A Encruzilhada do Futebol Brasileiro

por Paulo André Benini, no especial da Universidade do Futebol sobre o trabalho metodológico desenvolvido no Brasil.

“Nos esquecemos de investir em planejamento, estruturação e, principalmente, capacitação de profissionais para darmos sequência à produção e consolidação da nossa hegemonia no futebol mundial.”

 

Se dissermos que o jogo de futebol se divide em três princípios básicos e deles, todas as variações são possíveis, eu diria que:

tecnicamente sempre fomos muito superiores a qualquer outra nação;

fisicamente, em algum período, chegamos a ser inferiores;

taticamente sempre sofremos com a falta de disciplina na aplicação da estratégia porque éramos tão melhores jogadores de bola que sempre achamos um jeito de vencer nossos rivais.

Assim sendo, inicialmente decidimos resolver a discrepância física e incrementamos toda a cientificidade oferecida pelos melhores estudos e artigos já produzidos para construirmos o atleta ideal. O intuito era nos equipararmos aos europeus e para isso, quebramos inúmeras barreiras culturais introduzindo a musculação e os treinos físicos específicos para jogadores de futebol.

Durante anos os especialistas na área tinham vontade de vomitar ao escutar dirigentes, treinadores e comentaristas dizendo que a musculação deixaria o jogador travado. De qualquer forma e com certa demora, evoluímos muito na qualidade dos treinos físicos e permitimos que a ciência entrasse no futebol brasileiro.

Até aí, tudo bem.

Conseguimos igualar a valência física e continuamos com a supremacia técnica. Éramos então praticamente imbatíveis. Mas em algum momento da história do futebol e da economia brasileira, os clubes se encontravam em péssima condição financeira e não conseguiam gerar outro tipo de renda que não com a venda de jogadores para o mercado europeu.

Demoramos muito para nos estruturarmos, explorarmos o marketing e a paixão doentia do nosso torcedor, gerando receitas que, aliadas aos direitos de TV, tornassem o clube auto-suficiente. Então, o único meio de sobrevivência encontrado por dirigentes amadores e despreparados naquela época era vender atletas à Europa para solver dívidas e contratar medalhões, ganhando assim, o apoio popular.

Desde então, estamos produzindo jogadores para os europeus, buscando selecioná-los e prepará-los de acordo com o perfil de jogo que facilita essa negociação.

Pior que isso, o nosso erro foi acreditar que o atleta ideal era aquele que existia na Europa. Boa estatura, forte, sem muita ginga (pois futebol já não era mais brincadeira), disciplinado, com bom jogo aéreo e o mais importante, com nome e sobrenome. Chegamos ao cúmulo de tirar até os apelidos dos nossos meninos da base para que eles ficassem mais vendáveis aos olhos e aos cofres do velho continente. Em pleno século 20, ainda éramos colônia, explorados pelos europeus que compravam barato e lucravam com o desempenho e as futuras transferências daqueles “produtos” importados. Apesar disso, nós brasileiros estávamos felizes e pensávamos que essa “facilidade” de achar matéria-prima abundante e vendê-la para o além-mar era a salvação da lavoura. Não nos preocupávamos com o êxodo de jogadores porque a renovação e o talento eram tão naturais do nosso povo que a cada ano surgiam mais e mais jogadores de qualidade. Se quiséssemos, montaríamos três ou quatro seleções em condições de ganhar uma mesma Copa do Mundo.

Nesse período (e durante esse processo), ainda mantínhamos a supremacia técnica e por isso demoramos anos para perceber que o jogo também evoluiu. O futebol passou a ser estudado e analisado tanto quanto o organismo humano ou a economia mundial. Também pudera, algo que gera tantos bilhões de dólares e movimenta outros tantos bilhões de torcedores ao redor do planeta não poderia ser deixado ao azar ou ao talento nato de seus praticantes.

Então, enquanto nos dedicávamos aos treinos físicos – com tiros de 1000m, 300m etc… – os europeus faziam tudo dentro do campo, com a bola. Trabalhos mais intensos e disputados, mini jogos que exploravam especificamente um princípio de ataque ou de defesa, tudo inserido ao jogo.

Cada treino tinha um objetivo e o sincronismo dos movimentos de pressão ao adversário, de bloco alto (encurtar o campo), de trocas de passes rápidas e com o menor número possível de toques na bola se tornaram exigências do futebol contemporâneo.

A linha de 4 defensiva e a tentativa de roubar a bola no campo adversário já eram praticadas muito antes de eu chegar à Europa em 2006. Estamos em 2012 e no Brasil tem gente que ainda fala em ala, três zagueiros e volante de contenção.

A falta de visão, de protecionismo, de estímulos para a manutenção de talentos e de desenvolvimento do estilo brasileiro de se jogar futebol se revela hoje, duas décadas depois, um grave problema.

Nos esquecemos de investir em planejamento, estruturação e, principalmente, capacitação de profissionais para darmos sequência à produção e consolidação da nossa hegemonia no futebol mundial.

Nos preocupamos em vender a nossa Seleção e esquecemos-nos de reinvestir o lucro nas futuras gerações.

Usamos os “produtos” produzidos e formados pelos nossos clubes, mas esquecemos de retribuir o serviço com a criação de campeonatos mais fortes e rentáveis, infra-estrutura de qualidade (estádios, gramados, etc…) e capacitação de pessoas em todas as áreas do esporte brasileiro (gestores, técnicos, preparadores físicos, scouts etc…).

Estamos atrasados.

Quase não temos cursos capacitantes que valham à pena.

O círculo do futebol brasileiro é restrito, fechado e avesso a novas ideias.

Quase não temos estudiosos do jogo, das variações táticas ou dos treinamentos específicos.

Nossa formação de base não ensina para o futebol atual, mas, sim, para o futebol de outrora.

Insistimos em coisas do arco da velha simplesmente porque a maioria dos nossos ex-jogadores (atuais treinadores) não está preparada para formar novos atletas.

Falta conhecimento e posteriormente a aplicação de ferramentas como a teoria do jogo, a psicologia e a pedagogia aplicadas ao esporte para que possamos sair do marasmo em que nos encontramos.

Precisamos abdicar de fórmulas que um dia deram certo e que se tornaram tradicionais para chacoalhar os estaduais, as divisões inferiores e os times “pequenos”, assim como um dia passamos do sistema de mata-mata para pontos corridos, dando mais estabilidade financeira aos clubes e atletas.

Talvez seja a hora de quebrarmos outros paradigmas.

Admitir que o modelo está ultrapassado e que precisamos mudar é o primeiro passo. O problema é que poucas pessoas estão preocupadas com isso. Na verdade poucos enxergam o atraso, só reclamam que a Seleção não está bem.

Novos valores e estudiosos do jogo não conseguem se inserir no meio porque não jogaram futebol e não tem a confiança do mercado. A categoria de base da maioria dos clubes brasileiros está jogada ao Deus dará. Os cargos dentro dos clubes, federações e confederações ainda são políticos e não técnicos. Isso tem que mudar!

O Brasil se encontra em uma encruzilhada.

Na verdade, estamos parados diante dela há alguns anos, observando, com olhos fixos, a estrada que nos trouxe até aqui.

Ela é repleta de flores, encantos e conquistas. Revendo o trajeto, nos apaixonamos pela construção da nossa história e temos a certeza e o orgulho de saber que os melhores times e os maiores jogadores que o planeta já viu foram brasileiros.

Enxergamos também que ganhamos, orgulhosa e merecidamente, o apelido de “País do futebol”, o maior exportador de pé-de-obra que o mundo conheceu.

Dominamos o futebol mundial e possuímos, por anos, estrelas em todos os grandes campeonatos nacionais do velho continente. Todos tinham medo da camisa amarela e os brasileiros, encantados, paravam para ver a seleção canarinho jogar. Por tudo isso, passamos anos desfrutando da beleza do nosso futebol e do avanço que tínhamos sobre os demais.

Acreditamos que tudo era possível ao país que tem no DNA de seu povo, o talento do futebol.

Hoje, olhando ao redor, mais próximos da encruzilhada, ainda pelo caminho que construímos, vemos sonhos, delírios e extravagâncias que desperdiçaram tempo e dinheiro e não se transformaram em nada. Um período sonolento em que a falta de capacidade se justificou de inúmeras formas, especialmente pelo passado esplendoroso que construímos.

Mas eis que recentemente, atônitos e ainda parados na estrada, fomos despertados pelo barulho ruidoso dos motores espanhóis, holandeses e alemães que passaram por nós sem pedir licença. Aceleraram em tamanha velocidade que ainda não conseguimos reparar quais as novas peças da engrenagem os fazem acelerar tão depressa.

E cá estamos nós, olhando fixamente para a encruzilhada buscando dicas de para onde seguir ou qual o melhor caminho a tomar…

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Um Livro às Quintas

“Una red de significado interpretada desde el paradigma de la complejidad”

El Modelo de Juego del FC Barcelona – Oscar P. Cano Moreno

MC Sports, 2010.

Oscar Moreno condena e derruba a barreira existente entre teoria e prática, nos conduzindo pelo sinuoso universo das teorias dos sistemas dinâmicos e nos convidando a entender a complexidade do jogo –  desde as evidências da imprevisibilidade à análise minusciosa da construção do modelo de jogo do F.C. Barcelona.

Votos de um 2012 diferente!

  • Ministérios da Educação e do Esporte dão ultimato aos clubes de futebol que ainda não concluíram a capacitação de seus atletas pela norma do Curriculo do Atleta de Futebol;
  • Treinadores consagrados do futebol brasileiro fazem intercâmbio com Universidades e trocam conhecimento com jovens acadêmicos;
  • Mais uma turma de diretores executivos e presidentes de clubes conclui especialização em pedagogia e sociologia do futebol;
  • Liga Universitária Nacional de Futebol é sucesso de crítica e público;
  • Confira as centenas de vagas de empregos disponíveis para quem pretende atuar como profissional do futebol;
  • Empresários de Jogadores cedem parte dos lucros ao fundo de incentivo à educação de atletas;
  • Democratização do ensino é anunciada para mais de 50 profissões ligadas ao futebol;
  • Clubes e Universidades fecham parcerias para aproximar a teoria da prática no futebol brasileiro;
  • Jornalistas esportivos discutem metodologia do treinamento e questionam treinadores sobre o modelo tradicional que ainda prevalece no nosso futebol;
  • Inteligência de Jogo é privilegiada e clubes formadores brasileiros passam a buscar perfis de atletas que não precisam ser necessária e simplesmente altos e fortes.
  • Discurso muda e agora o futebol é complexo para a maioria dos “especialistas” dos programas de mesa redonda.
  • Indicadores sociais, culturais, educacionais, econômicos e esportivos dão salto positivo na última prévia.
  • Treinadores finalmente percebem que não basta mais ter sido jogador de futebol ou mesmo ter frequentado uma Escola de Educação Física para ser um treinador bem sucedido.
  • CBF entende que seus interesses particulares não podem conflitar com os interesses do desenvolvimento do futebol brasileiro.

Uma Proposta para as Equipes de Base da Seleção Brasileira

Ney Franco, atual coordenador das categorias de base da CBF, foi o professor convidado no último final de semana, no curso Master em Técnica de Campo, parceria entre Universidade do Futebol e Federação Paulista de Futebol.

Já o conhecia de outras oportunidades, mas esta foi a primeira vez em que debatemos alguns assuntos com mais profundidade.

Talvez o de maior relevância, foi o da intenção do coordenador em estruturar um projeto metodológico para as categorias de base nas seleções amadoras do nosso país, do Sub-15 ao Sub-20.

Foi gratificante escutar este mineiro simpático e de boa conversa – quase uma redundância – e que recentemente se tornou um dos treinadores mais vencedores dos últimos anos, falar criticamente sobre os trabalhos de (de)formação nas categorias de base em nosso país, bem como de sua penúltima experiência frente à Seleção Brasileira Sub-20, que culminou com o título sul-americano.

Independente de sua escolha sobre qual metodologia de desenvolvimento de atletas que pretenda adotar – das tradicionais às pautadas pela complexidade do jogo – o fato mais importante é a existência de um projeto norteador.

As críticas à (de)formação de atletas nos clubes brasileiros tornaram-se comuns nos debates técnicos dos treinadores e coordenadores que acompanham a realidade das categorias de base: inexistência de uma metodologia unificada entre as equipes de um mesmo clube, priorizar a conquista de títulos, desconsiderar aspectos técnicos da inteligência de jogo, falta de critérios técnicos e científicos durante a evolução do processo de desenvolvimento (quando desenvolver o quê e em qual idade), além da ausência de capacitação de qualidade para os profissionais que atuam na gestão de campo, entre tantas outras.

Desejo ao nosso coordenador toda a sorte e as melhores condições de trabalho, necessárias para a implantação de suas ideias.

As Lições de Steve Jobs para o Futebol (Homenagem)

“Criatividade é apenas conectar as coisas.”

(Steve Jobs, co-fundador e presidente eterno da Apple.)

(Texto de Março de 2009)

Li pela segunda vez o livro “A Cabeça de Steve Jobs”, de Leander Kahney – editor da revista eletrônica Wired.com.
Ao traçar um paralelo de algumas lições de Steve com outros segmentos corporativos, foi na indústria da bola que as coisas se conectaram bem. Teria algo a ensinar ao futebol o homem que é sinônimo de inovação e que desde os anos setenta vem transformando a maneira de pensar da informática, da indústria de animação e, mais recentemente, da música digital?

Busque informação; não faça suposições. Como gestor, audite constantemente o seu clube (empresa) e tome decisões através de dados objetivos. Ter informação não é o mesmo que ter conhecimento.

Foco significa dizer “não”. Steve tem um grupo pequeno de ótimos profissionais que concentram seus esforços em poucos projetos. Identifique as unidades de negócio prioritárias de seu clube, direcione os melhores profissionais à esses focos e execute-os da melhor maneira.

Encontre uma maneira fácil de apresentar novas idéias. Nem sempre os seus próprios funcionários compram a sua idéia ou projeto, ainda mais se mudanças de cultura ou de paradigma estiverem em jogo. Trace uma estratégia para vender bem a sua proposta. O sucesso, antes de mais nada, depende desta tarefa caseira.

Inclua todo mundo. O design não se restringe somente aos designers. Profissionais do marketing, programadores e engenheiros podem descobrir juntos como desenvolver um produto melhor. Não, não estou dizendo que a nutricionista ou o psicólogo devam escalar a equipe. Nem tampouco achar que o departamento de marketing tenha a função de determinar a melhor data para colocar o garoto propaganda do clube de titular. Esta é a função do técnico, o orientador tático, e ainda continuará sendo. Mas a lição serve para mostrar que o conhecimento, quando integrado e coordenado para determinado fim, seja na área técnica, administrativa etc., pode ser melhor aproveitado.

Só estabeleça parcerias com atores nota 10 e demita os idiotas. Invista em pessoas. Ter funcionários talentosos é uma das principais vantagens competitivas diante da concorrência. Sempre perderemos talentos – sejam atletas ou profissionais da área técnica – para outros clubes com maior poder aquisitivo. É a lei da selva. Invista em capacitação sempre e seja um gestor profissional, identificando quem realmente possa contribuir para o seu negócio ou quem já deixou de remar faz tempo.

Não dê ouvidos aos que só dizem “sim”. Trave combates intelectuais. O pensamento crítico e criativo sempre será bem vindo. Desafiar idéias é um dos hobbies preferidos de Steve. Desconfie se as pessoas ao seu redor estiverem dizendo amém à tudo que propõe. São essas pessoas que lhe contradizem após um fracasso e, na maioria das vezes, fazem as críticas indiretamente.

Dê total liberdade a seus parceiros. Criatividade não está restrita ao meio tecnológico. A inovação está presente em todos os segmentos da nossa vida: do GPS do carro ao material da chuteira do atacante. De quem foi a idéia de explorar a camisa do seu time para vender uma marca ou produto?

Não perca o consumidor de vista. Estude o mercado e o setor. Coloque-se no lugar do consumidor (torcedor) e analise se o serviço criado atende as expectativas dele ou atende as suas. Esteja vigilante em relação as tendências da indústria do futebol e seja amigo das pesquisas e dos números.

Faça as coisas em equipe. O iPod e o iPhone não foram inventados por uma única pessoa. O sucesso numa temporada, por exemplo, vem do trabalho em equipe e valorizar este aspecto, dividindo responsabilidades e louros, é no mínimo, o caminho mais adequado a seguir.

Estude. Steve não chegou ao final de uma gradução, mas é um profundo conhecedor de arte, arquitetura e design. Isto o coloca em pé de igualdade ao conversar com especialistas de outras áreas na tomada de decisões sobre os rumos de sua empresa.

No futebol brasileiro, por exemplo, para muitos basta ter sido um ex-atleta para ter vaga garantida como treinador ou dirigente esportivo. Nossa cultura no esporte é um pouco desse jeito. O conhecimento científico não precisa entrar em campo e a figura caricata do dirigente – que solta pérolas da bola, trata o torcedor com desrespeito e acha que sabe tudo sobre futebol – ainda existe e irá continuar existindo.

Mas no futuro, serão nos modelos de desenvolvimento sustentado que encontraremos profissionais modernos, eficazes e que conhecem (estudaram) vários aspectos que compõe o conhecimento sobre futebol, ou pelo menos, dividem tal sabedoria com profissionais especialistas numa visão integrada.

No vídeo abaixo, Steve Jobs narra o primeiro comercial ‘Think Different’ em 1997, chamado de “Here’s to the Crazy Ones”.

“Because the people who are crazy enough to think they can change the world… are the ones who do.”

Ambição e Desambição no Futebol

Técnicos e atletas estão divididos entre a ousadia e a prudência, a ambição e a desambição

por Tostão

Nota do autor: Como é bom ler um mestre da bola e das palavras como o filósofo Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, que simplifica nossa crença sobre o futebol, em sua realidade, sua complexidade e suas tendências.

Falam que esquema tático bom é o que dá certo. Nem isso podemos dizer, pois há muitos outros fatores envolvidos no resultado de um jogo.

Muito mais importante que o desenho tático, os números, é a estratégia, a filosofia. É saber onde começa a marcação, com quantos jogadores um time ataca e defende, se há muitos ou poucos espaços entre os setores, se a prioridade é o domínio do jogo, a posse de bola ou os contra-ataques e vários outros detalhes.

Ruim é não ter nada bem definido. Um técnico é melhor que outro quando seus jogadores executam com mais eficiência o que foi planejado, e não por causa do esquema tático. Todos têm vantagens e desvantagens.

Como temos o hábito de tentar achar uma única causa para explicar o resultado, para mostrar sabedoria -ou ignorância-, fica mais fácil dizer que um time ganhou ou perdeu por causa da escalação, da substituição ou porque o técnico colocou um jogador cinco metros mais para a direita ou para a esquerda.

Os treinadores, supervalorizados, muitas vezes, iludidos e prepotentes, pensam também que seu esquema tático decidiu o jogo.

A maioria das equipes começa e termina uma partida com os jogadores nas mesmas posições, compartimentados, robotizados. Volante não se mistura com meia. Há armadores pela direita e pela esquerda. O meia dá o passe, e o centroavante faz o gol.

Há exceções.

Até hoje, ninguém sabe se Xavi, do Barcelona, é volante ou meia, se joga mais pela esquerda ou pela direita. O veloz e aguerrido Herrera, do Botafogo, marca o lateral e ainda faz dupla de ataque com Loco Abreu.

Esquema tático bom é o que deixa o comentarista ansioso, tentando descobrir, pela movimentação dos jogadores, ocasional ou habitual, qual foi a mudança tática que o técnico fez durante a partida. Algumas vezes, o técnico nem percebe.

Os treinadores ficam divididos entre a ousadia e a segurança. Querem arriscar e, ao mesmo tempo, não querem dar chance ao adversário. O conflito costuma terminar em conciliação, por prudência ou por covardia. Assim é também na vida. É a disputa entre o princípio do prazer e a realidade, entre o desejo e a razão.

O sonho da maioria dos treinadores é atingir o equilíbrio perfeito. Como os atletas são, como os humanos, imperfeitos, emocionalmente instáveis e também divididos entre a ambição, o desejo de ser herói, e a desambição, o equilíbrio perfeito nunca é atingido. Ainda bem. Ficaria muito chato.

A Grande Sacada para as Categorias de Base: Capacitar seus Atletas

“Chegará o dia em que estará criado um processo irreversível nas categorias de base, onde trocas de comando de um clube – técnicas, administrativas ou políticas – não terão o efeito necessário para que os atletas deixem de refletir e contestar os métodos de treinamento.”

Em tempos de crises e mídias sociais, muita coisa vem acontecendo por todo o planeta. Corruptos são presos pela manhã e soltos à tarde, países ricos ficam pobres ao anoitecer e a consciência coletiva de que algo precisa ser feito pela nossa subsistência e qualidade de vida deixa de ser clichê.

E o futebol (ah o futebol!), também vive suas particularidades. Apesar dos clubes continuarem a gastar mais do que recebem e das seleções tradicionais não mais figurarem isoladas no topo do ranking da FIFA, mais pessoas comuns analisam o jogo: estudiosos, curiosos e gente interessada em saber de verdade o que acontece dentro das quatro linhas.

Principalmente no continente europeu, onde há décadas se estudam e aplicam as novas teorias relacionadas ao jogo e treinamento do futebol e, muito em função disso, começamos a perceber um distanciamento qualitativo de algumas equipes e seleções em relação ao resto do mundo. E, infelizmente, o Brasil está incluído neste resto.

O grande desafio nos próximos anos será pela busca da popularização em solo tupiniquim, desse olhar mais científico, lógico e nem menos apaixonante sobre o futebol.

Muito embora as novas maneiras de enxergar o jogo e o treino do futebol sejam positivas, permitindo inclusive que alguns desvios no processo de formação de atletas sejam corrigidos, resistências a este novo olhar sempre irão ocorrer. E as comparações entre metodologias de trabalho, muitas vezes sem embasamento científico, serão inevitáveis.

Como treinar uma equipe de futebol aproximando-a da imprevisibilidade (e realidade) do jogo, e como trabalhar nas equipes técnicas de maneira integrada e com mais qualidade, são questões essenciais a serem respondidas por quem pretende estar à frente do seu tempo.

Nos esportes coletivos, e no futebol em particular, pesquisadores e especialistas dissecaram as dinâmicas do jogo, que apontaram para eventos comuns e com padrões que se repetem. Foram identificados quatro momentos que nos permitem entender as tais dinâmicas: defesa, transição ao ataque, ataque e transição à defesa.

Nessas quatro situações, todos os jogadores tem um comportamento muito particular em campo, com ou sem a bola.

Os jogadores se relacionam e formam um todo organizado, que é a equipe. Cada equipe tem seus próprios jogadores que se relacionam uns com os outros de maneira particular e essas relações variam quando a equipe está atacando, defendendo e realizando as transições.

Por exemplo: com a bola, os jogadores agem com o objetivo de manter a sua posse na busca pelo gol adversário. Os atletas irão se relacionar dentro do campo de uma forma bastante específica para que isso ocorra. Quando a equipe está sem a bola, os jogadores irão criar dificuldades para que a equipe adversária progrida no campo de jogo e consiga chegar à sua meta. Nestes dois exemplos, os comportamentos e intenções dos jogadores e da equipe são bem distintos.

E o treinador pode moldar a forma como a equipe joga nesses momentos. Modelo de Jogo é o nome dado à forma como a sua equipe deve se comportar no jogo de uma maneira geral, ou seja, como ela defende, ataca e faz as transições. Está intrinsecamente ligado à estrutura da equipe, ou seja, como ela pretende construir o seu jeito de jogar.

A escolha dos atletas é realizada respeitando essas características e devem estar sintonizadas com as ideias do treinador, que por sua vez, irá procurar estar conectado com a cultura e filosofia do clube.

O comportamento dos jogadores e da equipe, em cada momento, pode variar com intenções diferentes, ou seja, o treinador pode influenciar a forma como a relação entre os jogadores acontecerá em cada um dos quatro momentos do jogo.

Na teoria, chamamos de princípios estruturais a forma como os atletas devem se posicionar no campo de jogo. Já princípios operacionais é o nome dado ao que fazer em cada momento do jogo (defesa, ataque e transições).

O futebol é um jogo complexo e saber fazer funcionar as relações entre os jogadores durante a partida é a chave para a obtenção de sucesso.

Saber o que e como fazer nos momentos do jogo é o xis da questão.

A partir deste entendimento é que podemos moldar a forma de como a equipe deve treinar, aproximando-a da realidade da partida e do que ela poderá encontrar diante de um adversário. Inicia-se a construção do jogar da equipe, ou seja, o Modelo de Jogo começa a ganhar vida.

Os jogos reduzidos e adaptados tem papel importante em algumas propostas metodológicas no futebol. Mas como qualquer remédio, não basta apenas ler a bula para aplicá-lo. Um médico deve ser consultado e, de preferência, um que reconheça e reflita o valor das teorias antes de sair cortando com seu bisturi.

De maneira muito incipiente, algumas boas iniciativas começam a ser percebidas em nosso país, muito em função da sensibilidade de profissionais em cargos de direção e coordenação, que partem para um processo de reciclagem de seus recursos humanos, particularmente dos profissionais que atuam dentro de campo.

E mesmo restrito às categorias de base, alguns clubes brasileiros dão seus primeiros passos em direção aos novos tempos, criando ambientes de aprendizagem aos gestores de campo, buscando reciclar suas equipes técnicas com profissionais mais sintonizados com esta nova perspectiva.

A próxima e mais importante etapa, será a conscientização e capacitação dos atletas das categorias de base, melhorando o canal de comunicação com seus treinadores e facilitando o diálogo sobre o porquê deste ou daquele tipo de treinamento.

Dessa forma, estará criado um processo irreversível, onde trocas de comando de um clube – técnicas, administrativas ou políticas – não terão o efeito necessário para que os atletas deixem de refletir e contestar os métodos de trabalho

O Currículo de Formação do Atleta de Futebol – Parte I

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“Saber o que ensinar e desenvolver, do sub-11 ao sub-20, é papel dos profissionais das categorias de base.”

por Eduardo Barros, via Universidade do Futebol

O nosso futebol passa por um gradativo processo de profissionalização. As mudanças na Lei Pelé, que privilegiam o clube formador, como por exemplo, o direito da verba de solidariedade inclusive para transferências nacionais, são indicativos de que a formação do atleta brasileiro está sendo redimensionada e que a devida importância lhe está sendo conferida.

É certo, também, que os futuros craques do Brasil, em cinco, sete, 10, 12 anos, hoje estão nas categorias de base dos milhares de clubes existentes no país e que será insignificante a quantidade de atletas que sairão direto dos campos de várzea para o alto nível profissional.

Sob este viés, a gestão integrada da base será pré requisito para que, após os oito a 10 anos de processo de formação de uma determinada categoria, a quantidade de atletas de alta performance seja satisfatória. Além disso, a comunicação entre todas as comissões técnicas dos clubes deverá ser constante no que tange a definição dos pontos fortes e fracos de cada atleta e equipe ao longo dos anos, para nortear as decisões estratégicas, técnicas e administrativas da empresa.

O grande diferencial do trabalho de campo diante dessa nova perspectiva deve ser o desenvolvimento, por parte de cada clube de base, do currículo de formação do atleta de futebol. Nele, cada instituição pode definir os perfis dos atletas que pretendem formar e quais serão os conteúdos ensinados para que os diferentes perfis sejam alcançados.

Entretanto, conforme foi citado anteriormente, a profissionalização do futebol brasileiro é gradativa, logo, a gestão integrada da base, que é fundamental para modificações sensíveis nos corpos técnicos de cada clube (com profissionais competentes e capacitados continuamente), ainda é considerada utópica. Então, se a grande parcela dos gestores não está preparada para o “novo” futebol, qual é o papel de cada profissional inserido (ou que pretende se inserir) no mercado em quaisquer clubes, nas categorias de base, dentre os milhares existentes no Brasil?

O papel de cada um desses profissionais é buscar a elaboração e aplicação de um currículo do atleta. Assim como todo curso profissionalizante, graduação, ensino técnico, médio, supletivo, entre outros, existem conteúdos (disciplinas) que cada atleta deve aprender (de maneira circunscrita ao jogo) para se tornar um grande jogador de futebol.

Além da falta de conhecimento técnico da gestão, outros fatores já conhecidos por quem vive o “ambiente do futebol” podem ser apontados como limitantes para a elaboração do referido material. São eles:

• Falta de comunicação intra comissão técnica, em que predominam preocupações com os fragmentos do jogo em relação ao “todo” da equipe (e jogo);

• Falta de comunicação inter comissões técnicas, em que o treinador do sub-15 pouco se importa com o que está acontecendo no sub-17, nunca assistiu a um jogo do sub-14 e, talvez, nem saiba o nome do técnico do sub-11;

• Ausência de um ambiente de discussões e aprendizagem oferecido pelo clube;

• Futebol profissional desvinculado das categorias de base, em que os treinadores e dirigentes do departamento profissional optam por negociações intermediadas por agentes em detrimento dos atletas formados no clube.

• Lacunas nas idades do processo de formação com manutenção somente das categorias com competições oficiais;

• A pressão por vitórias a qualquer custo como “garantia” de permanência no cargo;

Neste cenário não muito animador, para muitos, “sobreviver” é o grande objetivo. E, seguramente, a sobrevivência não está garantida. Você pode ganhar todos os jogos e a diretoria, de uma hora para outra, ser modificada e você, demitido. Os patrocinadores que financiavam os custos da categoria de base podem abandonar o clube e você, por consequência, perder o emprego. Você pode ser preparador físico do sub-15 e, de repente, receber um convite para integrar a comissão sub-20 que durará somente enquanto houver vitórias. Porém, neste mesmo cenário instável, oportunidades positivas tendem a surgir.

Como, por exemplo, chegar ao clube em que você trabalha um gestor com conhecimento técnico suficiente (acredite que eles já existem!) para saber como um plano coerente de trabalho de formação a médio/longo prazo traz resultados (lucro) e sustentabilidade ao negócio. Esse gestor precisará de pessoas que ponham em prática tal plano de trabalho.

Cresce o número de profissionais do futebol que acreditam que a categoria de base é a grande responsável pelo nosso futuro no cenário futebolístico mundial. Você pode trabalhar ao lado de um destes e não ter ciência justamente por fazer somente a sua função de sobrevivência. Um dirigente (quem sabe um dia algum headhunter) pode procurá-lo para fazer-lhe uma proposta de trabalho por conhecer e acreditar no seu potencial profissional.

Nessa área de atuação, profissionais de destaque do mercado (salvo aqueles que dependem exclusivamente de indicação, amizade ou qualquer outra relação que, lembre-se, faz parte do cenário) devem saber tudo sobre a base, do sub-11 ao sub-20. Devem ter bem definidas quais são as competências necessárias para um jovem, captado do processo de iniciação esportiva e inserido nos processos de transição e especialização, se tornar atleta profissional.

Os primeiros passos são muito simples de serem executados. Uma reunião com sua comissão técnica pode se tornar uma hora de discussão semanal que tem como temática a formação do atleta. Num e-mail para os funcionários da base do clube pode constar um convite para a divulgação da ideia, pois com certeza algumas pessoas têm com o que contribuir. Uma conversa informal com um dos dirigentes do clube pode ser um ótimo momento para demonstrar sua opinião.

Se com esses passos você permanecer sozinho, mesmo assim avance em sua caminhada. Se mais pessoas aderirem à ideia, há um longo trabalho pela frente.

Como início, a definição de todos os conteúdos que um jogador (e equipe) precisa aprender (é bom lembrar que de forma circunscrita ao jogo) para se tornar atleta de alto nível. Marcação zonal, transição ofensiva, relação com a bola, pressing, ultrapassagem, zonas de risco, estratégias, tomada de decisão, lógica do jogo, plataformas, bolas paradas, regras de ação, são simples exemplos para ilustrar a infinidade de conhecimento que, indubitavelmente, precisa ser internalizado.

Após esta trabalhosa, porém, prazerosa definição, diversas reflexões surgirão, dentre elas:

• Qual a plataforma de jogo ideal para iniciar um processo de formação?

• Deve-se sempre utilizá-la durante todas as categorias?

• O zagueiro do sub-11 fará sempre a função de zagueiro ao longo da formação?

• Como classificar os diferentes tipos de jogos elaborados?

• Quando iniciar a aplicação da ultrapassagem?

• Quando iniciar a aplicação do pressing?

• Como definir qual linha de referência de marcação utilizar?

Não bastará definir os conteúdos! Saber distribuí-los em cada categoria, para assegurar que eles se encontram na zona de desenvolvimento proximal dos jogadores de determinada equipe e faixa etária, será fundamental para evitar equívocos.

O que você está esperando? Faça sua parte para que a transformação da base, impulsionada pelas tendências do mercado (Lei Pelé, conhecimento científico, esporte como negócio), beneficie a clubes, atletas e profissionais do futebol.

Para aqueles que acham que tudo isso é bobagem e que não há o que (re)inventar nas categorias de base no Brasil, cuidado: a transformação é inevitável! Para os que utilizam a famosa expressão “o futebol é assim”, ele (o futebol) não é! Já as pessoas…

 

 

Parte II

Parte III

Entrevista com Júlio Garganta, doutor em Ciência do Desporto

via Universidade do Futebol

“No meu ponto de vista, o futebol se joga com ideias. O bom futebol se joga com boas ideias. O mau futebol se joga com más ideias ou sem ideias. Portanto, (no futebol) as questões táticas e estratégicas são fundamentais”. (Júlio Garganta)

A discussão sobre a importância do treino no desenvolvimento do talento esportivo no futebol permeia o ambiente acadêmico e profissional. Entre diversas referências, o Prof. Dr. Júlio Manuel Garganta da Silva tem contribuído de maneira decisiva para esse tipo de análise e reflexão.

O restante da entrevista inédita e exclusiva com este especialista português pode ser acompanhada aqui

Reflexões sobre o Jeito de ser do Brasileiro: em campo e fora dele

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Por Andrea Sebben

Faz alguns anos li um livro que muito me impressionou e tinha ligação direta com meu trabalho – chamava-se Brasileiros Pocotó. O livro, de Luciano Pires, era uma coletânea de artigos sobre a mediocridade que assola o Brasil em seus diferentes momentos.

O que isso tem a ver com o que faço? Sou psicóloga culturalista, cinco anos praticamente fora do Brasil, vivendo nas melhores universidades européias, ajudo hoje executivos expatriados – ou seja, estrangeiros que chegam ao Brasil ou brasileiros que vão ao exterior por tempo determinado, jogadores de futebol trasladados ao exterior e jovens que vão de intercâmbio. Muitas das empresas que atendemos HSBC, EMBRAER, Nissan, Vivo, Nestlé, Banco do Brasil, Bosch, entendem que nada é mais importante do que a pessoa entender de fato os povos que irão recebê-las. E eu falei entender, não conhecer.

Muita gente acha que basta olhar a etiqueta, a gastronomia, a religião e falar bem um idioma – de preferência o inglês, não necessariamente o idioma dos nativos (o que por si só já justificaria uma grande gafe), que está apto para entrar no cenário global. Não está. Primeiro passo talvez seja mesmo conhecer o país, mas o mais difícil vem depois: compreender.

“- Alguém aí pode me explicar o Brasil?” Dirá um estrangeiro desesperado mergulhado em seus dez primeiros minutos no caos que é o Aeroporto de Guarulhos, onde nós mesmos não nos entendemos. Me explicar, por favor, porque acontecem tantas barbaridades? Alguém pode explicar a um estrangeiro nossa facilidade intrínseca de colocar a responsabilidade no outro e, portanto, nunca responsabilizar-se por nada nem por ninguém. Vocês acham que estou exagerando?

Quantas vezes na sua vida já esteve envolvido em infindáveis telefonemas para os 0800 de telefonia móvel, de internet, de redes de televisão, de clínicas médicas, de órgãos do governo e ouviu: Senhor me desculpa, mas não podemos fazer nada? Ou ainda: desculpa, Senhor, políticas da empresa (quer dizer, não podemos fazer nada novamente.). Ou quem sabe o: Sr, mil desculpas, o sistema não permite (idem ibidem)… Isso quando a ligação não cai depois de quarenta e dois minutos…

Ah, Brasil… Meu papel, como psicóloga culturalista é explicar, aprofundarmos na complexidade do pensamento de cada povo – porque pensa dessa maneira, porque decide de outra, porque comunica numa outra esfera ainda. Mas fazer isso no papel de brasileira para mim é, ás vezes, motivo de vergonha.

Alguns povos lidam com seu ambiente de uma forma irresponsável – ou seja: por ele não tenho gerência alguma. Talvez seja uma questão de sorte, talvez de azar, talvez seja tudo culpa do governo mesmo, ou de Deus (que quis assim) – mas eu? Ah, eu? Eu não conto nada… Afinal de que adianta reclamar? Vai mudar? Não vai mesmo… E assim entramos (todos) no infindável ciclo Pocotó que meu colega tanto comenta.

Ao ausentar-me da responsabilidade, naturalmente o segundo passo é procurar o culpado: e assim o fazemos com Deus, com o trânsito, com a filha doente, com o governo, com o fornecedor, com o cliente ou com um ente querido que muito gostamos de evocar: “a gente”.

Sempre brinco com meus clientes: a gente quem? Tu e teu guia espiritual? Tu e teu amigo imaginário? Quem é a gente?

Como todos sabem, a língua portuguesa nos autoriza a ter seis pronomes pessoais e o brasileiro – com sua infinita criatividade criou um sétimo – a Gente.

“A gente” é uma excelente expressão para eximir-se da responsabilidade. Ela não apenas ilude o interlocutor dando a idéia de que “estou incluído nisso”, mas ainda melhor ela pulveriza o sujeito, esconde ele, mascara num grupo secreto. Será “a Gente” um grupo religioso sectarista ortodoxo que trabalha num porão escuro ás expensas do pobre brasileiro que queria responsabilizar-se, mas “a Gente” proíbe?

Quem disse para fazer isso? A gente.

Quem não quis mandar o mail? A gente.

Quem se esqueceu do documento? A gente.

Quem decidiu ir embora mais cedo? A gente.

E como explicar para o estrangeiro o pronome “A gente”?

Sempre digo que a gente pode de fato ser um grupo, mas freqüentemente é a própria pessoa que está falando. Mas então porque não usa o “eu”? Ah… Porque “eu” não vou me expor dessa maneira. Será que ” a gente” se dá conta disso?

A responsabilidade, portanto não é lá uma grande virtude em solo brasileiro. É confundida com exposição, com maturidade, com autoridade. Sabe lá (Deus) o que vão fazer se eu me pronunciar? Melhor mesmo é seguir escondidinho aqui.

E num país coletivista, onde o indivíduo vale tão pouco mesmo, acrescentado o fato de que somos jovens, imaturos, um grande adolescente em conflitos de crescimento por que preocuparmo-nos com a responsabilidade? Ah, isso o tempo resolve…

E sem percebermos, cria-se a cultura da corrupção e da negligência. Corrompem-se as normas da boa conduta, da honestidade, da integridade, do olho-no-olho, do ser escutado e respeitado como cidadão e do que sei que posso contar com você. Á propósito, alguém aí se sente realmente amparado a fim de poder contar com alguém nessas situações?

Vamos ao futebol.

Como disse anteriormente, trabalho nas melhores empresas multinacionais deste país, fazendo o Treinamento Intercultural de presidentes, vice-presidentes, diretores e uma infinidade de pessoas altamente qualificadas que estarão se mudando para o exterior em breve a fim de cumprir suas missões profissionais. Em um público bem diferente deste, faço a mesma coisa com adolescentes entre catorze e vinte e poucos anos que vão para o exterior estudar. E no meio do caminho, tenho um público muito especial que é a fusão de ambos: o jogador de futebol.

Este, similar ao executivo, irá para o exterior com uma sobrecarga de tarefas e responsabilidades que todos sabemos é tão grande quanto, ou se não maior da que o profissional brasileiro da empresa americana que acaba de assumir a presidência na Coréia do Sul. Ou seja: só desafios pela frente, de toda ordem.

Na mesma linha, salários altíssimos e pressões ainda mais para fazer o gol de placa que todos esperam. Concordam? Soma-se a isso o fato de que assim como o executivo, o jogador poderá levar junto sua esposa e seus filhos – um capítulo ainda mais complexo da novela migratória, que neste caso, começa a assumir contornos diferentes do esperado.

Quando comecei a ofertar nosso trabalho junto aos jogadores e suas famílias – todos eles então sobrecarregados de esperança e pouco municiados em ferramentas sócio-cognitivas ( até pela pouca idade ou pela absoluta falta de experiência com culturas estrangeiras) o resultado natural da oferta, em meu ponto de vista e daqueles com quem conversava era de que todos os envolvidos, fossem eles, os clubes ou os empresários se deleitariam com a possibilidade de mais qualificação e suporte num momento tão importante de suas vidas. Correto?

Infelizmente não. Começam os telefonemas para os clubes brasileiros, cuja telefonista nos passa para a assistente social, que por sua vez nunca está presente e menos ainda retorna nossas chamadas. A cada tentativa, a resposta: “Não sei Sra, quando ela vai estar. Quer deixar recado?” E na ciência de que o recado não seria eficiente, pergunta-se: E como posso fazer para encontrá-la então? A resposta é sempre fatídica: “A gente não tem como prever…”

Previsões à parte, algumas poucas vezes os telefonemas são atendidos, e não mais que meia dúzia de vezes somos jogadas entre a assistente social e a psicóloga, cujas respostas harmoniosas são: “A gente já faz isso que você está oferecendo”. Mas a gente quem? Você ou a psicóloga?, pergunto. “Nós duas…” E partíamos dali com a certeza de que nem uma, nem a outra, haviam entendido sequer o que fazíamos.

E finalmente, os empresários, também sócios ativos da “Sociedade Secreta A Gente”, cujas respostas são: “A gente até queria que o jogador fizesse este tipo de trabalho, mas ele não quis…”… E podemos falar com ele? “Olha, isso a gente não pode fazer… É complicado falar com ele.”

Quando podemos encontrar com Sr. Fulano? “Ah, isso é bem difícil… a gente nunca sabe por onde ele anda…” E talvez uns sete ou dez meses de telefonemas tentado encontrá-lo para que as respostas sejam: “Acho muito importante esse trabalho, mas sabe como é o futebol, né? A gente quer profissionalizar, quer mudar as coisas… mas é difícil. Um dia a gente chega lá..”

E termino minha reflexão me perguntando com uma desesperada curiosidade: quem é o futebol? Quem faz esse grupo secreto, inatingível, cujos objetivos todos são truncados pela “gente”?

Quem se responsabiliza pela mudança? Pelo bem-estar do jogador? Pela competência intercultural dele, de sua família? Pela sua qualificação como profissional e como ser humano que o Treinamento Intercultural propõe?

“Não sei Senhora, não sou eu quem cuida disso”, ouvimos. Quem cuida então (uma vez que eu estava falando com todos os envolvidos no tema)? “Não sei Senhora.” Mas quem se responsabiliza??? “Também não sei, Senhora.”

Bem, eu também não sei.

Mas sei que estamos mergulhados numa cultura de exclusão: a exclusão da responsabilidade pessoal, a exclusão do indivíduo, a exclusão da cidadania, a exclusão do auto-respeito, inclusive, que desmoraliza a todos nós quando nos escondemos de nós mesmos. Hoje “a gente” se misturou uns aos outros, a palavra do indivíduo pouco vale, o pensamento individual foi banido, a responsabilidade mais ainda, e tudo, – tudo – pulverizamos entre “a gente” mesmo, que talvez um dia, acabe decidindo por dar mais atenção a competência intercultural de nossos jogadores.

Será que Estaremos Vivos?

FUTEBOL/CORINTHIANS/TREINO

A falha de Júlio César, a mais recente entre as diversas de goleiros, coloca em debate a metodologia de treino

de Eduardo Barros, via Universidade do Futebol

Após as finais dos Estaduais-2011, muitas rodas de conversa sobre futebol tiveram como assunto principal a falha do goleiro corintiano Júlio César na jogada que terminou com o gol de Neymar, o segundo do Santos na vitória por 2 a 1, na Vila Belmiro.

Inconformado com a derrota, um torcedor (sem o amplo olhar das vitórias e derrotas num jogo) questionou um técnico de futebol, argumentando como pode ser possível alguém que tem como profissão a função exclusiva de fazer defesas, não conseguir segurar uma bola tão fácil.

Leia a história abaixo, ocorrida num destes lugares em que se discute futebol:

Torcedor: Não é possível! Ele é muito bem pago pelo que faz e “engoliu um frango” num chute rasteiro, fraco e, ainda por cima, no meio do gol. As desculpas que a grama estava molhada e a bola estava lisa não servem! Ele não poderia ter defendido?

Técnico: Poderia, sim. Mas considere toda a jogada. A recomposição da defesa do Corinthians foi lenta, o posicionamento de cobertura do zagueiro central ao lateral direito não foi bem executado e a visão do Júlio César pode ter sido atrapalhada no momento da finalização do Neymar.

Torcedor: Não interessa! Ele treina todos os dias com o preparador de goleiros e eu já vi centenas de vezes como são os treinamentos. Ele tem que defender chutes, chutes e mais chutes. Vi numa reportagem que alguns preparadores chutam até 500 bolas em um único dia. Muitos são dificílimos e incluem saltos, deslocamentos, rolamentos, quedas. Uma bola daquela não pode passar!

Técnico: Você está certo! Os goleiros defendem chutes, chutes e mais chutes, porém, escute-me: os treinamentos de goleiros um dia irão mudar!

Torcedor: Eu sei. Tenho acompanhado que alguns treinadores de goleiros utilizam raquetes e lançam bolinhas de tênis para serem defendidas. Clubes modernos dispõem até de uma máquina que dispara bolas. Tudo isso para melhorar o reflexo, certo? Espero que com isso os “frangos”, ao menos do meu time, não aconteçam mais!

Técnico: Não é bem isso que eu quis dizer. Os treinamentos que contenham disparos exagerados, seja com raquete, com máquina ou com o próprio treinador de goleiros, um dia irão acabar! Só não sei se nós ainda estaremos vivos…

Torcedor: Como assim? Se os goleiros já falham com a quantidade de treinamento de defesas que realizam, imaginem se pararem de treinar? O futebol está perdido!

Técnico: Eles não vão parar de treinar. Somente irão fazê-lo de maneira diferente!

Torcedor: Como assim?

Técnico: Chegará o dia que todos os treinamentos de uma equipe serão o mais próximo possível da realidade do jogo. O goleiro não vai ter que ficar pulando corda, cone ou estaca, pois o jogo de futebol não tem nada disso!

Torcedor: E como ele melhora a altura do salto?

Técnico: Ele não precisa saltar mais alto, e sim, na hora certa.

Torcedor: Mas e as defesas?

Técnico: Ele continuará fazendo. Não na mesma quantidade, no entanto, sobrará tempo para o aprendizado de outras questões muito importantes para o jogo.

Torcedor: Mas o que é mais importante para o goleiro do que defender?

Técnico: Não precisar defender, oras!

Torcedor: Isso é impossível!

Técnico: Não é, não! Defesas são ações técnicas bem menos realizadas do que reposições e interceptações ao longo de uma partida. Há estatísticas de jogos que uma equipe não acertou nenhum chute no gol durante os 90 minutos.

Torcedor: Incompetência!

Técnico: Ou competência da que não permitiu o chute?

Torcedor: E se uma equipe consegue chutar muito?

Técnico: Como o Barcelona, por exemplo?

Torcedor: Isso, o Barça finaliza demais! Como o goleiro se prepara para este bombardeio?

Técnico: De acordo com os números da Uefa Champions League, sabe qual a média de chutes no gol da

equipe espanhola por partida nesta competição?

Torcedor: Vinte e cinco?

Técnico: Sete!

Torcedor: Só?

Técnico: Sim! E é a melhor. Então, pra que defender mais de 200 bolas em um único dia?

Torcedor: Não sei, não sei… Estou confuso! Quer dizer que com estes novos treinamentos os goleiros não vão mais falhar?

Técnico: Vão sim!

Torcedor: E você não se importa?

Técnico: Claro que me importo, mas todos os jogadores erram…

Torcedor: Se for do meu time, vou ficar bravo sempre!

Técnico: Tudo bem, mas lembre-se de considerar toda a jogada…

Torcedor: Você já me disse isso! Me diga uma coisa: quem que está falando tudo isso? É você quem está inventando?

Técnico: Inventando, eu? Não… Quem me disse? Os mesmos que falam e escrevem que a preparação física do jogador de futebol está mudando, que os treinamentos das equipes de futebol irão mudar e que, consequentemente, o futebol brasileiro um dia irá mudar, e pra melhor!

Torcedor: Mudar? Somos pentacampeões do mundo. Você está ficando louco!!!

Técnico: É melhor pararmos por aqui…

O técnico em questão não considerou pertinente continuar a discussão, pois expressões como a função do goleiro no modelo de jogo da equipe, as regras de ação a serem executadas nos quatro momentos do jogo (ataque, defesa e transições) e o entendimento do fenômeno futebol a partir de uma visão sistêmica não seriam compreendidas. Felizmente, o diálogo ocorreu com um simples torcedor. O grande desafio é quando as justificativas têm que ser feitas para profissionais do futebol, muitas vezes sem sucesso!

Orquestra X Exército

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“A bola não entra por acaso?”

Para quem gosta de futebol, falar de Barcelona e Real Madrid é inevitável nos dias de hoje. Principalmente porque num intervalo de 18 dias, teremos o privilégio de acompanhar quatro partidas sendo disputadas entre as duas equipes espanholas: uma pelo Campeonato Espanhol 2010-2011 (empate em 1X1, em Madrid), uma pela final da Copa do Rei (vitória do Real Madrid por 1X0, em Valência) e duas pelas semifinais da Liga dos Campeões da Europa (0X2 em Madrid e 1X1 em Barcelona).

Confesso que há tempos não escrevia um texto mais elaborado, em parte por ter encontrado no Twitter (@tega) uma saída mais rápida para descarregar as ideias, mesmo que limitadas a 140 caracteres. Mas nos últimos dias consegui reunir algumas anotações, contando com ajuda dos amigos, ao fazer a seguinte provocação: como uma orquestra pode vencer um exército?

Esta analogia pode ser percebida se compararmos os desempenhos de duas das principais equipes de futebol do mundo.

O F.C. Barcelona, seria a orquestra. Repleto de músicos tecnicamente excelentes e com inteligência de jogo (*) mais consolidada e acima da média. Possui um maestro competente, de comprovada liderança e de conhecimentos suficientes para reger seus atletas e manter a harmonia da equipe, mas que não é tão fundamental…

O modelo de jogo (o norte, ou seja, como a equipe treina e se porta nos jogos, no sistema defensivo, nas transições e no sistema ofensivo) é muito bem definido e aproxima-se da excelência, e não muda em função do adversário. A posse de bola é muito valorizada durante toda a construção desse processo.

A cultura de jogo mistura-se à sua filosofia: ‘Més que un Club’ e vem sendo construída há anos, reproduzindo-se desde suas categorias de base. O perfil de seus atletas reflete muito bem esta cultura e dificilmente desafinam ou saem do tom, principalmente porque o F.C. Barcelona é um clube formador.

Já o Real Madrid seria o exército. Muito mais dependente de seu comandante, que além de ser um grande líder é peça fundamental ao criar as estratégias e armadilhas que sejam bem executadas em cada batalha. Compromete seus atletas com uma meta principal e extrai o máximo deles, individual e coletivamente. Os soldados também são considerados tecnicamente excelentes, mas com inteligência de jogo em processo de desenvolvimento. Recrutados a peso de ouro, coadunam com o perfil de clube comprador que é o Real Madrid.

Talvez por este motivo fique mais fácil perceber que o clube ainda não possui uma cultura de jogo definida. Já o seu modelo de jogo é bem executado, mas ainda distante da excelência. Mais flexível, muda de acordo com o adversário, valorizando a progressão rápida ao gol.

Se constatarmos que os imaginários “exército” e “orquestra” estão em condições iguais de disputa: mesmo número de jogadores, treinadores ávidos por colocarem seus nomes na história e onde “armas” e “instrumentos” se transformam simplesmente em suor e chuteiras, conseguiríamos determinar quem tem mais chances de sair vencedor dos confrontos?

Em quem você apostaria: na orquestra ou no exército?

Entender melhor o contexto das duas equipes pode nos preparar para realizar escolhas mais acertadas e permitir um melhor convívio com fatores que não podemos controlar. Neste sentido, competência, dedicação, estrutura de trabalho e recursos financeiros são ingredientes importantes, mas não representam tudo o que deve ser considerado.

No futebol, e na vida de forma geral, existem novas maneiras de enxergarmos uma situação, e que coloca em xeque tudo o que acreditamos saber até então.

Como afirma o ex- vice presidente do F.C. Barcelona, Ferrán Sorian, ‘A bola não entra por acaso’.

Mas talvez ela entre sim, mais do que possamos imaginar.

(*) a inteligência de jogo é a capacidade de resolver as situações-problema do jogo de maneira eficiente utilizando seu acervo técnico, tático, físico e psicológico.

Leitura para Entender de Futebol

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Se você acredita que para entender de futebol basta apenas ler e saber tudo sobre futebol, este livro não é indicado para você.

O Andar do Bêbado, do físico americano Leonard Mlodinow, oferece uma didática introdução aos mecanismos do acaso, nos quais estamos direta ou indiretamente enredados.

A ilusão de que temos o conhecimento necessário para controlar as variáveis mais doidas do mundo cotidiano – como os números de uma roleta – provoca equívocos nas mais diversas atividades.

Em todos os esportes profissionais, o técnico de um time costuma ser responsabilizado quando amarga várias derrotas sucessivas. É comum que ele seja demitido e substituído por outro…

Economistas já fizeram análises rigorosas dos resultados obtidos por equipes que mudaram de técnico e chegaram a uma conclusão que surpreende torcedores e cartolas: a mudança não faz diferença, porque, com perdão do trocadilho, há muitas outras coisas em jogo.

A moral do livro de Mlodinow é que fracasso ou sucesso estão sujeitos a forças que nenhum sistema ou indivíduo pode controlar plenamente. A consciência do acaso pode ser libertadora.

Você Sabe Fazer as Perguntas Certas?

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Via Ser Professor Universitário

Sempre que estou ensinando Tecnicas de Avaliação da Aprendizagem e como preparar provas, utilizo este texto que oferece uma interessante e divertida reflexão sobre a complexidade de fazer perguntas em prova. O texto relata a experiencia de um professor que fora convocado por um colega (Professor de Física) para ajudá-lo a responder um pedido de revisão de prova, solicitado por seu aluno.

Há algum tempo recebi um convite de um colega para servir de árbitro na revisão de uma prova. Tratava-se de avaliar uma questão de prova de Física, que recebera nota zero. O aluno contestava tal conceito, alegando que merecia nota máxima pela resposta, a não ser que houvesse uma “conspiração do sistema” contra ele. Professor e aluno concordaram em submeter o problema a um juiz imparcial, e eu fui o escolhido.

Chegando à sala de meu colega, li a questão da prova, que dizia: “Mostre como pode-se determinar a altura de um edifício bem alto com o auxilio de um barômetro.”

A resposta do estudante foi a seguinte: “Leve o barômetro ao alto do edifício e amarre uma corda nele; baixe o barômetro até a calçada e em seguida levante, medindo o comprimento da corda; este comprimento será igual à altura do edifício.” Sem dúvida era uma resposta interessante, e de alguma forma correta, pois satisfazia o enunciado. Por instantes vacilei quanto ao veredicto.

Recompondo-me rapidamente, disse ao estudante que ele tinha forte razão para ter nota máxima, já que havia respondido a questão completa e corretamente. Alem disso esse aluno gosava de otimo conceito como estudante

Entretanto, se ele tirasse nota máxima, estaria caracterizada uma aprovação em um curso de física, mas a resposta não confirmava isso. Sugeri então que fizesse uma outra tentativa para responder a questão. Não me surpreendi quando meu colega concordou, mas sim quando o estudante resolveu encarar aquilo que eu imaginei lhe seria um bom desafio

Segundo o acordo, ele teria seis minutos para responder à questão, isto após ter sido prevenido de que sua resposta deveria mostrar, necessariamente, algum conhecimento de física. Passados cinco minutos ele não havia escrito nada, apenas olhava pensativamente para o forro da sala. Perguntei-lhe então se desejava desistir, pois eu tinha um compromisso logo em seguida, e não tinha tempo a perder. Mais surpreso ainda fiquei quando o estudante anunciou que não havia desistido. Na realidade tinha muitas respostas, e estava justamente escolhendo a melhor. Desculpei-me pela interrupção e solicitei que continuasse.

No momento seguinte ele escreveu esta resposta: “Vá ao alto do edifico, incline-se numa ponta do telhado e solte o barômetro, medindo o tempo t de queda desde a largada até o toque com o solo. Depois, empregando a fórmula h = (1/2)gt^2 , calcule a altura do edifício.” Perguntei então ao meu colega se ele estava satisfeito com a nova resposta, e se concordava com a minha disposição em conferir praticamente a nota máxima à prova. Concordou, embora sentisse nele uma expressão de descontentamento, talvez inconformismo.

Ao sair da sala, lembrei-me que o estudante havia dito ter outras respostas para o problema. Embora já sem tempo, não resisti à curiosidade e perguntei-lhe quais eram essas respostas. “Ah!, sim,” – disse ele – “há muitas maneiras de se achar a altura de um edifício com a ajuda de um barômetro.” Perante a minha curiosidade e a já perplexidade de meu colega, o estudante desfilou as seguintes explicações. “Por exemplo, num belo dia de sol pode-se medir a altura do barômetro e o comprimento de sua sombra projetada no solo, bem como a do edifício”. Depois, usando-se uma simples regra de três, determina-se a altura do edifício. “Um outro método básico de medida, aliás bastante simples e direto, é subir as escadas do edifício fazendo marcas na parede, espaçadas da altura do barômetro. Contando o número de marcas tem-se a altura do edifício em unidades barométricas”. Um método mais complexo seria amarrar o barômetro na ponta de uma corda e balançá-lo como um pêndulo, o que permite a determinação da aceleração da gravidade (g). Repetindo a operação ao nível da rua e no topo do edifício, tem-se dois g’s, e a altura do edifício pode, a princípio, ser calculada com base nessa diferença. “Finalmente”, – concluiu, – “se não for cobrada uma solução física para o problema, existem outras respostas. Por exemplo, pode-se ir até o edifício e bater à porta do síndico. Quando ele aparecer; diz-se: “Caro Sr. síndico, trago aqui um ótimo barômetro; se o Sr. me disser a altura deste edifício, eu lhe darei o barômetro de presente.”.

A esta altura, perguntei ao estudante se ele não sabia qual era a resposta ‘esperada’ para o problema. Ele admitiu que sabia, mas estava tão farto com as tentativas dos professores de controlar o seu raciocínio e cobrar respostas prontas com base em informações mecanicamente arroladas, que ele resolveu contestar aquilo que considerava, principalmente, uma farsa.

“Não basta ensinar ao homem uma especialidade, porque se tornará assim uma máquina utilizável e não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto.” (Albert Einstein)

“O especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, e , por fim, acaba sabendo tudo sobre nada.” (Bernard Shaw)

Aula Gratuita: O Talento Esportivo

O que é ter talento para jogar futebol? Será que nós já nascemos com ele (inato) ou o adquirimos a partir de estímulos e oportunidades durante os treinamentos (adquirido)? Nesta aula trouxemos artigos e vídeos de alguns autores que discutem esse tema tão polêmico e interessante.

Talento Esportivo
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O Jogo de Futebol como um Sistema: a Questão do Encaixe


de Luiz Lima, engenheiro.

Quando, lá atrás, comecei a enxergar o jogo como um sistema dinâmico e funcional, penso ter dado um passo importante – vejo isto claramente, hoje – na compreensão do futebol. Todavia, como Norbert Wiener e os cibernéticos da primeira geração, eu não conhecia a natureza intrínseca do sistema, mas sabia o que ele fazia ou realizava o que já era algo de valor. Evidentemente que o Minotauro continuava a me aguardar, no labirinto escuro do mundo da bola (sic), mas o tênue fio de Ariadne começava a se mostrar e orientar meu caminho.

Assim, uma das qualidades ou características do jogo que me despertou especial atenção foi a do “encaixe” (uso o termo na linguagem comum do esporte de propósito). Considero-a tão extraordinária que a pergunta mais dramática ou mais embaraçosa que se pode fazer a um treinador (ou a um analista esportivo) é indagar-lhe das razões pelas quais um time “se encontra” dentro de campo, desenvolve uma prática esportiva eficaz e agradável aos olhos, ditando o ritmo do jogo e auferindo uma vitória daquelas que “vence e convence”, ao final do encontro.

Não deixa de ser curioso, pois a qualidade do “encaixe” de um time pode ser apreendida inclusive a olho nu. Aliás, qualquer menino que acompanha seu pai ao estádio logo percebe se seu time do coração está jogando bem, ou se os atletas estão batendo cabeças. Outra coisa, bem diferente, é sermos capazes de avaliar o status de “encaixado” de uma equipe, ou mesmo de um atleta isolado, lançando mão de algum meio adequado.

O fator que faz a diferença: o “encaixe”

É comum ver pessoas que trabalham ou analisam o futebol preocupadas em identificar aqueles elementos cruciais, que a seu juízo “fazem a diferença” no jogo.

Tais fatores podem ser a entrega, a doação, a determinação, a disciplina, a atitude, a obediência tática, o jogador diferenciado, o esquema tático, o preparo físico, os treinos, o dedo do técnico, a estrutura oferecida pelo clube, o jogo inteligente, e assim por diante.

Na investigação científica, esta é a etapa da identificação e seleção das variáveis que, por suposição, têm o maior poder explicativo ou alta correlação com a variável explicada. Em outras reflexões que faremos neste espaço, oportunamente, voltaremos a este assunto, já que a elaboração de um modelo transita por esta etapa, de forma crucial.

Quando os estudiosos e especialistas em futebol elegem as variáveis acima (ou outras) como as mais importantes ou determinantes para se compreender o modus operandi do jogo, e deixam de fora o “encaixe”, como se fora uma quantité négligeable (*), elas estão cometendo aquele erro fatídico que nos meios acadêmicos é conhecido como “jogar fora o bebê junto com a água do banho”. O bebê, no caso, é o “encaixe” do time.

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Aula Gratuita: Princípios Operacionais do Jogo

Como uma equipe se organiza imediatamente depois de perder a posse de bola? Será que existem referências para a organização dos jogadores em campo? Muitos autores buscam responder essas perguntas, com propostas que reforçam a melhor compreensão da organização dos jogadores em esportes coletivos. Está aula reúne conteúdos que exploram os Princípios Operacionais das equipes e responde suas questões principais.

Princípios Operacionais
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Ciclo de Palestras de Futebol

Evento promovido pela Federação Paulista de Futebol, Instituição Damásio de Jesus e Universidade do Futebol, entre os dia 31 de janeiro à 04 de fevereiro de 2011, com a participação dos seguintes convidados: Marco Aurélio Klein, Amir Somoggi, João Paulo Medina, Luis Felipe Santoro, Eduardo Tega, Oswaldo “Vadão” Alvarez e Rodrigo Leitão.

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O Ciclo de Palestras foi transmitido via satélite, chegando a centenas de cidades por todo o Brasil.

Abaixo, segue a apresentação sobre ‘Inovação e Criatividade no Futebol’ para download.

E, mais uma vez, agradeço pelo convite!