Quem Entende Alguma Coisa de Futebol?

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Quem entende alguma coisa de futebol?

Faço esta pergunta todo começo de ano, tentando encontrar alguma sábia resposta para uma das principais questões sobre o esporte bretão, ponderando o que aconteceu no ano anterior e o que pode vir a acontecer no ano que se inicia.

E a resposta ainda permanece a mesma: ninguém.

Simples assim.

Há alguns anos, chegava até a me incomodar com as tamanhas certezas dos principais “conhecedores de futebol” no país.

Agora, um pouco mais maduro, anoto algumas dessas verdades e dou risada com os amigos, confrontando-as com a realidade que se consumou.

Talvez o futebol seja o esporte mais parecido com o homem: complexo, racional (lógico), intuitivo, sensível, criativo e, repleto de fé e outras crendices.

E, da mesma maneira, talvez seja por essa razão que nunca será tão simples assim dar certezas absolutas antes da bola rolar.

Viramos o ano e nossa principal referência no futebol é o Flamengo, atual campeão brasileiro, com sua maravilhosa e imensa torcida e de igual magnitude em dívidas.

Mas vale reforçar que, se não fosse a falta de ego do treinador Andrade em perguntar ao recém contratado Petkovic de que maneira o camisa 10 gostaria de atuar, duvido que a sexta estrela estaria no peito dos rubro-negros este ano.

O humilde Andrade ouviu e colocou em prática: organizou a equipe em função do talentoso sérvio de 37 anos, que produziu como poucos, atuando mais solto pela esquerda, chegando para finalizar e ajudando na marcação até o meio-campo.

E quantos de nós não imaginou o óbvio: que Petkovic, contratado pelo Flamengo em troca de dívidas, era uma barca furada?

E em relação a Ronaldo? E ao forte Palmeiras, que ficava ainda mais forte com Muricy e Wagner Love?

A reflexão aqui não está por conta das análises e previsões de jornalistas e da grande mídia em geral. Nem sobre as besteiras repetidas todos os anos por alguns comentaristas. Longe disso.

Para quem quer enxergar, o futebol está cercado de ciências aplicadas. No seu sentido mais amplo, ciência (do Latim scientia, significando “conhecimento”) refere-se a qualquer conhecimento ou prática sistematizada.

E, por não sermos conhecedores mais profundos desses conhecimentos, não sabemos de futebol como deveríamos. Simples assim.

“O futebol nos mostra com suas subjetividades, com o seu dia a dia e com suas incertezas, tudo isso que a gente sabe que pode acontecer para uma equipe ou para a outra.” (Mano Menezes, 2009.)

Para 2010, já anotei algumas certezas dos “conhecedores de futebol” e gostaria de compartilhar com os leitores deste blog:

a África do Sul já está desclassificada na primeira fase da Copa do Mundo;

o Brasil será o primeiro do grupo G na primeira fase da Copa do Mundo;

o Corinthians é franco favorito para o título da Libertadores;

o Corinthians será desclassificado na primeira fase da Libertadores, pois os jogadores contratados são velhos e futebol é pra gente jovem;

o Barueri irá cair para a série B.

Desculpem me por saber tão pouco sobre futebol, mas será que vai ser simples assim?

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Jogador de Futebol para a Prática de Atletismo

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Cristiano Ronaldo é o jogador mais rápido do mundo, diz estudo do jornal alemão Der Spiegel.

O trabalho envolveu os jogadores dos principais clubes do planeta e levou em conta a melhor marca atingida por estes atletas em corridas em direção à bola. Assim, Cristiano Ronaldo ficou com o topo da lista com 33,6 km/h.

Pois então, sugiro ao atleta que participe das provas de atletismo do selecionado português, que tal?

Ser um jogador de futebol veloz garante exatamente o quê?

Aliás, a velocidade no futebol é muito relativa.

Por exemplo, o estudo do periódico alemão compreende a velocidade em direção até a bola.

Mas que tal discutirmos a velocidade com a bola nos pés, ou melhor, a velocidade tática no futebol? Proponho um desafio:

Usain Bolt, o jamaicano que impressionou o mundo batendo seguidos recordes nas provas dos 100 e 200m, contra o meia Deco, do Chelsea.

Utilizando um campo de futebol como “pista de corrida” e criando um percurso irregular, semelhante às características do traçado de uma jogada em direção ao gol, será considerado o vencedor quem antes chegar na linha de fundo, partindo com a bola nos pés e mantendo-a junto ao corpo durante todo o deslocamento.

Será que Deco, com seus 67kg e de estatura mediana seria um adversário à altura de Usain Bolt?

Façam suas apostas.

Eu já fiz a minha.

Centenário do Coritiba

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“O que se busca é a vitória. E está aí justamente o que faz da indústria do futebol um fenômeno que não pode ser observado única e exclusivamente sob a ótica corporativa, tampouco financeira.”

por Oliver Seitz, via Universidade do Futebol

Permita-me começar essa coluna prestando uma homenagem aos 100 anos do Coritiba Foot Ball Club, completados em 12 de outubro, clube que abriu as portas para que eu pudesse por em prática algumas das poucas coisas que eu conheço e aprender muito, mas muito mesmo, sobre como de fato funciona um clube de futebol.

E, acredite, é bem diferente daquilo que normalmente se imagina.

Os precisos e antecipadamente planejados 365 dias que eu fiquei no clube, de janeiro de 2008 a janeiro de 2009, abriram a minha cabeça sobre o funcionamento de uma associação esportiva e sobre a indústria do futebol como um todo. Fizeram com que eu entendesse pelo menos uma parte das razões que levam a indústria do futebol a assumir a forma que possui hoje.

Antes que você se questione, não. Eu não sou torcedor do Coritiba. Mas aprendi a respeitar a instituição e a sua centenária história. E talvez justamente por não ser torcedor, pude manter uma distância que me permitiu analisar as coisas de uma maneira mais fria, desprovida de emoções excessivas.

Essa distância me permitiu perceber quem são de fato os principais stakeholders de um clube, quem é que, efetivamente, pressiona e influencia o processo decisório e como o que importa, no fim das contas, é o resultado em campo, independente do meio necessário para se atingir isso. Sempre foi. Sempre será. No Brasil e em qualquer lugar do mundo que tenha futebol de primeiro nível, com raríssimas exceções.

Afinal, não se torce para um clube por outra coisa. O que se busca é a vitória. De preferência, no curtíssimo prazo. Se possível, em todos os campeonatos em que se participe.

E está aí justamente o que faz da indústria do futebol um fenômeno que não pode ser observado única e exclusivamente sob a ótica corporativa, tampouco financeira. Se um clube gera dinheiro, ele obrigatoriamente precisa gerar custo. No futebol, principalmente no modelo associativo, não existe superávit. Porque não há redistribuição de dinheiro. Porque, no fim das contas, ninguém quer ganhar dinheiro de volta. Pelo menos não aqueles de boa índole.

A peculiar verdade futebolística é que nenhum torcedor é consumidor. Porque ele não consome produtos. Ele paga para obter a glória refletida. E glória, no esporte, se alcança quase que unicamente através de vitórias. Ninguém consome banheiro limpo, arquibancada confortável, produto de boa qualidade. Não. Qualquer produto que eventualmente seja adquirido só o é por uma razão simbólica e não funcional. De que adianta uma linda camisa de um clube que nunca ganha ou ganhará nada? De fato, nada.

Essa linha de pensamento obviamente não é a ideal, muito menos a corrente entre o intelectualismo existente. Mas é a verdadeira. É a que move um clube de futebol. E não tem como fugir disso. Qualquer alteração nesse pensamento acabaria com a razão fundamental da existência de um clube de futebol. Não pensar primordialmente em obter glórias é uma desvirtuação de sentido de um clube de futebol. Porque ele existe essencialmente para isso. E muito pouco além.

Quem comanda um clube de futebol sabe muito disso. Sente na pele. Aprende. No dia a dia. Nos intermináveis elogios após uma vitória. Nas incansáveis críticas após uma derrota. Dói, mas eventualmente aprende.

Essa é a natureza de um clube de futebol. Pura e simples. Foi por isso que ele nasceu. É a sua essência.

Por isso que eu agradeço ao Coritiba por ter me aberto as portas para que eu pudesse entender esse indispensável ponto de vista. Sem a experiência que o clube me proporcionou, é possível que toda a minha pesquisa adotasse um viés completamente incompatível com a realidade dos fatos.

E sem entender a realidade, não há como sugerir melhorias factíveis.

Parabéns. E muito obrigado.

A Velocidade Tática no Futebol

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“Penso que tem de haver no fundo de tudo, não uma equação, mas uma idéia extremamente simples. E para mim essa idéia, quando por fim a descobrirmos, será tão convincente, tão inevitável, que diremos uns aos outros: Que maravilha! Como poderia ter sido de outra maneira?” (John Archibald Wheeler)

por Rodrigo Leitão, Via Universidade do Futebol

Comecemos com o conto do “Macaco que queria ser mais rápido do que o Guepardo”.

“Depois de muitos anos sem se ver (havia pelo menos três, desde a última conversa no zoológico) o “Macaco da Floresta” e o “Guepardo das Savanas” marcaram de se encontrar. Já na época do zoológico os bichos mais chegados viviam desafiando os dois amigos a provar quem era o mais rápido. O guepardo, famoso pelas arrancadas nos descampados do zôo nunca se incomodou; sempre teve claro para si que era o mais rápido. O macaco por sua vez acreditava que nenhum outro animal poderia ser mais rápido do que ele nos emaranhados labirintos de árvores da mini-floresta em que vivia.

Meio dia era o horário do encontro; mas faltando cinco minutos, lá já estavam os dois a conversar. Falaram do passado, das saudades, da boa e velha amizade e (impossível não resgatar o assunto!) sobre o “desafio da velocidade”.

Os dois perceberam que se esperassem mais algum tempo, com a idade chegando, já não estariam aptos a desenvolver as grandes velocidades que os faziam famosos no zoológico. Como não sabiam quanto tempo mais levariam para se encontrar novamente resolveram enfim por em prova o desafio.

O guepardo, sem hesitar, logo propôs uma corrida de 300 metros numa savana próxima dali. O macaco, reflexivo, não gostou muito da idéia e disse que o melhor mesmo era que corressem por um trecho de 500 metros por uma floresta que os humanos chamavam de Amazônia.

Como não chegavam a um consenso, sabiamente resolveram fazer duas provas: uma na savana e uma na floresta.

Sem avisar os outros bichos (só a águia ficou sabendo), prepararam o desafio. No primeiro dia iriam à savana, e no outro à floresta.

Na savana, com mais de 15 segundos de diferença o guepardo venceu tranqüilo e sorridente. O macaco, por mais que tenha se esforçado não conseguiu chegar nem perto.

Na floresta, não teve jeito. O guepardo acelerava e logo dava de frente com uma árvore. A cada um ou dois segundos precisava desviar de um obstáculo. Resultado, com mais de 15 segundos o macaco chegou na frente.

Embaraçados e sem saber quem era o mais rápido consultaram a velha e sábia águia, que sem pestanejar logo concluiu: vocês dois são os mais rápidos. Cada um no seu ambiente específico; cada um naquilo que faz diariamente no seu habitat.

O guepardo, insatisfeito com a conclusão da águia, resolveu consultar uma equipe de bichos fisiologistas acostumados a trabalhar com atletas. Depois de algumas fotocélulas e alguns “tiros” (leia sprints) de 30, 40, 100 e 400 metros a conclusão (os fisiologistas foram taxativos!) chegou nua e crua: o mais rápido era o guepardo.

Como o macaco e o guepardo eram amigos e não queriam ficar discutindo o assunto, foram até a casa do macaco na floresta beber uma “seiva”. E foi aí que ocorreu uma tragédia. Depois da queda de um balão a floresta ficou em chamas e o fogo rapidamente começou a se alastrar. Quando o macaco e o guepardo perceberam já era tarde e precisaram sair correndo (estavam a uns 30 segundos da clareira mais próxima).

Tinham que correr; rápido, 30 segundos talvez não fosse tempo suficiente. E realmente não foi. O macaco conseguiu escapar (em 10 segundos estava livre do fogo). O guepardo, pressionado pela necessidade de ser rápido e desorientado pelas mudanças de direção que fazia para não bater nas árvores, acabou virando cinzas junto com elas”.

Ainda que isso tudo seja somente um “conto”, me traz boas reflexões a respeito do jogo de futebol.

Em um passado recente o futebol fora dominado pelo raciocínio de que a “supremacia” física seria a solução imediata para conquistar êxitos nos resultados dos jogos. Jogadores mais fortes, velozes e resistentes levariam vantagem sobre seus pares não tão avantajados, e esse deveria ser o novo norte da preparação do jogo.

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O Caso Ronaldo no Corinthians

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Ingredientes Humanos Essenciais para o Sucesso

Quando a ciência por si só não é suficiente

“O futebol continua a querer ser a arte do imprevisto. De onde menos se espera chega o impossível, o anão dá uma lição ao gigante e um negro mirrado e de pernas tortas faz do atleta esculpido na Grécia um tonto”.
(Eduardo Galeano, Futebol: Sol e Sombra)
Enganam-se aqueles que acreditam que apenas as medidas físicas e os índices de velocidade e de força determinam a eficácia de um jogador.

E da mesma forma, que o executivo do futebol, gestor profissional ao pé da letra, nem sempre é a solução de todo o mal do esporte bretão e resposta imediata para o sucesso.

Se Andrés Sanchez fosse um executivo, praticante árduo das ciências administrativas, dificilmente a liga entre Ronaldo e Corinthians teria acontecido. Os torcedores e o presidente corinthiano caíram nas graças do recém contratado e o mesmo aconteceu com o atacante.

Ronaldo encantou-se com o ambiente: o de trabalho e o fora dele, e que muitas vezes era ciceroneado pelo próprio presidente.

Tenho dúvidas se um executivo da bola, profissional na acepção da palavra, entenderia a importância desta ligação, ou se saberia construir esta fina argamassa das relações humanas que não se enxerga a olho nu.

Na verdade, tenho a impressão que um gestor frio e calculista dificilmente investiria num atleta com histórico de lesões como o de Ronaldo e que vinha há anos produzindo muito pouco ou quase nada.

Mas é fato que tal modelo de gestão vem funcionando no curto prazo, embora ninguém possa garantir que continuará funcionando também no médio ou longo prazo. Ou seja, esta ‘fórmula’ não é garantia alguma de sucesso a ser reeditado.

Outro aspecto interessante deste ‘fenômeno’ é a compreensão de que o atleta não é apenas um feixe de músculos que é medido através da interpretação fria dos resultados das avaliações físicas e fisiológicas (dobras cutâneas ou percentuais de gordura incluídos).

Ronaldo (aliás todo atleta) é um ser humano único, sensível, emotivo, que ri, que chora, que sente dores e tem, enfim, necessidades biológicas, psicológicas, sociais e espirituais que precisa ser bem compreendido, mesmo que de forma apenas intuitiva.

Talvez, se estivesse com quatro ou cinco quilos a menos, não estaria tão à vontade, descontraído e feliz. Portanto, provavelmente poderia não ser tão eficiente quanto é (está) hoje.

Para este tipo de compreensão, há que ter muita intuição… e esta, não se estuda nos livros.

Como nos ensina Albert Einstein “não há ciência sem imaginação”. E assim como não pode haver prática sem teoria, também não pode existir teoria que não tenha inspiração na prática.

E é a persistente capacidade de surpreender do futebol que torna Ronaldo um de seus mais genuínos representantes.

A Responsabilidade Científica do Futebol

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“…Agora, meu querido amigo, sou eu a perguntar-lhe: todos os jogadores do seu clube acreditam no treinador e naquilo que ele determina ou propõe?”


por Manuel Sérgio, via Universidade do Futebol

Já o Sporting tinha sido excluído da Champions League, por duas derrotas descomunais e o Benfica, ainda na fase de grupos, sofrera igual tratamento porque mostrou, sem margem para dúvidas, que se encontrava corroído por uma espécie de cancro de que não se conhece a origem – e eis que por causa de um erro do árbitro Lucílio Batista, na final da Taça da Liga, o mundo lisboeta do futebol rompeu em sanhudos debates, sustentando os sportinguistas que o árbitro os “roubara” propositadamente e os benfiquistas que a Taça lhes coube, em clara honradez de processos.

Entretanto, o F.C. Porto assiste do pódio de campeão, piscando um olho discreto e vencedor, à conversa azeda entre os dois principais clubes da capital, que parecem viver em clima de marasmo, derrotismo, de verdadeira confusão mental.

Com efeito, o que é a Taça da Liga? No âmbito europeu – muito pouco! No âmbito nacional, é uma prova que serve, à maravilha, para o Sporting e o Benfica esconderem a sua gritante incapacidade à conquista do Nacional de Futebol e para se afirmarem no futebol europeu.

Não ponho em causa as poucas e lúcidas páginas que justificam a Taça da Liga. O que está aí, à vista de toda a gente, é que os principais clubes, ou olham para ela com um olhar lateral e sem interesse, ou fazem o que os actuais Benfica e Sporting (e digo actuais porque já os conheci, quando escreveram páginas imorredoiras, na história do nosso futebol) parecem ser especialistas: legarem à posteridade um retrato onde se surpreendem os tiques e os ridículos de uma macrocefalia que se fez acéfala.

E, no entanto, há no Benfica e no Sporting funcionários e técnicos (incluindo os de saúde) de eloquente competência e honestidade. Uma boa parte deles conheço-os, há largos anos. Alguns muito me ensinaram, quando foram meus alunos. O que se passa então, no futebol sénior destes clubes, que se encontra confuso e envolto em sucessivos falhanços, mascarados por longas disputas e cansativas parlengas?

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Como Analisar uma Equipe Campeã ?

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“…A análise torna-se mais ampla e desencadeia uma visão mais sistêmica das coisas, detectando fragilidades e permitindo intervenções que, na maioria das vezes, não seriam notadas.”

A cultura do campeão em nosso país traz consigo várias mazelas, quase impossíveis de serem tratadas no curto prazo. Estamos falando de um paradigma existente em nossa sociedade, que contamina a todos: torcedores, profissionais do esporte, críticos e, principalmente, a imprensa em sua maior parte.

A referência principal, é claro, passa a ser a equipe que alcançou a primeira colocação. Seus atletas e a comissão técnica passam a ser imitados e, igualmente, seus métodos de trabalho.

E a análise sobre o vencedor, que poderia ser rica e ampliada à diversos fatores, quase sempre é óbvia e unânime.

E a unanimidade não é burra, como diria Nelson Rodrigues. A unanimidade é míope… mas com certeza, nos permite enxergar exceções.

Uma equipe de jogadores bem treinados ou uma comissão técnica integrada e bem articulada são exemplos de unanimidade inteligente. Outro bom exemplo são os pedagogos do esporte, unânimes ao afirmar que o aluno (ou atleta) pode descobrir o prazer de aprender se for devidamente bem estimulado.

E quais aspectos poderiam ser analisados numa equipe que é referência por ter alcançado um título ou a primeira posição da tabela? Aspectos que permitam ir além dos números estatísticos e dos scouts técnicos do jogo e que efetivamente revele a qualidade do trabalho realizado?

Abaixo são apresentados 15 aspectos gerais de uma equipe de futebol, onde cada um é composto de parâmetros específicos e que podem ser coletados no dia-a-dia dos treinamentos e jogos. A análise de cada aspecto pode ser realizada periodicamente, de acordo com os objetivos da comissão técnica.

1. Qualidade Técnica da Equipe;

2. Condição Atlética da Equipe;

3. Padrão Tático de Jogo da Equipe;

4. Perfil Psicológico dos Atletas;

5. Coesão de Grupo – Consciência Profissional Coletiva;

6. Atitude dos Atletas nos Treinamentos;

7. Atitude dos Atletas nos Jogos;

8. Nível Geral de Performance da Equipe;

9. Índice (Ausência) de Lesões;

10. Infraestrutura de Treinamento;

11. Observação Técnico-Tática dos Adversários;

12. Política de Contratações de Atletas;

13. Relacionamento com a Imprensa (para a Direção);

14. Relacionamento com a Imprensa (Comissão Técnica e Atletas);

15. Grau de Cobrança Interna para a Qualidade.

A análise torna-se mais ampla e desencadeia uma visão mais sistêmica das coisas, detectando fragilidades e permitindo intervenções que, em sua maioria, não seriam notadas.

E muitas vezes, percebe-se que alguns aspectos são mais importantes numa conquista do que a somatória de vários outros juntos.

Quantas equipes campeãs alcançaram um nível de coesão tão grande que superou a falta de qualidade técnica de seus jogadores? Ou vice-versa?

E em quantas oportunidades a política de contratações de atletas causou impacto positivo na melhor classificação da equipe, mesmo com uma fraca infraestrutura para treinamentos? Ou vice-versa?

Essa é a beleza e a complexidade do futebol.

O Jogo de Futebol tem Lógica?

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“A lógica do jogo tem de ser construída mentalmente, porque ela não é um dado, como o são o tabuleiro e as peças”. (Rubem Alves)

via Universidade do Futebol, por Rodrigo Leitão.

Todo jogo, seja ele qual for, tem uma lógica. Inexorável, soberana. O jogo de futebol não escapa a isso.

Todo jogo, por ser jogo, traz como característica inerente, a imprevisibilidade.

No futebol, é comum que tanto lógica quanto imprevisibilidade levem “especialistas”, treinadores e torcedores à distorção da percepção dos fenômenos da complexidade do jogo.

Poucos são os esportes em que o “melhor” perde para o “pior” com tanta freqüência. Quando esse fato é misturado com reflexões rasas sobre o que significa lógica do jogo, fica pronto o “pacote” e se reforça o discurso: “futebol não tem lógica, quando a gente acha que o time grande vai ganhar fácil, ele perde”.

Para entender melhor o que quero dizer é preciso primeiramente entender que a “lógica do jogo” está no âmago do jogo; não vai fugir, escapar, desaparecer, etc. e tal. Sua existência independe do adversário “A” ou “B”, independe se quem vai vencer é a equipe “X” ou a equipe “Y”, independe da minha vontade, da vossa ou de quem quer que seja.

O entendimento disso não é trivial, mas acreditar que o jogo de futebol não possui lógica é o mesmo que criar uma “sombra” capaz de ocultar o brilho da complexidade do jogo real e se distanciar cada vez maior do seu cumprimento.

Vencerá o jogo aquela equipe que resolver melhor os problemas do jogo, aproximando-se do cumprimento de sua lógica.

A lógica do resultado então não é aquela criada no imaginário coletivo a favor dessa ou daquela equipe e sim a aproximação ao cumprimento da lógica do jogo por uma equipe, mais do que pela outra.

A lógica do jogo não veste camisa, veste o jogo, e como o jogo é JOGO, lá sempre estará a imprevisibilidade; e é aí que mora outro perigo de interpretação e entendimento.

Nenhuma partida de futebol é igual a outra. Situações trazem a cada fração de segundo uma nova circunstância. Cada circunstância, novos problemas, e por aí vai. Nunca se sabe exatamente o que vai acontecer.

Então cumprir a lógica do jogo é também saber que não se pode tornar o imprevisível previsível, mas que entendendo a imprevisibilidade, é possível torná-la menos imprevisível.

“Todo pensamento começa com um problema. Quem não é capaz de perceber e formular problemas com clareza não pode fazer ciência[futebol é arte, ciência, os dois?].(…) Não é curioso que os nossos processos de ensino de ciência se concentrem mais na capacidade do aluno para responder? Você já viu alguma prova ou exame em que o professor pedisse que o aluno formulasse o problema? O que se testa nos vestibulares, e o que os cursinhos ensinam, não é simplesmente a capacidade para dar respostas? Frequentemente, fracassamos no ensino da ciência porque apresentamos soluções perfeitas para problemas que nunca chegaram a ser formulados e compreendidos pelo aluno”. (Rubem Alves)

Qual é o problema do jogo de futebol? Qual é o problema para se alcançar a lógica do jogo de futebol?

“O sábio começa do fim; o tolo termina no começo”. (Polya)

O Jogador de Futebol Inteligente

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“Antigamente, inteligente era aquele bom em matemática, ou que tivesse um pensamento lógico e claro, ou que conseguisse falar bem.”

do Manual do Atleta Inteligente

O que é inteligência?

Esse conceito vem mudando muito. Antigamente, inteligente era aquele bom em matemática, ou que tivesse um pensamento lógico e claro, ou que conseguisse falar bem. Ou aquele que tivesse estudado e soubesse muita coisa de um ou de vários assuntos.

Muita gente ainda pensa assim, mas estudos mostraram que a inteligência é bem mais do que isso.

Basicamente a inteligência pode ser definida como “a capacidade que o ser humano tem para resolver problemas”. Mas problemas aparecem a toda hora na nossa vida. E não é só com pensamento lógico ou falando que conseguimos resolvê-los. Precisamos ainda de força de vontade, coragem, intuição, criatividade, habilidade, conhecimento e atitude. Ser inteligente reúne todos esses ingredientes. Os orientais resumem bem: “Se você sabe e não faz, ainda não sabe”.

Com este entendimento mais ampliado os estudiosos começaram a desenvolver outros conceitos que incluem muitos outros tipos de inteligência, além da tradicional inteligência lógicoformal (matemática, línguas, oratória).

Foi assim que surgiram conceitos como a inteligência emocional (a sua capacidade de controlar emoções), inteligência social ou interpessoal (capacidade de se relacionar com as outras pessoas), inteligência motora (saber usar o corpo para resolver determinadas situações), inteligência musical (fazer músicas ou tocar um instrumento)… e assim por diante.

É com essa nova visão de “inteligência” que vamos falar do jogador de futebol.

Assim, o jogador de futebol inteligente resolve os problemas dentro de campo, o que é importante para ganhar e ter sucesso, claro. Então, treina e faz amistosos. Mas, para jogar bem, o atleta não pode depender só de treinos e jogos. Precisa de conhecimentos, de habilidades e de atitudes também fora do campo.

E isso faz uma grande diferença. Para toda a sua vida – não só de jogador.

Enxergando a Partir do Todo (Uma História Real no Mundo Corporativo)

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“Temas como processo sistêmico, interdisciplinaridade e complexidade, são abordados no universo corporativo.”

(Livro: Presença, de Peter Senge).

O Instituto Tecnológico de Massachusets (MIT) desenvolveu um ambicioso projeto, no qual aplicava conceitos sistêmicos, modelos mentais e outras ferramentas de aprendizado organizacional.

O programa dispunha de um orçamento de mais de um bilhão de dólares para cinco anos, com uma equipe de mil engenheiros em tempo integral, divididos em uma dezena de equipes subsepecializadas, cada qual responsável por uma característica do produto.

Todos trabalhavam sob intensa pressão para cumprir prazos, de modo que as soluções rápidas e superficiais eram a norma – infelizmente, com freqüente desconhecimento dos efeitos colaterais que geravam em outras equipes.

A certa altura, um grupo formado por membros elaborou um mapa de sistemas, a fim de tentar entender o que estava impedindo os engenheiros de trabalhar juntos com proveito e, assim, cumprir os prazos.

Rapidamente foi detectado um padrão. Quando uma equipe subespecializada se deparava com um problema difícil, tinha duas escolhas: ou dava uma resposta rápida e superficial ou ía às raízes do problema.

Por exemplo, quando os engenheiros da área BVT (barulho, vibração, trepidação) resolveram o problema da vibração acrescentando alguns reforços estruturais, criaram novos problemas para a equipe do chassis, responsável pelo peso total do veículo.

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O Jogo de Futebol: Simples ou Complexo?

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“Vale lembrar que o futebol é um jogo. E todo jogo tem sua lógica.”

Soa até como heresia falar em complexidade no futebol, o esporte mais conhecido e discutido do mundo e que sua grande maioria de apreciadores tem ainda uma visão simplista, não procurando entender os porquês ou a lógica do jogo.

Em vez de repetir o mesmo “quanto foi o jogo?”, você já ousou questionar seu amigo com perguntas que lhe permitissem ter uma compreensão maior do cenário?

Como foi o jogo? Como ganhou? Porquê ganhou? Quando ganhou? Onde ganhou?

Mas afinal, o que é essa tal de complexidade? Segundo Edgar Morin, “é um conjunto de elementos heterogêneos inseparavelmente associados”. Em outra abordagem, Morin coloca que “a complexidade é efetivamente o conjunto de acontecimentos, ações, interações, determinações, acasos, que constituem o fenômeno em si.”

Se nos atentarmos a um canteiro de flores, poderemos enxergar ali mesmo um complexo e fascinante sistema de inter-relacionamentos que culmina no desabrochar de uma flor e no processo de polinização.

No futebol, com um pouco de humildade e conhecimento, podemos enxergar elementos distintos que se relacionam e interagem e que, de maneira associada, determinam o sucesso ou o fracasso de uma partida.

Procurar enxergar (entender) o futebol através de suas partes, dissociados de um contexto mais amplo ou do ambiente em que se está inserido é pouco, muito pobre e não se aproxima à realidade dos fatos.

Ou pelo menos na busca dela.