O discurso de Dida na MP que pode modernizar o Futebol Brasileiro

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“Reconhecemos os profissionais do esporte, como os membros da Universidade do Futebol, que com seus estudos e pesquisas nos forneceram todo o suporte e conhecimento necessários para que fomentássemos a discussão de um novo modelo de gestão do futebol nacional.”

“Senhoras e senhores.

Eu, em nome do Bom Senso Futebol Clube e de todos os brasileiros apaixonados por futebol, gostaria de reconhecer o fundamental papel do Governo Federal, da presidenta Dilma Rousseff, que a partir do Grupo Interministerial de Trabalho, capitaneado pelo ministro do Esporte, George Hilton, com apoio de Edinho Silva, permitiu a construção democrática desta Medida Provisória que será, sem dúvida, um divisor de águas para o futebol brasileiro. Agradeço também o trabalho da Casa Civil, do ministro Aloizio Mercadante, do subchefe de Assuntos Jurídicos, Ivo Correa, e do subchefe adjunto, César Carrijo, e do consultor do Ministério do Esporte  Pitágoras Dytz.

Eu, que estive em duas reuniões com a Presidenta da República para tratar das mazelas do futebol nacional e apresentar as propostas do nosso movimento, reconheço o seu comprometimento e a sua importante decisão de defender estas medidas fundamentais. 

Dentre elas, a exigência de contrapartidas claras de transparência e de boa governança na gestão dos clubes e das entidades de administração do desporto, para dar um fim aos desmandos e as más gestões que permeiam e atrasam, há décadas, um dos nossos maiores patrimônios culturais, o futebol.

Com essas medidas podemos iniciar um novo ciclo virtuoso de retomada e de desenvolvimento deste esporte que, além de mexer com a paixão e o orgulho do povo, movimenta bilhões de reais para a economia brasileira.

Reconheço também o Congresso Nacional, que foi o local de tantas reuniões e audiências públicas, em especial as figuras do deputado Otávio Leite e do senador Romário, que nos abriram as portas em Brasília e acolheram as nossas ideias e intenções. Reconhecemos as contribuições do parlamento e esperamos a aprovação da MP em definitivo.

Agradecemos a postura e a integridade do presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, que contribuiu para chegarmos até o presente acordo.

Reconhecemos os profissionais do esporte, como os membros da Universidade do Futebol, que com seus estudos e pesquisas nos forneceram todo o suporte e conhecimento necessários para que fomentássemos a discussão de um novo modelo de gestão do futebol nacional.

Quero agradecer e reconhecer a coragem dos meus colegas jogadores profissionais de futebol, assim como as meninas do futebol feminino, que através da sua união no Bom Senso Futebol Clube, foram determinantes para a existência e o aprimoramento desta Medida Provisória. Registro a presença da jogadora Carla Índia, que hoje junto comigo representa os atletas nesta solenidade.

No segundo semestre de 2013, nós jogadores fizemos história com as manifestações em campo, não apenas para reclamar nossos direitos trabalhistas, mas para defender e proteger o futebol brasileiro que claramente perdia seu rumo e sua dignidade devido à má gestão, a impunidade e a um sistema político esportivo fadado ao fracasso. Cruzamos os braços e sentamos no gramado clamando e esperando por mudanças profundas no futebol brasileiro, como a questão do calendário e do fair play financeiro.

Fomos duramente contestados pelos dirigentes. Fomos rejeitados pela CBF, já que nunca tivemos voz ou direito a voto dentro da entidade. As críticas vinham daqueles que se beneficiam do sistema ainda vigente. É verdade que atletas foram ameaçados, retaliados e até perderam seus empregos, mas continuaram firme na defesa de seus ideiais e na certeza de estarem lutando por um futebol mais justo e mais democrático.

O choque produzido pelos 7×1 não pôde ser apenas explicado por um apagão momentâneo. A percepção de que todo o modelo brasileiro de futebol deveria ser revisto e rediscutido fez com que as propostas e a visão do Bom Senso voltassem à tona. A partir daí, muitos reconheceram a legitimidade e a importância da existência do Bom Senso no cenário esportivo brasileiro.

Ao contrário do que diz o senso comum, por trás do brilho dos holofotes dos grandes clubes e dos craques brasileiros, há um cenário perverso que raramente é retratado pela grande mídia.

85% dos atletas profissionais de futebol recebem somente até dois salários mínimos por mês, 70% dos 18 mil atletas profissionais registrados na CBF ficam desempregados ou sem atividade por pelo menos 6 meses por ano. A inadimplência e as dívidas trabalhistas dos clubes não param de crescer devido à irresponsabilidade e à impunidade de seus dirigentes.

Esse conjunto de fatores fez com que o Brasil deixasse de ser o país do futebol, uma fábrica de talentos, para se tornar uma grande fábrica de frustrações.

É por esta e tantas outras razões que defendemos e apoiamos a MP lançada hoje. Reafirmamos que o sucesso desta MP passa pela garantia de que os gestores e os responsáveis pelas entidades de administração do futebol – a CBF e as Federações – e as entidades de prática do futebol – os clubes – sejam efetivamente punidos caso cometam gestão temerária. O Brasil não admite mais que isso aconteça.

Definir claramente quem fará a fiscalização, o acompanhamento, a aplicação e o cumprimento das Leis e dos Regulamentos inseridos nesta medida provisória é fundamental para que alcancemos o sucesso esperado.

Queremos fortalecer o futebol e os clubes brasileiros, melhorar a qualidade do espetáculo e aumentar o público nos estádios. Queremos um calendário mais equilibrado para que os times pequenos possam ser autossuficientes e para que os jogadores tenham maior estabilidade em seus empregos. Isto resultará no incremento da audiência nacional e internacional do futebol brasileiro, valorizará as cotas de patrocínio e as verbas de televisão, aumentará a arrecadação dos clubes e permitirá que a gente mantenha nossos ídolos por mais tempo aqui no Brasil.

Para que tudo isso aconteça é importante entender que apenas o talento não basta. Precisamos entender que o futebol é um negócio e sua gestão deve ser séria e transparente.

Com a mesma disposição que tivemos até aqui, voltaremos ao Congresso Nacional. As próximas partidas serão jogadas lá e precisamos fazer seis pontos, vencer na Câmara e no Senado, para garantir esse conjunto de avanços para o nosso futebol.

Que o dia de hoje e o dia da futura aprovação da Medida Provisória no Congresso sejam marcos da reação do futebol brasileiro.

Por um futebol melhor para quem joga, para quem apita, para quem torce, para quem transmite, para quem patrocina.

Por um futebol melhor para todos.

Muito obrigado.”

 

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5 Pontos Fundamentais da Lei de Responsabilidade do Esporte

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Encontro com a Presidente Dilma na última segunda-feira.

Em Brasília está rolando uma das partidas mais importantes de nossa história, maior até do que uma tão sonhada final de Copa do Mundo em nosso país. Como contrapartida dos quase R$5 Bi que os clubes devem ao Fisco, a presidente Dilma e o Congresso podem decidir nos próximos dias o rumo do nosso futebol: se continuamos com a atual falência generalizada ou se moralizamos a forma como o assunto é conduzido no Brasil. São 5 pontos importantes que devem fazer parte da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE) e que foram exaustivamente explicados na última reunião de trabalho na Casa Civil: 1) controle de déficit sob pena de punição esportiva (o dirigente não pode continuar endividando o clube sem pagar por tal irresponsabilidade); 2) cumprimento dos contratos de trabalho sob pena de punição esportiva (o futebol é um dos raros ambientes onde o trabalhador não sabe se irá receber o salário ao final do mês); 3) limite do custo futebol sob pena de punição esportiva (custo futebol = todos os custos inerentes à atividade fim e que não deveria ultrapassar os 60%. Hoje este número é próximo dos 80%); 4) padronização das demonstrações financeiras e a reavaliação do endividamento sob pena de punição esportiva (balanços padrão e prestações de conta como qualquer outra instituição); 5) parcelamento da dívida trabalhista dos clubes (já transitada) sob pena de punição esportiva. (Muitos clubes já renegociaram o passivo trabalhista, mas não o cumprem. Preferem continuar gastando em contratações e altos salários). Os clubes deveriam entender que é uma oportunidade única para se reerguerem num ambiente mais justo e saudável, mas fazem lobby para excluir os itens acima e consideram que apenas uma CND (Certidão Negativa de Débito) por ano é suficiente para mostrar a transparência de seus atos. Sem CND, o clube é rebaixado. Sabem de nada, inocentes. Vamos olhar à nossa volta: quantos clubes frágeis, endividados e sem saúde possuem uma CND hoje? Vários. O Flamengo é um deles, por exemplo. Achar que isso é suficiente para moralizar o futebol brasileiro é uma ofensa à inteligência alheia. É coisa de gente mal intencionada. Entre tantas outras coisas que temos por fazer, aprovar a LRFE de maneira integral é uma das iniciativas básicas que sedimentaria um ambiente com gestões mais responsáveis e equilibradas, além de afastarmos os aventureiros. Não chutem por cima. Não errem o gol. Façam a coisa certa.

Apresentação das Propostas do Bom Senso F.C.

BSFC

Dia importante para o futebol brasileiro: evento de apresentação das propostas do Bom Senso (Jogo Limpo Financeiro e Calendário), no último dia 17 de março. Na foto: Rafael Silva, Juan, Alex, Rogério Ceni, Chatô e este que vos escreve.

Texto do Paulo André, divulgado através de um vídeo, na abertura do evento:

“É um prazer estar aqui com vocês. É claro eu gostaria de estar fisicamente presente para poder cumprimenta-los e participar das discussões sobre melhorias para o nosso futebol mas perdi o voo e não conseguirei chegar a tempo. rs. Não tenho dúvida de que o dia de hoje ficará marcado e será fundamental para sacramentar as boas intenções do Bom Senso para com o futebol brasileiro.

 Quando eu liguei para o Alex a primeira vez, em meados de setembro do ano passado, chegamos a uma conclusão em menos de um minuto. O futebol praticado no Brasil está ruim. Devo lembrá-los que naquele momento estávamos jogando às quartas e aos domingos há mais de 10 semanas consecutivas. Estávamos fisicamente cansados, mentalmente sobrecarregados… Mas aquela conversa tratava de algo bem mais importante.

O que mais me chamou a atenção naquela conversa foi ver a paixão com que o Alex falava sobre o futebol brasileiro. Paulo, ele dizia, o potencial é gigantesco mas extremamente mal explorado. Precisamos fazer alguma coisa. E assim começou essa ideia de ligar para os principais jogadores do país e pedir a participação deles neste processo de discussão de melhorias para o futebol brasileiro. Como vocês bem sabem, de lá para cá, muita coisa aconteceu…

Cruzamos os braços, sentamos no chão e esperamos uma resposta da CBF e das Federações que até agora não aconteceu. Reunimos mais de 1000 atletas para reivindicar melhorias, não só para a categoria, mas principalmente, para salvar o nosso querido futebol.

Eu particularmente já cansei de explicar que o Bom Senso não tem papel de Sindicato de Atletas. O Bom Senso é um movimento PRÓ FUTEBOL. Ele está muito mais próximo de ser uma “entidade sombra” da CBF, que é quem deveria fazer esse papel de proteger e desenvolver o patrimônio público que é o futebol brasileiro, do que de ser um sindicato de atletas que busca mais empregos e salários em dia.

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Um Livro às Quintas

n_meros_do_jogo_abre“É inacreditável o quanto você não sabe do jogo que tem jogado a vida toda.” (parafraseando Michael Lewis, autor de Moneyball, o homem que mudou o jogo)

Segue um dos meus trechos preferidos dos autores Chris Anderson e David Sally:

“Ficou para trás o tempo em que se confiava puramente no instinto, no palpite e na tradição para saber o que era bom e mau futebol. Em vez disso, agora podemos recorrer a provas objetivas. O uso de informações objetivas está mexendo com o equilíbrio do jogo bonito. O futebol não é mais comandado por uma mistura de autoridade, costume e adivinhação, e está entrando em uma fase nova, mais meritocrática.

Isso é uma ameaça para os poderosos tradicionais do esporte, porque indica que eles deixaram de ver alguma coisa, durante todo esse tempo.

Nesse sentido, o futebol é um pouco de religião: sempre houve a percepção de que, para se tornar um especialista, era preciso ter nascido no lugar certo e ter sido iniciado nos rituais desde a mais tenra idade. O futebol tem credos, dogmas, a comunhão com os coirmãos, confissões, códigos de vestimenta, rituais de imersão, cantorias e tudo o mais.

Mas, se os dados permitem que qualquer um se torne um especialista, alguém com uma opinião bem embasada, aqueles que praticam os métodos antigos se tornam menos poderosos, menos especiais, mais sujeitos a questionamento. No limite, eles podem acabar sendo desmentidos; e quanto mais forem desmentidos, menos poder terão.

Se eles são os sacerdotes e os fazedores de papas, nosso papel, como autores de Os números do Jogo, é ensinar a você como ser e como apreciar os iconoclastas e os combatentes da reforma do futebol.”

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Os Números do Jogo também é um relato honesto sobre a menos romântica das situações: o momento em que o futebol parou de ser 100% jogado no campo para ser pré-definido em números. 

Mas como não ser romântico sobre futebol quando o fator humano está presente em cada momento do jogo e insiste em ignorar nossas certezas?

Entender para Transformar – o futuro do futebol brasileiro em jogo.

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O grupo O JOGO, formado por João Paulo Medina, Sandro Orlandelli, Thiago Scuro e este que vos escreve, buscou neste período de reflexões e encontros propostos pelo Futebol do Futuro, responder a estas questões. Embora tenhamos juntado e construido vários elementos para respondê-las, é fundamental, a partir de agora, que estes questionamentos técnicos entrem nas agendas dos responsáveis e dirigentes do futebol brasileiro.

1) Que tipo de jogo os clubes pretendem que suas equipes (principal e categorias de base) joguem no atual cenário do futebol mundial? Já existe esta referência? Como ela é (ou pode ser) construída metodologicamente? Os clubes têm noções claras sobre a importância destas questões estratégicas?

2) Podemos dizer que temos hoje uma “Escola Brasileira de Futebol” que defina modelos de jogo, estilo, padrões táticos? Neste aspecto, em que estágio estamos em relação a, por exemplo, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Holanda?

3) Continuamos produzindo “talentos” (craques) em profusão para o futebol como em décadas passadas? Se não, sabemos por quê? Não haveria um mecanismo de “exclusão” dos verdadeiros talentos (jovens mais habilidosos, mas fracos fisicamente) no atual processo de seleção de atletas na maioria dos clubes do futebol brasileiro, ao se priorizar apenas jogadores que sejam bem dotados fisicamente e mais aptos para ganharem campeonatos e competições nas categorias de base?

4) Os clubes tem clareza sobre como desenvolver seus processos de seleção, captação e desenvolvimento de atletas, sintonizados com as demandas do século XXI e seu processo intenso de globalização?

5) As instituições responsáveis, direta ou indiretamente, pela prática do futebol no Brasil (Confederação, Federações, Clubes, Escolinhas de Futebol, Ministério do Esporte…) tem consciência da importância estratégica de desenvolvermos mecanismos e processos de formação, capacitação e atualização profissionais no futebol (e não apenas para o alto rendimento)? Como são formados hoje os profissionais que atuam no futebol? Este tema está na agenda de nossos dirigentes?

O Campo de Distorção da Realidade

O termo “campo de distorção da realidade” foi criado por Bud Tribble em 1981, na época, um dos figurões da Apple, e descreve a habilidade de Steve Jobs em conseguir convencer as pessoas a acreditarem em qualquer coisa com uma mistura de charme, carisma, performance, exagero e marketing.

Existem pessoas que levam isso bem a sério, já outros (principalmente os fãs da marca) juram que nada seria possível se os produtos da Apple não fossem realmente “incríveis, maravilhosos, práticos, fáceis, bonitos…”

Fico imaginando se o futebol brasileiro não vive um pouco desse ‘campo de distorção da realidade’.

Onde nossos cinco títulos mundiais e a perspectiva de um sexto chegando, acabam por distorcer nosso campo de visão sobre o que é ter o melhor futebol do mundo.

E fica a pergunta: o que é ter o melhor futebol do mundo?

Enxergando a Partir do Todo (Uma História Real no Mundo Corporativo)

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“Temas como processo sistêmico, interdisciplinaridade e complexidade, são abordados no universo corporativo.”

(Livro: Presença, de Peter Senge).

O Instituto Tecnológico de Massachusets (MIT) desenvolveu um ambicioso projeto, no qual aplicava conceitos sistêmicos, modelos mentais e outras ferramentas de aprendizado organizacional.

O programa dispunha de um orçamento de mais de um bilhão de dólares para cinco anos, com uma equipe de mil engenheiros em tempo integral, divididos em uma dezena de equipes subsepecializadas, cada qual responsável por uma característica do produto.

Todos trabalhavam sob intensa pressão para cumprir prazos, de modo que as soluções rápidas e superficiais eram a norma – infelizmente, com freqüente desconhecimento dos efeitos colaterais que geravam em outras equipes.

A certa altura, um grupo formado por membros elaborou um mapa de sistemas, a fim de tentar entender o que estava impedindo os engenheiros de trabalhar juntos com proveito e, assim, cumprir os prazos.

Rapidamente foi detectado um padrão. Quando uma equipe subespecializada se deparava com um problema difícil, tinha duas escolhas: ou dava uma resposta rápida e superficial ou ía às raízes do problema.

Por exemplo, quando os engenheiros da área BVT (barulho, vibração, trepidação) resolveram o problema da vibração acrescentando alguns reforços estruturais, criaram novos problemas para a equipe do chassis, responsável pelo peso total do veículo.

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