o gol de Neymar, o segundo do Santos na vitória por 2 a 1, na Vila Belmiro.

Inconformado com a derrota, um torcedor (sem o amplo olhar das vitórias e derrotas num jogo) questionou um técnico de futebol, argumentando como pode ser possível alguém que tem como profissão a função exclusiva de fazer defesas, não conseguir segurar uma bola tão fácil.

Leia a história abaixo, ocorrida num destes lugares em que se discute futebol:

Torcedor: Não é possível! Ele é muito bem pago pelo que faz e “engoliu um frango” num chute rasteiro, fraco e, ainda por cima, no meio do gol. As desculpas que a grama estava molhada e a bola estava lisa não servem! Ele não poderia ter defendido?

Técnico: Poderia, sim. Mas considere toda a jogada. A recomposição da defesa do Corinthians foi lenta, o posicionamento de cobertura do zagueiro central ao lateral direito não foi bem executado e a visão do Júlio César pode ter sido atrapalhada no momento da finalização do Neymar.

Torcedor: Não interessa! Ele treina todos os dias com o preparador de goleiros e eu já vi centenas de vezes como são os treinamentos. Ele tem que defender chutes, chutes e mais chutes. Vi numa reportagem que alguns preparadores chutam até 500 bolas em um único dia. Muitos são dificílimos e incluem saltos, deslocamentos, rolamentos, quedas. Uma bola daquela não pode passar!

Técnico: Você está certo! Os goleiros defendem chutes, chutes e mais chutes, porém, escute-me: os treinamentos de goleiros um dia irão mudar!

Torcedor: Eu sei. Tenho acompanhado que alguns treinadores de goleiros utilizam raquetes e lançam bolinhas de tênis para serem defendidas. Clubes modernos dispõem até de uma máquina que dispara bolas. Tudo isso para melhorar o reflexo, certo? Espero que com isso os “frangos”, ao menos do meu time, não aconteçam mais!

Técnico: Não é bem isso que eu quis dizer. Os treinamentos que contenham disparos exagerados, seja com raquete, com máquina ou com o próprio treinador de goleiros, um dia irão acabar! Só não sei se nós ainda estaremos vivos…

Torcedor: Como assim? Se os goleiros já falham com a quantidade de treinamento de defesas que realizam, imaginem se pararem de treinar? O futebol está perdido!

Técnico: Eles não vão parar de treinar. Somente irão fazê-lo de maneira diferente!

Torcedor: Como assim?

Técnico: Chegará o dia que todos os treinamentos de uma equipe serão o mais próximo possível da realidade do jogo. O goleiro não vai ter que ficar pulando corda, cone ou estaca, pois o jogo de futebol não tem nada disso!

Torcedor: E como ele melhora a altura do salto?

Técnico: Ele não precisa saltar mais alto, e sim, na hora certa.

Torcedor: Mas e as defesas?

Técnico: Ele continuará fazendo. Não na mesma quantidade, no entanto, sobrará tempo para o aprendizado de outras questões muito importantes para o jogo.

Torcedor: Mas o que é mais importante para o goleiro do que defender?

Técnico: Não precisar defender, oras!

Torcedor: Isso é impossível!

Técnico: Não é, não! Defesas são ações técnicas bem menos realizadas do que reposições e interceptações ao longo de uma partida. Há estatísticas de jogos que uma equipe não acertou nenhum chute no gol durante os 90 minutos.

Torcedor: Incompetência!

Técnico: Ou competência da que não permitiu o chute?

Torcedor: E se uma equipe consegue chutar muito?

Técnico: Como o Barcelona, por exemplo?

Torcedor: Isso, o Barça finaliza demais! Como o goleiro se prepara para este bombardeio?

Técnico: De acordo com os números da Uefa Champions League, sabe qual a média de chutes no gol da

equipe espanhola por partida nesta competição?

Torcedor: Vinte e cinco?

Técnico: Sete!

Torcedor: Só?

Técnico: Sim! E é a melhor. Então, pra que defender mais de 200 bolas em um único dia?

Torcedor: Não sei, não sei… Estou confuso! Quer dizer que com estes novos treinamentos os goleiros não vão mais falhar?

Técnico: Vão sim!

Torcedor: E você não se importa?

Técnico: Claro que me importo, mas todos os jogadores erram…

Torcedor: Se for do meu time, vou ficar bravo sempre!

Técnico: Tudo bem, mas lembre-se de considerar toda a jogada…

Torcedor: Você já me disse isso! Me diga uma coisa: quem que está falando tudo isso? É você quem está inventando?

Técnico: Inventando, eu? Não… Quem me disse? Os mesmos que falam e escrevem que a preparação física do jogador de futebol está mudando, que os treinamentos das equipes de futebol irão mudar e que, consequentemente, o futebol brasileiro um dia irá mudar, e pra melhor!

Torcedor: Mudar? Somos pentacampeões do mundo. Você está ficando louco!!!

Técnico: É melhor pararmos por aqui…

O técnico em questão não considerou pertinente continuar a discussão, pois expressões como a função do goleiro no modelo de jogo da equipe, as regras de ação a serem executadas nos quatro momentos do jogo (ataque, defesa e transições) e o entendimento do fenômeno futebol a partir de uma visão sistêmica não seriam compreendidas. Felizmente, o diálogo ocorreu com um simples torcedor. O grande desafio é quando as justificativas têm que ser feitas para profissionais do futebol, muitas vezes sem sucesso!

Orquestra X Exército

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“A bola não entra por acaso?”

Para quem gosta de futebol, falar de Barcelona e Real Madrid é inevitável nos dias de hoje. Principalmente porque num intervalo de 18 dias, teremos o privilégio de acompanhar quatro partidas sendo disputadas entre as duas equipes espanholas: uma pelo Campeonato Espanhol 2010-2011 (empate em 1X1, em Madrid), uma pela final da Copa do Rei (vitória do Real Madrid por 1X0, em Valência) e duas pelas semifinais da Liga dos Campeões da Europa (0X2 em Madrid e 1X1 em Barcelona).

Confesso que há tempos não escrevia um texto mais elaborado, em parte por ter encontrado no Twitter (@tega) uma saída mais rápida para descarregar as ideias, mesmo que limitadas a 140 caracteres. Mas nos últimos dias consegui reunir algumas anotações, contando com ajuda dos amigos, ao fazer a seguinte provocação: como uma orquestra pode vencer um exército?

Esta analogia pode ser percebida se compararmos os desempenhos de duas das principais equipes de futebol do mundo.

O F.C. Barcelona, seria a orquestra. Repleto de músicos tecnicamente excelentes e com inteligência de jogo (*) mais consolidada e acima da média. Possui um maestro competente, de comprovada liderança e de conhecimentos suficientes para reger seus atletas e manter a harmonia da equipe, mas que não é tão fundamental…

O modelo de jogo (o norte, ou seja, como a equipe treina e se porta nos jogos, no sistema defensivo, nas transições e no sistema ofensivo) é muito bem definido e aproxima-se da excelência, e não muda em função do adversário. A posse de bola é muito valorizada durante toda a construção desse processo.

A cultura de jogo mistura-se à sua filosofia: ‘Més que un Club’ e vem sendo construída há anos, reproduzindo-se desde suas categorias de base. O perfil de seus atletas reflete muito bem esta cultura e dificilmente desafinam ou saem do tom, principalmente porque o F.C. Barcelona é um clube formador.

Já o Real Madrid seria o exército. Muito mais dependente de seu comandante, que além de ser um grande líder é peça fundamental ao criar as estratégias e armadilhas que sejam bem executadas em cada batalha. Compromete seus atletas com uma meta principal e extrai o máximo deles, individual e coletivamente. Os soldados também são considerados tecnicamente excelentes, mas com inteligência de jogo em processo de desenvolvimento. Recrutados a peso de ouro, coadunam com o perfil de clube comprador que é o Real Madrid.

Talvez por este motivo fique mais fácil perceber que o clube ainda não possui uma cultura de jogo definida. Já o seu modelo de jogo é bem executado, mas ainda distante da excelência. Mais flexível, muda de acordo com o adversário, valorizando a progressão rápida ao gol.

Se constatarmos que os imaginários “exército” e “orquestra” estão em condições iguais de disputa: mesmo número de jogadores, treinadores ávidos por colocarem seus nomes na história e onde “armas” e “instrumentos” se transformam simplesmente em suor e chuteiras, conseguiríamos determinar quem tem mais chances de sair vencedor dos confrontos?

Em quem você apostaria: na orquestra ou no exército?

Entender melhor o contexto das duas equipes pode nos preparar para realizar escolhas mais acertadas e permitir um melhor convívio com fatores que não podemos controlar. Neste sentido, competência, dedicação, estrutura de trabalho e recursos financeiros são ingredientes importantes, mas não representam tudo o que deve ser considerado.

No futebol, e na vida de forma geral, existem novas maneiras de enxergarmos uma situação, e que coloca em xeque tudo o que acreditamos saber até então.

Como afirma o ex- vice presidente do F.C. Barcelona, Ferrán Sorian, ‘A bola não entra por acaso’.

Mas talvez ela entre sim, mais do que possamos imaginar.

(*) a inteligência de jogo é a capacidade de resolver as situações-problema do jogo de maneira eficiente utilizando seu acervo técnico, tático, físico e psicológico.

O Jogo de Futebol como um Sistema: a Questão do Encaixe


de Luiz Lima, engenheiro.

Quando, lá atrás, comecei a enxergar o jogo como um sistema dinâmico e funcional, penso ter dado um passo importante – vejo isto claramente, hoje – na compreensão do futebol. Todavia, como Norbert Wiener e os cibernéticos da primeira geração, eu não conhecia a natureza intrínseca do sistema, mas sabia o que ele fazia ou realizava o que já era algo de valor. Evidentemente que o Minotauro continuava a me aguardar, no labirinto escuro do mundo da bola (sic), mas o tênue fio de Ariadne começava a se mostrar e orientar meu caminho.

Assim, uma das qualidades ou características do jogo que me despertou especial atenção foi a do “encaixe” (uso o termo na linguagem comum do esporte de propósito). Considero-a tão extraordinária que a pergunta mais dramática ou mais embaraçosa que se pode fazer a um treinador (ou a um analista esportivo) é indagar-lhe das razões pelas quais um time “se encontra” dentro de campo, desenvolve uma prática esportiva eficaz e agradável aos olhos, ditando o ritmo do jogo e auferindo uma vitória daquelas que “vence e convence”, ao final do encontro.

Não deixa de ser curioso, pois a qualidade do “encaixe” de um time pode ser apreendida inclusive a olho nu. Aliás, qualquer menino que acompanha seu pai ao estádio logo percebe se seu time do coração está jogando bem, ou se os atletas estão batendo cabeças. Outra coisa, bem diferente, é sermos capazes de avaliar o status de “encaixado” de uma equipe, ou mesmo de um atleta isolado, lançando mão de algum meio adequado.

O fator que faz a diferença: o “encaixe”

É comum ver pessoas que trabalham ou analisam o futebol preocupadas em identificar aqueles elementos cruciais, que a seu juízo “fazem a diferença” no jogo.

Tais fatores podem ser a entrega, a doação, a determinação, a disciplina, a atitude, a obediência tática, o jogador diferenciado, o esquema tático, o preparo físico, os treinos, o dedo do técnico, a estrutura oferecida pelo clube, o jogo inteligente, e assim por diante.

Na investigação científica, esta é a etapa da identificação e seleção das variáveis que, por suposição, têm o maior poder explicativo ou alta correlação com a variável explicada. Em outras reflexões que faremos neste espaço, oportunamente, voltaremos a este assunto, já que a elaboração de um modelo transita por esta etapa, de forma crucial.

Quando os estudiosos e especialistas em futebol elegem as variáveis acima (ou outras) como as mais importantes ou determinantes para se compreender o modus operandi do jogo, e deixam de fora o “encaixe”, como se fora uma quantité négligeable (*), elas estão cometendo aquele erro fatídico que nos meios acadêmicos é conhecido como “jogar fora o bebê junto com a água do banho”. O bebê, no caso, é o “encaixe” do time.

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O Uso das Informações em Tempo Real

por Eduardo Fantato, via Universidade do Futebol

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“Sociedade produz tecnologia, mas homens do futebol têm dificultado serem produtos ou produtores nela”

Esta semana estive acompanhando alguns jogos in loco. Na conversa com técnicos, auxiliares e membros da imprensa também gosto de fazer uma enquete informal sobre o que acham do uso de informação em tempo real, se utilizam, se conhecem, enfim, qual a opinião a respeito.

As reclamações foram bem centradas e direcionadas para a questão da falta de estrutura, que no Brasil é impossível desenvolver algo em tempo real, porque dependem de conexões e infraesturutra segura, etc.

Porém, no local que estávamos tudo isso, não faltava. Aliás, digo que a conexão de internet, a estrutura de tomadas, e tudo aquilo que os profissionais citaram faltar para que o uso do tempo real nas informações pudessem ser úteis, estava ali.

Poderíamos pensar, então, e com razão, a crítica ao profissional que não detém recursos intelectuais para lidar com esse tipo de informação ou algo como uma falta de atualização para lidar com a tecnologia. Confesso que minha primeira reação foi de imediato caminhar para esse rumo. O que não deixaria de ter um fundo de verdade.

Entretanto, o que mais me chamou a atenção foi mesmo a falta de cultura, e digo o porquê isso pesou mais em relação ao segundo item comentado. Se os profissionais não soubessem ou não tivessem acesso, não estariam utilizando uma série de recursos em tempo real. Chats online, Twitter, Facebook, enfim, tudo funcionando com a estrutura que eles julgam precária quando pensam em informação estatística para análise do jogo. O que sabemos muito bem, não precisa de nada além do que faz rodar ali esses outros serviços.

Tampouco estava diante de um grupo de pessoas “analfabetas tecnologicamente”, pois ali estavam com celulares modernos, netbooks, notebooks, iphones, ipads, etc. Na hora que começou o jogo, tudo foi deixado de lado e retomado após o término ou nos intervalos que permitiam seu manuseio.

Isso me leva a questões que começamos a levantar no texto da semana passada: será que não se desenvolve esse campo por falta de estrutura ou de pessoal que saiba manusear?

Embora aquele possa ser o argumento para muitos que militam no meio e este outro o argumento de outros que estudam e atuam no segmento, como este autor que vos escreve, a verdade é que tanto estrutura e pessoas aptas para lidar com os recursos ali estavam.

Então, o que falta? Não tenho uma resposta clara e precisa, gostaria sinceramente de tê-la, mas não fugirei de emitir minha opinião. Acredito que falte uma cultura de lidar com estatística esportiva, e o termo cultura aqui pode ainda que superficialmente lembrar os conceitos de Geertz na Antropologia, contato este que tive através das aulas do professor Jocimar Daolio, sobre o homem ser produto e produtor de cultura.

A sociedade hoje produz tecnologia, mas parece que os homens do futebol têm dificultado serem produtos ou produtores nela em seu meio. Sei que recorri a um argumento das ciências humanas, muitas vezes recusado no meio esportivo de alto rendimento, mas não tenho receio de me basear nele, pois primeiramente acredito na sua contribuição, e para quem ainda precisa de mais referências, fico com as defesas de Jose Mourinho e Manuel Sergio às ciências humanas no futebol.

Talvez pensar o futebol por essa perspectiva ajude a compreender o papel da tecnologia, da informação estatística, por mais paradoxal que isso possa parecer. Continuemos o debate em outro momento para esmiuçar esse paradoxo de como uma tecnologia pautada em informação objetiva e até certo ponto positivista pode ser mais bem entendida quando a partir de uma análise mais humana – ainda que esse termo me cause arrepios, porque tecnologia não deixa de ser humana em nenhum momento, mas isso são outros quinhentos…

Frase da Semana

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“Todos os treinadores falam de movimento, de ter de correr muito. Eu digo: não corram muito. O futebol é um jogo que se joga com o cérebro. Tens de estar no local certo, no momento certo, nem antes nem depois.”

(Johan Cruiff, ex-jogador e técnico de futebol)

Instinto Falho

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Um paralelo de duas jovens promessas do futebol mundial com histórias bem distintas

por Oliver Seitz, via Universidade do Futebol

Aos 15 anos de idade, Neymar da Silva Santos Júnior já era apontado como uma grande promessa do futebol brasileiro. Destaque das categorias de base do Santos, recebia salário, comida em roupa lavada em sua cobertura, que – ao que tudo indica – ganhou com treze anos.

Durante seu período na base do Santos, Neymar foi convocado diversas vezes para a seleção brasileira de base e com 17 anos estreou no time profissional do Santos. Demorou pouco para Neymar começar a se destacar. No seu primeiro ano como profissional, ainda aos 17, foi eleito o melhor jogador do campeonato paulista.

No ano seguinte, em julho de 2010, aos 18 anos, foi convocado para a seleção brasileira adulta. Apontado, e apontando-se, como a grande revelação do futebol brasileiro nos últimos anos, recebeu uma proposta de 35 milhões de Euros do Chelsea em agosto de 2010 e recusou.

Em setembro do mesmo ano, envolveu-se em uma série de polêmicas que culminou com ofensas públicas ao seu técnico durante uma partida, que acabou gerando a demissão do mesmo técnico. Na convocação seguinte para a seleção brasileira adulta, seu nome não apareceu.

Aos 15 de idade, Tiago Manuel Dias Correia perambulava livremente pelos becos de Lisboa, sem lá grandes perspectivas para vida. Abandonado pelos pais desde muito cedo, havia sido inicialmente cuidado pela vó, mas uma ordem judicial o obrigou a se mudar para um abrigo administrado por uma igreja na periferia lisbonense aos doze anos de idade. Logo depois da mudança, começou a treinar em um clube amador das redondezas, mas sem despertar maiores atenções.

Aos 19 anos, foi convidado, junto com outros sete colegas de abrigo, a integrar o time da CAIS, uma ONG portuguesa que trabalha na melhoria das condições de vida de pessoas sem-teto, que viajaria para a Bósnia para participar do campeonato mundial de futebol de rua. Em seis jogos, Tiago marcou 40 gols. Logo em seguida, quase foi convocado para participar do campeonato mundial dos sem-teto, mas, no mesmo ano, acabou indo parar no Estrela da Amadora, clube da segunda divisão portuguesa.

Depois de uma temporada em que marcou quatro gols em 26 jogos, Tiago assinou de graça com o Vitória Guimarães, uma vez que o Estrela não pagou seus salários. No Vitória Guimarães, Tiago não jogou nem uma partida oficial sequer. Depois de uma impressionante pré-temporada em que marcou cinco gols em seis partidas, Tiago mudou de time.

Ontem, Tiago, o Bebé, fez sua estréia oficial com a camisa do Manchester United, que pagou mais de sete milhões de libras para contratar um jogador que a pouco mais de um ano estava disputando um torneio de futebol de rua no time de uma ONG que cuida de sem-teto.

Neymar pode se tornar o maior jogador brasileiro de todos os tempos. Bebé pode se tornar uma aposta romântica, mas fracassada de Alex Ferguson. Mas Neymar pode se tornar mais uma promessa brasileira que não vingou e Bebé pode vir a ser o maior jogador português da história. Ninguém sabe dizer ao certo. A complexidade humana impede qualquer prognóstico razoável sobre o que torna um jogador bom ou ruim. É tudo baseado em percepções intuitivas que nos levam a determinar fatos e ações. Mas a nossa intuição é bastante falha. Um ano e meio atrás, Neymar morava em uma cobertura e Bebé morava em um abrigo para sem-teto. Quem consegue prever qual será a situação um ano e meio pra frente?

Ordem no Caos

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“Tornar simples o que é complexo é uma dificuldade de qualquer profissional”

por Tostão

Quando entrei no curso de psicanálise, imaginei que jamais entenderia as ideias de Freud. Logo, percebi que seus textos eram tão claros, convincentes e simples, que até os mistérios da alma tinham lógica. Freud colocou ordem no caos.

Quando joguei ao lado de Pelé, percebi que uma de suas principais qualidades era tornar simples o que era complexo. Tudo se iluminava à sua frente. Antes de a bola chegar, Pelé parecia me dizer, com seu olhar vivo e amplo, tudo o que ia fazer. E fazia, porque tinha uma excepcional técnica. Muitos pensam e não fazem. Outros fazem (mal), sem pensar.

Há muitos jogadores habilidosos, que ensaiam grandes jogadas, mas nada acontece, por falta de técnica e/ou porque não sabem os caminhos mais simples. Enrolam. Parecem talentosos, mas não são. O talento vai muito além da habilidade. O talento é a união da habilidade, da técnica, da criatividade e de condições físicas e psicológicas.

Nada disso é suficiente se não houver o sopro, a chama, que ilumina e incendeia nossas vidas.

O mesmo ocorre em todas as atividades. Assim como os melhores professores não são sempre os melhores médicos, os melhores treinadores não são sempre os que têm mais conhecimentos técnicos, táticos e informações. São os que possuem tudo isso e mais a capacidade de observar, intuir e simplificar.

Não existe também o ótimo técnico somente prático, que fala a “linguagem dos boleiros”, sem ter conhecimentos científicos. A teoria sem a prática é incompleta. A prática sem a teoria é uma grosseira simplificação.

O jovem técnico do São Paulo, Sérgio Baresi, chama atenção em suas entrevistas pelo excesso de palavras e expressões técnicas, acadêmicas, algumas incompreensíveis. Além da insegurança de um jovem, tentando mostrar seus conhecimentos, Baresi, por seus gestos e palavras, parece um estudioso, um CDF, que acabou de sair, após longo tempo, de um laboratório de pesquisas.

Uma ótima reportagem mostrou em um jornal paulista mostrou que Baresi dá treinos com cinco gols, cinco goleiros, faz coletivos com mais de 22 jogadores e outros detalhes, além de distribuir pendrives e DVD´s para os jogadores conhecerem os adversários. Tudo com base científica.

Tomara que Baresi não seja apenas um teórico. O futebol precisa de treinadores e de profissionais que saibam como fazer e que saibam fazer.

O que explica o Internacional

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“…se você pretende dar um passo acima da análise normalmente superficial feita pelos atores envolvidos no futebol, você precisa ir além.”

Via Universidade do Futebol, por Oliver Seitz.

Analisar sucesso no futebol é sempre uma tarefa complicada e recheada de erros. Quando um time ganha uma partida, isso obviamente faz dele melhor do que o time que perdeu, do contrário o resultado não teria acontecido, independente das variações probabilísticas em curso. Daí a dizer que esse time que ganhou é sempre melhor do que o perdedor ou do que outros com quem ele nem jogou, há um abismo. E esse abismo, muitas vezes, não é respeitado.

Você já leu aqui que futebol é um fenômeno cíclico. Um amigo sabiamente me disse certa vez que todo jogador, independente do quão perna-de-pau for, um dia será chamado de craque. E provavelmente voltará a ser chamado de perna-de-pau pouco tempo depois. O mesmo acontece com times. Todo time será considerado bom em um dia e será considerado ruim no outro, para voltar a ser considerado bom, para depois retornar à ruindade. E assim a roda vai girando. É natural que times passem por ciclos de sucesso e de fracasso.

Esses ciclos, porém, tem sempre alguma motivação. Eles não são decorrentes de processos descontrolados, muito pelo contrário. São frutos de situações, trabalhos e projetos que fazem com que o time obtenha sucesso ou não. Muitas vezes esses processos são invonluntários, o que torna o sucesso instantâneo e breve. Em outras tantas, não.

Assim, se você pretender dar um passo acima da análise normalmente superficial feita pelos atores envolvidos no futebol, você precisa entender que se um time ganha um campeonato, pode ser sim por uma conjuntura única de fatores que dificilmente conseguirá ser replicada. Quando isso acontece, há pouco o que se comentar ou se estudar. Porém, quando um time consegue manter um alto nível de performance por alguns anos em sequência, aí sim há alguma coisa maior acontecendo com ele.

O Atlético Paranaense é um exemplo. No final dos anos 90, o clube conseguiu inventar um mercado novo de atuação, a transferência de atletas medianos. Começou a buscar jogadores desconhecidos e revendê-los para clubes mais ricos no Brasil e, principalmente, no exterior. Com isso, o clube conseguiu ampliar consideravelmente sua receita, o que o levou a entrar em um ciclo de vitórias que teve a primeira clara manifestação em 2001, com o título brasileiro, e terminou em 2004, com o vice-campeonato. A partir dali, o mercado que ele criou passou a ser ocupado por outros clubes, como São Paulo e Cruzeiro.

Em 2002, com a revelação de uma excepcional safra de jogadores, o Santos conseguiu iniciar um ciclo que resultou em dois títulos nacionais e durou até 2007. Em 2005, o São Paulo, com a atuação forte no mercado de empréstimos e de jogadores em fim de contrato, conseguiu criar um outro ciclo de sucesso, que pode ou não estar próximo do fim, possivelmente por conta da entrada de grupos de investidores no mercado, que criou uma nova fase no mercado de jogadores brasileiros e tornou escassa a disponibilidade de jogadores minimamente talentosos por um preço razoavelmente baixo.

O grande beneficiário dessa nova fase do mercado de transferências, com grandes grupos atuantes, parece ser o Internacional, que se relaciona muito bem com estes grupos e tem uma ligação quase que de mecenato com um dos maiores investidores existentes. E esse ciclo, que só se tornou possível por conta de grandes reformulações que o clube no início desse século, é o que pode explicar o grande sucesso do time, que culminou com a nova conquista da Libertadores.

Muito vai se dizer nos próximos dias sobre como que o programa de sócios do Internacional é fundamental para o sucesso do clube. Por mais que o programa seja louvável, porém, a influência dele no sucesso do time é mínima. Se muito, pode complicar o clube no futuro próximo, já que muitos desses mais de 100 mil sócios vão querer se eleger para a presidência ou diretoria, o que possivelmente tornará a disputa política interna algo com um potencial bastante destrutivo para a estrutura administrativa do clube, que precisará ser recheada de acertos, arranjos e favores políticos. No mais, independente dos sócios, a média de público do clube gira em torno de 17 mil torcedores, o que é pouco para ser considerado uma força diferenciada em relação a outros clubes.

Aparentemente, o que responde mesmo pela qualidade recente do time é a enorme habilidade do clube em negociar com diferentes grupos privados, seja na venda ou na compra de atletas, tanto nas equipes de base quanto na equipe profissional. Ao que tudo indica, o Internacional faz isso muito, muito bem, o que é louvável. Resta agora apenas saber quanto tempo vai levar para que o mercado mude ou para que alguém comece a fazer isso melhor do que ele.

Por dentro da Cabeça do Craque

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“Novas pesquisas revelam que os craques têm raciocínio mais rápido – e que o talento para brilhar na Copa está no cérebro, não nos pés dos jogadores”

Revista Época

O público quer ver golaços, jogadas improváveis e dribles impossíveis na Copa do Mundo que começa nesta sexta-feira, dia 11, na África do Sul. Foi assim na Copa de 1958, da Suécia, quando Pelé, com apenas 17 anos, deu um chapéu em um adversário e fez um gol inesquecível na final. E em 1986, no México, quando Maradona driblou toda a defesa da Inglaterra desde o meio de campo e marcou um dos mais belos gols da história do futebol. E também em 2002, no Japão, quando Ronaldo, superando duas cirurgias no joelho, teve raciocínio rápido para aproveitar um rebote do goleiro alemão Kahn e abriu o placar na decisão contra a Alemanha. Nesta Copa, os torcedores esperam ver jogadas assim sair dos pés do brasileiro Kaká, do português Cristiano Ronaldo ou do argentino Lionel Messi; ou então testemunhar as brilhantes defesas do goleiro brasileiro Julio César. Todos sabem que, em comum, eles têm um preparo físico excepcional, agilidade e força. Agora, segundo alguns dos mais avançados estudos da ciência do esporte, começa a ficar claro que todos eles também são donos de um cérebro com desempenho acima da média. O segredo da genialidade dos jogadores de futebol não está nos pés, mas – como para todos os gênios da humanidade, de Einstein a Mozart – na cabeça.

Nos últimos anos, pesquisadores tentaram compreender cientificamente aquilo que para o torcedor comum é apenas motivo de encanto. Estudaram como agem e raciocinam os atletas de elite. Compararam esses resultados ao desempenho de jogadores iniciantes – e de “mortais” como nós, sem intimidade com a bola. E concluíram que a diferença entre uma pessoa comum e um craque não é apenas coordenação motora. Eles também têm memória e raciocínio privilegiados. “Eles são duas vezes melhores do que uma pessoa s comum em termos de memória e agilidade visual”, diz o neuropsicólogo Erik Matser, da Universidade de Maastricht, Holanda, uma das referências na área. “Apenas uma em 1 milhão de pessoas tem um desempenho tão acima da média nessas duas habilidades.” Esse é o resultado de um estudo, antecipado a ÉPOCA por Matser, que será publicado no próximo semestre.

Matser trabalhou com jogadores do Chelsea, o campeão inglês, e de times profissionais da Holanda. Começou estudando os efeitos das pancadas no cérebro de boxeadores, nos anos 90, em Nova York. Acabou descobrindo que, mesmo expostos a riscos ao longo da carreira, eles tinham um desempenho acima da média da população para memorizar informações e perceber estímulos visuais. De volta à Holanda, em 1996, Matser fez testes de raciocínio com jogadores de futebol e acompanhou seu desempenho por dez anos. Ao fim, comparou os resultados dos convocados para a seleção holandesa aos dos não convocados. Como esperava, o desempenho dos jogadores da seleção foi melhor.

“Não é verdade aquela história de que atletas são muito bons com o corpo, mas não com o cérebro”, diz o neurologista John Krakauer, um dos diretores do laboratório de desempenho motor da Universidade Colúmbia, em Nova York. “O que leva um jogador a ser tão bom é antecipar e entender as ações dos outros colegas e adversários para fazer a melhor jogada.” Krakauer investigou o mecanismo que permite a atletas de alto desempenho processar em milésimos de segundos uma infinidade de variáveis. Ele e outros dois colegas publicaram recentemente, na revista científica Nature Neuroscience, uma hipótese para explicar o que acontece na mente de jogadores excepcionais, como Kaká ou Messi. Eis o que o cérebro deles faz melhor:

1. processar com rapidez os estímulos visuais do ambiente, como a posição dos jogadores no campo;

2. memorizar um grande repertório de jogadas;

3. antecipar o movimento de outros atletas;

4. combinar, numa fração de segundo, todas as informações para tomar a melhor decisão.

A cada ano, milhões de crianças começam a praticar o futebol sonhando em disputar uma Copa. Apenas 736 têm esse privilégio a cada quatro anos. O torneio reúne apenas aqueles com um talento extraordinário, como Kaká. Na África do Sul, o meia do Real Madrid, da Espanha, disputa seu segundo mundial. “Desde pequeno, ele mostrava uma visão de jogo fora do comum”, diz Milton Cruz, auxiliar técnico do São Paulo. Ele treinou Kaká nas divisões de base. Aos 8 anos, o menino já chamava a atenção. “Com muita facilidade, ele deixava os companheiros na cara do gol.” Em 2001, a um mês de completar 19 anos, Kaká foi escalado no time adulto do São Paulo, contra o Botafogo, durante a final do Torneio Rio-São Paulo. Aos 34 minutos do segundo tempo, colocou-se de frente para o gol. Recebeu uma bola na entrada da área, tirou a defesa da jogada, enganou o goleiro e marcou seu primeiro gol como profissional. O segundo veio na mesma partida e deu o título ao São Paulo. Começava ali uma carreira de fama internacional, cujo ápice – por enquanto – foi o título de melhor jogador, concedido pela Fifa, em 2007.

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