14 meses em 1 post

“O futebol é a coisa mais importante das coisas menos importantes.”

(Jornalista sábio e desconhecido)

O Twitter é viciante.

E como todo vício, consome hábitos, alguns deles saudáveis.

Considero escrever no blog um desses bons hábitos, mas que por algumas razões deixei de fazê-lo há mais de um ano.

Benjamin Franklin disse uma vez que “A cada ano, um hábito vicioso é extirpado, no tempo devido, para fazer o pior homem se tornar bom.”

Mas o twitter (@tega) é quem vem extirpando o hábito de elaborar a ideia, o pensamento, o insight e trabalhá-lo em bem mais que 140 caracteres.

Do último post pra cá, muitas coisas aconteceram:

  • Marin, ex-presidente da CBF foi preso pelo FBI.
  • Del Nero foi indiciado e, só não foi preso, porque não sai de casa nem pra ir à padaria.
  • Blatter, Valcke e companhia caíram e nunca mais irão se levantar.
  • A FIFA e as demais entidades foram obrigadas a repensar seus papéis pelo bem do jogo.
  • O Bom Senso F.C. conseguiu driblar a bancada da bola da CBF e ajudou a criar uma lei que não resolver os problemas do futebol brasileiro, mas trás esperança e oxigênio ao ambiente de regulamentação na governança nos clubes.
  • O esporte do país continua a deriva, negociado como moeda de troca do jogo político de conchavos e propinas que ninguém mais suporta.
  • Nossa qualidade do jogo vem piorando nos campeonatos nacionais e os melhores campeonatos do mundo continuam a acontecer na Europa;
  • As Federações (de vários esportes) no Brasil continuam nos brindando com casos de corrupção e mau uso do dinheiro com o desenvolvimento de suas modalidades;
  • Os Jogos Olímpicos no Rio foram mágicos, mesmo com muita mutreta.
  • A CBF foi obrigada a ceder espaço para profissionais com conhecimento técnico. A Seleção principal e as categorias de base contam com profissionais que são referências em suas posições.
  • Micale é o treinador da Seleção Olímpica e conquistou o primeiro ouro em nossa história com a mesma coragem que representa suas ideias sobre o jogo.

Entre tantas outras coisas mais ou menos importantes sobre o futebol e sobre a vida.

Volto aos gramados como quem volta de lesão, só que entrando em dividida.

Abraços!

Tega

 

 

Futebol Brasileiro: Fechado para Balanço

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Diagnóstico do Futebol Brasileiro

por Eduardo Conde Tega, CEO da Universidade do Futebol.

Como reflexo natural do fracasso do futebol brasileiro na Copa do Mundo, a sociedade passou a refletir em diversos níveis sobre assuntos que comumente não eram aprofundados em tempos de fartura: calendário, qualidade do jogo, fairplay financeiro, dívida dos clubes, governança, violência, público nos estádios, formação de atletas e outros temas fundamentais na compreensão mais ampliada sobre o quão inóspito e desestimulante se tornou o ambiente para quem pratica e participa do futebol de alguma maneira.

Muitas das saídas encontradas para este cenário, que ainda não se estagnou e que deve piorar, são soluções paliativas e que tratam de forma muito individualizada os reflexos desta inércia. Geralmente, nem mesmo o melhor gestor, a sorte, recursos, competência e vontade de fazer direito acabam sendo suficientes para que o clube encontre uma solução no seu crescimento sustentado, através da busca equilibrada de receitas, por exemplo.

Em que ambiente são tomadas decisões impactantes sem conhecer mais profundamente suas causas?

O futebol deveria ter fechado para balanço e diagnosticado em todas as suas dimensões de atuação, de forma profunda e responsável, desde a derrota para a Holanda por 3 a zero, no dia 12 de julho de 2014.

Durante este ano, teríamos compreendido nossas fragilidades e potencialidades, com os diferentes e relevantes agentes que participam deste mesmo ambiente ruim e pouco atrativo onde o futebol é praticado.

Saberíamos, por exemplo, que as categorias de base foi um dos setores que mais avançou nos últimos dez anos, com profissionais preparados, que buscam equilibrar a prática com o conhecimento científico, mas quase sempre estão reféns de um dirigente amador sem fundamentação técnica nas decisões mais estratégicas.

Ficaríamos intrigados com a transformação do perfil do nosso jogador, que há décadas se desenvolvia de uma forma natural e espontânea nos campinhos e nas ruas, e que passou a ser “desenvolvido” numa prática mais sistematizada, regulada e mecanizada nas Escolinhas, tornando o ensino do futebol de hoje em dia muito diferente da forma como o aprendíamos antigamente.

Entenderíamos que o Brasil é ainda um dos poucos países do mundo que não exige qualificação ou certificação profissional para quem atua como técnico de futebol, revelando o descaso de décadas na formação adequada de seus profissionais.

Perceberíamos que o método de formação de atletas ainda é tratado pela maioria de forma fragmentada e autoritária, supervalorizando os aspectos técnicos e provocando ações mecânicas pouco criativas e comportamentos estereotipados, produzindo uma leitura insuficiente do jogo.

Perguntaríamos a quem poderia interessar a lógica deste calendário irracional e improdutivo, que durante a maior parte da temporada mantém milhares de profissionais desempregados e centenas de clubes do interior inativos, dificultando o vínculo com seu torcedor, que passa mais da metade do ano sem assistir seu time de coração jogar.

Acordaríamos para a realidade de que a camisa infantil mais vendida em nosso país é a do F.C. Barcelona, de Messi e cia.

Questionaríamos a origem associativa dos clubes, que em seus estatutos não possui fins lucrativos, mas que, na prática, movimentam cifras milionárias e com pouca transparência na negociação dos atletas.

Reforçaríamos o entendimento sobre o papel desregulado e desproporcional entre agentes, empresários e clubes formadores.

Lamentaríamos a relação entre o grande fluxo de exportação de jovens atletas e a importação das grandes Ligas Europeias na forma de pay-per-view.

Ficaríamos preocupados ao saber que em recentes pesquisas sobre o comportamento do torcedor brasileiro, o índice de pessoas que declararam não torcer para time algum, inclusive para a Seleção Brasileira, aumentou em 25% nos últimos quatro anos.

E, finalmente, duvidaríamos se estamos realmente no século XXI, o de democracia e redes sociais, ao entender que as entidades organizadoras de competições (federações e confederação) são praticamente feudos do século XIII, que concentram a riqueza do futebol brasileiro e definem seu rumo de acordo com os seus respectivos interesses privados.

O maior vexame do futebol brasileiro faz seu primeiro aniversário e, lamentavelmente, continuamos sem um norte, sem um plano de desenvolvimento para o nosso futebol.

Até quando este enfermo futebol brasileiro, paciente da UTI há anos, vai aguentar permanecer nas mãos dos especialistas de sempre?

Vamos continuar dependendo de um eventual fracasso ou sucesso da Seleção Brasileira para reverem suas prescrições?

Parabéns a vocês!

Quem lucra com os Campeonatos Estaduais

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Um mesmo ciclo negativo se repetirá no próximo domingo: mais de 20 mil profissionais do futebol brasileiro estarão desempregados, incluindo atletas, treinadores, assistentes técnicos, preparadores físicos, supervisores, roupeiros e massagistas, entre outros.

São profissionais que pertencem a centenas de clubes espalhados pelo Brasil e que ficarão sem atividades até o final do ano, em função do atual calendário promovido pela CBF e suas respectivas federações. Muitas destas equipes irão se despedir da temporada com menos de 18 jogos e as federações repetirão o discurso de que, sem os estaduais, a situação seria ainda pior.

Já os clubes considerados grandes, na outra ponta, poderão jogar um número excessivo de partidas, o que impede uma preparação mais adequada e que impacta diretamente na qualidade do espetáculo.

Em alguns casos serão mais de 80 jogos, número 40% superior ao número de partidas que são disputadas pelas principais equipes da Europa, por exemplo, numa mesma temporada.

Qualquer presidente de federação ou confederação defenderá em tom romântico que o campeonato estadual é responsável por gerar empregos e movimentar a economia nos primeiros meses do ano, mesmo que os números digam o contrário.

Os campeonatos estaduais são unanimidade em modelo deficitário para torcedores, clubes e imprensa.

Exceto para quem organiza e transmite a competição.

Diminuir a quantidade de jogos dos grandes, ao priorizar as principais competições, e aumentar consideravelmente a quantidade de jogos dos clubes de menor porte é fundamental para iniciarmos esse movimento benéfico ao esporte no país.

Os estaduais são um patrimônio histórico e cultural de cada Unidade Federativa, mas há a necessidade de se adequarem à importância que eles têm hoje em dia.

A situação de falência em que se encontram por todos os Estados do Brasil está diretamente relacionada à manutenção dos feudos das federações.

Para eles, maior tempo de calendário para os estaduais significa mais poder e dinheiro.

O atual modelo de governança do futebol brasileiro concentra riquezas nas federações e na CBF, que cavam um buraco ainda maior para os clubes se enterrarem.

É necessário criar viabilidade para clubes do interior, ao resgatar as rivalidades regionais e fomentar a atividade econômica que gira em torno deles.

Mas, essencialmente, os clubes do interior precisam competir, já que não conseguem criar e manter um vínculo com seu torcedor, que hoje passa mais da metade do ano sem ver seu time jogar e assiste aos jogos de equipes grandes pela TV. Principalmente equipes e ligas internacionais.

Um novo formato para os estaduais deve urgentemente ser discutido e implementado por quem dirige o futebol brasileiro.

Mas como os interesses dessas entidades e de seus dirigentes passam longe do desenvolvimento do futebol brasileiro, os clubes ou o Governo deveriam intervir imediatamente.

Os clubes lutam para pagar suas contas, tributos e dívidas; e tem com as federações a mesma relação que um devedor tem com seu gerente de banco.

Já o Governo, tenta fazer da MP 671 um instrumento de decência em conceitos básicos como gestão responsável e limites de mandatos às federações, para inspirar o mesmo formato em outros esportes e levar democracia e gente séria às entidades que deveriam, no mínimo, organizar as competições com competência.

Verdadeiramente, somente teremos mudanças significativas tendo em vista o desenvolvimento do futebol nacional quando o colégio eleitoral da CBF e das federações for ampliado. Quando todos os atletas e clubes tiverem direito a voto na Assembleia Geral e fóruns decisórios das entidades que organizam as competições que estiverem disputando, com o mesmo peso dos demais.

Não é a toa que está esculpida em pedra no Museu Olímpico de Lausanne, na Suíça, a seguinte frase:

“Sem o atleta não há esporte.”

 

Publicado no mesmo dia no Blog do Juca:

http://blogdojuca.uol.com.br/2015/04/os-20-mil-desempregados-do-futebol/

 

 

A Correlação de Forças do Futebol Brasileiro: ensaio para a elaboração de uma política do futebol brasileiro

Cabo de Guerra

por João Paulo S. Medina*

“Tenho em mim todos os sonhos do mundo”

(Fernando Pessoa)

INTRODUÇÃO

O jogo é de futebol, mas bem que poderia ser um jogo de xadrez. Em uma análise atenta sobre o atual cenário do futebol brasileiro, é possível identificar-se duas grandes tendências, apesar de nem sempre muito nítidas. De um lado estão as forças que querem as mudanças conjunturais e estruturais do futebol brasileiro. Do outro, persiste um pensamento que, consciente ou inconscientemente, defende a sua manutenção. Sabemos que, em qualquer área de atuação, existem aqueles que alimentam o “status quo” simplesmente por serem incapazes de enxergar as limitações do cenário atual, e outros que o defendem por interesses dos mais diversos, alguns evidentemente pouco abonadores.

Este ensaio pretende fazer algumas conjecturas, em um ambiente de correlação de forças, entre os “agentes de conservação” que dominam e procuram manter de todas as formas o poder hegemônico no futebol brasileiro e os “agentes de transformação”, que clamam pelas mudanças.

É bom deixar claro que não é nossa intenção estabelecer aqui um confronto maniqueísta entre os que representam as forças do bem contra as do mal, do certo contra o errado ou do retrógrado contra o moderno, mesmo porque, devido à complexidade do contexto e dos interesses, é comum vermos pessoas e instituições que, paradoxalmente, ora defendem teses conservadoras, ora transformadoras. Na verdade, todos nós somos um pouco assim, contraditórios, complexos, com muitas dúvidas e conflitos internos.

E é justamente neste ambiente repleto de paixões, emoções e subjetividades, onde o futebol pode representar tanto um instrumento de alienação em nossa cultura, como uma de suas mais significativas e legítimas manifestações, que não podemos querer encontrar verdades absolutas. Portanto, o que pretendemos nestas reflexões é tão somente esboçar, dialeticamente, um quadro que nos permita entender cenários e enxergar novos caminhos, ou seja, levantar alguns elementos essenciais para a elaboração de uma política que realmente busque o desenvolvimento para o futebol brasileiro.

Entretanto, é inegável que existem hoje no futebol brasileiro forças extremamente conservadoras e reacionárias que insistem na manutenção de um estado de coisas que impede o seu desenvolvimento em um padrão de excelência, ou ao menos aos níveis já alcançados por alguns outros países, e que permite colocar sob suspeita a ideia de que o Brasil possa, por alguma razão, ser considerado o “país do futebol”.

Excetuando-se os fatos de ainda sermos o único país que conseguiu ser cinco vezes campeão mundial e também o único a ter participado de todas as edições das Copas do Mundo, nada mais nos faz concluir que somos os melhores. Nem em público nos estádios, nem nas boas práticas de gestão e governança e nem mesmo naquilo que sempre nos orgulhou, a qualidade técnica de nossos jogadores e equipes.

Neste contexto vamos fazer uma avaliação dos principais atores do futebol brasileiro em seus papéis enquanto agentes de conservação e/ou transformação. Dentro de uma visão mais abrangente que percebe o futebol como um tecido que envolve – mais ou menos – a vida de toda a sociedade, uma reflexão aprofundada e crítica deveria incluir todos os seus agentes: atletas, clubes profissionais, associações e ligas amadoras, dirigentes estatutários, executivos, treinadores e especialistas diversos, CBF, federações estaduais, sindicatos, patrocinadores, mídia especializada, torcedores, telespectadores, Ministério do Esporte, agentes-empresários, empreiteiros, legisladores e tribunais esportivos, universidades, entre outros.

Porém para este estudo especificamente, vamos considerar apenas os 6 “atores” básicos que interferem mais diretamente sobre o grande negócio que se transformou o futebol. A partir da perspectiva do alto rendimento e do espetáculo consideraremos os reflexos na base e massificação desta modalidade esportiva em nosso país, buscando-se, tanto quanto possível, uma visão de conjunto.

Destacaremos os seguintes grandes atores:
1. Jogadores
2. Clubes
3. Rede Globo e empresas patrocinadoras
4. CBF e Federações
5. Mídia especializada
6. Público em geral

1. JOGADORES (profissionais e amadores) – Representam a base primordial do futebol. Sejam eles participantes de uma categoria profissional de elite ou simplesmente praticantes amadores, alegres, descontraídos e apenas comprometidos com o jogo e o prazer da brincadeira e diversão, os atletas são a própria essência desta modalidade esportiva que se tornou um fenômeno social e uma paixão mundial. Historicamente os atletas profissionais no Brasil sempre foram pressionados e levados a conviver em um ambiente que exige posturas conservadoras e, muitas vezes, alienadas.

Alguns poucos atletas se destacaram por se rebelarem contra esta situação. Dois deles, sempre lembrados por suas atitudes contestadoras, são Afonsinho e Sócrates. Temos exemplos de vários outros jogadores contestadores, mas poucos deles no sentido político, ou seja que defendiam publicamente seus posicionamentos em defesa de transformações sociais ou mudanças do “status quo” vigente na sociedade ou no futebol.

Por isso, nunca se conseguiu mobilizar grande quantidade de atletas na luta por seus direitos e, sobretudo, na superação da submissão e alienação prevalentes. Em um ambiente tipicamente opressor, as próprias entidades que representam oficialmente os atletas dividem-se entre conquistas e melhorias pontuais e a total submissão aos poderes dominantes, característica das instituições futebolísticas. Recentemente surgiu um movimento, chamado de Bom Senso F.C., liderado por alguns atletas de elite e que defendem mudanças radicais que beneficiariam não só os jogadores das principais equipes, como também a imensa maioria de cerca de 80% que recebe até três salários mínimos. Trata-se de um fato novo e que merece atenção.

Centenas de atletas firmaram o seu apoio ao movimento, defendendo mudanças em diversos setores estratégicos que atuam no futebol. Seu slogan é “Por um futebol melhor para quem joga, para quem torce, para quem apita, para quem transmite, para quem patrocina. Por um futebol melhor para todos.”.

2. CLUBES – Assim como a família é considerada a “célula máter” da sociedade, dando suporte ao desenvolvimento da criança e do adolescente, o clube pode ser considerada a “célula máter” do futebol, dando identidade e apoio ao desenvolvimento do atleta. O fato de serem favorecidos por uma formatação jurídica na qual são constituídos, cujos dirigentes estatutários não são remunerados, fizeram com que um padrão mais profissional de gestão nunca tenha sido considerado com a devida seriedade no futebol brasileiro.

O que prevalece nestas instituições esportivas, ainda são os desejos, intenções e interesses da presidência, diretoria estatutária e conselheiros que são, de forma geral, mais torcedores do que gestores. Dentro deste quadro cria-se um ambiente onde se acumulam dívidas trabalhistas, tributárias, previdenciárias e bancárias, com antecipações desmedidas de receitas futuras e com propostas as vezes absurdas de negociações que no fundo pretendem apenas adiar os problemas, mas que de fato só os agravam, pois algumas delas são praticamente impagáveis.

Os clubes que tentam se modernizar contratam executivos e profissionais especializados, mas paradoxalmente dão a eles pouco poder decisório. Continuam pagando salários fora da realidade, gastando muito mais do que as receitas permitem, servindo de “vitrine” para atletas (“commodities”) pertencentes a agentes (e parceiros ocultos) que possuem fatias expressivas, quando não a totalidade dos direitos econômicos dos principais jogadores, cenário este que exige urgentemente de uma regulamentação.

No setor técnico, às vezes o treinador tem algum poder, mas que está diretamente relacionado aos resultados imediatos de campo. Quando sua equipe perde alguns jogos, ele igualmente perde o poder e, na sequência, o emprego. Aliás, esta lógica serve também para os projetos e planos de ação que são realizados, geralmente, com foco exclusivo no curto prazo, sem decisões tomadas à partir de um planejamento estratégico consistente da própria instituição.

Este cenário faz com que o clube viva de suas rotinas tradicionais, sem integração entre as suas dimensões políticas, administrativas e técnicas e, consequentemente, com ações que mudam conforme o andamento dos resultados de campo de sua equipe principal. Assim, trabalhos mais profissionais e competentes que incluam diagnósticos dos fatores internos e externos, elaboração e execução de cuidadoso planejamento estratégico, projetos e planos de ação de curto, médio e longo prazos, ações estratégicas, administrativas, técnicas e operacionais, completadas com avaliações e controles rigorosos de desempenho, são apenas reflexões futuristas ou utópicas para a maioria dos clubes brasileiros.

3. REDE GLOBO E EMPRESAS PATROCINADORAS – Em conjunto, dentro do modelo econômico globalizado vigente, constituem-se no grande pilar de sustentação do futebol brasileiro enquanto espetáculo e negócio. Por razões óbvias, o grande interesse das empresas é o lucro. Portanto, cobrar maior participação delas em relação aos problemas de todos os 641 clubes profissionais brasileiros e seus respectivos 18 mil jogadores soaria como ingenuidade. Esta deveria ser uma obrigação e prioridade da CBF e Federações Estaduais, que são instituições sem fins lucrativos.

As empresas com maiores recursos, via de regra, têm interesse nos clubes que podem agregar valor imediato às suas iniciativas de patrocínio. Embora perfeitamente exequível, não há ainda nem visão estratégica, nem condições concretas para que investimentos consistentes e de longo prazo sejam feitos com os clubes menores.

A Rede Globo, especificamente, possui grande poder e influência como formadora de opinião dentro da cultura brasileira e é hoje provedora fundamental de receitas para os principais clubes do país. Estes, devido ao seu próprio modelo constitutivo e de gestão tradicional, se tornaram reféns das próprias receitas dos direitos televisivos. Diante deste quadro distorcido e/ou desequilibrado, todos os outros atores acabam sendo influenciados, tendo que se adaptar conservadoramente a esta realidade.

De forma sistêmica, até mesmo as demais empresas patrocinadoras acabam tendo que se ajustar aos princípios comerciais estabelecidos pela detentora dos direitos de transmissão. Também no afã de “premiar” os clubes com maiores torcidas e consequentemente, que propiciam maiores audiências, estabelece-se uma correlação de forças nefasta em termos competitivos entre as equipes, estimulando práticas menos saudáveis e justas no futebol como um todo.

Alguns analistas afirmam que está em andamento no Brasil um processo de “espanholização” do futebol, onde poucos clubes recebem boa parte dos recursos dos patrocinadores, abrindo distâncias extremamente desiguais entre as equipes em termos de competitividade.

4. CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL (CBF) E FEDERAÇÕES ESTADUAIS – São associações de direito privado, de caráter desportivo, e que dirigem o futebol brasileiro, em nível nacional e estadual, respectivamente. Conforme o seu estatuto – Capítulo I, Art. 5o. – a Confederação Brasileira de Futebol tem como um dos seus fins básicos “administrar, dirigir, controlar, fomentar, difundir, incentivar, melhorar, regulamentar e fiscalizar, constantemente e de forma única e exclusiva, a prática de futebol não profissional e profissional, em todo o território nacional”.

Deve também “colaborar para o funcionamento e desenvolvimento das Federações filiadas e entidades de prática do futebol, proporcionando-lhes assistência técnica e financeira”. Em conjunto, portanto, deveriam ser as principais responsáveis pela implantação e implementação de uma abrangente política para esta modalidade desportiva em nosso país, nas dimensões do alto rendimento, educacional e social. CBF e Federações Estaduais poderiam ser as grandes coordenadoras do processo de desenvolvimento do futebol brasileiro, seguindo o exemplo do que já consegue fazer com sucesso a Uefa em relação aos seus 53 países filiados, e cuja complexidade em nada pode ser considerada menor que administrar o futebol no Brasil.

Entretanto, quer seja por falta de visão, quer seja por interesses particulares ou mesmo escusos, a verdade é que, apesar de nosso inegável potencial, estamos muito distantes de medidas efetivas capazes de resgatar o futebol brasileiro a patamares que permitam almejar a hegemonia do futebol mundial.

Voltando ao estatuto, podemos constatar que o seu Artigo 6o. é bem claro quando diz que: “a CBF não tem objetivos lucrativos, devendo aplicar suas receitas e recurso financeiros na realização de suas finalidades, bem como na organização, na administração, na divulgação e no fomento do futebol.” Basta, enfim, uma análise superficial para perceber que tanto CBF quanto as Federações Estaduais não cumprem as suas próprias finalidades. Pelo contrário, além deste descumprimento, com uma estrutura institucional jurídica que as protegem, seus dirigentes conseguem se eternizar no poder, propiciando pouquíssimas possibilidades para transformações mais democráticas e modernizadoras.

Em um balanço atual, estima-se que a CBF tem um faturamento anual bruto próximo de R$ 350 milhões, com lucro líquido em torno de R$ 75 milhões, o que daria, por si só, para subsidiar grandes mudanças e estruturar toda a pirâmide de sustentação do nosso futebol. Hoje são distribuídos valores e benesses da CBF para as Federações e destas para os clubes, com contrapartidas mais relacionadas e preocupadas com a manutenção da estrutura de poder do que com o desenvolvimento do futebol propriamente dito.

5. MÍDIA ESPECIALIZADA – Na sociedade de consumo do mundo contemporâneo em que vivemos, a imprensa de forma geral tem se destacado não só como meio de comunicação e expressão que reforça, de diversas maneiras, a identidade sociocultural de um povo, como também exerce um papel preponderante – para o bem e para o mal – em diferentes dimensões da esfera pública.

Neste sentido, o jornalismo esportivo brasileiro tem se destacado, em particular através do futebol, enquanto entretenimento, espetáculo e prática social. Apesar desse esporte ser reconhecidamente uma das mais expressivas manifestações da nossa identidade nacional e que possui, além de tudo, um inegável caráter unificador (de uma comunidade ou nacionalidade), este fenômeno pode também ser visto simplesmente como uma mercadoria, e assim ser explorado por diversos segmentos, inclusive pela própria mídia especializada.

Neste ponto, pode-se perceber, de um lado, uma forte tendência ao exercício da modalidade de jornalismo esportivo opinativo, com pouca preocupação realmente informativa e investigativa, que deveria ser a essência do próprio jornalismo, de forma geral. O que se observa, muitas vezes, é tão somente a valorização do processo de espetacularização do evento esportivo e a consequente veiculação das marcas, que não raramente são confundidas com alguns jornalistas, adeptos do merchandising.

Como forma de entretenimento, percebe-se uma tendência onde cada vez se fala menos de futebol e mais de superficialidades. Como nos ensina o sociólogo francês Pierre Bourdieu: “As notícias de variedades consistem nessa espécie elementar, rudimentar, da informação que é muito importante porque interessa a todo mundo sem ter consequências e porque ocupa tempo; tempo que poderia ser empregado para dizer outra coisa. E se minutos tão preciosos são empregados para dizer coisas tão fúteis é porque as futilidades têm o papel de esconder os assuntos que deveriam ser debatidos. Ora, ao insistir nas variedades, preenchendo esse tempo raro com o vazio, com nada ou quase nada, afastam-se as informações pertinentes que deveria possuir o cidadão para exercer seus direitos democráticos.”

De outra parte, entretanto, é possível observar um jornalismo esportivo mais crítico, combativo e investigativo, que longe de ser hegemônico – e nos limites de nossa ainda frágil democracia – é, contudo, capaz de fazer contrapontos significativos com esta visão, estabelecendo-se aí uma correlação de forças que, de certa forma, influencia a opinião pública.

6. PÚBLICO EM GERAL – O futebol é um fenômeno sociocultural e esportivo admirado por milhões, praticado por muitos, mas – em especial no Brasil – ainda infelizmente estudado por muito poucos. Por seu significado e expressão simbólica em nossa cultura, tentar entender o envolvimento do público em geral com esta modalidade esportiva é tentar entender a própria sociedade. Embora o futebol tenha historicamente começado há mais de 100 anos em nosso país como uma prática elitista e que só se popularizou definitivamente em meados do século XX, a verdade é que uma de suas características mais marcantes é que atualmente ele é apreciado por grande parte da população em praticamente todas as camadas sociais.

Isto quer dizer que haverá sempre simpatizantes e torcedores de futebol em qualquer nível social e/ou educacional, seja entre os pouco mais de 10% dos brasileiros que conseguem completar um curso superior, seja entre os quase 10% de analfabetos, ou ainda seja entre os cerca de 30% (ou seria 40%?) de nossa população enquadrados como analfabetos funcionais.

É, portanto, natural e perfeitamente compreensível que esta modalidade, apelidada pelos ingleses como “the beautiful game”, reflita todos as injustiças, conflitos e contradições da sociedade como um todo. Não há, portanto, um padrão monolítico de torcedores. No seu conjunto eles podem ser apaixonados, passionais, agressivos, sensíveis, violentos, lógicos, racionais, críticos, solitários, enturmados, festeiros, organizados ou desorganizados. E haverá sempre, em última instância, desde aqueles que se identificam mais com causas conservadoras e reacionárias até aqueles que gostariam de se engajar em causas inovadoras e contemporâneos e que beneficiariam todos que apreciam o futebol bem jogado.

Qualquer plano que pretenda estabelecer uma política séria para o futebol brasileiro deveria conhecer melhor o seu público, que no caso são homens e mulheres, crianças e adolescentes, que torcem, assistem, jogam, participam, ouvem, leem, falam e discutem o futebol.
***

Que bom seria para o Brasil se conseguíssemos nos próximos anos reunir todas as forças que querem mudanças conjunturais e estruturais para o nosso país de uma forma geral, e dentro deste contexto, almejassem também mudanças no próprio futebol, através de um plano nacional de desenvolvimento, integrando estas forças no sentido de se valorizar este extraordinário patrimônio da humanidade que tanto significado tem para nós brasileiros!

Afinal, um futebol melhor, dentro de um país melhor, pode significar a contribuição brasileira para um mundo melhor!

Ou isto significaria sonhar o impossível?
“Alguns homens veem as coisas como são, e dizem ‘Por quê?’
Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo ‘Por que não?’”
(George Bernard Shaw)

*João Paulo Medina é Diretor da Universidade do Futebol

Um Livro às Quintas

n_meros_do_jogo_abre“É inacreditável o quanto você não sabe do jogo que tem jogado a vida toda.” (parafraseando Michael Lewis, autor de Moneyball, o homem que mudou o jogo)

Segue um dos meus trechos preferidos dos autores Chris Anderson e David Sally:

“Ficou para trás o tempo em que se confiava puramente no instinto, no palpite e na tradição para saber o que era bom e mau futebol. Em vez disso, agora podemos recorrer a provas objetivas. O uso de informações objetivas está mexendo com o equilíbrio do jogo bonito. O futebol não é mais comandado por uma mistura de autoridade, costume e adivinhação, e está entrando em uma fase nova, mais meritocrática.

Isso é uma ameaça para os poderosos tradicionais do esporte, porque indica que eles deixaram de ver alguma coisa, durante todo esse tempo.

Nesse sentido, o futebol é um pouco de religião: sempre houve a percepção de que, para se tornar um especialista, era preciso ter nascido no lugar certo e ter sido iniciado nos rituais desde a mais tenra idade. O futebol tem credos, dogmas, a comunhão com os coirmãos, confissões, códigos de vestimenta, rituais de imersão, cantorias e tudo o mais.

Mas, se os dados permitem que qualquer um se torne um especialista, alguém com uma opinião bem embasada, aqueles que praticam os métodos antigos se tornam menos poderosos, menos especiais, mais sujeitos a questionamento. No limite, eles podem acabar sendo desmentidos; e quanto mais forem desmentidos, menos poder terão.

Se eles são os sacerdotes e os fazedores de papas, nosso papel, como autores de Os números do Jogo, é ensinar a você como ser e como apreciar os iconoclastas e os combatentes da reforma do futebol.”

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Os Números do Jogo também é um relato honesto sobre a menos romântica das situações: o momento em que o futebol parou de ser 100% jogado no campo para ser pré-definido em números. 

Mas como não ser romântico sobre futebol quando o fator humano está presente em cada momento do jogo e insiste em ignorar nossas certezas?

Entender para Transformar – o futuro do futebol brasileiro em jogo.

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O grupo O JOGO, formado por João Paulo Medina, Sandro Orlandelli, Thiago Scuro e este que vos escreve, buscou neste período de reflexões e encontros propostos pelo Futebol do Futuro, responder a estas questões. Embora tenhamos juntado e construido vários elementos para respondê-las, é fundamental, a partir de agora, que estes questionamentos técnicos entrem nas agendas dos responsáveis e dirigentes do futebol brasileiro.

1) Que tipo de jogo os clubes pretendem que suas equipes (principal e categorias de base) joguem no atual cenário do futebol mundial? Já existe esta referência? Como ela é (ou pode ser) construída metodologicamente? Os clubes têm noções claras sobre a importância destas questões estratégicas?

2) Podemos dizer que temos hoje uma “Escola Brasileira de Futebol” que defina modelos de jogo, estilo, padrões táticos? Neste aspecto, em que estágio estamos em relação a, por exemplo, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Holanda?

3) Continuamos produzindo “talentos” (craques) em profusão para o futebol como em décadas passadas? Se não, sabemos por quê? Não haveria um mecanismo de “exclusão” dos verdadeiros talentos (jovens mais habilidosos, mas fracos fisicamente) no atual processo de seleção de atletas na maioria dos clubes do futebol brasileiro, ao se priorizar apenas jogadores que sejam bem dotados fisicamente e mais aptos para ganharem campeonatos e competições nas categorias de base?

4) Os clubes tem clareza sobre como desenvolver seus processos de seleção, captação e desenvolvimento de atletas, sintonizados com as demandas do século XXI e seu processo intenso de globalização?

5) As instituições responsáveis, direta ou indiretamente, pela prática do futebol no Brasil (Confederação, Federações, Clubes, Escolinhas de Futebol, Ministério do Esporte…) tem consciência da importância estratégica de desenvolvermos mecanismos e processos de formação, capacitação e atualização profissionais no futebol (e não apenas para o alto rendimento)? Como são formados hoje os profissionais que atuam no futebol? Este tema está na agenda de nossos dirigentes?

Palestra sobre a Formação do Treinador na Europa

A Formação do Treinador na Europa

Edição da palestra realizada no Footecon 2012 sobre o processo de qualificação profissional para atuação com o futebol na Europa e os desafios ao futebol brasileiro em encarar estrategicamente este cenário.

Episódio da WebSerie ” Especial Footecon” realizada pela Universidade do Futebol.

Feliz 2013 !

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Desejo de um 2013 repleto de saúde e de realizações positivas.

E de boas e saudáveis notícias ao futebol brasileiro, sonhadas para mais este Ano Novo:

  • Grandes marcas e patrocinadores optam por projetos que utilizam o futebol e o esporte como veículo de transformação social ao invés de investirem em atletas e equipes de ponta.
  • Jornalistas esportivos discutem sobre novas tendências nas metodologias de treinamento no futebol e questionam treinadores nas coletivas sobre seus métodos de treino.
  • Federações de futebol dos Estados brasileiros tornam-se pólos de ensino e de desenvolvimento ao esporte para quem atua ou pretende atuar com o futebol.
  • Treinadores consagrados do futebol brasileiro fazem intercâmbio com Universidades e trocam conhecimento com jovens acadêmicos.
  • Liga Universitária Nacional de Futebol é sucesso de crítica e público.
  • Liga Feminina Nacional de Futebol finalmente é uma realidade em todos os Estados do país.
  • Empresários de Jogadores cedem parte dos lucros ao fundo de incentivo à educação e desenvolvimento de atletas;
  • Democratização do conhecimento no futebol é incentivada por dezenas de instituições de ensino e refletem em oportunidades para várias profissões ligadas ao futebol;
  • Ministérios da Educação, do Esporte e do Trabalho alinham com a CBF, Federações, Sindicatos de Treinadores e Conselho Nacional de Educação Física uma política institucional para a regularização definitiva da profissão de treinador e demais gestores de campo.
  • Clubes e Universidades fecham parcerias para aproximar a teoria da prática no futebol brasileiro.
  • Mais uma turma de executivos e presidentes de clubes de futebol conclui especialização em ciências humanas no futebol.
  • Inteligência de Jogo é privilegiada e clubes formadores brasileiros passam a buscar perfis de atletas que não precisam ser necessária e simplesmente altos e fortes.
  • Indicadores sociais, culturais, educacionais, econômicos e esportivos dão salto positivo na última prévia.
  • Escolinhas de Futebol pelo país tornam-se alvos da política institucional do Governo, que visa a organização e orientação pedagógica no ensino do futebol à meninas e meninos.
  • Treinadores finalmente percebem que não basta apenas ter sido jogador de futebol ou mesmo ter frequentado uma Escola de Educação Física para ser um treinador bem sucedido.
  • Calendário nacional do futebol é ajustado aos interesses dos atletas, dos clubes e à cultura do nosso país.
  • CBF e Globo entendem que seus interesses particulares não podem conflitar com os interesses do desenvolvimento do futebol brasileiro.

Amém!

A Encruzilhada do Futebol Brasileiro

por Paulo André Benini, no especial da Universidade do Futebol sobre o trabalho metodológico desenvolvido no Brasil.

“Nos esquecemos de investir em planejamento, estruturação e, principalmente, capacitação de profissionais para darmos sequência à produção e consolidação da nossa hegemonia no futebol mundial.”

 

Se dissermos que o jogo de futebol se divide em três princípios básicos e deles, todas as variações são possíveis, eu diria que:

tecnicamente sempre fomos muito superiores a qualquer outra nação;

fisicamente, em algum período, chegamos a ser inferiores;

taticamente sempre sofremos com a falta de disciplina na aplicação da estratégia porque éramos tão melhores jogadores de bola que sempre achamos um jeito de vencer nossos rivais.

Assim sendo, inicialmente decidimos resolver a discrepância física e incrementamos toda a cientificidade oferecida pelos melhores estudos e artigos já produzidos para construirmos o atleta ideal. O intuito era nos equipararmos aos europeus e para isso, quebramos inúmeras barreiras culturais introduzindo a musculação e os treinos físicos específicos para jogadores de futebol.

Durante anos os especialistas na área tinham vontade de vomitar ao escutar dirigentes, treinadores e comentaristas dizendo que a musculação deixaria o jogador travado. De qualquer forma e com certa demora, evoluímos muito na qualidade dos treinos físicos e permitimos que a ciência entrasse no futebol brasileiro.

Até aí, tudo bem.

Conseguimos igualar a valência física e continuamos com a supremacia técnica. Éramos então praticamente imbatíveis. Mas em algum momento da história do futebol e da economia brasileira, os clubes se encontravam em péssima condição financeira e não conseguiam gerar outro tipo de renda que não com a venda de jogadores para o mercado europeu.

Demoramos muito para nos estruturarmos, explorarmos o marketing e a paixão doentia do nosso torcedor, gerando receitas que, aliadas aos direitos de TV, tornassem o clube auto-suficiente. Então, o único meio de sobrevivência encontrado por dirigentes amadores e despreparados naquela época era vender atletas à Europa para solver dívidas e contratar medalhões, ganhando assim, o apoio popular.

Desde então, estamos produzindo jogadores para os europeus, buscando selecioná-los e prepará-los de acordo com o perfil de jogo que facilita essa negociação.

Pior que isso, o nosso erro foi acreditar que o atleta ideal era aquele que existia na Europa. Boa estatura, forte, sem muita ginga (pois futebol já não era mais brincadeira), disciplinado, com bom jogo aéreo e o mais importante, com nome e sobrenome. Chegamos ao cúmulo de tirar até os apelidos dos nossos meninos da base para que eles ficassem mais vendáveis aos olhos e aos cofres do velho continente. Em pleno século 20, ainda éramos colônia, explorados pelos europeus que compravam barato e lucravam com o desempenho e as futuras transferências daqueles “produtos” importados. Apesar disso, nós brasileiros estávamos felizes e pensávamos que essa “facilidade” de achar matéria-prima abundante e vendê-la para o além-mar era a salvação da lavoura. Não nos preocupávamos com o êxodo de jogadores porque a renovação e o talento eram tão naturais do nosso povo que a cada ano surgiam mais e mais jogadores de qualidade. Se quiséssemos, montaríamos três ou quatro seleções em condições de ganhar uma mesma Copa do Mundo.

Nesse período (e durante esse processo), ainda mantínhamos a supremacia técnica e por isso demoramos anos para perceber que o jogo também evoluiu. O futebol passou a ser estudado e analisado tanto quanto o organismo humano ou a economia mundial. Também pudera, algo que gera tantos bilhões de dólares e movimenta outros tantos bilhões de torcedores ao redor do planeta não poderia ser deixado ao azar ou ao talento nato de seus praticantes.

Então, enquanto nos dedicávamos aos treinos físicos – com tiros de 1000m, 300m etc… – os europeus faziam tudo dentro do campo, com a bola. Trabalhos mais intensos e disputados, mini jogos que exploravam especificamente um princípio de ataque ou de defesa, tudo inserido ao jogo.

Cada treino tinha um objetivo e o sincronismo dos movimentos de pressão ao adversário, de bloco alto (encurtar o campo), de trocas de passes rápidas e com o menor número possível de toques na bola se tornaram exigências do futebol contemporâneo.

A linha de 4 defensiva e a tentativa de roubar a bola no campo adversário já eram praticadas muito antes de eu chegar à Europa em 2006. Estamos em 2012 e no Brasil tem gente que ainda fala em ala, três zagueiros e volante de contenção.

A falta de visão, de protecionismo, de estímulos para a manutenção de talentos e de desenvolvimento do estilo brasileiro de se jogar futebol se revela hoje, duas décadas depois, um grave problema.

Nos esquecemos de investir em planejamento, estruturação e, principalmente, capacitação de profissionais para darmos sequência à produção e consolidação da nossa hegemonia no futebol mundial.

Nos preocupamos em vender a nossa Seleção e esquecemos-nos de reinvestir o lucro nas futuras gerações.

Usamos os “produtos” produzidos e formados pelos nossos clubes, mas esquecemos de retribuir o serviço com a criação de campeonatos mais fortes e rentáveis, infra-estrutura de qualidade (estádios, gramados, etc…) e capacitação de pessoas em todas as áreas do esporte brasileiro (gestores, técnicos, preparadores físicos, scouts etc…).

Estamos atrasados.

Quase não temos cursos capacitantes que valham à pena.

O círculo do futebol brasileiro é restrito, fechado e avesso a novas ideias.

Quase não temos estudiosos do jogo, das variações táticas ou dos treinamentos específicos.

Nossa formação de base não ensina para o futebol atual, mas, sim, para o futebol de outrora.

Insistimos em coisas do arco da velha simplesmente porque a maioria dos nossos ex-jogadores (atuais treinadores) não está preparada para formar novos atletas.

Falta conhecimento e posteriormente a aplicação de ferramentas como a teoria do jogo, a psicologia e a pedagogia aplicadas ao esporte para que possamos sair do marasmo em que nos encontramos.

Precisamos abdicar de fórmulas que um dia deram certo e que se tornaram tradicionais para chacoalhar os estaduais, as divisões inferiores e os times “pequenos”, assim como um dia passamos do sistema de mata-mata para pontos corridos, dando mais estabilidade financeira aos clubes e atletas.

Talvez seja a hora de quebrarmos outros paradigmas.

Admitir que o modelo está ultrapassado e que precisamos mudar é o primeiro passo. O problema é que poucas pessoas estão preocupadas com isso. Na verdade poucos enxergam o atraso, só reclamam que a Seleção não está bem.

Novos valores e estudiosos do jogo não conseguem se inserir no meio porque não jogaram futebol e não tem a confiança do mercado. A categoria de base da maioria dos clubes brasileiros está jogada ao Deus dará. Os cargos dentro dos clubes, federações e confederações ainda são políticos e não técnicos. Isso tem que mudar!

O Brasil se encontra em uma encruzilhada.

Na verdade, estamos parados diante dela há alguns anos, observando, com olhos fixos, a estrada que nos trouxe até aqui.

Ela é repleta de flores, encantos e conquistas. Revendo o trajeto, nos apaixonamos pela construção da nossa história e temos a certeza e o orgulho de saber que os melhores times e os maiores jogadores que o planeta já viu foram brasileiros.

Enxergamos também que ganhamos, orgulhosa e merecidamente, o apelido de “País do futebol”, o maior exportador de pé-de-obra que o mundo conheceu.

Dominamos o futebol mundial e possuímos, por anos, estrelas em todos os grandes campeonatos nacionais do velho continente. Todos tinham medo da camisa amarela e os brasileiros, encantados, paravam para ver a seleção canarinho jogar. Por tudo isso, passamos anos desfrutando da beleza do nosso futebol e do avanço que tínhamos sobre os demais.

Acreditamos que tudo era possível ao país que tem no DNA de seu povo, o talento do futebol.

Hoje, olhando ao redor, mais próximos da encruzilhada, ainda pelo caminho que construímos, vemos sonhos, delírios e extravagâncias que desperdiçaram tempo e dinheiro e não se transformaram em nada. Um período sonolento em que a falta de capacidade se justificou de inúmeras formas, especialmente pelo passado esplendoroso que construímos.

Mas eis que recentemente, atônitos e ainda parados na estrada, fomos despertados pelo barulho ruidoso dos motores espanhóis, holandeses e alemães que passaram por nós sem pedir licença. Aceleraram em tamanha velocidade que ainda não conseguimos reparar quais as novas peças da engrenagem os fazem acelerar tão depressa.

E cá estamos nós, olhando fixamente para a encruzilhada buscando dicas de para onde seguir ou qual o melhor caminho a tomar…

Ambição e Desambição no Futebol

Técnicos e atletas estão divididos entre a ousadia e a prudência, a ambição e a desambição

por Tostão

Nota do autor: Como é bom ler um mestre da bola e das palavras como o filósofo Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, que simplifica nossa crença sobre o futebol, em sua realidade, sua complexidade e suas tendências.

Falam que esquema tático bom é o que dá certo. Nem isso podemos dizer, pois há muitos outros fatores envolvidos no resultado de um jogo.

Muito mais importante que o desenho tático, os números, é a estratégia, a filosofia. É saber onde começa a marcação, com quantos jogadores um time ataca e defende, se há muitos ou poucos espaços entre os setores, se a prioridade é o domínio do jogo, a posse de bola ou os contra-ataques e vários outros detalhes.

Ruim é não ter nada bem definido. Um técnico é melhor que outro quando seus jogadores executam com mais eficiência o que foi planejado, e não por causa do esquema tático. Todos têm vantagens e desvantagens.

Como temos o hábito de tentar achar uma única causa para explicar o resultado, para mostrar sabedoria -ou ignorância-, fica mais fácil dizer que um time ganhou ou perdeu por causa da escalação, da substituição ou porque o técnico colocou um jogador cinco metros mais para a direita ou para a esquerda.

Os treinadores, supervalorizados, muitas vezes, iludidos e prepotentes, pensam também que seu esquema tático decidiu o jogo.

A maioria das equipes começa e termina uma partida com os jogadores nas mesmas posições, compartimentados, robotizados. Volante não se mistura com meia. Há armadores pela direita e pela esquerda. O meia dá o passe, e o centroavante faz o gol.

Há exceções.

Até hoje, ninguém sabe se Xavi, do Barcelona, é volante ou meia, se joga mais pela esquerda ou pela direita. O veloz e aguerrido Herrera, do Botafogo, marca o lateral e ainda faz dupla de ataque com Loco Abreu.

Esquema tático bom é o que deixa o comentarista ansioso, tentando descobrir, pela movimentação dos jogadores, ocasional ou habitual, qual foi a mudança tática que o técnico fez durante a partida. Algumas vezes, o técnico nem percebe.

Os treinadores ficam divididos entre a ousadia e a segurança. Querem arriscar e, ao mesmo tempo, não querem dar chance ao adversário. O conflito costuma terminar em conciliação, por prudência ou por covardia. Assim é também na vida. É a disputa entre o princípio do prazer e a realidade, entre o desejo e a razão.

O sonho da maioria dos treinadores é atingir o equilíbrio perfeito. Como os atletas são, como os humanos, imperfeitos, emocionalmente instáveis e também divididos entre a ambição, o desejo de ser herói, e a desambição, o equilíbrio perfeito nunca é atingido. Ainda bem. Ficaria muito chato.

A Grande Sacada para as Categorias de Base: Capacitar seus Atletas

“Chegará o dia em que estará criado um processo irreversível nas categorias de base, onde trocas de comando de um clube – técnicas, administrativas ou políticas – não terão o efeito necessário para que os atletas deixem de refletir e contestar os métodos de treinamento.”

Em tempos de crises e mídias sociais, muita coisa vem acontecendo por todo o planeta. Corruptos são presos pela manhã e soltos à tarde, países ricos ficam pobres ao anoitecer e a consciência coletiva de que algo precisa ser feito pela nossa subsistência e qualidade de vida deixa de ser clichê.

E o futebol (ah o futebol!), também vive suas particularidades. Apesar dos clubes continuarem a gastar mais do que recebem e das seleções tradicionais não mais figurarem isoladas no topo do ranking da FIFA, mais pessoas comuns analisam o jogo: estudiosos, curiosos e gente interessada em saber de verdade o que acontece dentro das quatro linhas.

Principalmente no continente europeu, onde há décadas se estudam e aplicam as novas teorias relacionadas ao jogo e treinamento do futebol e, muito em função disso, começamos a perceber um distanciamento qualitativo de algumas equipes e seleções em relação ao resto do mundo. E, infelizmente, o Brasil está incluído neste resto.

O grande desafio nos próximos anos será pela busca da popularização em solo tupiniquim, desse olhar mais científico, lógico e nem menos apaixonante sobre o futebol.

Muito embora as novas maneiras de enxergar o jogo e o treino do futebol sejam positivas, permitindo inclusive que alguns desvios no processo de formação de atletas sejam corrigidos, resistências a este novo olhar sempre irão ocorrer. E as comparações entre metodologias de trabalho, muitas vezes sem embasamento científico, serão inevitáveis.

Como treinar uma equipe de futebol aproximando-a da imprevisibilidade (e realidade) do jogo, e como trabalhar nas equipes técnicas de maneira integrada e com mais qualidade, são questões essenciais a serem respondidas por quem pretende estar à frente do seu tempo.

Nos esportes coletivos, e no futebol em particular, pesquisadores e especialistas dissecaram as dinâmicas do jogo, que apontaram para eventos comuns e com padrões que se repetem. Foram identificados quatro momentos que nos permitem entender as tais dinâmicas: defesa, transição ao ataque, ataque e transição à defesa.

Nessas quatro situações, todos os jogadores tem um comportamento muito particular em campo, com ou sem a bola.

Os jogadores se relacionam e formam um todo organizado, que é a equipe. Cada equipe tem seus próprios jogadores que se relacionam uns com os outros de maneira particular e essas relações variam quando a equipe está atacando, defendendo e realizando as transições.

Por exemplo: com a bola, os jogadores agem com o objetivo de manter a sua posse na busca pelo gol adversário. Os atletas irão se relacionar dentro do campo de uma forma bastante específica para que isso ocorra. Quando a equipe está sem a bola, os jogadores irão criar dificuldades para que a equipe adversária progrida no campo de jogo e consiga chegar à sua meta. Nestes dois exemplos, os comportamentos e intenções dos jogadores e da equipe são bem distintos.

E o treinador pode moldar a forma como a equipe joga nesses momentos. Modelo de Jogo é o nome dado à forma como a sua equipe deve se comportar no jogo de uma maneira geral, ou seja, como ela defende, ataca e faz as transições. Está intrinsecamente ligado à estrutura da equipe, ou seja, como ela pretende construir o seu jeito de jogar.

A escolha dos atletas é realizada respeitando essas características e devem estar sintonizadas com as ideias do treinador, que por sua vez, irá procurar estar conectado com a cultura e filosofia do clube.

O comportamento dos jogadores e da equipe, em cada momento, pode variar com intenções diferentes, ou seja, o treinador pode influenciar a forma como a relação entre os jogadores acontecerá em cada um dos quatro momentos do jogo.

Na teoria, chamamos de princípios estruturais a forma como os atletas devem se posicionar no campo de jogo. Já princípios operacionais é o nome dado ao que fazer em cada momento do jogo (defesa, ataque e transições).

O futebol é um jogo complexo e saber fazer funcionar as relações entre os jogadores durante a partida é a chave para a obtenção de sucesso.

Saber o que e como fazer nos momentos do jogo é o xis da questão.

A partir deste entendimento é que podemos moldar a forma de como a equipe deve treinar, aproximando-a da realidade da partida e do que ela poderá encontrar diante de um adversário. Inicia-se a construção do jogar da equipe, ou seja, o Modelo de Jogo começa a ganhar vida.

Os jogos reduzidos e adaptados tem papel importante em algumas propostas metodológicas no futebol. Mas como qualquer remédio, não basta apenas ler a bula para aplicá-lo. Um médico deve ser consultado e, de preferência, um que reconheça e reflita o valor das teorias antes de sair cortando com seu bisturi.

De maneira muito incipiente, algumas boas iniciativas começam a ser percebidas em nosso país, muito em função da sensibilidade de profissionais em cargos de direção e coordenação, que partem para um processo de reciclagem de seus recursos humanos, particularmente dos profissionais que atuam dentro de campo.

E mesmo restrito às categorias de base, alguns clubes brasileiros dão seus primeiros passos em direção aos novos tempos, criando ambientes de aprendizagem aos gestores de campo, buscando reciclar suas equipes técnicas com profissionais mais sintonizados com esta nova perspectiva.

A próxima e mais importante etapa, será a conscientização e capacitação dos atletas das categorias de base, melhorando o canal de comunicação com seus treinadores e facilitando o diálogo sobre o porquê deste ou daquele tipo de treinamento.

Dessa forma, estará criado um processo irreversível, onde trocas de comando de um clube – técnicas, administrativas ou políticas – não terão o efeito necessário para que os atletas deixem de refletir e contestar os métodos de trabalho

Entrevista com Júlio Garganta, doutor em Ciência do Desporto

via Universidade do Futebol

“No meu ponto de vista, o futebol se joga com ideias. O bom futebol se joga com boas ideias. O mau futebol se joga com más ideias ou sem ideias. Portanto, (no futebol) as questões táticas e estratégicas são fundamentais”. (Júlio Garganta)

A discussão sobre a importância do treino no desenvolvimento do talento esportivo no futebol permeia o ambiente acadêmico e profissional. Entre diversas referências, o Prof. Dr. Júlio Manuel Garganta da Silva tem contribuído de maneira decisiva para esse tipo de análise e reflexão.

O restante da entrevista inédita e exclusiva com este especialista português pode ser acompanhada aqui

Reflexões sobre o Jeito de ser do Brasileiro: em campo e fora dele

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Por Andrea Sebben

Faz alguns anos li um livro que muito me impressionou e tinha ligação direta com meu trabalho – chamava-se Brasileiros Pocotó. O livro, de Luciano Pires, era uma coletânea de artigos sobre a mediocridade que assola o Brasil em seus diferentes momentos.

O que isso tem a ver com o que faço? Sou psicóloga culturalista, cinco anos praticamente fora do Brasil, vivendo nas melhores universidades européias, ajudo hoje executivos expatriados – ou seja, estrangeiros que chegam ao Brasil ou brasileiros que vão ao exterior por tempo determinado, jogadores de futebol trasladados ao exterior e jovens que vão de intercâmbio. Muitas das empresas que atendemos HSBC, EMBRAER, Nissan, Vivo, Nestlé, Banco do Brasil, Bosch, entendem que nada é mais importante do que a pessoa entender de fato os povos que irão recebê-las. E eu falei entender, não conhecer.

Muita gente acha que basta olhar a etiqueta, a gastronomia, a religião e falar bem um idioma – de preferência o inglês, não necessariamente o idioma dos nativos (o que por si só já justificaria uma grande gafe), que está apto para entrar no cenário global. Não está. Primeiro passo talvez seja mesmo conhecer o país, mas o mais difícil vem depois: compreender.

“- Alguém aí pode me explicar o Brasil?” Dirá um estrangeiro desesperado mergulhado em seus dez primeiros minutos no caos que é o Aeroporto de Guarulhos, onde nós mesmos não nos entendemos. Me explicar, por favor, porque acontecem tantas barbaridades? Alguém pode explicar a um estrangeiro nossa facilidade intrínseca de colocar a responsabilidade no outro e, portanto, nunca responsabilizar-se por nada nem por ninguém. Vocês acham que estou exagerando?

Quantas vezes na sua vida já esteve envolvido em infindáveis telefonemas para os 0800 de telefonia móvel, de internet, de redes de televisão, de clínicas médicas, de órgãos do governo e ouviu: Senhor me desculpa, mas não podemos fazer nada? Ou ainda: desculpa, Senhor, políticas da empresa (quer dizer, não podemos fazer nada novamente.). Ou quem sabe o: Sr, mil desculpas, o sistema não permite (idem ibidem)… Isso quando a ligação não cai depois de quarenta e dois minutos…

Ah, Brasil… Meu papel, como psicóloga culturalista é explicar, aprofundarmos na complexidade do pensamento de cada povo – porque pensa dessa maneira, porque decide de outra, porque comunica numa outra esfera ainda. Mas fazer isso no papel de brasileira para mim é, ás vezes, motivo de vergonha.

Alguns povos lidam com seu ambiente de uma forma irresponsável – ou seja: por ele não tenho gerência alguma. Talvez seja uma questão de sorte, talvez de azar, talvez seja tudo culpa do governo mesmo, ou de Deus (que quis assim) – mas eu? Ah, eu? Eu não conto nada… Afinal de que adianta reclamar? Vai mudar? Não vai mesmo… E assim entramos (todos) no infindável ciclo Pocotó que meu colega tanto comenta.

Ao ausentar-me da responsabilidade, naturalmente o segundo passo é procurar o culpado: e assim o fazemos com Deus, com o trânsito, com a filha doente, com o governo, com o fornecedor, com o cliente ou com um ente querido que muito gostamos de evocar: “a gente”.

Sempre brinco com meus clientes: a gente quem? Tu e teu guia espiritual? Tu e teu amigo imaginário? Quem é a gente?

Como todos sabem, a língua portuguesa nos autoriza a ter seis pronomes pessoais e o brasileiro – com sua infinita criatividade criou um sétimo – a Gente.

“A gente” é uma excelente expressão para eximir-se da responsabilidade. Ela não apenas ilude o interlocutor dando a idéia de que “estou incluído nisso”, mas ainda melhor ela pulveriza o sujeito, esconde ele, mascara num grupo secreto. Será “a Gente” um grupo religioso sectarista ortodoxo que trabalha num porão escuro ás expensas do pobre brasileiro que queria responsabilizar-se, mas “a Gente” proíbe?

Quem disse para fazer isso? A gente.

Quem não quis mandar o mail? A gente.

Quem se esqueceu do documento? A gente.

Quem decidiu ir embora mais cedo? A gente.

E como explicar para o estrangeiro o pronome “A gente”?

Sempre digo que a gente pode de fato ser um grupo, mas freqüentemente é a própria pessoa que está falando. Mas então porque não usa o “eu”? Ah… Porque “eu” não vou me expor dessa maneira. Será que ” a gente” se dá conta disso?

A responsabilidade, portanto não é lá uma grande virtude em solo brasileiro. É confundida com exposição, com maturidade, com autoridade. Sabe lá (Deus) o que vão fazer se eu me pronunciar? Melhor mesmo é seguir escondidinho aqui.

E num país coletivista, onde o indivíduo vale tão pouco mesmo, acrescentado o fato de que somos jovens, imaturos, um grande adolescente em conflitos de crescimento por que preocuparmo-nos com a responsabilidade? Ah, isso o tempo resolve…

E sem percebermos, cria-se a cultura da corrupção e da negligência. Corrompem-se as normas da boa conduta, da honestidade, da integridade, do olho-no-olho, do ser escutado e respeitado como cidadão e do que sei que posso contar com você. Á propósito, alguém aí se sente realmente amparado a fim de poder contar com alguém nessas situações?

Vamos ao futebol.

Como disse anteriormente, trabalho nas melhores empresas multinacionais deste país, fazendo o Treinamento Intercultural de presidentes, vice-presidentes, diretores e uma infinidade de pessoas altamente qualificadas que estarão se mudando para o exterior em breve a fim de cumprir suas missões profissionais. Em um público bem diferente deste, faço a mesma coisa com adolescentes entre catorze e vinte e poucos anos que vão para o exterior estudar. E no meio do caminho, tenho um público muito especial que é a fusão de ambos: o jogador de futebol.

Este, similar ao executivo, irá para o exterior com uma sobrecarga de tarefas e responsabilidades que todos sabemos é tão grande quanto, ou se não maior da que o profissional brasileiro da empresa americana que acaba de assumir a presidência na Coréia do Sul. Ou seja: só desafios pela frente, de toda ordem.

Na mesma linha, salários altíssimos e pressões ainda mais para fazer o gol de placa que todos esperam. Concordam? Soma-se a isso o fato de que assim como o executivo, o jogador poderá levar junto sua esposa e seus filhos – um capítulo ainda mais complexo da novela migratória, que neste caso, começa a assumir contornos diferentes do esperado.

Quando comecei a ofertar nosso trabalho junto aos jogadores e suas famílias – todos eles então sobrecarregados de esperança e pouco municiados em ferramentas sócio-cognitivas ( até pela pouca idade ou pela absoluta falta de experiência com culturas estrangeiras) o resultado natural da oferta, em meu ponto de vista e daqueles com quem conversava era de que todos os envolvidos, fossem eles, os clubes ou os empresários se deleitariam com a possibilidade de mais qualificação e suporte num momento tão importante de suas vidas. Correto?

Infelizmente não. Começam os telefonemas para os clubes brasileiros, cuja telefonista nos passa para a assistente social, que por sua vez nunca está presente e menos ainda retorna nossas chamadas. A cada tentativa, a resposta: “Não sei Sra, quando ela vai estar. Quer deixar recado?” E na ciência de que o recado não seria eficiente, pergunta-se: E como posso fazer para encontrá-la então? A resposta é sempre fatídica: “A gente não tem como prever…”

Previsões à parte, algumas poucas vezes os telefonemas são atendidos, e não mais que meia dúzia de vezes somos jogadas entre a assistente social e a psicóloga, cujas respostas harmoniosas são: “A gente já faz isso que você está oferecendo”. Mas a gente quem? Você ou a psicóloga?, pergunto. “Nós duas…” E partíamos dali com a certeza de que nem uma, nem a outra, haviam entendido sequer o que fazíamos.

E finalmente, os empresários, também sócios ativos da “Sociedade Secreta A Gente”, cujas respostas são: “A gente até queria que o jogador fizesse este tipo de trabalho, mas ele não quis…”… E podemos falar com ele? “Olha, isso a gente não pode fazer… É complicado falar com ele.”

Quando podemos encontrar com Sr. Fulano? “Ah, isso é bem difícil… a gente nunca sabe por onde ele anda…” E talvez uns sete ou dez meses de telefonemas tentado encontrá-lo para que as respostas sejam: “Acho muito importante esse trabalho, mas sabe como é o futebol, né? A gente quer profissionalizar, quer mudar as coisas… mas é difícil. Um dia a gente chega lá..”

E termino minha reflexão me perguntando com uma desesperada curiosidade: quem é o futebol? Quem faz esse grupo secreto, inatingível, cujos objetivos todos são truncados pela “gente”?

Quem se responsabiliza pela mudança? Pelo bem-estar do jogador? Pela competência intercultural dele, de sua família? Pela sua qualificação como profissional e como ser humano que o Treinamento Intercultural propõe?

“Não sei Senhora, não sou eu quem cuida disso”, ouvimos. Quem cuida então (uma vez que eu estava falando com todos os envolvidos no tema)? “Não sei Senhora.” Mas quem se responsabiliza??? “Também não sei, Senhora.”

Bem, eu também não sei.

Mas sei que estamos mergulhados numa cultura de exclusão: a exclusão da responsabilidade pessoal, a exclusão do indivíduo, a exclusão da cidadania, a exclusão do auto-respeito, inclusive, que desmoraliza a todos nós quando nos escondemos de nós mesmos. Hoje “a gente” se misturou uns aos outros, a palavra do indivíduo pouco vale, o pensamento individual foi banido, a responsabilidade mais ainda, e tudo, – tudo – pulverizamos entre “a gente” mesmo, que talvez um dia, acabe decidindo por dar mais atenção a competência intercultural de nossos jogadores.

Será que Estaremos Vivos?

FUTEBOL/CORINTHIANS/TREINO

A falha de Júlio César, a mais recente entre as diversas de goleiros, coloca em debate a metodologia de treino

de Eduardo Barros, via Universidade do Futebol

Após as finais dos Estaduais-2011, muitas rodas de conversa sobre futebol tiveram como assunto principal a falha do goleiro corintiano Júlio César na jogada que terminou com o gol de Neymar, o segundo do Santos na vitória por 2 a 1, na Vila Belmiro.

Inconformado com a derrota, um torcedor (sem o amplo olhar das vitórias e derrotas num jogo) questionou um técnico de futebol, argumentando como pode ser possível alguém que tem como profissão a função exclusiva de fazer defesas, não conseguir segurar uma bola tão fácil.

Leia a história abaixo, ocorrida num destes lugares em que se discute futebol:

Torcedor: Não é possível! Ele é muito bem pago pelo que faz e “engoliu um frango” num chute rasteiro, fraco e, ainda por cima, no meio do gol. As desculpas que a grama estava molhada e a bola estava lisa não servem! Ele não poderia ter defendido?

Técnico: Poderia, sim. Mas considere toda a jogada. A recomposição da defesa do Corinthians foi lenta, o posicionamento de cobertura do zagueiro central ao lateral direito não foi bem executado e a visão do Júlio César pode ter sido atrapalhada no momento da finalização do Neymar.

Torcedor: Não interessa! Ele treina todos os dias com o preparador de goleiros e eu já vi centenas de vezes como são os treinamentos. Ele tem que defender chutes, chutes e mais chutes. Vi numa reportagem que alguns preparadores chutam até 500 bolas em um único dia. Muitos são dificílimos e incluem saltos, deslocamentos, rolamentos, quedas. Uma bola daquela não pode passar!

Técnico: Você está certo! Os goleiros defendem chutes, chutes e mais chutes, porém, escute-me: os treinamentos de goleiros um dia irão mudar!

Torcedor: Eu sei. Tenho acompanhado que alguns treinadores de goleiros utilizam raquetes e lançam bolinhas de tênis para serem defendidas. Clubes modernos dispõem até de uma máquina que dispara bolas. Tudo isso para melhorar o reflexo, certo? Espero que com isso os “frangos”, ao menos do meu time, não aconteçam mais!

Técnico: Não é bem isso que eu quis dizer. Os treinamentos que contenham disparos exagerados, seja com raquete, com máquina ou com o próprio treinador de goleiros, um dia irão acabar! Só não sei se nós ainda estaremos vivos…

Torcedor: Como assim? Se os goleiros já falham com a quantidade de treinamento de defesas que realizam, imaginem se pararem de treinar? O futebol está perdido!

Técnico: Eles não vão parar de treinar. Somente irão fazê-lo de maneira diferente!

Torcedor: Como assim?

Técnico: Chegará o dia que todos os treinamentos de uma equipe serão o mais próximo possível da realidade do jogo. O goleiro não vai ter que ficar pulando corda, cone ou estaca, pois o jogo de futebol não tem nada disso!

Torcedor: E como ele melhora a altura do salto?

Técnico: Ele não precisa saltar mais alto, e sim, na hora certa.

Torcedor: Mas e as defesas?

Técnico: Ele continuará fazendo. Não na mesma quantidade, no entanto, sobrará tempo para o aprendizado de outras questões muito importantes para o jogo.

Torcedor: Mas o que é mais importante para o goleiro do que defender?

Técnico: Não precisar defender, oras!

Torcedor: Isso é impossível!

Técnico: Não é, não! Defesas são ações técnicas bem menos realizadas do que reposições e interceptações ao longo de uma partida. Há estatísticas de jogos que uma equipe não acertou nenhum chute no gol durante os 90 minutos.

Torcedor: Incompetência!

Técnico: Ou competência da que não permitiu o chute?

Torcedor: E se uma equipe consegue chutar muito?

Técnico: Como o Barcelona, por exemplo?

Torcedor: Isso, o Barça finaliza demais! Como o goleiro se prepara para este bombardeio?

Técnico: De acordo com os números da Uefa Champions League, sabe qual a média de chutes no gol da

equipe espanhola por partida nesta competição?

Torcedor: Vinte e cinco?

Técnico: Sete!

Torcedor: Só?

Técnico: Sim! E é a melhor. Então, pra que defender mais de 200 bolas em um único dia?

Torcedor: Não sei, não sei… Estou confuso! Quer dizer que com estes novos treinamentos os goleiros não vão mais falhar?

Técnico: Vão sim!

Torcedor: E você não se importa?

Técnico: Claro que me importo, mas todos os jogadores erram…

Torcedor: Se for do meu time, vou ficar bravo sempre!

Técnico: Tudo bem, mas lembre-se de considerar toda a jogada…

Torcedor: Você já me disse isso! Me diga uma coisa: quem que está falando tudo isso? É você quem está inventando?

Técnico: Inventando, eu? Não… Quem me disse? Os mesmos que falam e escrevem que a preparação física do jogador de futebol está mudando, que os treinamentos das equipes de futebol irão mudar e que, consequentemente, o futebol brasileiro um dia irá mudar, e pra melhor!

Torcedor: Mudar? Somos pentacampeões do mundo. Você está ficando louco!!!

Técnico: É melhor pararmos por aqui…

O técnico em questão não considerou pertinente continuar a discussão, pois expressões como a função do goleiro no modelo de jogo da equipe, as regras de ação a serem executadas nos quatro momentos do jogo (ataque, defesa e transições) e o entendimento do fenômeno futebol a partir de uma visão sistêmica não seriam compreendidas. Felizmente, o diálogo ocorreu com um simples torcedor. O grande desafio é quando as justificativas têm que ser feitas para profissionais do futebol, muitas vezes sem sucesso!

Gente Diferenciada

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por Eduardo Tironi

“Uma cidade só para ricos contraria a ideia de cidade.” A frase é de Richard Rogers, arquiteto brilhante que, entre outras coisas, criou o Centro George Pompidou, em Paris, obra que antecipou o conceito de museus para grandes massas.

Rogers defende que uma cidade só é uma cidade se diferentes classes sociais conviverem em um mesmo espaço, sem guetos.

O assunto é pertinente quando há uma polêmica em torno da construção de uma estação de metrô em Higienópolis, bairro de classe alta em São Paulo. O projeto foi abortado depois do protesto de moradores.

Entre outras alegações, teve gente dizendo que não queria “gente diferenciada” por ali. Entenda-se por gente diferenciada pessoas de outros bairros, mais pobres.

O assunto também é pertinente quando vemos cada vez mais segregação a torcedores visitantes em nossos estádios.

No Campeonato Mineiro, terminado domingo, só a torcida do Cruzeiro entrou na Arena do Jacaré. Na semana anterior, só a do Atlético.

Em São Paulo, o Santos destinou 700 ingressos para corintianos no jogo final na Vila. Semana anterior, 5% da capacidade do estádio ficaram para os santistas no Pacaembu. É desta maneira que vamos criando nossos guetos dentro dos estádios.

Pedindo licença para parafrasear Rogers, “um estádio só para uma torcida contraria a ideia de estádio.” Se um jogo de futebol é uma disputa, ela também é uma disputa na arquibancada. E claro, não se está falando aqui de violência. Isso não é o esporte. Mas a disputa saudável de qual torcida é a mais animada, qual consegue fazer a festa mais bonita, qual ajuda de fato um time.

Um estádio com torcida única é como um bairro em que não entram pessoas que não sejam dali. Um local em que só pode ter pessoas vestidas de preto e branco, alviverde, tricolor nada mais é do que um gueto. Impedir pessoas de irem ver o seu time é segregar.

Algumas alegações para se impedir presença de torcida visitante em estádios são discutíveis. A violência é uma delas. Todo mundo sabe que existem confrontos fora do estádio, onde o policiamento é menos presente. Ali ocorrem mortes em emboscadas, brigas, tiroteios etc.

A de que o estádio tem dono e ali se faz o que o dono quer também se discute. Foi esta a alegação que fez o São Paulo destinar apenas 10% dos ingressos ao Corinthians no Morumbi em passado recente.

A partir desta medida, a relação entre os dois clubes azedou. Hoje, são adversários dentro de campo e inimigos fora dele, com todo prejuízo que isso acarreta para um lado e outro.

Se há algo democrático em nosso país é o futebol. Ricos, pobres, negros, brancos, homens, mulheres… gostam de futebol. Assim, a proibição de torcedores visitantes não combina. O estádio é um lugar para todo tipo de gente, “diferenciada” ou não, conviver.

Previsões para as Olimpíadas do Rio 2016

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“Não sei se Rio ou se choro…”

por José Simão

De 2012 a 2015

1. ONGs vão pipocar dizendo que apóiam o esporte, tiram crianças das ruas e as afastam das drogas. Após as olimpíadas estas ONGs desaparecerão e serão investigadas por desvio de dinheiro público. Ninguém será preso ou indiciado.

2. Um grupo de funk vai fazer sucesso com uma música que diz: vou pegar na tua tocha e você põe na minha pira.

3. Uma escola de samba vai homenagear os jogos, rimando “barão de coubertin” com “sol da manhã”. Gilberto Gil virá no último carro alegórico vestido de lamê dourado representando o “espírito olímpico do carioca visitando a corte do Olimpo num dia de sol ao raiar do fogo da vitoria”.

4. Haverá um concurso para nomear a mascote dos jogos que será um desenho misturando um índio, o sol do Rio, o Pão de Açúcar e o carnaval, criado por Hans Donner. Os finalistas terão nomes como: “Zé do Olimpo”, “Chico Tochinha” e “Kaíque Maratoninha”.

5. Luciano Huck vai eleger a Musa dos jogos, concurso que durará um ano e elegerá uma modelo chamada Kathy Mileine Suellen da Silva.

Abertura dos Jogos

1. A tocha olímpica será roubada ao passar pela baixada fluminense. O COB vai encomendar outra com urgência para um carnavalesco da Beija flor.

2. Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e a bateria da Mangueira farão um show na praia de Copacabana para comemorar a chegada do fogo olímpico ao Rio. Por motivo de segurança, Zeca Pagodinho será impedido de ficar a menos de 500 metros da tocha.

3. Durante o percurso da tocha, os brasileiros vão invadir a rua e correr ao lado dela carregando cartolinas cor de rosa onde se lê GALVÃO FILMA NÓIS, 100% FAVELA DO RATO MOLHADO.

4. Pelé vai errar o nome do presidente do COI, discursar em um inglês de m… elogiando o povo carioca e, ao final, vai tropeçar no carpete que foi colado 15 minutos antes do início da cerimônia.

5. Claudia Leite e Ivete Sangalo vão cantar o “Hino das Olimpíadas” composto por Latino e MC Medalha. As duas vão duelar durante a música para aparecer mais na TV.

6. O Hino Nacional Brasileiro será entoado a capella por uma arrependida Vanuza, que jura que “não bota uma gota de álcool na boca desde a última copa”. A platéia vai errar a letra, em homenagem a ela, chorar como se entendesse o que está cantando, e aplaudir no final como se fosse um gol.

7. Uma brasileira vai ser filmada várias vezes com um top amarelo, um shortinho verde e a bandeira dos jogos pintada na cara. Ela posará para a Playboy sem o top e sem o shortinho e com a bandeira pintada na bunda.

8. Setenta e quatro passistas de fio-dental vão iniciar a cerimônia mostrando o legado cultural do Rio ao mundo: a bala perdida, o tráfico, o funk, o sequestro-relâmpago e a favela.

9. Um simpático cachorro vira-lata furará o esquema de segurança invadindo o desfile da delegação jamaicana. Será carregado por um dos atletas e permanecerá no gramado do Maracanã durante toda a cerimônia. Será motivo de 200 reportagens, apelidado de Marley, e será adotado por uma modelo emergente que ficará com dó do pobre animalzinho e dirá que ele é gente como a gente.

10. Adriane Galisteu posará para a capa de CARAS ao lado do grande amor da sua vida, um executivo do COB.

11. Os pombos soltos durante a cerimônia serão alvejados por tiros disparados por uma favela próxima e vendidos assados na saída do Maracanã por “dois real”.

Durante os Jogos

1. Caetano Veloso dará entrevista dizendo que o Rio é lindo, a cerimônia de abertura foi linda e que aquele negão da camiseta 74 da seleção americana de basquete é mais lindo ainda.

2. Uma modelo-manequim-piranha-atriz-exBBB vai engravidar de um jogador de hóquei americano. Sua mãe vai dar entrevista na Luciana Gimenez dizendo que sua filha era virgem até ontem, apesar de ter namorado 74 homens nos últimos seis meses, e que o atleta americano a seduziu com falsas promessas de vida nos EUA. Após o nascimento do bebê ela posará nua e terá um programa de fofocas numa rede de TV.

3. No primeiro dia os EUA, a China e o Canadá já somarão 74 medalhas de ouro, 82 de prata e 4 de bronze. Os jornalistas brasileiros vão dizer a cada segundo que o Brasil é esperança de medalha em 200 modalidades e certeza de medalha em outras 64.

4. A seleção americana de vôlei visitará uma escola patrocinada pelo Criança Esperança. Três meninos vão ganhar uma bola e um uniforme completo dos jogadores, sendo roubados e deixados pelados no dia seguinte.

5. Os traficantes da Rocinha vão roubar aquele pó branco que os ginastas passam na mão. Um atleta cubano será encontrado morto numa boate do Baixo Leblon depois de cheirá-lo. O COB, a fim de não atrasar as competições de ginástica, vai substituir o tal pó pelo cimento estocado nos fundos do ginásio inacabado.

6. Um atleta brasileiro nunca visto antes terminará em 57º lugar na sua modalidade e roubará a cena ao levantar a camiseta mostrando outra onde se lê: JARDIM MATILDE NA VEIA.

7. Vários atletas brasileiros apontados como promessa de medalha serão eliminados logo no inicio da competição. Suas provas serão reprisadas em ‘slow motion’ e 400 horas de programas de debate esportivo vão analisar os motivos das suas falhas.

8. Durante os jogos de tênis a platéia brasileira vai vaiar os jogadores argentinos obrigando o árbitro a pedir silencio 774 vezes. Como ele pedirá em inglês ninguém vai entender e vão continuar vaiando. Galvão Bueno vai dizer que vaiar é bom, mas vaiar os argentinos é melhor ainda. Oscar concordará e depois pedirá desculpas chorando no programa do Gugu.

Após os Jogos

1. Um boxeador brasileiro negro de 1,85m estrelará um filme pornô para pagar as despesas que teve para estar nos jogos e por não obter patrocínio.

2. Faustão entrevistará os atletas brasileiros que não ganharam medalhas. Não os deixará pronunciar uma palavra sequer, mas dirá que esses caras são exemplos no profissional tanto quanto no pessoal, amigos dos amigos, e outras besteiras.

3. No início do ano seguinte, vários bebês de olhos azuis virão ao mundo e as filas para embarque nos voos para a Itália, Portugal e Alemanha serão intermináveis, com mães “ofendidas”, segurando seus rebentos…