O Rei está Nu

Poder

Estamos no início de novos tempos para o nosso futebol. Não sou vidente, mas é claro o sentimento que mudanças estão por acontecer. E intuo que muitas delas, virão para o bem, ou pelo menos, virão para gerar uma maior reflexão crítica do que vem sendo realizado até então, seja na gestão do espetáculo, na gestão dos clubes ou na maneira de tratar o desenvolvimento dos nossos atletas.

Sempre acreditei que faríamos bem mais pelo futebol brasileiro (e através dele) do que foi realizado nas últimas décadas e o que se percebe é que existe muita gente boa espalhada pelo Brasil na gestão de campo, em especial, os que estão envolvidos nas categorias de base, mas reféns, quase sempre, da estrutura e cultura vigente do clube ou de interesses capazes de mudar a lógica da proposta da formação do atleta, ou da gestão esportiva em si.

E o conhecimento, mesmo que seja considerado relevante, inovador e bem-vindo, torna-se igualmente refém da questão mais antiga na cadeia de evolução da raça humana: as relações de poder.

Ou seja, o quanto de poder vou perder com a chegada dessa pessoa, dessa nova ideia, dessa nova proposta ou projeto?

Quantas vezes estivemos na posição do ameaçador ou do ameaçado?

Comunicação e humildade

Tenho entrevistado ou tido contato com vários profissionais, principalmente treinadores em atividade. Nessas oportunidades, acabamos por discutir as metodologias de trabalho que algumas das principais equipes do mundo desenvolvem, bem como suas aplicações práticas e percebo um índice altíssimo de respostas da maioria desses treinadores, afirmando realizar o mesmo tipo de trabalho que as referências discutidas.

Por exemplo, se discutimos sobre Periodização Táticaque é a maneira de organizar os períodos do treino tendo como norte o modelo de jogo da equipe – escuto que fazem exatamente a mesma coisa no seu dia-a-dia (e sei que NÃO o fazem…).

Se conversamos sobre um trabalho focado em princípios de ataque ou de defesa, também escuto a mesma resposta: “– Faço exatamente isso! ” – mesmo sabendo que esse profissional não tem discernimento sobre um trabalho relacionado à lógica do jogo (inteligência coletiva) de um trabalho fragmentado do jogo.

O que se procura concluir com essa reflexão é que, a grande maioria dos nossos treinadores tem acesso às teorias e conhecimentos produzidos acerca da evolução do “como treinar“, mas não conseguem sistematizá-los na prática. Continuam com uma visão distorcida e fragmentada da construção do jogo, o que vem resultando no nosso distanciamento entre outras tradicionais escolas de futebol.

Precisamos urgentemente de um grito avisando que o rei está nu e um posicionamento mais humilde desta porção de treinadores super valorizada, muitas vezes insensível à revisão de seus conceitos, em função do momento de transição em que se encontra o futebol brasileiro. Em tese, significaria conhecer (entender) teorias que direcionassem seus métodos de trabalho, sem interferir necessariamente no estilo de cada um.

Esta reciclagem conceitual, por exemplo, facilitaria a comunicação entre os profissionais da comissão técnica e atletas, visando o melhor entendimento dos métodos de treinamento e, principalmente, aproximá-los da realidade encontrada no próprio jogo.

Treinar para deixar de dar tanto a posse de bola para o adversário, ou para manter as linhas de zagueiros e volantes sempre próximas e compactadas dos recuos e avanços da equipe ou para aumentar a troca de passes entre seus jogadores.

Alinhar nomenclaturas já poderia ser considerado um primeiro passo dessa reciclagem, onde muitos profissionais poderiam rever detalhes que seus jogadores não conseguiram executar, muitas vezes em função de uma comunicação mal feita do que se pretendia obter no treinamento.

Só dessa forma mais pessoas entenderão o que realmente está acontecendo com o futebol brasileiro, em especial, os próprios treinadores.


Um Livro às Quintas

“Una red de significado interpretada desde el paradigma de la complejidad”

El Modelo de Juego del FC Barcelona – Oscar P. Cano Moreno

MC Sports, 2010.

Oscar Moreno condena e derruba a barreira existente entre teoria e prática, nos conduzindo pelo sinuoso universo das teorias dos sistemas dinâmicos e nos convidando a entender a complexidade do jogo –  desde as evidências da imprevisibilidade à análise minusciosa da construção do modelo de jogo do F.C. Barcelona.

Maneiras de Ensinar Futebol

Bola furada.jpg

“Quando o cara é da rua, não tem o preparo técnico, ele tem a chance de ser muito mais único, muito mais brasileiro, do que aquele que recebe a escolinha e o treinamento parecidos com o modelo europeu, americano e australiano.”

(Dan Stulbach – Ator, diretor e apresentador)

Entender o futebol não significa apenas entender a técnica, os fundamentos, os gestos isolados, ou mesmo as táticas aplicadas ao jogo.

É preciso compreender que por trás do atleta há sempre um ser humano, sensível, emotivo, que chora, que ri, que sente dores e tem, enfim, necessidades biológicas, psicológicas, sociais e espirituais.

Acreditar que continuaremos produzindo espontaneamente os atletas talentosos – os camisas 10 – em quantidade como antigamente, é um erro estratégico para a manutenção da nossa hegemonia no cenário mundial da bola.

Foram se os tempos em que os campinhos improvisados nas ruas, várzeas e praias eram em maior número do que as escolinhas de futebol.

A maneira espontânea de se aprender a jogar bola foi substituída pela mecanização dos gestos e técnicas, criando-se barreiras e limitações para esse desenvolvimento.

Foi desse aprendizado natural e pouco sistematizado que ‘brotaram’ nossos craques e que mais tarde acabariam por fascinar o mundo com a nossa maneira artística, criativa e lúdica dentro das quatro linhas.

Cabem aos nossos professores e pedagogos, que acompanham a evolução e as tendências da Pedagogia do Esporte, uma sistematização deste processo, numa metodologia capaz de compreender a nossa essência, além das nuances do jogo e do ser humano.

Uma metodologia do genuíno futebol brasileiro.

Tática: Uma Questão de História?

Tatics.png

“Ao olharmos para um jogo de futebol e analisarmos o que está acontecendo, como está acontecendo, onde está acontecendo, quando está acontecendo, quem está fazendo acontecer, fica mais fácil compreender os porquês de cada acontecimento, e de forma contextualizada, o porquê da vitória e o porquê da derrota.”

Por Rodrigo Leitão, estudioso e técnico de futebol, que vem conquistando admiradores e desafetos com seu enorme potencial de contribuição para o nosso esporte.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

“Veni, vidi, vici” (Vim, vi, venci): palavras que foram pronunciadas pelo general romano Caios Julius Caesar (Júlio César) ao vencer mais uma batalha, avançando na guerra e contrariando ordens do Senado Romano.

Sua frase ficou eternizada na história e por vezes fora tomada emprestada pelo também Júlio César (Júlio César Chaves), boxeador mexicano, que de nunca perder cantava-a aos quatro cantos do ringue ao fim de suas lutas; até que em um dia perdeu.

Tenho a impressão, quase todas as vezes que vejo uma seleção brasileira de futebol profissional jogar que nossos enunciados (e não anunciados) especialistas futebolísticos (cronistas, narradores, comentaristas, torcedores, etc) esperam de nossa equipe o mesmo “vim, vi, venci” (cheguei, olhei, ganhei).

Ao analisarmos um jogo de futebol, muitas vezes incorremos ao erro de darmos respostas simplistas e “tarimbadas” a situações complexas e improváveis. O árbitro foi tendencioso, o goleiro levou um “frango”, o zagueiro falhou feio, o lateral se abaixou para arrumar a meia bem no lance do gol, a equipe estava sem vontade, o técnico mexeu errado, o time é muito ruim… (a explicação para o perder ou para o ganhar é muitas vezes tão vazia que estou certo de que se perde e se ganha sem se saber realmente o porquê).

Tomemos a equipe do Chile como exemplo. O técnico da seleção chilena, antes de enfrentar pela última vez o Brasil na Copa América 2007, apontou para a dificuldade de se planejar as estratégias para enfrentar a seleção brasileira. Sua reflexão fora de que quando jogou aberto, perdeu; quando se fechou com cautela, perdeu; quando se tentou buscar o resultado, perdeu (perdeu também ao fazer concentração e com a festança de alguns jogadores). A questão é: “Por que perdeu”? (e nesse jogo, também “planejado”, Brasil 6 x 1 Chile!!!)

Não, não vamos cair no abismo comum do que qualquer pessoa pode dizer: “os jogadores brasileiros são melhores” (os brasileiros do futsal também “são os melhores”, mas nos últimos campeonatos de expressão mundial não conseguiram passar pela Espanha).

Ganha o jogo quem faz mais gols que o adversário. O gol é resultado de uma finalização, que é produto da recuperação da posse de bola, que pode ocorrer de diversas formas (desarme, interceptação, arremesso lateral, tiro de canto, tiro de meta, etc). Minha pergunta é: qual a melhor forma para se recuperar a posse de bola. Existe essa melhor forma? Os mais experientes dirão que tanto faz, desde que ela seja recuperada, mas é fato que existem diferenças estatísticas significantes entre a forma de recuperação da posse da bola e as jogadas que levam a finalizações e a gols.

Outra pergunta: em qual região do campo é mais vantajosa a recuperação da posse de bola?

Ou ainda: após a recuperação da posse da bola, quão rápido uma equipe deve buscar chegar ao gol adversário?

Existem equipes que buscam a forte marcação na saída de bola, tentando desarmar o adversário o mais próximo possível de sua própria meta, tendo então a possibilidade de se buscar rapidamente, com poucos passes, o gol. Existem equipes que mantêm seus 11 jogadores atrás da linha do meio-campo, fechados, esperando o adversário para fazer a retomada da posse de bola.

Certamente, muitos de nós acreditamos que o perfil dos nossos jogadores é que nos direcionará a melhor estratégia de jogo (marcação, recuperação da posse de bola), e isso não está errado. O fato é que existem variáveis táticas que compõem a lógica do jogo e que podem ser aprendidas e compreendidas por todos nós (técnicos, jogadores, especialistas) e que podem tornar a dinâmica e leitura do jogo mais científica e menos empírica.

Isso me faz defender a tese de que ao compreender a lógica do jogo, o jogador pode ser mais eficiente, eficaz e criativo taticamente-tecnicamente-fisicamente, o que permitiria a uma equipe não só ter melhor desempenho, mas também entender por que se ganha e porque se perde (e daí poder melhorar).

Ao olharmos para um jogo de futebol e analisarmos o que está acontecendo, como está acontecendo, onde está acontecendo, quando está acontecendo, quem está fazendo acontecer, fica mais fácil compreender os porquês de cada acontecimento, e de forma contextualizada, o porquê da vitória e o porquê da derrota.

Então, quando vejo nossos “especialistas” comentando um jogo da seleção brasileira questionando como é possível a equipe não conseguir chegar ao gol adversário (Que adversário? Do jeito que falam, é como se não existisse adversário, “o Brasil é incapaz de superar o vento”), fico pensando onde estão os méritos do adversário, que se estruturou para se defender e atacar também?

Interessante ver os mesmos “especialistas” comentando um jogo da Argentina. Quando está difícil é porque o adversário está bem armado, fechado e retrancado.

Não, não estou aqui defendendo “Dungaus Julius Caesar” e nem dizendo que nosso selecionado vai bem. Mas vou bater nessa tecla mais uma vez: se diagnosticarmos problemas de forma equivocada, buscaremos soluções equivocadas!

Um dia fomos imbatíveis no futsal. Um dia o técnico espanhol da modalidade disse que seus jogadores eram mais inteligentes que os brasileiros e que compreendiam melhor o jogo; nunca mais os vencemos em grandes competições.

Hoje acreditamos que nossos jogadores do futebol de campo são imbatíveis.

“Temos de ganhar. O adversário não tem méritos. Nós é que somos competentes ou incompetentes”.

Essa burrice (confundida com prepotência ou soberba) pode ter decretado a primeira pequena alteração caótica que tem nos levado a grandes dificuldades, a ponto de tomarmos como verdade que a equipe do México encontrou a tática, a estratégia, a fórmula mágica para vencer a seleção brasileira.

Então, em vez de os nossos “especialistas” e “analistas táticos” se preocuparem em “ir, ver, comemorar”, seria mais produtivo, na exigência de soluções e na formação da boa opinião, entender “o quê, o como, o onde, o quando, o porquê”, para quem sabe descrever pontualmente as estratégias, variáveis e variações táticas de um jogo.

Cuidado, senhores! Não sejamos o Senado romano (o do contra), e nem incorporemos a “síndrome de Julius” – ou então o melhor é nos apressarmos para saber logo quem é o Brutus (até tu Brutus – tu quoques Brutus).