A Ascensão do Futebol Alemão no Século XXI

Não estaríamos hoje copiando o antigo futebol alemão do século XX? Por que não nos inspirarmos naquilo que os alemães vem fazendo nos últimos 10 ou 12 anos?

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Ao final da partida histórica entre Brasil X Alemanha e com enorme tristeza, trago um texto publicado em Março de 2012, que sintetiza parte do trabalho realizado pela Federação Alemã, um dos grandes referenciais de estudos da Universidade do Futebol e protagonista na elaboração de um plano de desenvolvimento do futebol naquele país.

por João Paulo S. Medina

Apesar da crise econômica que vem assolando a Europa, é difícil deixar de concordar que, no plano técnico, foi o futebol espanhol aquele que mais chamou a atenção do mundo nos últimos 5 ou 6 anos.

Após um percurso histórico que destacou os legados do Brasil (1958-1970), Holanda (1974-1978), Argentina (1982-86) e novamente Brasil (1994-2002), a Espanha, desde 2008, têm conseguido resultados internacionais expressivos, quer através de sua seleção nacional, quer através de suas duas equipes mais representativas, Barcelona e Real Madrid.

Porém, uma análise mais crítica do desempenho de campo (técnico) das principais escolas do futebol europeu, nos leva a concluir que está chegando a vez da Alemanha ocupar o protagonismo no cenário mundial.

São visíveis as mudanças ocorridas no futebol alemão nos últimos anos. E esta ascensão não se deu ao acaso.

Paralelamente às fundamentais medidas que buscou a saúde dos clubes nas áreas organizacional, econômica e mercadológica, como, por exemplo a instituição de um modelo de “fair play financeiro”, a blindagem contra investidores estrangeiros bilionários e, muitas vezes aventureiros (comuns principalmente na Inglaterra e na França), além de um grande foco no torcedor e sua presença maciça nos estádios, há que se destacar a implantação de um modelo de formação de atletas de base que já vem repercutindo favoravelmente no nível e até no próprio estilo de jogo do futebol alemão, tradicionalmente de imposição física.

Um consistente plano de gestão técnica para a formação de jogadores foi implantado e vem sendo desenvolvido já há mais de 10 anos. Hoje existem mais de 350 centros nacionais de treinamento distribuídos por todo o país, atendendo cerca de 30 mil crianças e jovens (garotos e garotas) entre 9 e 17 anos. A metodologia adotada dá ênfase aos aspectos técnicos e inteligência de jogo e não mais aos tradicionais métodos que destacavam essencialmente a força física e a disciplina tática.

Quando vemos aqui no Brasil, nos últimos tempos, a adoção de uma filosofia, começando na base, que substitui o nosso consagrado futebol-arte, o jogo bonito e criativo, por um futebol onde a força física é o destaque, fica a reflexão: não estaríamos hoje copiando o antigo futebol alemão do século XX? Por que não nos inspirarmos naquilo que os alemães vem fazendo nos últimos 10 ou 12 anos?

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Processo de qualificação profissional da Federação Alemã de Futebol

A Correlação de Forças do Futebol Brasileiro: ensaio para a elaboração de uma política do futebol brasileiro

Cabo de Guerra

por João Paulo S. Medina*

“Tenho em mim todos os sonhos do mundo”

(Fernando Pessoa)

INTRODUÇÃO

O jogo é de futebol, mas bem que poderia ser um jogo de xadrez. Em uma análise atenta sobre o atual cenário do futebol brasileiro, é possível identificar-se duas grandes tendências, apesar de nem sempre muito nítidas. De um lado estão as forças que querem as mudanças conjunturais e estruturais do futebol brasileiro. Do outro, persiste um pensamento que, consciente ou inconscientemente, defende a sua manutenção. Sabemos que, em qualquer área de atuação, existem aqueles que alimentam o “status quo” simplesmente por serem incapazes de enxergar as limitações do cenário atual, e outros que o defendem por interesses dos mais diversos, alguns evidentemente pouco abonadores.

Este ensaio pretende fazer algumas conjecturas, em um ambiente de correlação de forças, entre os “agentes de conservação” que dominam e procuram manter de todas as formas o poder hegemônico no futebol brasileiro e os “agentes de transformação”, que clamam pelas mudanças.

É bom deixar claro que não é nossa intenção estabelecer aqui um confronto maniqueísta entre os que representam as forças do bem contra as do mal, do certo contra o errado ou do retrógrado contra o moderno, mesmo porque, devido à complexidade do contexto e dos interesses, é comum vermos pessoas e instituições que, paradoxalmente, ora defendem teses conservadoras, ora transformadoras. Na verdade, todos nós somos um pouco assim, contraditórios, complexos, com muitas dúvidas e conflitos internos.

E é justamente neste ambiente repleto de paixões, emoções e subjetividades, onde o futebol pode representar tanto um instrumento de alienação em nossa cultura, como uma de suas mais significativas e legítimas manifestações, que não podemos querer encontrar verdades absolutas. Portanto, o que pretendemos nestas reflexões é tão somente esboçar, dialeticamente, um quadro que nos permita entender cenários e enxergar novos caminhos, ou seja, levantar alguns elementos essenciais para a elaboração de uma política que realmente busque o desenvolvimento para o futebol brasileiro.

Entretanto, é inegável que existem hoje no futebol brasileiro forças extremamente conservadoras e reacionárias que insistem na manutenção de um estado de coisas que impede o seu desenvolvimento em um padrão de excelência, ou ao menos aos níveis já alcançados por alguns outros países, e que permite colocar sob suspeita a ideia de que o Brasil possa, por alguma razão, ser considerado o “país do futebol”.

Excetuando-se os fatos de ainda sermos o único país que conseguiu ser cinco vezes campeão mundial e também o único a ter participado de todas as edições das Copas do Mundo, nada mais nos faz concluir que somos os melhores. Nem em público nos estádios, nem nas boas práticas de gestão e governança e nem mesmo naquilo que sempre nos orgulhou, a qualidade técnica de nossos jogadores e equipes.

Neste contexto vamos fazer uma avaliação dos principais atores do futebol brasileiro em seus papéis enquanto agentes de conservação e/ou transformação. Dentro de uma visão mais abrangente que percebe o futebol como um tecido que envolve – mais ou menos – a vida de toda a sociedade, uma reflexão aprofundada e crítica deveria incluir todos os seus agentes: atletas, clubes profissionais, associações e ligas amadoras, dirigentes estatutários, executivos, treinadores e especialistas diversos, CBF, federações estaduais, sindicatos, patrocinadores, mídia especializada, torcedores, telespectadores, Ministério do Esporte, agentes-empresários, empreiteiros, legisladores e tribunais esportivos, universidades, entre outros.

Porém para este estudo especificamente, vamos considerar apenas os 6 “atores” básicos que interferem mais diretamente sobre o grande negócio que se transformou o futebol. A partir da perspectiva do alto rendimento e do espetáculo consideraremos os reflexos na base e massificação desta modalidade esportiva em nosso país, buscando-se, tanto quanto possível, uma visão de conjunto.

Destacaremos os seguintes grandes atores:
1. Jogadores
2. Clubes
3. Rede Globo e empresas patrocinadoras
4. CBF e Federações
5. Mídia especializada
6. Público em geral

1. JOGADORES (profissionais e amadores) – Representam a base primordial do futebol. Sejam eles participantes de uma categoria profissional de elite ou simplesmente praticantes amadores, alegres, descontraídos e apenas comprometidos com o jogo e o prazer da brincadeira e diversão, os atletas são a própria essência desta modalidade esportiva que se tornou um fenômeno social e uma paixão mundial. Historicamente os atletas profissionais no Brasil sempre foram pressionados e levados a conviver em um ambiente que exige posturas conservadoras e, muitas vezes, alienadas.

Alguns poucos atletas se destacaram por se rebelarem contra esta situação. Dois deles, sempre lembrados por suas atitudes contestadoras, são Afonsinho e Sócrates. Temos exemplos de vários outros jogadores contestadores, mas poucos deles no sentido político, ou seja que defendiam publicamente seus posicionamentos em defesa de transformações sociais ou mudanças do “status quo” vigente na sociedade ou no futebol.

Por isso, nunca se conseguiu mobilizar grande quantidade de atletas na luta por seus direitos e, sobretudo, na superação da submissão e alienação prevalentes. Em um ambiente tipicamente opressor, as próprias entidades que representam oficialmente os atletas dividem-se entre conquistas e melhorias pontuais e a total submissão aos poderes dominantes, característica das instituições futebolísticas. Recentemente surgiu um movimento, chamado de Bom Senso F.C., liderado por alguns atletas de elite e que defendem mudanças radicais que beneficiariam não só os jogadores das principais equipes, como também a imensa maioria de cerca de 80% que recebe até três salários mínimos. Trata-se de um fato novo e que merece atenção.

Centenas de atletas firmaram o seu apoio ao movimento, defendendo mudanças em diversos setores estratégicos que atuam no futebol. Seu slogan é “Por um futebol melhor para quem joga, para quem torce, para quem apita, para quem transmite, para quem patrocina. Por um futebol melhor para todos.”.

2. CLUBES – Assim como a família é considerada a “célula máter” da sociedade, dando suporte ao desenvolvimento da criança e do adolescente, o clube pode ser considerada a “célula máter” do futebol, dando identidade e apoio ao desenvolvimento do atleta. O fato de serem favorecidos por uma formatação jurídica na qual são constituídos, cujos dirigentes estatutários não são remunerados, fizeram com que um padrão mais profissional de gestão nunca tenha sido considerado com a devida seriedade no futebol brasileiro.

O que prevalece nestas instituições esportivas, ainda são os desejos, intenções e interesses da presidência, diretoria estatutária e conselheiros que são, de forma geral, mais torcedores do que gestores. Dentro deste quadro cria-se um ambiente onde se acumulam dívidas trabalhistas, tributárias, previdenciárias e bancárias, com antecipações desmedidas de receitas futuras e com propostas as vezes absurdas de negociações que no fundo pretendem apenas adiar os problemas, mas que de fato só os agravam, pois algumas delas são praticamente impagáveis.

Os clubes que tentam se modernizar contratam executivos e profissionais especializados, mas paradoxalmente dão a eles pouco poder decisório. Continuam pagando salários fora da realidade, gastando muito mais do que as receitas permitem, servindo de “vitrine” para atletas (“commodities”) pertencentes a agentes (e parceiros ocultos) que possuem fatias expressivas, quando não a totalidade dos direitos econômicos dos principais jogadores, cenário este que exige urgentemente de uma regulamentação.

No setor técnico, às vezes o treinador tem algum poder, mas que está diretamente relacionado aos resultados imediatos de campo. Quando sua equipe perde alguns jogos, ele igualmente perde o poder e, na sequência, o emprego. Aliás, esta lógica serve também para os projetos e planos de ação que são realizados, geralmente, com foco exclusivo no curto prazo, sem decisões tomadas à partir de um planejamento estratégico consistente da própria instituição.

Este cenário faz com que o clube viva de suas rotinas tradicionais, sem integração entre as suas dimensões políticas, administrativas e técnicas e, consequentemente, com ações que mudam conforme o andamento dos resultados de campo de sua equipe principal. Assim, trabalhos mais profissionais e competentes que incluam diagnósticos dos fatores internos e externos, elaboração e execução de cuidadoso planejamento estratégico, projetos e planos de ação de curto, médio e longo prazos, ações estratégicas, administrativas, técnicas e operacionais, completadas com avaliações e controles rigorosos de desempenho, são apenas reflexões futuristas ou utópicas para a maioria dos clubes brasileiros.

3. REDE GLOBO E EMPRESAS PATROCINADORAS – Em conjunto, dentro do modelo econômico globalizado vigente, constituem-se no grande pilar de sustentação do futebol brasileiro enquanto espetáculo e negócio. Por razões óbvias, o grande interesse das empresas é o lucro. Portanto, cobrar maior participação delas em relação aos problemas de todos os 641 clubes profissionais brasileiros e seus respectivos 18 mil jogadores soaria como ingenuidade. Esta deveria ser uma obrigação e prioridade da CBF e Federações Estaduais, que são instituições sem fins lucrativos.

As empresas com maiores recursos, via de regra, têm interesse nos clubes que podem agregar valor imediato às suas iniciativas de patrocínio. Embora perfeitamente exequível, não há ainda nem visão estratégica, nem condições concretas para que investimentos consistentes e de longo prazo sejam feitos com os clubes menores.

A Rede Globo, especificamente, possui grande poder e influência como formadora de opinião dentro da cultura brasileira e é hoje provedora fundamental de receitas para os principais clubes do país. Estes, devido ao seu próprio modelo constitutivo e de gestão tradicional, se tornaram reféns das próprias receitas dos direitos televisivos. Diante deste quadro distorcido e/ou desequilibrado, todos os outros atores acabam sendo influenciados, tendo que se adaptar conservadoramente a esta realidade.

De forma sistêmica, até mesmo as demais empresas patrocinadoras acabam tendo que se ajustar aos princípios comerciais estabelecidos pela detentora dos direitos de transmissão. Também no afã de “premiar” os clubes com maiores torcidas e consequentemente, que propiciam maiores audiências, estabelece-se uma correlação de forças nefasta em termos competitivos entre as equipes, estimulando práticas menos saudáveis e justas no futebol como um todo.

Alguns analistas afirmam que está em andamento no Brasil um processo de “espanholização” do futebol, onde poucos clubes recebem boa parte dos recursos dos patrocinadores, abrindo distâncias extremamente desiguais entre as equipes em termos de competitividade.

4. CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL (CBF) E FEDERAÇÕES ESTADUAIS – São associações de direito privado, de caráter desportivo, e que dirigem o futebol brasileiro, em nível nacional e estadual, respectivamente. Conforme o seu estatuto – Capítulo I, Art. 5o. – a Confederação Brasileira de Futebol tem como um dos seus fins básicos “administrar, dirigir, controlar, fomentar, difundir, incentivar, melhorar, regulamentar e fiscalizar, constantemente e de forma única e exclusiva, a prática de futebol não profissional e profissional, em todo o território nacional”.

Deve também “colaborar para o funcionamento e desenvolvimento das Federações filiadas e entidades de prática do futebol, proporcionando-lhes assistência técnica e financeira”. Em conjunto, portanto, deveriam ser as principais responsáveis pela implantação e implementação de uma abrangente política para esta modalidade desportiva em nosso país, nas dimensões do alto rendimento, educacional e social. CBF e Federações Estaduais poderiam ser as grandes coordenadoras do processo de desenvolvimento do futebol brasileiro, seguindo o exemplo do que já consegue fazer com sucesso a Uefa em relação aos seus 53 países filiados, e cuja complexidade em nada pode ser considerada menor que administrar o futebol no Brasil.

Entretanto, quer seja por falta de visão, quer seja por interesses particulares ou mesmo escusos, a verdade é que, apesar de nosso inegável potencial, estamos muito distantes de medidas efetivas capazes de resgatar o futebol brasileiro a patamares que permitam almejar a hegemonia do futebol mundial.

Voltando ao estatuto, podemos constatar que o seu Artigo 6o. é bem claro quando diz que: “a CBF não tem objetivos lucrativos, devendo aplicar suas receitas e recurso financeiros na realização de suas finalidades, bem como na organização, na administração, na divulgação e no fomento do futebol.” Basta, enfim, uma análise superficial para perceber que tanto CBF quanto as Federações Estaduais não cumprem as suas próprias finalidades. Pelo contrário, além deste descumprimento, com uma estrutura institucional jurídica que as protegem, seus dirigentes conseguem se eternizar no poder, propiciando pouquíssimas possibilidades para transformações mais democráticas e modernizadoras.

Em um balanço atual, estima-se que a CBF tem um faturamento anual bruto próximo de R$ 350 milhões, com lucro líquido em torno de R$ 75 milhões, o que daria, por si só, para subsidiar grandes mudanças e estruturar toda a pirâmide de sustentação do nosso futebol. Hoje são distribuídos valores e benesses da CBF para as Federações e destas para os clubes, com contrapartidas mais relacionadas e preocupadas com a manutenção da estrutura de poder do que com o desenvolvimento do futebol propriamente dito.

5. MÍDIA ESPECIALIZADA – Na sociedade de consumo do mundo contemporâneo em que vivemos, a imprensa de forma geral tem se destacado não só como meio de comunicação e expressão que reforça, de diversas maneiras, a identidade sociocultural de um povo, como também exerce um papel preponderante – para o bem e para o mal – em diferentes dimensões da esfera pública.

Neste sentido, o jornalismo esportivo brasileiro tem se destacado, em particular através do futebol, enquanto entretenimento, espetáculo e prática social. Apesar desse esporte ser reconhecidamente uma das mais expressivas manifestações da nossa identidade nacional e que possui, além de tudo, um inegável caráter unificador (de uma comunidade ou nacionalidade), este fenômeno pode também ser visto simplesmente como uma mercadoria, e assim ser explorado por diversos segmentos, inclusive pela própria mídia especializada.

Neste ponto, pode-se perceber, de um lado, uma forte tendência ao exercício da modalidade de jornalismo esportivo opinativo, com pouca preocupação realmente informativa e investigativa, que deveria ser a essência do próprio jornalismo, de forma geral. O que se observa, muitas vezes, é tão somente a valorização do processo de espetacularização do evento esportivo e a consequente veiculação das marcas, que não raramente são confundidas com alguns jornalistas, adeptos do merchandising.

Como forma de entretenimento, percebe-se uma tendência onde cada vez se fala menos de futebol e mais de superficialidades. Como nos ensina o sociólogo francês Pierre Bourdieu: “As notícias de variedades consistem nessa espécie elementar, rudimentar, da informação que é muito importante porque interessa a todo mundo sem ter consequências e porque ocupa tempo; tempo que poderia ser empregado para dizer outra coisa. E se minutos tão preciosos são empregados para dizer coisas tão fúteis é porque as futilidades têm o papel de esconder os assuntos que deveriam ser debatidos. Ora, ao insistir nas variedades, preenchendo esse tempo raro com o vazio, com nada ou quase nada, afastam-se as informações pertinentes que deveria possuir o cidadão para exercer seus direitos democráticos.”

De outra parte, entretanto, é possível observar um jornalismo esportivo mais crítico, combativo e investigativo, que longe de ser hegemônico – e nos limites de nossa ainda frágil democracia – é, contudo, capaz de fazer contrapontos significativos com esta visão, estabelecendo-se aí uma correlação de forças que, de certa forma, influencia a opinião pública.

6. PÚBLICO EM GERAL – O futebol é um fenômeno sociocultural e esportivo admirado por milhões, praticado por muitos, mas – em especial no Brasil – ainda infelizmente estudado por muito poucos. Por seu significado e expressão simbólica em nossa cultura, tentar entender o envolvimento do público em geral com esta modalidade esportiva é tentar entender a própria sociedade. Embora o futebol tenha historicamente começado há mais de 100 anos em nosso país como uma prática elitista e que só se popularizou definitivamente em meados do século XX, a verdade é que uma de suas características mais marcantes é que atualmente ele é apreciado por grande parte da população em praticamente todas as camadas sociais.

Isto quer dizer que haverá sempre simpatizantes e torcedores de futebol em qualquer nível social e/ou educacional, seja entre os pouco mais de 10% dos brasileiros que conseguem completar um curso superior, seja entre os quase 10% de analfabetos, ou ainda seja entre os cerca de 30% (ou seria 40%?) de nossa população enquadrados como analfabetos funcionais.

É, portanto, natural e perfeitamente compreensível que esta modalidade, apelidada pelos ingleses como “the beautiful game”, reflita todos as injustiças, conflitos e contradições da sociedade como um todo. Não há, portanto, um padrão monolítico de torcedores. No seu conjunto eles podem ser apaixonados, passionais, agressivos, sensíveis, violentos, lógicos, racionais, críticos, solitários, enturmados, festeiros, organizados ou desorganizados. E haverá sempre, em última instância, desde aqueles que se identificam mais com causas conservadoras e reacionárias até aqueles que gostariam de se engajar em causas inovadoras e contemporâneos e que beneficiariam todos que apreciam o futebol bem jogado.

Qualquer plano que pretenda estabelecer uma política séria para o futebol brasileiro deveria conhecer melhor o seu público, que no caso são homens e mulheres, crianças e adolescentes, que torcem, assistem, jogam, participam, ouvem, leem, falam e discutem o futebol.
***

Que bom seria para o Brasil se conseguíssemos nos próximos anos reunir todas as forças que querem mudanças conjunturais e estruturais para o nosso país de uma forma geral, e dentro deste contexto, almejassem também mudanças no próprio futebol, através de um plano nacional de desenvolvimento, integrando estas forças no sentido de se valorizar este extraordinário patrimônio da humanidade que tanto significado tem para nós brasileiros!

Afinal, um futebol melhor, dentro de um país melhor, pode significar a contribuição brasileira para um mundo melhor!

Ou isto significaria sonhar o impossível?
“Alguns homens veem as coisas como são, e dizem ‘Por quê?’
Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo ‘Por que não?’”
(George Bernard Shaw)

*João Paulo Medina é Diretor da Universidade do Futebol

Bom Senso F.C.

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“É preciso pensar o futebol de forma sistêmica. Não se pode acreditar que todos os problemas serão resolvidos só com a mudança de calendário.”

‘O Bom Senso F.C., movimento que surgiu prioritariamente com o objetivo de reunir atletas e demais profissionais do futebol que compartilham a preocupação com o atual cenário futebolístico brasileiro e seu futuro, decidiu ser uma voz única para propor, sugerir e promover melhorias que potencializem a qualidade do espetáculo, a gestão profissional, a saúde física dos atletas e a estabilidade financeira de centenas de clubes e milhares de jogadores.

Os cinco pontos citados neste documento visam auxiliar, de forma propositiva, as entidades que regem o futebol no Brasil, fornecendo ideias, dados e experiência prática de quem está no “front de batalha”. Encontrar um equilíbrio na quantidade de jogos que preserve, ao mais alto grau possível, a integridade física dos atletas e permita que, com pré-temporadas racionais, treinamentos adequados, período de férias suficiente, entre outros cuidados, os atletas possam jogar na plenitude de suas potencialidades ou possibilidades é tarefa de todos os envolvidos e interessados em promover o futebol brasileiro, especialmente da CBF.

Buscar condições efetivas para que os clubes, principalmente os de médio e pequeno portes, possam jogar durante toda a temporada, permitindo que os jogadores consigam exercer a sua profissão de forma digna e, ao mesmo tempo, atraente ao público, para que, estrategicamente, se sustente a base que fornece jogadores para o mais alto escalão de rendimento é tarefa de todos os envolvidos e interessados em promover o futebol brasileiro, especialmente a CBF.

A criação do fair play financeiro é uma forma de proteger o futebol como patrimônio nacional e garantir sua sustentabilidade a longo prazo, assim como implantar a participação de atletas, treinadores e executivos no Conselho Técnico da CBF também é tarefa de todos os envolvidos e interessados em promover o futebol brasileiro, especialmente da CBF. Respeitar e buscar estes aspectos é ter bom senso e, sem dúvida, ajudará os campeonatos à encontrem um equilíbrio saudável para os profissionais, para os clubes, para os patrocinadores e para os torcedores.’

Bom Senso FC

Além de fazer parte deste momento importante do futebol brasileiro, sem dúvida alguma é muito gratificante poder compartilhar ideias, propostas e conhecimento com profissionais do nosso esporte, em especial, com os atletas ligados ao Bom Senso F.C., que em plena atividade por seus clubes, dedicam um tempo sincero na reflexão de um futuro melhor para o nosso futebol, com coragem e inteligência.

Infográfico do Bom Senso FC

                                                                                                                                                                                           Fonte: Folha

Para baixar o documento completo do Dossiê do Movimento Bom Senso F.C., clique no link abaixo:

DOSSIÊ VERSÃO FINAL

Um Livro às Quintas

n_meros_do_jogo_abre“É inacreditável o quanto você não sabe do jogo que tem jogado a vida toda.” (parafraseando Michael Lewis, autor de Moneyball, o homem que mudou o jogo)

Segue um dos meus trechos preferidos dos autores Chris Anderson e David Sally:

“Ficou para trás o tempo em que se confiava puramente no instinto, no palpite e na tradição para saber o que era bom e mau futebol. Em vez disso, agora podemos recorrer a provas objetivas. O uso de informações objetivas está mexendo com o equilíbrio do jogo bonito. O futebol não é mais comandado por uma mistura de autoridade, costume e adivinhação, e está entrando em uma fase nova, mais meritocrática.

Isso é uma ameaça para os poderosos tradicionais do esporte, porque indica que eles deixaram de ver alguma coisa, durante todo esse tempo.

Nesse sentido, o futebol é um pouco de religião: sempre houve a percepção de que, para se tornar um especialista, era preciso ter nascido no lugar certo e ter sido iniciado nos rituais desde a mais tenra idade. O futebol tem credos, dogmas, a comunhão com os coirmãos, confissões, códigos de vestimenta, rituais de imersão, cantorias e tudo o mais.

Mas, se os dados permitem que qualquer um se torne um especialista, alguém com uma opinião bem embasada, aqueles que praticam os métodos antigos se tornam menos poderosos, menos especiais, mais sujeitos a questionamento. No limite, eles podem acabar sendo desmentidos; e quanto mais forem desmentidos, menos poder terão.

Se eles são os sacerdotes e os fazedores de papas, nosso papel, como autores de Os números do Jogo, é ensinar a você como ser e como apreciar os iconoclastas e os combatentes da reforma do futebol.”

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Os Números do Jogo também é um relato honesto sobre a menos romântica das situações: o momento em que o futebol parou de ser 100% jogado no campo para ser pré-definido em números. 

Mas como não ser romântico sobre futebol quando o fator humano está presente em cada momento do jogo e insiste em ignorar nossas certezas?

Entender para Transformar – o futuro do futebol brasileiro em jogo.

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O grupo O JOGO, formado por João Paulo Medina, Sandro Orlandelli, Thiago Scuro e este que vos escreve, buscou neste período de reflexões e encontros propostos pelo Futebol do Futuro, responder a estas questões. Embora tenhamos juntado e construido vários elementos para respondê-las, é fundamental, a partir de agora, que estes questionamentos técnicos entrem nas agendas dos responsáveis e dirigentes do futebol brasileiro.

1) Que tipo de jogo os clubes pretendem que suas equipes (principal e categorias de base) joguem no atual cenário do futebol mundial? Já existe esta referência? Como ela é (ou pode ser) construída metodologicamente? Os clubes têm noções claras sobre a importância destas questões estratégicas?

2) Podemos dizer que temos hoje uma “Escola Brasileira de Futebol” que defina modelos de jogo, estilo, padrões táticos? Neste aspecto, em que estágio estamos em relação a, por exemplo, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Holanda?

3) Continuamos produzindo “talentos” (craques) em profusão para o futebol como em décadas passadas? Se não, sabemos por quê? Não haveria um mecanismo de “exclusão” dos verdadeiros talentos (jovens mais habilidosos, mas fracos fisicamente) no atual processo de seleção de atletas na maioria dos clubes do futebol brasileiro, ao se priorizar apenas jogadores que sejam bem dotados fisicamente e mais aptos para ganharem campeonatos e competições nas categorias de base?

4) Os clubes tem clareza sobre como desenvolver seus processos de seleção, captação e desenvolvimento de atletas, sintonizados com as demandas do século XXI e seu processo intenso de globalização?

5) As instituições responsáveis, direta ou indiretamente, pela prática do futebol no Brasil (Confederação, Federações, Clubes, Escolinhas de Futebol, Ministério do Esporte…) tem consciência da importância estratégica de desenvolvermos mecanismos e processos de formação, capacitação e atualização profissionais no futebol (e não apenas para o alto rendimento)? Como são formados hoje os profissionais que atuam no futebol? Este tema está na agenda de nossos dirigentes?

Palestra sobre a Formação do Treinador na Europa

A Formação do Treinador na Europa

Edição da palestra realizada no Footecon 2012 sobre o processo de qualificação profissional para atuação com o futebol na Europa e os desafios ao futebol brasileiro em encarar estrategicamente este cenário.

Episódio da WebSerie ” Especial Footecon” realizada pela Universidade do Futebol.

O Conceito de Educação Corporativa no Futebol

de Eduardo Conde Tega e João Paulo S. Medina

Os processos e métodos de trabalho técnico nos clubes de futebol não pertencem à instituição. Sua sistematização e aplicação são quase sempre de exclusiva responsabilidade dos profissionais contratados pelo próprio clube e que fazem a gestão técnica de campo de suas equipes (treinadores, preparadores físicos, treinadores de goleiro etc.).

É bem verdade que não há como se fazer de outra forma, uma vez que os clubes não possuem – via de regra – uma filosofia definida de acordo com a sua identidade e modelo de jogo que pretendem implantar em seu departamento de futebol, quer em sua equipe principal, quer em suas categorias de base.

A ideia de o clube ter sua própria proposta metodológica de treinamento e de trabalho é algo novo entre nós. Porém, mesmo na Europa, onde os clubes historicamente tendem a se profissionalizar com mais rapidez do que no Brasil, ainda não são todos que a possuem. Mesmo assim, estão mais avançados em relação à realidade brasileira. Barcelona, Manchester United, Arsenal, Ajax, Porto e Bayern de Munique são alguns dos clubes que investem na construção desta estrutura metodológica institucional.

Nos clubes brasileiros, a dificuldade para a implantação de um modelo técnico consistente de trabalho aumenta em razão da alta rotatividade das comissões técnicas, principalmente do treinador. Frequentemente, um planejamento ou uma proposta de trabalho de médio ou longo prazo não resiste a alguns poucos resultados negativos seguidos.

Desta forma, não há como fugir de um círculo vicioso. É como se comparássemos o clube a um computador (“hardware”), e a metodologia de seu departamento de futebol ao programa (“software”) que faz o computador funcionar. Cada troca de treinador ou equipe técnica o “computador” fica vazio à espera de uma nova “programação”.

Por isso, tudo indica que a tendência contemporânea é que os clubes comecem a definir a sua filosofia de trabalho, a partir de sua própria identidade futebolística ou modelo de jogo de suas equipes e, assim, possam contratar melhor seus profissionais e formar seus atletas conforme o perfil exigido, para darem conta de seus objetivos.

Dentro deste novo contexto é que surge a necessidade dos clubes criarem seus próprios ambientes de aprendizagem, através do conceito de “Universidade Corporativa” ou “Educação Corporativa”.

Este conceito já vem sendo aplicado há um bom tempo – e com sucesso – no mundo empresarial, mas só recentemente começa a ser pensado para o futebol.

A ideia surgiu, originalmente, na cabeça do genial CEO e líder empresarial Jack Welch, que entre 1981 e 2001 conduziu um processo inovador de gestão, transformando a General Eletric em uma das maiores empresas do mundo.

Ele percebeu, por exemplo, que enviar seus melhores funcionários para universidades em busca de conhecimentos de ponta (pós-graduações, mestrados etc.) para capacitá-los e/ou atualizá-los era um erro estratégico, devido a duas questões básicas. Em primeiro lugar porque os custos de investimento em capacitação de um funcionário, que ficava um bom tempo ausente da empresa, eram muito elevados. E em segundo, mas não menos importante, porque o assédio de outras empresas por profissionais qualificados resultava, muitas vezes, em perder seus melhores talentos após todo o investimento feito neles.

Jack Welch resolveu, então, trazer a capacitação para dentro da companhia, treinando e desenvolvendo seus melhores colaboradores na cultura da própria empresa. Ao invés de levar os funcionários à universidade, trouxe a universidade aos funcionários.

Institucionalizou os processos, melhorou o ‘software’ e alargou os caminhos para o desenvolvimento de melhores gestores. Deu a esta ideia o nome de “Universidade Corporativa”.

Trazendo estas reflexões para o cenário do futebol podemos perguntar: Quantos clubes no Brasil têm uma “Universidade Corporativa” ou aplicam o conceito de “Educação Corporativa”?

E mais: quantos clubes irão trocar seus treinadores e/ou comissões técnicas durante a temporada, jogando fora um “software” e trazendo outro novo, dando assim continuidade a um círculo vicioso que tem atrasado o futebol brasileiro?

O Rei está Nu

Poder

Estamos no início de novos tempos para o nosso futebol. Não sou vidente, mas é claro o sentimento que mudanças estão por acontecer. E intuo que muitas delas, virão para o bem, ou pelo menos, virão para gerar uma maior reflexão crítica do que vem sendo realizado até então, seja na gestão do espetáculo, na gestão dos clubes ou na maneira de tratar o desenvolvimento dos nossos atletas.

Sempre acreditei que faríamos bem mais pelo futebol brasileiro (e através dele) do que foi realizado nas últimas décadas e o que se percebe é que existe muita gente boa espalhada pelo Brasil na gestão de campo, em especial, os que estão envolvidos nas categorias de base, mas reféns, quase sempre, da estrutura e cultura vigente do clube ou de interesses capazes de mudar a lógica da proposta da formação do atleta, ou da gestão esportiva em si.

E o conhecimento, mesmo que seja considerado relevante, inovador e bem-vindo, torna-se igualmente refém da questão mais antiga na cadeia de evolução da raça humana: as relações de poder.

Ou seja, o quanto de poder vou perder com a chegada dessa pessoa, dessa nova ideia, dessa nova proposta ou projeto?

Quantas vezes estivemos na posição do ameaçador ou do ameaçado?

Comunicação e humildade

Tenho entrevistado ou tido contato com vários profissionais, principalmente treinadores em atividade. Nessas oportunidades, acabamos por discutir as metodologias de trabalho que algumas das principais equipes do mundo desenvolvem, bem como suas aplicações práticas e percebo um índice altíssimo de respostas da maioria desses treinadores, afirmando realizar o mesmo tipo de trabalho que as referências discutidas.

Por exemplo, se discutimos sobre Periodização Táticaque é a maneira de organizar os períodos do treino tendo como norte o modelo de jogo da equipe – escuto que fazem exatamente a mesma coisa no seu dia-a-dia (e sei que NÃO o fazem…).

Se conversamos sobre um trabalho focado em princípios de ataque ou de defesa, também escuto a mesma resposta: “– Faço exatamente isso! ” – mesmo sabendo que esse profissional não tem discernimento sobre um trabalho relacionado à lógica do jogo (inteligência coletiva) de um trabalho fragmentado do jogo.

O que se procura concluir com essa reflexão é que, a grande maioria dos nossos treinadores tem acesso às teorias e conhecimentos produzidos acerca da evolução do “como treinar“, mas não conseguem sistematizá-los na prática. Continuam com uma visão distorcida e fragmentada da construção do jogo, o que vem resultando no nosso distanciamento entre outras tradicionais escolas de futebol.

Precisamos urgentemente de um grito avisando que o rei está nu e um posicionamento mais humilde desta porção de treinadores super valorizada, muitas vezes insensível à revisão de seus conceitos, em função do momento de transição em que se encontra o futebol brasileiro. Em tese, significaria conhecer (entender) teorias que direcionassem seus métodos de trabalho, sem interferir necessariamente no estilo de cada um.

Esta reciclagem conceitual, por exemplo, facilitaria a comunicação entre os profissionais da comissão técnica e atletas, visando o melhor entendimento dos métodos de treinamento e, principalmente, aproximá-los da realidade encontrada no próprio jogo.

Treinar para deixar de dar tanto a posse de bola para o adversário, ou para manter as linhas de zagueiros e volantes sempre próximas e compactadas dos recuos e avanços da equipe ou para aumentar a troca de passes entre seus jogadores.

Alinhar nomenclaturas já poderia ser considerado um primeiro passo dessa reciclagem, onde muitos profissionais poderiam rever detalhes que seus jogadores não conseguiram executar, muitas vezes em função de uma comunicação mal feita do que se pretendia obter no treinamento.

Só dessa forma mais pessoas entenderão o que realmente está acontecendo com o futebol brasileiro, em especial, os próprios treinadores.


Frase da Semana

Teoria e Prática

 

 

 

 

 

 

 

 

“Aqueles que trabalharam no futebol por muitos anos,  jogadores ou treinadores, devem buscar mais conhecimento na área acadêmica e em cursos relacionados ao futebol. Ao mesmo tempo, as pessoas que saem da universidade, devem buscar experiência em categorias de base e equipes menores. Só assim teremos profissionais mais completos e capacitados no futebol.”

(Renê Simões)

Inteligência Coletiva

O êxito no futebol depende do bom rendimento de cada jogador ou do trabalho conjunto da equipe?
O canal espanhol Odisea produziu este interessante documentário analisando a importância da visão coletiva e a relevância das estratégias de um grupo no âmbito futebolístico, a partir da perspectiva da complexidade.

Vale a concentração.

A Encruzilhada do Futebol Brasileiro

por Paulo André Benini, no especial da Universidade do Futebol sobre o trabalho metodológico desenvolvido no Brasil.

“Nos esquecemos de investir em planejamento, estruturação e, principalmente, capacitação de profissionais para darmos sequência à produção e consolidação da nossa hegemonia no futebol mundial.”

 

Se dissermos que o jogo de futebol se divide em três princípios básicos e deles, todas as variações são possíveis, eu diria que:

tecnicamente sempre fomos muito superiores a qualquer outra nação;

fisicamente, em algum período, chegamos a ser inferiores;

taticamente sempre sofremos com a falta de disciplina na aplicação da estratégia porque éramos tão melhores jogadores de bola que sempre achamos um jeito de vencer nossos rivais.

Assim sendo, inicialmente decidimos resolver a discrepância física e incrementamos toda a cientificidade oferecida pelos melhores estudos e artigos já produzidos para construirmos o atleta ideal. O intuito era nos equipararmos aos europeus e para isso, quebramos inúmeras barreiras culturais introduzindo a musculação e os treinos físicos específicos para jogadores de futebol.

Durante anos os especialistas na área tinham vontade de vomitar ao escutar dirigentes, treinadores e comentaristas dizendo que a musculação deixaria o jogador travado. De qualquer forma e com certa demora, evoluímos muito na qualidade dos treinos físicos e permitimos que a ciência entrasse no futebol brasileiro.

Até aí, tudo bem.

Conseguimos igualar a valência física e continuamos com a supremacia técnica. Éramos então praticamente imbatíveis. Mas em algum momento da história do futebol e da economia brasileira, os clubes se encontravam em péssima condição financeira e não conseguiam gerar outro tipo de renda que não com a venda de jogadores para o mercado europeu.

Demoramos muito para nos estruturarmos, explorarmos o marketing e a paixão doentia do nosso torcedor, gerando receitas que, aliadas aos direitos de TV, tornassem o clube auto-suficiente. Então, o único meio de sobrevivência encontrado por dirigentes amadores e despreparados naquela época era vender atletas à Europa para solver dívidas e contratar medalhões, ganhando assim, o apoio popular.

Desde então, estamos produzindo jogadores para os europeus, buscando selecioná-los e prepará-los de acordo com o perfil de jogo que facilita essa negociação.

Pior que isso, o nosso erro foi acreditar que o atleta ideal era aquele que existia na Europa. Boa estatura, forte, sem muita ginga (pois futebol já não era mais brincadeira), disciplinado, com bom jogo aéreo e o mais importante, com nome e sobrenome. Chegamos ao cúmulo de tirar até os apelidos dos nossos meninos da base para que eles ficassem mais vendáveis aos olhos e aos cofres do velho continente. Em pleno século 20, ainda éramos colônia, explorados pelos europeus que compravam barato e lucravam com o desempenho e as futuras transferências daqueles “produtos” importados. Apesar disso, nós brasileiros estávamos felizes e pensávamos que essa “facilidade” de achar matéria-prima abundante e vendê-la para o além-mar era a salvação da lavoura. Não nos preocupávamos com o êxodo de jogadores porque a renovação e o talento eram tão naturais do nosso povo que a cada ano surgiam mais e mais jogadores de qualidade. Se quiséssemos, montaríamos três ou quatro seleções em condições de ganhar uma mesma Copa do Mundo.

Nesse período (e durante esse processo), ainda mantínhamos a supremacia técnica e por isso demoramos anos para perceber que o jogo também evoluiu. O futebol passou a ser estudado e analisado tanto quanto o organismo humano ou a economia mundial. Também pudera, algo que gera tantos bilhões de dólares e movimenta outros tantos bilhões de torcedores ao redor do planeta não poderia ser deixado ao azar ou ao talento nato de seus praticantes.

Então, enquanto nos dedicávamos aos treinos físicos – com tiros de 1000m, 300m etc… – os europeus faziam tudo dentro do campo, com a bola. Trabalhos mais intensos e disputados, mini jogos que exploravam especificamente um princípio de ataque ou de defesa, tudo inserido ao jogo.

Cada treino tinha um objetivo e o sincronismo dos movimentos de pressão ao adversário, de bloco alto (encurtar o campo), de trocas de passes rápidas e com o menor número possível de toques na bola se tornaram exigências do futebol contemporâneo.

A linha de 4 defensiva e a tentativa de roubar a bola no campo adversário já eram praticadas muito antes de eu chegar à Europa em 2006. Estamos em 2012 e no Brasil tem gente que ainda fala em ala, três zagueiros e volante de contenção.

A falta de visão, de protecionismo, de estímulos para a manutenção de talentos e de desenvolvimento do estilo brasileiro de se jogar futebol se revela hoje, duas décadas depois, um grave problema.

Nos esquecemos de investir em planejamento, estruturação e, principalmente, capacitação de profissionais para darmos sequência à produção e consolidação da nossa hegemonia no futebol mundial.

Nos preocupamos em vender a nossa Seleção e esquecemos-nos de reinvestir o lucro nas futuras gerações.

Usamos os “produtos” produzidos e formados pelos nossos clubes, mas esquecemos de retribuir o serviço com a criação de campeonatos mais fortes e rentáveis, infra-estrutura de qualidade (estádios, gramados, etc…) e capacitação de pessoas em todas as áreas do esporte brasileiro (gestores, técnicos, preparadores físicos, scouts etc…).

Estamos atrasados.

Quase não temos cursos capacitantes que valham à pena.

O círculo do futebol brasileiro é restrito, fechado e avesso a novas ideias.

Quase não temos estudiosos do jogo, das variações táticas ou dos treinamentos específicos.

Nossa formação de base não ensina para o futebol atual, mas, sim, para o futebol de outrora.

Insistimos em coisas do arco da velha simplesmente porque a maioria dos nossos ex-jogadores (atuais treinadores) não está preparada para formar novos atletas.

Falta conhecimento e posteriormente a aplicação de ferramentas como a teoria do jogo, a psicologia e a pedagogia aplicadas ao esporte para que possamos sair do marasmo em que nos encontramos.

Precisamos abdicar de fórmulas que um dia deram certo e que se tornaram tradicionais para chacoalhar os estaduais, as divisões inferiores e os times “pequenos”, assim como um dia passamos do sistema de mata-mata para pontos corridos, dando mais estabilidade financeira aos clubes e atletas.

Talvez seja a hora de quebrarmos outros paradigmas.

Admitir que o modelo está ultrapassado e que precisamos mudar é o primeiro passo. O problema é que poucas pessoas estão preocupadas com isso. Na verdade poucos enxergam o atraso, só reclamam que a Seleção não está bem.

Novos valores e estudiosos do jogo não conseguem se inserir no meio porque não jogaram futebol e não tem a confiança do mercado. A categoria de base da maioria dos clubes brasileiros está jogada ao Deus dará. Os cargos dentro dos clubes, federações e confederações ainda são políticos e não técnicos. Isso tem que mudar!

O Brasil se encontra em uma encruzilhada.

Na verdade, estamos parados diante dela há alguns anos, observando, com olhos fixos, a estrada que nos trouxe até aqui.

Ela é repleta de flores, encantos e conquistas. Revendo o trajeto, nos apaixonamos pela construção da nossa história e temos a certeza e o orgulho de saber que os melhores times e os maiores jogadores que o planeta já viu foram brasileiros.

Enxergamos também que ganhamos, orgulhosa e merecidamente, o apelido de “País do futebol”, o maior exportador de pé-de-obra que o mundo conheceu.

Dominamos o futebol mundial e possuímos, por anos, estrelas em todos os grandes campeonatos nacionais do velho continente. Todos tinham medo da camisa amarela e os brasileiros, encantados, paravam para ver a seleção canarinho jogar. Por tudo isso, passamos anos desfrutando da beleza do nosso futebol e do avanço que tínhamos sobre os demais.

Acreditamos que tudo era possível ao país que tem no DNA de seu povo, o talento do futebol.

Hoje, olhando ao redor, mais próximos da encruzilhada, ainda pelo caminho que construímos, vemos sonhos, delírios e extravagâncias que desperdiçaram tempo e dinheiro e não se transformaram em nada. Um período sonolento em que a falta de capacidade se justificou de inúmeras formas, especialmente pelo passado esplendoroso que construímos.

Mas eis que recentemente, atônitos e ainda parados na estrada, fomos despertados pelo barulho ruidoso dos motores espanhóis, holandeses e alemães que passaram por nós sem pedir licença. Aceleraram em tamanha velocidade que ainda não conseguimos reparar quais as novas peças da engrenagem os fazem acelerar tão depressa.

E cá estamos nós, olhando fixamente para a encruzilhada buscando dicas de para onde seguir ou qual o melhor caminho a tomar…

Um Livro às Quintas

“Una red de significado interpretada desde el paradigma de la complejidad”

El Modelo de Juego del FC Barcelona – Oscar P. Cano Moreno

MC Sports, 2010.

Oscar Moreno condena e derruba a barreira existente entre teoria e prática, nos conduzindo pelo sinuoso universo das teorias dos sistemas dinâmicos e nos convidando a entender a complexidade do jogo –  desde as evidências da imprevisibilidade à análise minusciosa da construção do modelo de jogo do F.C. Barcelona.

Na Contramão da Educação a Distância

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“Acontece que a lógica da internet é inversa. Na educação a distância, não existe espaço para que todos vençam.
Nela, não cabem centenas de cursos, mas somente os melhores…”

por Jurandir Sell Macedo

NO FINAL da década passada, o Laboratório de Ensino a Distância (LED) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) colocou o Brasil entre os líderes mundiais dessa tecnologia. Naquela época, os custos de infraestrutura eram extremamente elevados.

Por meio de convênios com grandes empresas privadas e estatais, foi feito um intenso trabalho e muito conhecimento foi adquirido. Porém, devido à incompreensão do processo por parte de muitos professores e particularmente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), o trabalho foi praticamente destruído.

Com o quase total desmanche do LED, diversos pesquisadores montaram pequenas instituições que ganharam destaque nacional e internacional. Hoje, videoconferências e transmissão de vídeos pela rede tornaram-se operações corriqueiras.

Caíram os custos da infraestrutura e aumentou a compreensão das diferenças didáticas entre aulas presenciais e a distância.

Graças aos poucos persistentes pesquisadores que permaneceram na UFSC, hoje, o atual Laboratório de Educação a Distância continua dominando essas tecnologias. Dez anos depois daquela experiência, a Capes acordou para a educação a distância e criou a Universidade Aberta do Brasil (UAB). A iniciativa por si só é louvável. Porém, a instituição carece da mínima compreensão sobre a direção das mudanças.

Hoje, a UAB tem um dos piores modelos de educação a distância do mundo. Estamos reproduzindo na internet os cursos por correspondência comuns no início do século passado, substituindo o livro, a mais antiga forma de educação a distância, por apostilas – o que não faz nenhum sentido.

O modelo da UAB é cartorial e vai de encontro ao princípio que norteia o desenvolvimento da educação a distância. Pode ser que assim o faça por falta de conhecimento de seus dirigentes ou por uma tentativa de contornar o conhecido corporativismo do meio universitário, distribuindo migalhas financeiras a muitos.

Segundo o modelo da UAB, diversas universidades brasileiras oferecem cursos de graduação e pós-graduação, tentando levar o modelo da sala de aula atual para a web. Só em administração e gestão, são hoje 168 cursos de bacharelado e especialização.

Acontece que a lógica da internet é inversa. Na educação a distância, não existe espaço para que todos vençam.

Nela, não cabem centenas de cursos, mas somente os melhores. Estes levam cada vez mais dinheiro, que lhes permite um aprimoramento constante, atraindo cada vez mais alunos e mais dinheiro. Um círculo virtuoso para as instituições vencedoras.

Nas escolas e universidades tradicionais, são necessários muitos professores, pois cada um deles atende um número limitado de alunos.

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O Campo de Distorção da Realidade

O termo “campo de distorção da realidade” foi criado por Bud Tribble em 1981, na época, um dos figurões da Apple, e descreve a habilidade de Steve Jobs em conseguir convencer as pessoas a acreditarem em qualquer coisa com uma mistura de charme, carisma, performance, exagero e marketing.

Existem pessoas que levam isso bem a sério, já outros (principalmente os fãs da marca) juram que nada seria possível se os produtos da Apple não fossem realmente “incríveis, maravilhosos, práticos, fáceis, bonitos…”

Fico imaginando se o futebol brasileiro não vive um pouco desse ‘campo de distorção da realidade’.

Onde nossos cinco títulos mundiais e a perspectiva de um sexto chegando, acabam por distorcer nosso campo de visão sobre o que é ter o melhor futebol do mundo.

E fica a pergunta: o que é ter o melhor futebol do mundo?

Professores Melhores, Alunos Melhores

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Alunos cubanos são melhores que os brasileiros porque seus professores sabem mais, diz pesquisador.

Via Folha de hoje

Avaliações internacionais revelam que o desempenho de estudantes cubanos em matemática e linguagem é bastante superior ao dos brasileiros. E, segundo o pesquisador da Universidade de Stanford Martin Carnoy, há uma razão para essa performance diferenciada na ilha de Fidel: lá a qualificação dos docentes é melhor e o envolvimento, maior.

“A causa principal (para Cuba se destacar nas provas) é que os professores têm mais domínio da disciplina e têm uma clara ideia de como ensiná-la”, afirmou o pesquisador.

Carnoy estudou as diferenças nos sistemas de ensino do Brasil, de Cuba, e do Chile. Os resultados foram sintetizados no livro “A vantagem acadêmica de Cuba”, publicado no Brasil pela Ediouro em parceria com a Fundação Lemann.

A boa formação do magistério em Cuba é traduzida em alta cobrança aos estudantes – e isso cria um círculo virtuoso, já que os melhores alunos acabam se tornando professores no futuro. “Tudo isso acontece, porque o sistema apoia o professor, ensinando-o a lecionar”, finaliza.


Nota do Autor:

Imagine um círculo virtuoso, onde os atletas são estimulados a estudar e participam de torneios e campeonatos com a condição de alcançarem boas notas.

E professores são motivados e comprometidos em ensinar muito além dos fundamentos e aspectos técnicos do futebol, ao introduzirem noções de cultura, educação e cidadania através da bola rolando.

Utopia?

Os EUA estão correndo por fora e, em pouco tempo, poderão se tornar o maior centro de desenvolvimento de atletas talentosos do mundo, onde educação caminha junto do esporte, desde que me entendo por gente.

Em tempo: que inveja da ilha da família Castro!