UNICEF, Universidade do Futebol e Fundação Barcelona lançam projeto Educar pelo Futebol

O coordenador técnico da Seleção Brasileira de Futebol, Carlos Alberto Parreira, nomeado Campeão do UNICEF pelo Esporte Seguro e Inclusivo, é o padrinho do programa.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Universidade do Futebol lançaram na manhã desta quinta-feira, dia 22 de maio, o programa Educar pelo Futebol – Meu time é nota 10, com o apoio da Fundação FC Barcelona, CBF Cursos e Federação Nacional dos Treinadores. A iniciativa é um programa de capacitação online para treinadores e gestores de clubes de futebol, treinadores em escolinhas de futebol, agentes sociais e comunitários e professores da rede escolar. A ideia é prepará-los para ministrar aulas de futebol com fins educativos, com foco na melhoria da qualidade de vida das crianças e dos adolescentes.

Além dos fundamentos da modalidade (técnica, tática, inteligência coletiva de jogo, etc.), o conteúdo do programa aborda temas como direito ao esporte seguro e inclusivo, trabalho em equipe, solidariedade, liderança, autonomia, senso crítico e respeito aos companheiros e adversários, entre outros. A capacitação é gratuita e tem a duração de três meses. O programa tem como padrinho o coordenador técnico da Seleção Brasileira de Futebol, Carlos Alberto Parreira, que na ocasião foi nomeado Campeão do UNICEF pelo Esporte Seguro e Inclusivo.

Ao final do curso, os participantes receberão certificado do UNICEF, Universidade do Futebol e Fundação Barcelona. “Espera-se que os formados possam levar todo o conhecimento adquirido no curso para dentro dos seus clubes, e consigam promover uma mudança de cultura, diminuindo dessa forma os riscos a que crianças e adolescentes podem estar expostos dentro dos clubes”, explica o chefe da área do Esporte do UNICEF no Brasil, Rodrigo Fonseca.

Rodrigo destaca que o UNICEF vêm trabalhando com diversos parceiros para promover o direito ao esporte seguro e inclusivo de cada criança e cada adolescente. Ele cita como exemplos desse trabalho a criação da Rede de Adolescentes e Jovens pelo Direito ao Esporte Seguro e Inclusivo (Rejupe), as parcerias firmadas com o Flamengo em 2011 e mais recentemente com o Santos Futebol Clube, e agora este projeto com a Universidade do Futebol, com o apoio da Fundação FC Barcelona.

Para o diretor da Universidade do Futebol, Eduardo Tega, o futebol tem potencial para produzir muito mais do que craques e títulos mundiais. “Há milhões de praticantes de futebol, mas apenas uma a cada 3 mil crianças atinge o esporte de alto rendimento, gerando muito mais frustrações do que talentos. Por isso, aqueles que ensinam futebol não podem só valorizar o rendimento, deixando de lado valores fundamentais para a formação e desenvolvimento humanos”.

Sobre a Universidade do Futebol – A Universidade do Futebol tornou-se líder no Brasil no processo de incentivo e estímulo ao estudo e pesquisa do futebol em todas as suas dimensões, contribuindo para o seu desenvolvimento. É uma instituição brasileira de ensino e disseminação do conhecimento do futebol fundada em 2003 e que hoje conta com o reconhecimento de toda a comunidade que estuda o futebol. Tem como missão ser referência brasileira e mundial no ensino e práticas de qualificação profissional no futebol, da dimensão socioeducacional ao alto rendimento. Mais informações: http://www.universidadedofutebol.com.br

Sobre o UNICEF – O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) é uma agência da ONU que tem como mandato assegurar que cada criança e cada adolescente tenham seus direitos integralmente cumpridos, respeitados e protegidos. Com presença em 190 países, é referência mundial em conhecimento e ações de desenvolvimento relacionados à infância e adolescência, credibilidade construída a partir do desenvolvimento e intercâmbio de boas práticas.

Bom Senso F.C.

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“É preciso pensar o futebol de forma sistêmica. Não se pode acreditar que todos os problemas serão resolvidos só com a mudança de calendário.”

‘O Bom Senso F.C., movimento que surgiu prioritariamente com o objetivo de reunir atletas e demais profissionais do futebol que compartilham a preocupação com o atual cenário futebolístico brasileiro e seu futuro, decidiu ser uma voz única para propor, sugerir e promover melhorias que potencializem a qualidade do espetáculo, a gestão profissional, a saúde física dos atletas e a estabilidade financeira de centenas de clubes e milhares de jogadores.

Os cinco pontos citados neste documento visam auxiliar, de forma propositiva, as entidades que regem o futebol no Brasil, fornecendo ideias, dados e experiência prática de quem está no “front de batalha”. Encontrar um equilíbrio na quantidade de jogos que preserve, ao mais alto grau possível, a integridade física dos atletas e permita que, com pré-temporadas racionais, treinamentos adequados, período de férias suficiente, entre outros cuidados, os atletas possam jogar na plenitude de suas potencialidades ou possibilidades é tarefa de todos os envolvidos e interessados em promover o futebol brasileiro, especialmente da CBF.

Buscar condições efetivas para que os clubes, principalmente os de médio e pequeno portes, possam jogar durante toda a temporada, permitindo que os jogadores consigam exercer a sua profissão de forma digna e, ao mesmo tempo, atraente ao público, para que, estrategicamente, se sustente a base que fornece jogadores para o mais alto escalão de rendimento é tarefa de todos os envolvidos e interessados em promover o futebol brasileiro, especialmente a CBF.

A criação do fair play financeiro é uma forma de proteger o futebol como patrimônio nacional e garantir sua sustentabilidade a longo prazo, assim como implantar a participação de atletas, treinadores e executivos no Conselho Técnico da CBF também é tarefa de todos os envolvidos e interessados em promover o futebol brasileiro, especialmente da CBF. Respeitar e buscar estes aspectos é ter bom senso e, sem dúvida, ajudará os campeonatos à encontrem um equilíbrio saudável para os profissionais, para os clubes, para os patrocinadores e para os torcedores.’

Bom Senso FC

Além de fazer parte deste momento importante do futebol brasileiro, sem dúvida alguma é muito gratificante poder compartilhar ideias, propostas e conhecimento com profissionais do nosso esporte, em especial, com os atletas ligados ao Bom Senso F.C., que em plena atividade por seus clubes, dedicam um tempo sincero na reflexão de um futuro melhor para o nosso futebol, com coragem e inteligência.

Infográfico do Bom Senso FC

                                                                                                                                                                                           Fonte: Folha

Para baixar o documento completo do Dossiê do Movimento Bom Senso F.C., clique no link abaixo:

DOSSIÊ VERSÃO FINAL

Entender para Transformar – o futuro do futebol brasileiro em jogo.

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O grupo O JOGO, formado por João Paulo Medina, Sandro Orlandelli, Thiago Scuro e este que vos escreve, buscou neste período de reflexões e encontros propostos pelo Futebol do Futuro, responder a estas questões. Embora tenhamos juntado e construido vários elementos para respondê-las, é fundamental, a partir de agora, que estes questionamentos técnicos entrem nas agendas dos responsáveis e dirigentes do futebol brasileiro.

1) Que tipo de jogo os clubes pretendem que suas equipes (principal e categorias de base) joguem no atual cenário do futebol mundial? Já existe esta referência? Como ela é (ou pode ser) construída metodologicamente? Os clubes têm noções claras sobre a importância destas questões estratégicas?

2) Podemos dizer que temos hoje uma “Escola Brasileira de Futebol” que defina modelos de jogo, estilo, padrões táticos? Neste aspecto, em que estágio estamos em relação a, por exemplo, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Holanda?

3) Continuamos produzindo “talentos” (craques) em profusão para o futebol como em décadas passadas? Se não, sabemos por quê? Não haveria um mecanismo de “exclusão” dos verdadeiros talentos (jovens mais habilidosos, mas fracos fisicamente) no atual processo de seleção de atletas na maioria dos clubes do futebol brasileiro, ao se priorizar apenas jogadores que sejam bem dotados fisicamente e mais aptos para ganharem campeonatos e competições nas categorias de base?

4) Os clubes tem clareza sobre como desenvolver seus processos de seleção, captação e desenvolvimento de atletas, sintonizados com as demandas do século XXI e seu processo intenso de globalização?

5) As instituições responsáveis, direta ou indiretamente, pela prática do futebol no Brasil (Confederação, Federações, Clubes, Escolinhas de Futebol, Ministério do Esporte…) tem consciência da importância estratégica de desenvolvermos mecanismos e processos de formação, capacitação e atualização profissionais no futebol (e não apenas para o alto rendimento)? Como são formados hoje os profissionais que atuam no futebol? Este tema está na agenda de nossos dirigentes?

Palestra sobre a Formação do Treinador na Europa

A Formação do Treinador na Europa

Edição da palestra realizada no Footecon 2012 sobre o processo de qualificação profissional para atuação com o futebol na Europa e os desafios ao futebol brasileiro em encarar estrategicamente este cenário.

Episódio da WebSerie ” Especial Footecon” realizada pela Universidade do Futebol.

Feliz 2013 !

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Desejo de um 2013 repleto de saúde e de realizações positivas.

E de boas e saudáveis notícias ao futebol brasileiro, sonhadas para mais este Ano Novo:

  • Grandes marcas e patrocinadores optam por projetos que utilizam o futebol e o esporte como veículo de transformação social ao invés de investirem em atletas e equipes de ponta.
  • Jornalistas esportivos discutem sobre novas tendências nas metodologias de treinamento no futebol e questionam treinadores nas coletivas sobre seus métodos de treino.
  • Federações de futebol dos Estados brasileiros tornam-se pólos de ensino e de desenvolvimento ao esporte para quem atua ou pretende atuar com o futebol.
  • Treinadores consagrados do futebol brasileiro fazem intercâmbio com Universidades e trocam conhecimento com jovens acadêmicos.
  • Liga Universitária Nacional de Futebol é sucesso de crítica e público.
  • Liga Feminina Nacional de Futebol finalmente é uma realidade em todos os Estados do país.
  • Empresários de Jogadores cedem parte dos lucros ao fundo de incentivo à educação e desenvolvimento de atletas;
  • Democratização do conhecimento no futebol é incentivada por dezenas de instituições de ensino e refletem em oportunidades para várias profissões ligadas ao futebol;
  • Ministérios da Educação, do Esporte e do Trabalho alinham com a CBF, Federações, Sindicatos de Treinadores e Conselho Nacional de Educação Física uma política institucional para a regularização definitiva da profissão de treinador e demais gestores de campo.
  • Clubes e Universidades fecham parcerias para aproximar a teoria da prática no futebol brasileiro.
  • Mais uma turma de executivos e presidentes de clubes de futebol conclui especialização em ciências humanas no futebol.
  • Inteligência de Jogo é privilegiada e clubes formadores brasileiros passam a buscar perfis de atletas que não precisam ser necessária e simplesmente altos e fortes.
  • Indicadores sociais, culturais, educacionais, econômicos e esportivos dão salto positivo na última prévia.
  • Escolinhas de Futebol pelo país tornam-se alvos da política institucional do Governo, que visa a organização e orientação pedagógica no ensino do futebol à meninas e meninos.
  • Treinadores finalmente percebem que não basta apenas ter sido jogador de futebol ou mesmo ter frequentado uma Escola de Educação Física para ser um treinador bem sucedido.
  • Calendário nacional do futebol é ajustado aos interesses dos atletas, dos clubes e à cultura do nosso país.
  • CBF e Globo entendem que seus interesses particulares não podem conflitar com os interesses do desenvolvimento do futebol brasileiro.

Amém!

O Conceito de Educação Corporativa no Futebol

de Eduardo Conde Tega e João Paulo S. Medina

Os processos e métodos de trabalho técnico nos clubes de futebol não pertencem à instituição. Sua sistematização e aplicação são quase sempre de exclusiva responsabilidade dos profissionais contratados pelo próprio clube e que fazem a gestão técnica de campo de suas equipes (treinadores, preparadores físicos, treinadores de goleiro etc.).

É bem verdade que não há como se fazer de outra forma, uma vez que os clubes não possuem – via de regra – uma filosofia definida de acordo com a sua identidade e modelo de jogo que pretendem implantar em seu departamento de futebol, quer em sua equipe principal, quer em suas categorias de base.

A ideia de o clube ter sua própria proposta metodológica de treinamento e de trabalho é algo novo entre nós. Porém, mesmo na Europa, onde os clubes historicamente tendem a se profissionalizar com mais rapidez do que no Brasil, ainda não são todos que a possuem. Mesmo assim, estão mais avançados em relação à realidade brasileira. Barcelona, Manchester United, Arsenal, Ajax, Porto e Bayern de Munique são alguns dos clubes que investem na construção desta estrutura metodológica institucional.

Nos clubes brasileiros, a dificuldade para a implantação de um modelo técnico consistente de trabalho aumenta em razão da alta rotatividade das comissões técnicas, principalmente do treinador. Frequentemente, um planejamento ou uma proposta de trabalho de médio ou longo prazo não resiste a alguns poucos resultados negativos seguidos.

Desta forma, não há como fugir de um círculo vicioso. É como se comparássemos o clube a um computador (“hardware”), e a metodologia de seu departamento de futebol ao programa (“software”) que faz o computador funcionar. Cada troca de treinador ou equipe técnica o “computador” fica vazio à espera de uma nova “programação”.

Por isso, tudo indica que a tendência contemporânea é que os clubes comecem a definir a sua filosofia de trabalho, a partir de sua própria identidade futebolística ou modelo de jogo de suas equipes e, assim, possam contratar melhor seus profissionais e formar seus atletas conforme o perfil exigido, para darem conta de seus objetivos.

Dentro deste novo contexto é que surge a necessidade dos clubes criarem seus próprios ambientes de aprendizagem, através do conceito de “Universidade Corporativa” ou “Educação Corporativa”.

Este conceito já vem sendo aplicado há um bom tempo – e com sucesso – no mundo empresarial, mas só recentemente começa a ser pensado para o futebol.

A ideia surgiu, originalmente, na cabeça do genial CEO e líder empresarial Jack Welch, que entre 1981 e 2001 conduziu um processo inovador de gestão, transformando a General Eletric em uma das maiores empresas do mundo.

Ele percebeu, por exemplo, que enviar seus melhores funcionários para universidades em busca de conhecimentos de ponta (pós-graduações, mestrados etc.) para capacitá-los e/ou atualizá-los era um erro estratégico, devido a duas questões básicas. Em primeiro lugar porque os custos de investimento em capacitação de um funcionário, que ficava um bom tempo ausente da empresa, eram muito elevados. E em segundo, mas não menos importante, porque o assédio de outras empresas por profissionais qualificados resultava, muitas vezes, em perder seus melhores talentos após todo o investimento feito neles.

Jack Welch resolveu, então, trazer a capacitação para dentro da companhia, treinando e desenvolvendo seus melhores colaboradores na cultura da própria empresa. Ao invés de levar os funcionários à universidade, trouxe a universidade aos funcionários.

Institucionalizou os processos, melhorou o ‘software’ e alargou os caminhos para o desenvolvimento de melhores gestores. Deu a esta ideia o nome de “Universidade Corporativa”.

Trazendo estas reflexões para o cenário do futebol podemos perguntar: Quantos clubes no Brasil têm uma “Universidade Corporativa” ou aplicam o conceito de “Educação Corporativa”?

E mais: quantos clubes irão trocar seus treinadores e/ou comissões técnicas durante a temporada, jogando fora um “software” e trazendo outro novo, dando assim continuidade a um círculo vicioso que tem atrasado o futebol brasileiro?

O Rei está Nu

Poder

Estamos no início de novos tempos para o nosso futebol. Não sou vidente, mas é claro o sentimento que mudanças estão por acontecer. E intuo que muitas delas, virão para o bem, ou pelo menos, virão para gerar uma maior reflexão crítica do que vem sendo realizado até então, seja na gestão do espetáculo, na gestão dos clubes ou na maneira de tratar o desenvolvimento dos nossos atletas.

Sempre acreditei que faríamos bem mais pelo futebol brasileiro (e através dele) do que foi realizado nas últimas décadas e o que se percebe é que existe muita gente boa espalhada pelo Brasil na gestão de campo, em especial, os que estão envolvidos nas categorias de base, mas reféns, quase sempre, da estrutura e cultura vigente do clube ou de interesses capazes de mudar a lógica da proposta da formação do atleta, ou da gestão esportiva em si.

E o conhecimento, mesmo que seja considerado relevante, inovador e bem-vindo, torna-se igualmente refém da questão mais antiga na cadeia de evolução da raça humana: as relações de poder.

Ou seja, o quanto de poder vou perder com a chegada dessa pessoa, dessa nova ideia, dessa nova proposta ou projeto?

Quantas vezes estivemos na posição do ameaçador ou do ameaçado?

Comunicação e humildade

Tenho entrevistado ou tido contato com vários profissionais, principalmente treinadores em atividade. Nessas oportunidades, acabamos por discutir as metodologias de trabalho que algumas das principais equipes do mundo desenvolvem, bem como suas aplicações práticas e percebo um índice altíssimo de respostas da maioria desses treinadores, afirmando realizar o mesmo tipo de trabalho que as referências discutidas.

Por exemplo, se discutimos sobre Periodização Táticaque é a maneira de organizar os períodos do treino tendo como norte o modelo de jogo da equipe – escuto que fazem exatamente a mesma coisa no seu dia-a-dia (e sei que NÃO o fazem…).

Se conversamos sobre um trabalho focado em princípios de ataque ou de defesa, também escuto a mesma resposta: “– Faço exatamente isso! ” – mesmo sabendo que esse profissional não tem discernimento sobre um trabalho relacionado à lógica do jogo (inteligência coletiva) de um trabalho fragmentado do jogo.

O que se procura concluir com essa reflexão é que, a grande maioria dos nossos treinadores tem acesso às teorias e conhecimentos produzidos acerca da evolução do “como treinar“, mas não conseguem sistematizá-los na prática. Continuam com uma visão distorcida e fragmentada da construção do jogo, o que vem resultando no nosso distanciamento entre outras tradicionais escolas de futebol.

Precisamos urgentemente de um grito avisando que o rei está nu e um posicionamento mais humilde desta porção de treinadores super valorizada, muitas vezes insensível à revisão de seus conceitos, em função do momento de transição em que se encontra o futebol brasileiro. Em tese, significaria conhecer (entender) teorias que direcionassem seus métodos de trabalho, sem interferir necessariamente no estilo de cada um.

Esta reciclagem conceitual, por exemplo, facilitaria a comunicação entre os profissionais da comissão técnica e atletas, visando o melhor entendimento dos métodos de treinamento e, principalmente, aproximá-los da realidade encontrada no próprio jogo.

Treinar para deixar de dar tanto a posse de bola para o adversário, ou para manter as linhas de zagueiros e volantes sempre próximas e compactadas dos recuos e avanços da equipe ou para aumentar a troca de passes entre seus jogadores.

Alinhar nomenclaturas já poderia ser considerado um primeiro passo dessa reciclagem, onde muitos profissionais poderiam rever detalhes que seus jogadores não conseguiram executar, muitas vezes em função de uma comunicação mal feita do que se pretendia obter no treinamento.

Só dessa forma mais pessoas entenderão o que realmente está acontecendo com o futebol brasileiro, em especial, os próprios treinadores.


A Encruzilhada do Futebol Brasileiro

por Paulo André Benini, no especial da Universidade do Futebol sobre o trabalho metodológico desenvolvido no Brasil.

“Nos esquecemos de investir em planejamento, estruturação e, principalmente, capacitação de profissionais para darmos sequência à produção e consolidação da nossa hegemonia no futebol mundial.”

 

Se dissermos que o jogo de futebol se divide em três princípios básicos e deles, todas as variações são possíveis, eu diria que:

tecnicamente sempre fomos muito superiores a qualquer outra nação;

fisicamente, em algum período, chegamos a ser inferiores;

taticamente sempre sofremos com a falta de disciplina na aplicação da estratégia porque éramos tão melhores jogadores de bola que sempre achamos um jeito de vencer nossos rivais.

Assim sendo, inicialmente decidimos resolver a discrepância física e incrementamos toda a cientificidade oferecida pelos melhores estudos e artigos já produzidos para construirmos o atleta ideal. O intuito era nos equipararmos aos europeus e para isso, quebramos inúmeras barreiras culturais introduzindo a musculação e os treinos físicos específicos para jogadores de futebol.

Durante anos os especialistas na área tinham vontade de vomitar ao escutar dirigentes, treinadores e comentaristas dizendo que a musculação deixaria o jogador travado. De qualquer forma e com certa demora, evoluímos muito na qualidade dos treinos físicos e permitimos que a ciência entrasse no futebol brasileiro.

Até aí, tudo bem.

Conseguimos igualar a valência física e continuamos com a supremacia técnica. Éramos então praticamente imbatíveis. Mas em algum momento da história do futebol e da economia brasileira, os clubes se encontravam em péssima condição financeira e não conseguiam gerar outro tipo de renda que não com a venda de jogadores para o mercado europeu.

Demoramos muito para nos estruturarmos, explorarmos o marketing e a paixão doentia do nosso torcedor, gerando receitas que, aliadas aos direitos de TV, tornassem o clube auto-suficiente. Então, o único meio de sobrevivência encontrado por dirigentes amadores e despreparados naquela época era vender atletas à Europa para solver dívidas e contratar medalhões, ganhando assim, o apoio popular.

Desde então, estamos produzindo jogadores para os europeus, buscando selecioná-los e prepará-los de acordo com o perfil de jogo que facilita essa negociação.

Pior que isso, o nosso erro foi acreditar que o atleta ideal era aquele que existia na Europa. Boa estatura, forte, sem muita ginga (pois futebol já não era mais brincadeira), disciplinado, com bom jogo aéreo e o mais importante, com nome e sobrenome. Chegamos ao cúmulo de tirar até os apelidos dos nossos meninos da base para que eles ficassem mais vendáveis aos olhos e aos cofres do velho continente. Em pleno século 20, ainda éramos colônia, explorados pelos europeus que compravam barato e lucravam com o desempenho e as futuras transferências daqueles “produtos” importados. Apesar disso, nós brasileiros estávamos felizes e pensávamos que essa “facilidade” de achar matéria-prima abundante e vendê-la para o além-mar era a salvação da lavoura. Não nos preocupávamos com o êxodo de jogadores porque a renovação e o talento eram tão naturais do nosso povo que a cada ano surgiam mais e mais jogadores de qualidade. Se quiséssemos, montaríamos três ou quatro seleções em condições de ganhar uma mesma Copa do Mundo.

Nesse período (e durante esse processo), ainda mantínhamos a supremacia técnica e por isso demoramos anos para perceber que o jogo também evoluiu. O futebol passou a ser estudado e analisado tanto quanto o organismo humano ou a economia mundial. Também pudera, algo que gera tantos bilhões de dólares e movimenta outros tantos bilhões de torcedores ao redor do planeta não poderia ser deixado ao azar ou ao talento nato de seus praticantes.

Então, enquanto nos dedicávamos aos treinos físicos – com tiros de 1000m, 300m etc… – os europeus faziam tudo dentro do campo, com a bola. Trabalhos mais intensos e disputados, mini jogos que exploravam especificamente um princípio de ataque ou de defesa, tudo inserido ao jogo.

Cada treino tinha um objetivo e o sincronismo dos movimentos de pressão ao adversário, de bloco alto (encurtar o campo), de trocas de passes rápidas e com o menor número possível de toques na bola se tornaram exigências do futebol contemporâneo.

A linha de 4 defensiva e a tentativa de roubar a bola no campo adversário já eram praticadas muito antes de eu chegar à Europa em 2006. Estamos em 2012 e no Brasil tem gente que ainda fala em ala, três zagueiros e volante de contenção.

A falta de visão, de protecionismo, de estímulos para a manutenção de talentos e de desenvolvimento do estilo brasileiro de se jogar futebol se revela hoje, duas décadas depois, um grave problema.

Nos esquecemos de investir em planejamento, estruturação e, principalmente, capacitação de profissionais para darmos sequência à produção e consolidação da nossa hegemonia no futebol mundial.

Nos preocupamos em vender a nossa Seleção e esquecemos-nos de reinvestir o lucro nas futuras gerações.

Usamos os “produtos” produzidos e formados pelos nossos clubes, mas esquecemos de retribuir o serviço com a criação de campeonatos mais fortes e rentáveis, infra-estrutura de qualidade (estádios, gramados, etc…) e capacitação de pessoas em todas as áreas do esporte brasileiro (gestores, técnicos, preparadores físicos, scouts etc…).

Estamos atrasados.

Quase não temos cursos capacitantes que valham à pena.

O círculo do futebol brasileiro é restrito, fechado e avesso a novas ideias.

Quase não temos estudiosos do jogo, das variações táticas ou dos treinamentos específicos.

Nossa formação de base não ensina para o futebol atual, mas, sim, para o futebol de outrora.

Insistimos em coisas do arco da velha simplesmente porque a maioria dos nossos ex-jogadores (atuais treinadores) não está preparada para formar novos atletas.

Falta conhecimento e posteriormente a aplicação de ferramentas como a teoria do jogo, a psicologia e a pedagogia aplicadas ao esporte para que possamos sair do marasmo em que nos encontramos.

Precisamos abdicar de fórmulas que um dia deram certo e que se tornaram tradicionais para chacoalhar os estaduais, as divisões inferiores e os times “pequenos”, assim como um dia passamos do sistema de mata-mata para pontos corridos, dando mais estabilidade financeira aos clubes e atletas.

Talvez seja a hora de quebrarmos outros paradigmas.

Admitir que o modelo está ultrapassado e que precisamos mudar é o primeiro passo. O problema é que poucas pessoas estão preocupadas com isso. Na verdade poucos enxergam o atraso, só reclamam que a Seleção não está bem.

Novos valores e estudiosos do jogo não conseguem se inserir no meio porque não jogaram futebol e não tem a confiança do mercado. A categoria de base da maioria dos clubes brasileiros está jogada ao Deus dará. Os cargos dentro dos clubes, federações e confederações ainda são políticos e não técnicos. Isso tem que mudar!

O Brasil se encontra em uma encruzilhada.

Na verdade, estamos parados diante dela há alguns anos, observando, com olhos fixos, a estrada que nos trouxe até aqui.

Ela é repleta de flores, encantos e conquistas. Revendo o trajeto, nos apaixonamos pela construção da nossa história e temos a certeza e o orgulho de saber que os melhores times e os maiores jogadores que o planeta já viu foram brasileiros.

Enxergamos também que ganhamos, orgulhosa e merecidamente, o apelido de “País do futebol”, o maior exportador de pé-de-obra que o mundo conheceu.

Dominamos o futebol mundial e possuímos, por anos, estrelas em todos os grandes campeonatos nacionais do velho continente. Todos tinham medo da camisa amarela e os brasileiros, encantados, paravam para ver a seleção canarinho jogar. Por tudo isso, passamos anos desfrutando da beleza do nosso futebol e do avanço que tínhamos sobre os demais.

Acreditamos que tudo era possível ao país que tem no DNA de seu povo, o talento do futebol.

Hoje, olhando ao redor, mais próximos da encruzilhada, ainda pelo caminho que construímos, vemos sonhos, delírios e extravagâncias que desperdiçaram tempo e dinheiro e não se transformaram em nada. Um período sonolento em que a falta de capacidade se justificou de inúmeras formas, especialmente pelo passado esplendoroso que construímos.

Mas eis que recentemente, atônitos e ainda parados na estrada, fomos despertados pelo barulho ruidoso dos motores espanhóis, holandeses e alemães que passaram por nós sem pedir licença. Aceleraram em tamanha velocidade que ainda não conseguimos reparar quais as novas peças da engrenagem os fazem acelerar tão depressa.

E cá estamos nós, olhando fixamente para a encruzilhada buscando dicas de para onde seguir ou qual o melhor caminho a tomar…

Um Livro às Quintas

“Una red de significado interpretada desde el paradigma de la complejidad”

El Modelo de Juego del FC Barcelona – Oscar P. Cano Moreno

MC Sports, 2010.

Oscar Moreno condena e derruba a barreira existente entre teoria e prática, nos conduzindo pelo sinuoso universo das teorias dos sistemas dinâmicos e nos convidando a entender a complexidade do jogo –  desde as evidências da imprevisibilidade à análise minusciosa da construção do modelo de jogo do F.C. Barcelona.

Uma Proposta para as Equipes de Base da Seleção Brasileira

Ney Franco, atual coordenador das categorias de base da CBF, foi o professor convidado no último final de semana, no curso Master em Técnica de Campo, parceria entre Universidade do Futebol e Federação Paulista de Futebol.

Já o conhecia de outras oportunidades, mas esta foi a primeira vez em que debatemos alguns assuntos com mais profundidade.

Talvez o de maior relevância, foi o da intenção do coordenador em estruturar um projeto metodológico para as categorias de base nas seleções amadoras do nosso país, do Sub-15 ao Sub-20.

Foi gratificante escutar este mineiro simpático e de boa conversa – quase uma redundância – e que recentemente se tornou um dos treinadores mais vencedores dos últimos anos, falar criticamente sobre os trabalhos de (de)formação nas categorias de base em nosso país, bem como de sua penúltima experiência frente à Seleção Brasileira Sub-20, que culminou com o título sul-americano.

Independente de sua escolha sobre qual metodologia de desenvolvimento de atletas que pretenda adotar – das tradicionais às pautadas pela complexidade do jogo – o fato mais importante é a existência de um projeto norteador.

As críticas à (de)formação de atletas nos clubes brasileiros tornaram-se comuns nos debates técnicos dos treinadores e coordenadores que acompanham a realidade das categorias de base: inexistência de uma metodologia unificada entre as equipes de um mesmo clube, priorizar a conquista de títulos, desconsiderar aspectos técnicos da inteligência de jogo, falta de critérios técnicos e científicos durante a evolução do processo de desenvolvimento (quando desenvolver o quê e em qual idade), além da ausência de capacitação de qualidade para os profissionais que atuam na gestão de campo, entre tantas outras.

Desejo ao nosso coordenador toda a sorte e as melhores condições de trabalho, necessárias para a implantação de suas ideias.

As Lições de Steve Jobs para o Futebol (Homenagem)

“Criatividade é apenas conectar as coisas.”

(Steve Jobs, co-fundador e presidente eterno da Apple.)

(Texto de Março de 2009)

Li pela segunda vez o livro “A Cabeça de Steve Jobs”, de Leander Kahney – editor da revista eletrônica Wired.com.
Ao traçar um paralelo de algumas lições de Steve com outros segmentos corporativos, foi na indústria da bola que as coisas se conectaram bem. Teria algo a ensinar ao futebol o homem que é sinônimo de inovação e que desde os anos setenta vem transformando a maneira de pensar da informática, da indústria de animação e, mais recentemente, da música digital?

Busque informação; não faça suposições. Como gestor, audite constantemente o seu clube (empresa) e tome decisões através de dados objetivos. Ter informação não é o mesmo que ter conhecimento.

Foco significa dizer “não”. Steve tem um grupo pequeno de ótimos profissionais que concentram seus esforços em poucos projetos. Identifique as unidades de negócio prioritárias de seu clube, direcione os melhores profissionais à esses focos e execute-os da melhor maneira.

Encontre uma maneira fácil de apresentar novas idéias. Nem sempre os seus próprios funcionários compram a sua idéia ou projeto, ainda mais se mudanças de cultura ou de paradigma estiverem em jogo. Trace uma estratégia para vender bem a sua proposta. O sucesso, antes de mais nada, depende desta tarefa caseira.

Inclua todo mundo. O design não se restringe somente aos designers. Profissionais do marketing, programadores e engenheiros podem descobrir juntos como desenvolver um produto melhor. Não, não estou dizendo que a nutricionista ou o psicólogo devam escalar a equipe. Nem tampouco achar que o departamento de marketing tenha a função de determinar a melhor data para colocar o garoto propaganda do clube de titular. Esta é a função do técnico, o orientador tático, e ainda continuará sendo. Mas a lição serve para mostrar que o conhecimento, quando integrado e coordenado para determinado fim, seja na área técnica, administrativa etc., pode ser melhor aproveitado.

Só estabeleça parcerias com atores nota 10 e demita os idiotas. Invista em pessoas. Ter funcionários talentosos é uma das principais vantagens competitivas diante da concorrência. Sempre perderemos talentos – sejam atletas ou profissionais da área técnica – para outros clubes com maior poder aquisitivo. É a lei da selva. Invista em capacitação sempre e seja um gestor profissional, identificando quem realmente possa contribuir para o seu negócio ou quem já deixou de remar faz tempo.

Não dê ouvidos aos que só dizem “sim”. Trave combates intelectuais. O pensamento crítico e criativo sempre será bem vindo. Desafiar idéias é um dos hobbies preferidos de Steve. Desconfie se as pessoas ao seu redor estiverem dizendo amém à tudo que propõe. São essas pessoas que lhe contradizem após um fracasso e, na maioria das vezes, fazem as críticas indiretamente.

Dê total liberdade a seus parceiros. Criatividade não está restrita ao meio tecnológico. A inovação está presente em todos os segmentos da nossa vida: do GPS do carro ao material da chuteira do atacante. De quem foi a idéia de explorar a camisa do seu time para vender uma marca ou produto?

Não perca o consumidor de vista. Estude o mercado e o setor. Coloque-se no lugar do consumidor (torcedor) e analise se o serviço criado atende as expectativas dele ou atende as suas. Esteja vigilante em relação as tendências da indústria do futebol e seja amigo das pesquisas e dos números.

Faça as coisas em equipe. O iPod e o iPhone não foram inventados por uma única pessoa. O sucesso numa temporada, por exemplo, vem do trabalho em equipe e valorizar este aspecto, dividindo responsabilidades e louros, é no mínimo, o caminho mais adequado a seguir.

Estude. Steve não chegou ao final de uma gradução, mas é um profundo conhecedor de arte, arquitetura e design. Isto o coloca em pé de igualdade ao conversar com especialistas de outras áreas na tomada de decisões sobre os rumos de sua empresa.

No futebol brasileiro, por exemplo, para muitos basta ter sido um ex-atleta para ter vaga garantida como treinador ou dirigente esportivo. Nossa cultura no esporte é um pouco desse jeito. O conhecimento científico não precisa entrar em campo e a figura caricata do dirigente – que solta pérolas da bola, trata o torcedor com desrespeito e acha que sabe tudo sobre futebol – ainda existe e irá continuar existindo.

Mas no futuro, serão nos modelos de desenvolvimento sustentado que encontraremos profissionais modernos, eficazes e que conhecem (estudaram) vários aspectos que compõe o conhecimento sobre futebol, ou pelo menos, dividem tal sabedoria com profissionais especialistas numa visão integrada.

No vídeo abaixo, Steve Jobs narra o primeiro comercial ‘Think Different’ em 1997, chamado de “Here’s to the Crazy Ones”.

“Because the people who are crazy enough to think they can change the world… are the ones who do.”

A Grande Sacada para as Categorias de Base: Capacitar seus Atletas

“Chegará o dia em que estará criado um processo irreversível nas categorias de base, onde trocas de comando de um clube – técnicas, administrativas ou políticas – não terão o efeito necessário para que os atletas deixem de refletir e contestar os métodos de treinamento.”

Em tempos de crises e mídias sociais, muita coisa vem acontecendo por todo o planeta. Corruptos são presos pela manhã e soltos à tarde, países ricos ficam pobres ao anoitecer e a consciência coletiva de que algo precisa ser feito pela nossa subsistência e qualidade de vida deixa de ser clichê.

E o futebol (ah o futebol!), também vive suas particularidades. Apesar dos clubes continuarem a gastar mais do que recebem e das seleções tradicionais não mais figurarem isoladas no topo do ranking da FIFA, mais pessoas comuns analisam o jogo: estudiosos, curiosos e gente interessada em saber de verdade o que acontece dentro das quatro linhas.

Principalmente no continente europeu, onde há décadas se estudam e aplicam as novas teorias relacionadas ao jogo e treinamento do futebol e, muito em função disso, começamos a perceber um distanciamento qualitativo de algumas equipes e seleções em relação ao resto do mundo. E, infelizmente, o Brasil está incluído neste resto.

O grande desafio nos próximos anos será pela busca da popularização em solo tupiniquim, desse olhar mais científico, lógico e nem menos apaixonante sobre o futebol.

Muito embora as novas maneiras de enxergar o jogo e o treino do futebol sejam positivas, permitindo inclusive que alguns desvios no processo de formação de atletas sejam corrigidos, resistências a este novo olhar sempre irão ocorrer. E as comparações entre metodologias de trabalho, muitas vezes sem embasamento científico, serão inevitáveis.

Como treinar uma equipe de futebol aproximando-a da imprevisibilidade (e realidade) do jogo, e como trabalhar nas equipes técnicas de maneira integrada e com mais qualidade, são questões essenciais a serem respondidas por quem pretende estar à frente do seu tempo.

Nos esportes coletivos, e no futebol em particular, pesquisadores e especialistas dissecaram as dinâmicas do jogo, que apontaram para eventos comuns e com padrões que se repetem. Foram identificados quatro momentos que nos permitem entender as tais dinâmicas: defesa, transição ao ataque, ataque e transição à defesa.

Nessas quatro situações, todos os jogadores tem um comportamento muito particular em campo, com ou sem a bola.

Os jogadores se relacionam e formam um todo organizado, que é a equipe. Cada equipe tem seus próprios jogadores que se relacionam uns com os outros de maneira particular e essas relações variam quando a equipe está atacando, defendendo e realizando as transições.

Por exemplo: com a bola, os jogadores agem com o objetivo de manter a sua posse na busca pelo gol adversário. Os atletas irão se relacionar dentro do campo de uma forma bastante específica para que isso ocorra. Quando a equipe está sem a bola, os jogadores irão criar dificuldades para que a equipe adversária progrida no campo de jogo e consiga chegar à sua meta. Nestes dois exemplos, os comportamentos e intenções dos jogadores e da equipe são bem distintos.

E o treinador pode moldar a forma como a equipe joga nesses momentos. Modelo de Jogo é o nome dado à forma como a sua equipe deve se comportar no jogo de uma maneira geral, ou seja, como ela defende, ataca e faz as transições. Está intrinsecamente ligado à estrutura da equipe, ou seja, como ela pretende construir o seu jeito de jogar.

A escolha dos atletas é realizada respeitando essas características e devem estar sintonizadas com as ideias do treinador, que por sua vez, irá procurar estar conectado com a cultura e filosofia do clube.

O comportamento dos jogadores e da equipe, em cada momento, pode variar com intenções diferentes, ou seja, o treinador pode influenciar a forma como a relação entre os jogadores acontecerá em cada um dos quatro momentos do jogo.

Na teoria, chamamos de princípios estruturais a forma como os atletas devem se posicionar no campo de jogo. Já princípios operacionais é o nome dado ao que fazer em cada momento do jogo (defesa, ataque e transições).

O futebol é um jogo complexo e saber fazer funcionar as relações entre os jogadores durante a partida é a chave para a obtenção de sucesso.

Saber o que e como fazer nos momentos do jogo é o xis da questão.

A partir deste entendimento é que podemos moldar a forma de como a equipe deve treinar, aproximando-a da realidade da partida e do que ela poderá encontrar diante de um adversário. Inicia-se a construção do jogar da equipe, ou seja, o Modelo de Jogo começa a ganhar vida.

Os jogos reduzidos e adaptados tem papel importante em algumas propostas metodológicas no futebol. Mas como qualquer remédio, não basta apenas ler a bula para aplicá-lo. Um médico deve ser consultado e, de preferência, um que reconheça e reflita o valor das teorias antes de sair cortando com seu bisturi.

De maneira muito incipiente, algumas boas iniciativas começam a ser percebidas em nosso país, muito em função da sensibilidade de profissionais em cargos de direção e coordenação, que partem para um processo de reciclagem de seus recursos humanos, particularmente dos profissionais que atuam dentro de campo.

E mesmo restrito às categorias de base, alguns clubes brasileiros dão seus primeiros passos em direção aos novos tempos, criando ambientes de aprendizagem aos gestores de campo, buscando reciclar suas equipes técnicas com profissionais mais sintonizados com esta nova perspectiva.

A próxima e mais importante etapa, será a conscientização e capacitação dos atletas das categorias de base, melhorando o canal de comunicação com seus treinadores e facilitando o diálogo sobre o porquê deste ou daquele tipo de treinamento.

Dessa forma, estará criado um processo irreversível, onde trocas de comando de um clube – técnicas, administrativas ou políticas – não terão o efeito necessário para que os atletas deixem de refletir e contestar os métodos de trabalho

O Currículo de Formação do Atleta de Futebol – Parte I

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“Saber o que ensinar e desenvolver, do sub-11 ao sub-20, é papel dos profissionais das categorias de base.”

por Eduardo Barros, via Universidade do Futebol

O nosso futebol passa por um gradativo processo de profissionalização. As mudanças na Lei Pelé, que privilegiam o clube formador, como por exemplo, o direito da verba de solidariedade inclusive para transferências nacionais, são indicativos de que a formação do atleta brasileiro está sendo redimensionada e que a devida importância lhe está sendo conferida.

É certo, também, que os futuros craques do Brasil, em cinco, sete, 10, 12 anos, hoje estão nas categorias de base dos milhares de clubes existentes no país e que será insignificante a quantidade de atletas que sairão direto dos campos de várzea para o alto nível profissional.

Sob este viés, a gestão integrada da base será pré requisito para que, após os oito a 10 anos de processo de formação de uma determinada categoria, a quantidade de atletas de alta performance seja satisfatória. Além disso, a comunicação entre todas as comissões técnicas dos clubes deverá ser constante no que tange a definição dos pontos fortes e fracos de cada atleta e equipe ao longo dos anos, para nortear as decisões estratégicas, técnicas e administrativas da empresa.

O grande diferencial do trabalho de campo diante dessa nova perspectiva deve ser o desenvolvimento, por parte de cada clube de base, do currículo de formação do atleta de futebol. Nele, cada instituição pode definir os perfis dos atletas que pretendem formar e quais serão os conteúdos ensinados para que os diferentes perfis sejam alcançados.

Entretanto, conforme foi citado anteriormente, a profissionalização do futebol brasileiro é gradativa, logo, a gestão integrada da base, que é fundamental para modificações sensíveis nos corpos técnicos de cada clube (com profissionais competentes e capacitados continuamente), ainda é considerada utópica. Então, se a grande parcela dos gestores não está preparada para o “novo” futebol, qual é o papel de cada profissional inserido (ou que pretende se inserir) no mercado em quaisquer clubes, nas categorias de base, dentre os milhares existentes no Brasil?

O papel de cada um desses profissionais é buscar a elaboração e aplicação de um currículo do atleta. Assim como todo curso profissionalizante, graduação, ensino técnico, médio, supletivo, entre outros, existem conteúdos (disciplinas) que cada atleta deve aprender (de maneira circunscrita ao jogo) para se tornar um grande jogador de futebol.

Além da falta de conhecimento técnico da gestão, outros fatores já conhecidos por quem vive o “ambiente do futebol” podem ser apontados como limitantes para a elaboração do referido material. São eles:

• Falta de comunicação intra comissão técnica, em que predominam preocupações com os fragmentos do jogo em relação ao “todo” da equipe (e jogo);

• Falta de comunicação inter comissões técnicas, em que o treinador do sub-15 pouco se importa com o que está acontecendo no sub-17, nunca assistiu a um jogo do sub-14 e, talvez, nem saiba o nome do técnico do sub-11;

• Ausência de um ambiente de discussões e aprendizagem oferecido pelo clube;

• Futebol profissional desvinculado das categorias de base, em que os treinadores e dirigentes do departamento profissional optam por negociações intermediadas por agentes em detrimento dos atletas formados no clube.

• Lacunas nas idades do processo de formação com manutenção somente das categorias com competições oficiais;

• A pressão por vitórias a qualquer custo como “garantia” de permanência no cargo;

Neste cenário não muito animador, para muitos, “sobreviver” é o grande objetivo. E, seguramente, a sobrevivência não está garantida. Você pode ganhar todos os jogos e a diretoria, de uma hora para outra, ser modificada e você, demitido. Os patrocinadores que financiavam os custos da categoria de base podem abandonar o clube e você, por consequência, perder o emprego. Você pode ser preparador físico do sub-15 e, de repente, receber um convite para integrar a comissão sub-20 que durará somente enquanto houver vitórias. Porém, neste mesmo cenário instável, oportunidades positivas tendem a surgir.

Como, por exemplo, chegar ao clube em que você trabalha um gestor com conhecimento técnico suficiente (acredite que eles já existem!) para saber como um plano coerente de trabalho de formação a médio/longo prazo traz resultados (lucro) e sustentabilidade ao negócio. Esse gestor precisará de pessoas que ponham em prática tal plano de trabalho.

Cresce o número de profissionais do futebol que acreditam que a categoria de base é a grande responsável pelo nosso futuro no cenário futebolístico mundial. Você pode trabalhar ao lado de um destes e não ter ciência justamente por fazer somente a sua função de sobrevivência. Um dirigente (quem sabe um dia algum headhunter) pode procurá-lo para fazer-lhe uma proposta de trabalho por conhecer e acreditar no seu potencial profissional.

Nessa área de atuação, profissionais de destaque do mercado (salvo aqueles que dependem exclusivamente de indicação, amizade ou qualquer outra relação que, lembre-se, faz parte do cenário) devem saber tudo sobre a base, do sub-11 ao sub-20. Devem ter bem definidas quais são as competências necessárias para um jovem, captado do processo de iniciação esportiva e inserido nos processos de transição e especialização, se tornar atleta profissional.

Os primeiros passos são muito simples de serem executados. Uma reunião com sua comissão técnica pode se tornar uma hora de discussão semanal que tem como temática a formação do atleta. Num e-mail para os funcionários da base do clube pode constar um convite para a divulgação da ideia, pois com certeza algumas pessoas têm com o que contribuir. Uma conversa informal com um dos dirigentes do clube pode ser um ótimo momento para demonstrar sua opinião.

Se com esses passos você permanecer sozinho, mesmo assim avance em sua caminhada. Se mais pessoas aderirem à ideia, há um longo trabalho pela frente.

Como início, a definição de todos os conteúdos que um jogador (e equipe) precisa aprender (é bom lembrar que de forma circunscrita ao jogo) para se tornar atleta de alto nível. Marcação zonal, transição ofensiva, relação com a bola, pressing, ultrapassagem, zonas de risco, estratégias, tomada de decisão, lógica do jogo, plataformas, bolas paradas, regras de ação, são simples exemplos para ilustrar a infinidade de conhecimento que, indubitavelmente, precisa ser internalizado.

Após esta trabalhosa, porém, prazerosa definição, diversas reflexões surgirão, dentre elas:

• Qual a plataforma de jogo ideal para iniciar um processo de formação?

• Deve-se sempre utilizá-la durante todas as categorias?

• O zagueiro do sub-11 fará sempre a função de zagueiro ao longo da formação?

• Como classificar os diferentes tipos de jogos elaborados?

• Quando iniciar a aplicação da ultrapassagem?

• Quando iniciar a aplicação do pressing?

• Como definir qual linha de referência de marcação utilizar?

Não bastará definir os conteúdos! Saber distribuí-los em cada categoria, para assegurar que eles se encontram na zona de desenvolvimento proximal dos jogadores de determinada equipe e faixa etária, será fundamental para evitar equívocos.

O que você está esperando? Faça sua parte para que a transformação da base, impulsionada pelas tendências do mercado (Lei Pelé, conhecimento científico, esporte como negócio), beneficie a clubes, atletas e profissionais do futebol.

Para aqueles que acham que tudo isso é bobagem e que não há o que (re)inventar nas categorias de base no Brasil, cuidado: a transformação é inevitável! Para os que utilizam a famosa expressão “o futebol é assim”, ele (o futebol) não é! Já as pessoas…

 

 

Parte II

Parte III

O Uso das Informações em Tempo Real

por Eduardo Fantato, via Universidade do Futebol

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“Sociedade produz tecnologia, mas homens do futebol têm dificultado serem produtos ou produtores nela”

Esta semana estive acompanhando alguns jogos in loco. Na conversa com técnicos, auxiliares e membros da imprensa também gosto de fazer uma enquete informal sobre o que acham do uso de informação em tempo real, se utilizam, se conhecem, enfim, qual a opinião a respeito.

As reclamações foram bem centradas e direcionadas para a questão da falta de estrutura, que no Brasil é impossível desenvolver algo em tempo real, porque dependem de conexões e infraesturutra segura, etc.

Porém, no local que estávamos tudo isso, não faltava. Aliás, digo que a conexão de internet, a estrutura de tomadas, e tudo aquilo que os profissionais citaram faltar para que o uso do tempo real nas informações pudessem ser úteis, estava ali.

Poderíamos pensar, então, e com razão, a crítica ao profissional que não detém recursos intelectuais para lidar com esse tipo de informação ou algo como uma falta de atualização para lidar com a tecnologia. Confesso que minha primeira reação foi de imediato caminhar para esse rumo. O que não deixaria de ter um fundo de verdade.

Entretanto, o que mais me chamou a atenção foi mesmo a falta de cultura, e digo o porquê isso pesou mais em relação ao segundo item comentado. Se os profissionais não soubessem ou não tivessem acesso, não estariam utilizando uma série de recursos em tempo real. Chats online, Twitter, Facebook, enfim, tudo funcionando com a estrutura que eles julgam precária quando pensam em informação estatística para análise do jogo. O que sabemos muito bem, não precisa de nada além do que faz rodar ali esses outros serviços.

Tampouco estava diante de um grupo de pessoas “analfabetas tecnologicamente”, pois ali estavam com celulares modernos, netbooks, notebooks, iphones, ipads, etc. Na hora que começou o jogo, tudo foi deixado de lado e retomado após o término ou nos intervalos que permitiam seu manuseio.

Isso me leva a questões que começamos a levantar no texto da semana passada: será que não se desenvolve esse campo por falta de estrutura ou de pessoal que saiba manusear?

Embora aquele possa ser o argumento para muitos que militam no meio e este outro o argumento de outros que estudam e atuam no segmento, como este autor que vos escreve, a verdade é que tanto estrutura e pessoas aptas para lidar com os recursos ali estavam.

Então, o que falta? Não tenho uma resposta clara e precisa, gostaria sinceramente de tê-la, mas não fugirei de emitir minha opinião. Acredito que falte uma cultura de lidar com estatística esportiva, e o termo cultura aqui pode ainda que superficialmente lembrar os conceitos de Geertz na Antropologia, contato este que tive através das aulas do professor Jocimar Daolio, sobre o homem ser produto e produtor de cultura.

A sociedade hoje produz tecnologia, mas parece que os homens do futebol têm dificultado serem produtos ou produtores nela em seu meio. Sei que recorri a um argumento das ciências humanas, muitas vezes recusado no meio esportivo de alto rendimento, mas não tenho receio de me basear nele, pois primeiramente acredito na sua contribuição, e para quem ainda precisa de mais referências, fico com as defesas de Jose Mourinho e Manuel Sergio às ciências humanas no futebol.

Talvez pensar o futebol por essa perspectiva ajude a compreender o papel da tecnologia, da informação estatística, por mais paradoxal que isso possa parecer. Continuemos o debate em outro momento para esmiuçar esse paradoxo de como uma tecnologia pautada em informação objetiva e até certo ponto positivista pode ser mais bem entendida quando a partir de uma análise mais humana – ainda que esse termo me cause arrepios, porque tecnologia não deixa de ser humana em nenhum momento, mas isso são outros quinhentos…

Empreendedorismo de Alto Impacto

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por Nizan Guanaes

O Mundo precisa gerar centenas de milhões de empregos, uma demanda que não pode ser atendida sem o empreendedor de alto impacto. Gente que começa numa garagem e em dez anos constrói um bicho do tamanho da Apple.

Esse espírito fundou as nações e sustenta o desenvolvimento.

Dois amigos italianos saíram de uma pequena cidade da Itália: um deles veio para o Brasil e fundou o império Matarazzo; o outro foi para os EUA e criou o Bank of America.

A cidade de Alepo, na Síria, nos deu os Safras e os Slim. Esses homens não tiveram vantagens, passaram o diabo, essa cidade não tem pó de pirlimpimpim na água.

O que eles têm é visão, capacidade de trabalho, capacidade de relacionamento e uma chama interior chamada entusiasmo.

O sr. Waldemar Verdi tem mais de 90 anos e foi eleito em 2009 o Empreendedor do Ano. Como ele trabalha no mesmo prédio que eu, encontro-o todos os dias na hora do almoço. É um homem rico, tem um filho muito competente, não precisaria trabalhar, mas está lá todos os dias.

Levei meu filho para vê-lo receber o prêmio. Foi emocionante. Admiro demais esses homens, a quem o dinheiro não amoleceu. Porque são mais do que empresários -são empreendedores.

Quem lidera esse movimento de empreendedorismo de alto impacto no mundo é a Endeavor.

Ela analisa em cada país que opera projetos de empreendedores, seleciona-os com rigor e depois ajuda os escolhidos a ter acesso a investidores, a “networking”, à orientação de megaempreendedores de cada país. O resultado é fantástico.

Hoje as empresas que nasceram com a Endeavor geram US$ 5,4 bilhões por ano. Em muitos países, os empreendedores Endeavor já são 1% do PIB. Em 2025, vão gerar US$ 85 bilhões por ano no mundo e milhares de empregos.

É por isso que Thomas Friedman, colunista do “Times”, diz que a Endeavor é o melhor programa antipobreza que existe. Porque o empreendedor já é uma organização não governamental. Não consigo ver maior ação social do que gerar empregos, dar futuro a milhões. Empreendedorismo é a nova filantropia.

Seria muito melhor se os bilionários americanos emprestassem empreendedores pelo mundo em vez de doarem dinheiro. É evidente que não se pode menosprezar a generosidade desses homens. Ela é digna do nosso respeito. Mas, se eles colocassem US$ 1 bilhão na Endeavor, poderiam ter impacto social maior.

Não faço parte da Endeavor, mas trabalho para ela na área de comunicação global, voluntariamente.

Dar tempo é mais complicado do que dar dinheiro -e dou meu tempo com entusiasmo.

Existe um ditado que diz: “Um homem sensato se adapta ao mundo, convive com a realidade, e o homem insensato se rebela contra os fatos”.

É por isso que o avanço da humanidade se deve aos homens insensatos. Ao sujeito que, sentindo frio, inventou o fogo. Ao sujeito que, se sentindo só, inventou o tambor. Ao sujeito que, para colocar processo na construção de linha de trem, inventou a administração.

Esse homem insensato é o empreendedor, e é desse espírito que, em tempos de descrença e de crise, o mundo mais precisa. O empreendedorismo de um sujeito que venceu na vida trabalhando duro de manhã, à tarde e à noite, porque teve visão, inovação, dedicação. Criou tudo isso para gerar riqueza e desenvolvimento, não para ter um palácio. Não precisa viver com culpa, como um monge, mas não precisa ofender o mundo com fausto.

Ele tem de ser uma luz, uma inspiração e um exemplo.

E, depois de trabalhar muito, sabe o que um empreendedor faz? Ele acorda, vai trabalhar cedo, mas para enriquecer outros e outros e outros, para treinar as novas gerações dentro da sua empresa, para incentivar o empreendedorismo na sociedade, para usar seu talento executivo em áreas que tanto precisam dela, como culturais e sociais. Nesse momento, o empreendedor é mais empreendedor ainda, pois é um empreendedor social.

Convido o leitor a conhecer e a apoiar o trabalho da Endeavor. E a espalhar a consciência de que a reengenharia de um mundo novo está nas mãos calejadas e incansáveis dos empreendedores.

A Profecia de Nostradamus Colorada

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do Jornal Zero Hora, por Diogo Olivier

No já distante começo do milênio, no ano 2000, João Paulo Medina ( * ) era coordenador técnico no Beira-Rio. Tratava-se de uma iniciativa pioneira, na gestão do presidente Fernando Miranda. Medina era um profissional remunerado, cuja missão parecia mesmo milagrosa: integrar todas as áreas do clube e reorganizar os processos das categorias de base, como forma de preparar o futuro. Isso tudo sem dinheiro, que os anos 90 foram medonhos nesta área para o Inter.

Medina é um homem cordato, intelectualizado, incapaz de uma grosseria. Duvido que tenha matado uma mosca, mesmo no auge de um acesso de raiva. Então, a certa altura do campeonato, Medina arriscou-se numa frase que o marcaria a ferro e fogo para sempre na Província de São Pedro:

– O que estamos fazendo no Inter não é para dar resultado agora. É para cinco ou seis anos.

Faltou pouco para a insurreição. A torcida, marcada de cicatrizes após quase 20 anos de derrotas, não aceitou ter que esperar tanto tempo — ainda mais sem garantias. Colorados ilustres se opuseram em público. A imprensa registrou a gritaria toda, criando um clima de insatisfação.

Expressões como “planejamento” ou “trabalho multidisciplinar”, hoje corriqueiras entre profissionais remunerados como Rodrigo Caetano, viraram chacota. Medina não teve outra saída senão deixar o Inter. Hoje, uma década depois, ele brinca:

– Não sou Nostradamus, mas acertei na mosca. Cinco, seis anos depois o Inter começou a vencer. Fui incompreendido, mas não guardo mágoa. Entendo a torcida e mesmo a imprensa. Reconheço méritos em quem veio depois da gente, mas fico feliz de ter acertado — diz Medina, 62 anos, que depois do Inter trabalhou na Arábia Saudita e, hoje, pilota uma consultoria esportiva com atuação nos Estados Unidos e Brasil.

Medina lembra dos tempos de penúria com alguma dor, mas suaviza o tom crítico, bem ao seu estilo lorde inglês:

– As vendas de Rochemback por US$ 12 milhões e Lúcio por US$ 9 milhões só pagaram dívidas. Ouvi que deixamos o vestiário vazio: deixo isso por conta da natural disputa política do clube. Lembro de quando Pato, Daniel Carvalho e Nilmar chegaram ainda meninos, como parte do nosso trabalho na base. Mas ninguém sabia quem eram estas jóias naquela época, é claro.

Pode haver controvérsias de entendimento no que diz Medina, é claro, mas é interessante ouvi-lo 10 anos depois. É um bom debate

* João Paulo S. Medina é o idealizador da Universidade do Futebol