Futebol Brasileiro: Fechado para Balanço

IMG_6538

Diagnóstico do Futebol Brasileiro

por Eduardo Conde Tega, CEO da Universidade do Futebol.

Como reflexo natural do fracasso do futebol brasileiro na Copa do Mundo, a sociedade passou a refletir em diversos níveis sobre assuntos que comumente não eram aprofundados em tempos de fartura: calendário, qualidade do jogo, fairplay financeiro, dívida dos clubes, governança, violência, público nos estádios, formação de atletas e outros temas fundamentais na compreensão mais ampliada sobre o quão inóspito e desestimulante se tornou o ambiente para quem pratica e participa do futebol de alguma maneira.

Muitas das saídas encontradas para este cenário, que ainda não se estagnou e que deve piorar, são soluções paliativas e que tratam de forma muito individualizada os reflexos desta inércia. Geralmente, nem mesmo o melhor gestor, a sorte, recursos, competência e vontade de fazer direito acabam sendo suficientes para que o clube encontre uma solução no seu crescimento sustentado, através da busca equilibrada de receitas, por exemplo.

Em que ambiente são tomadas decisões impactantes sem conhecer mais profundamente suas causas?

O futebol deveria ter fechado para balanço e diagnosticado em todas as suas dimensões de atuação, de forma profunda e responsável, desde a derrota para a Holanda por 3 a zero, no dia 12 de julho de 2014.

Durante este ano, teríamos compreendido nossas fragilidades e potencialidades, com os diferentes e relevantes agentes que participam deste mesmo ambiente ruim e pouco atrativo onde o futebol é praticado.

Saberíamos, por exemplo, que as categorias de base foi um dos setores que mais avançou nos últimos dez anos, com profissionais preparados, que buscam equilibrar a prática com o conhecimento científico, mas quase sempre estão reféns de um dirigente amador sem fundamentação técnica nas decisões mais estratégicas.

Ficaríamos intrigados com a transformação do perfil do nosso jogador, que há décadas se desenvolvia de uma forma natural e espontânea nos campinhos e nas ruas, e que passou a ser “desenvolvido” numa prática mais sistematizada, regulada e mecanizada nas Escolinhas, tornando o ensino do futebol de hoje em dia muito diferente da forma como o aprendíamos antigamente.

Entenderíamos que o Brasil é ainda um dos poucos países do mundo que não exige qualificação ou certificação profissional para quem atua como técnico de futebol, revelando o descaso de décadas na formação adequada de seus profissionais.

Perceberíamos que o método de formação de atletas ainda é tratado pela maioria de forma fragmentada e autoritária, supervalorizando os aspectos técnicos e provocando ações mecânicas pouco criativas e comportamentos estereotipados, produzindo uma leitura insuficiente do jogo.

Perguntaríamos a quem poderia interessar a lógica deste calendário irracional e improdutivo, que durante a maior parte da temporada mantém milhares de profissionais desempregados e centenas de clubes do interior inativos, dificultando o vínculo com seu torcedor, que passa mais da metade do ano sem assistir seu time de coração jogar.

Acordaríamos para a realidade de que a camisa infantil mais vendida em nosso país é a do F.C. Barcelona, de Messi e cia.

Questionaríamos a origem associativa dos clubes, que em seus estatutos não possui fins lucrativos, mas que, na prática, movimentam cifras milionárias e com pouca transparência na negociação dos atletas.

Reforçaríamos o entendimento sobre o papel desregulado e desproporcional entre agentes, empresários e clubes formadores.

Lamentaríamos a relação entre o grande fluxo de exportação de jovens atletas e a importação das grandes Ligas Europeias na forma de pay-per-view.

Ficaríamos preocupados ao saber que em recentes pesquisas sobre o comportamento do torcedor brasileiro, o índice de pessoas que declararam não torcer para time algum, inclusive para a Seleção Brasileira, aumentou em 25% nos últimos quatro anos.

E, finalmente, duvidaríamos se estamos realmente no século XXI, o de democracia e redes sociais, ao entender que as entidades organizadoras de competições (federações e confederação) são praticamente feudos do século XIII, que concentram a riqueza do futebol brasileiro e definem seu rumo de acordo com os seus respectivos interesses privados.

O maior vexame do futebol brasileiro faz seu primeiro aniversário e, lamentavelmente, continuamos sem um norte, sem um plano de desenvolvimento para o nosso futebol.

Até quando este enfermo futebol brasileiro, paciente da UTI há anos, vai aguentar permanecer nas mãos dos especialistas de sempre?

Vamos continuar dependendo de um eventual fracasso ou sucesso da Seleção Brasileira para reverem suas prescrições?

Parabéns a vocês!

Apresentação das Propostas do Bom Senso F.C.

BSFC

Dia importante para o futebol brasileiro: evento de apresentação das propostas do Bom Senso (Jogo Limpo Financeiro e Calendário), no último dia 17 de março. Na foto: Rafael Silva, Juan, Alex, Rogério Ceni, Chatô e este que vos escreve.

Texto do Paulo André, divulgado através de um vídeo, na abertura do evento:

“É um prazer estar aqui com vocês. É claro eu gostaria de estar fisicamente presente para poder cumprimenta-los e participar das discussões sobre melhorias para o nosso futebol mas perdi o voo e não conseguirei chegar a tempo. rs. Não tenho dúvida de que o dia de hoje ficará marcado e será fundamental para sacramentar as boas intenções do Bom Senso para com o futebol brasileiro.

 Quando eu liguei para o Alex a primeira vez, em meados de setembro do ano passado, chegamos a uma conclusão em menos de um minuto. O futebol praticado no Brasil está ruim. Devo lembrá-los que naquele momento estávamos jogando às quartas e aos domingos há mais de 10 semanas consecutivas. Estávamos fisicamente cansados, mentalmente sobrecarregados… Mas aquela conversa tratava de algo bem mais importante.

O que mais me chamou a atenção naquela conversa foi ver a paixão com que o Alex falava sobre o futebol brasileiro. Paulo, ele dizia, o potencial é gigantesco mas extremamente mal explorado. Precisamos fazer alguma coisa. E assim começou essa ideia de ligar para os principais jogadores do país e pedir a participação deles neste processo de discussão de melhorias para o futebol brasileiro. Como vocês bem sabem, de lá para cá, muita coisa aconteceu…

Cruzamos os braços, sentamos no chão e esperamos uma resposta da CBF e das Federações que até agora não aconteceu. Reunimos mais de 1000 atletas para reivindicar melhorias, não só para a categoria, mas principalmente, para salvar o nosso querido futebol.

Eu particularmente já cansei de explicar que o Bom Senso não tem papel de Sindicato de Atletas. O Bom Senso é um movimento PRÓ FUTEBOL. Ele está muito mais próximo de ser uma “entidade sombra” da CBF, que é quem deveria fazer esse papel de proteger e desenvolver o patrimônio público que é o futebol brasileiro, do que de ser um sindicato de atletas que busca mais empregos e salários em dia.

Read More

A Correlação de Forças do Futebol Brasileiro: ensaio para a elaboração de uma política do futebol brasileiro

Cabo de Guerra

por João Paulo S. Medina*

“Tenho em mim todos os sonhos do mundo”

(Fernando Pessoa)

INTRODUÇÃO

O jogo é de futebol, mas bem que poderia ser um jogo de xadrez. Em uma análise atenta sobre o atual cenário do futebol brasileiro, é possível identificar-se duas grandes tendências, apesar de nem sempre muito nítidas. De um lado estão as forças que querem as mudanças conjunturais e estruturais do futebol brasileiro. Do outro, persiste um pensamento que, consciente ou inconscientemente, defende a sua manutenção. Sabemos que, em qualquer área de atuação, existem aqueles que alimentam o “status quo” simplesmente por serem incapazes de enxergar as limitações do cenário atual, e outros que o defendem por interesses dos mais diversos, alguns evidentemente pouco abonadores.

Este ensaio pretende fazer algumas conjecturas, em um ambiente de correlação de forças, entre os “agentes de conservação” que dominam e procuram manter de todas as formas o poder hegemônico no futebol brasileiro e os “agentes de transformação”, que clamam pelas mudanças.

É bom deixar claro que não é nossa intenção estabelecer aqui um confronto maniqueísta entre os que representam as forças do bem contra as do mal, do certo contra o errado ou do retrógrado contra o moderno, mesmo porque, devido à complexidade do contexto e dos interesses, é comum vermos pessoas e instituições que, paradoxalmente, ora defendem teses conservadoras, ora transformadoras. Na verdade, todos nós somos um pouco assim, contraditórios, complexos, com muitas dúvidas e conflitos internos.

E é justamente neste ambiente repleto de paixões, emoções e subjetividades, onde o futebol pode representar tanto um instrumento de alienação em nossa cultura, como uma de suas mais significativas e legítimas manifestações, que não podemos querer encontrar verdades absolutas. Portanto, o que pretendemos nestas reflexões é tão somente esboçar, dialeticamente, um quadro que nos permita entender cenários e enxergar novos caminhos, ou seja, levantar alguns elementos essenciais para a elaboração de uma política que realmente busque o desenvolvimento para o futebol brasileiro.

Entretanto, é inegável que existem hoje no futebol brasileiro forças extremamente conservadoras e reacionárias que insistem na manutenção de um estado de coisas que impede o seu desenvolvimento em um padrão de excelência, ou ao menos aos níveis já alcançados por alguns outros países, e que permite colocar sob suspeita a ideia de que o Brasil possa, por alguma razão, ser considerado o “país do futebol”.

Excetuando-se os fatos de ainda sermos o único país que conseguiu ser cinco vezes campeão mundial e também o único a ter participado de todas as edições das Copas do Mundo, nada mais nos faz concluir que somos os melhores. Nem em público nos estádios, nem nas boas práticas de gestão e governança e nem mesmo naquilo que sempre nos orgulhou, a qualidade técnica de nossos jogadores e equipes.

Neste contexto vamos fazer uma avaliação dos principais atores do futebol brasileiro em seus papéis enquanto agentes de conservação e/ou transformação. Dentro de uma visão mais abrangente que percebe o futebol como um tecido que envolve – mais ou menos – a vida de toda a sociedade, uma reflexão aprofundada e crítica deveria incluir todos os seus agentes: atletas, clubes profissionais, associações e ligas amadoras, dirigentes estatutários, executivos, treinadores e especialistas diversos, CBF, federações estaduais, sindicatos, patrocinadores, mídia especializada, torcedores, telespectadores, Ministério do Esporte, agentes-empresários, empreiteiros, legisladores e tribunais esportivos, universidades, entre outros.

Porém para este estudo especificamente, vamos considerar apenas os 6 “atores” básicos que interferem mais diretamente sobre o grande negócio que se transformou o futebol. A partir da perspectiva do alto rendimento e do espetáculo consideraremos os reflexos na base e massificação desta modalidade esportiva em nosso país, buscando-se, tanto quanto possível, uma visão de conjunto.

Destacaremos os seguintes grandes atores:
1. Jogadores
2. Clubes
3. Rede Globo e empresas patrocinadoras
4. CBF e Federações
5. Mídia especializada
6. Público em geral

1. JOGADORES (profissionais e amadores) – Representam a base primordial do futebol. Sejam eles participantes de uma categoria profissional de elite ou simplesmente praticantes amadores, alegres, descontraídos e apenas comprometidos com o jogo e o prazer da brincadeira e diversão, os atletas são a própria essência desta modalidade esportiva que se tornou um fenômeno social e uma paixão mundial. Historicamente os atletas profissionais no Brasil sempre foram pressionados e levados a conviver em um ambiente que exige posturas conservadoras e, muitas vezes, alienadas.

Alguns poucos atletas se destacaram por se rebelarem contra esta situação. Dois deles, sempre lembrados por suas atitudes contestadoras, são Afonsinho e Sócrates. Temos exemplos de vários outros jogadores contestadores, mas poucos deles no sentido político, ou seja que defendiam publicamente seus posicionamentos em defesa de transformações sociais ou mudanças do “status quo” vigente na sociedade ou no futebol.

Por isso, nunca se conseguiu mobilizar grande quantidade de atletas na luta por seus direitos e, sobretudo, na superação da submissão e alienação prevalentes. Em um ambiente tipicamente opressor, as próprias entidades que representam oficialmente os atletas dividem-se entre conquistas e melhorias pontuais e a total submissão aos poderes dominantes, característica das instituições futebolísticas. Recentemente surgiu um movimento, chamado de Bom Senso F.C., liderado por alguns atletas de elite e que defendem mudanças radicais que beneficiariam não só os jogadores das principais equipes, como também a imensa maioria de cerca de 80% que recebe até três salários mínimos. Trata-se de um fato novo e que merece atenção.

Centenas de atletas firmaram o seu apoio ao movimento, defendendo mudanças em diversos setores estratégicos que atuam no futebol. Seu slogan é “Por um futebol melhor para quem joga, para quem torce, para quem apita, para quem transmite, para quem patrocina. Por um futebol melhor para todos.”.

2. CLUBES – Assim como a família é considerada a “célula máter” da sociedade, dando suporte ao desenvolvimento da criança e do adolescente, o clube pode ser considerada a “célula máter” do futebol, dando identidade e apoio ao desenvolvimento do atleta. O fato de serem favorecidos por uma formatação jurídica na qual são constituídos, cujos dirigentes estatutários não são remunerados, fizeram com que um padrão mais profissional de gestão nunca tenha sido considerado com a devida seriedade no futebol brasileiro.

O que prevalece nestas instituições esportivas, ainda são os desejos, intenções e interesses da presidência, diretoria estatutária e conselheiros que são, de forma geral, mais torcedores do que gestores. Dentro deste quadro cria-se um ambiente onde se acumulam dívidas trabalhistas, tributárias, previdenciárias e bancárias, com antecipações desmedidas de receitas futuras e com propostas as vezes absurdas de negociações que no fundo pretendem apenas adiar os problemas, mas que de fato só os agravam, pois algumas delas são praticamente impagáveis.

Os clubes que tentam se modernizar contratam executivos e profissionais especializados, mas paradoxalmente dão a eles pouco poder decisório. Continuam pagando salários fora da realidade, gastando muito mais do que as receitas permitem, servindo de “vitrine” para atletas (“commodities”) pertencentes a agentes (e parceiros ocultos) que possuem fatias expressivas, quando não a totalidade dos direitos econômicos dos principais jogadores, cenário este que exige urgentemente de uma regulamentação.

No setor técnico, às vezes o treinador tem algum poder, mas que está diretamente relacionado aos resultados imediatos de campo. Quando sua equipe perde alguns jogos, ele igualmente perde o poder e, na sequência, o emprego. Aliás, esta lógica serve também para os projetos e planos de ação que são realizados, geralmente, com foco exclusivo no curto prazo, sem decisões tomadas à partir de um planejamento estratégico consistente da própria instituição.

Este cenário faz com que o clube viva de suas rotinas tradicionais, sem integração entre as suas dimensões políticas, administrativas e técnicas e, consequentemente, com ações que mudam conforme o andamento dos resultados de campo de sua equipe principal. Assim, trabalhos mais profissionais e competentes que incluam diagnósticos dos fatores internos e externos, elaboração e execução de cuidadoso planejamento estratégico, projetos e planos de ação de curto, médio e longo prazos, ações estratégicas, administrativas, técnicas e operacionais, completadas com avaliações e controles rigorosos de desempenho, são apenas reflexões futuristas ou utópicas para a maioria dos clubes brasileiros.

3. REDE GLOBO E EMPRESAS PATROCINADORAS – Em conjunto, dentro do modelo econômico globalizado vigente, constituem-se no grande pilar de sustentação do futebol brasileiro enquanto espetáculo e negócio. Por razões óbvias, o grande interesse das empresas é o lucro. Portanto, cobrar maior participação delas em relação aos problemas de todos os 641 clubes profissionais brasileiros e seus respectivos 18 mil jogadores soaria como ingenuidade. Esta deveria ser uma obrigação e prioridade da CBF e Federações Estaduais, que são instituições sem fins lucrativos.

As empresas com maiores recursos, via de regra, têm interesse nos clubes que podem agregar valor imediato às suas iniciativas de patrocínio. Embora perfeitamente exequível, não há ainda nem visão estratégica, nem condições concretas para que investimentos consistentes e de longo prazo sejam feitos com os clubes menores.

A Rede Globo, especificamente, possui grande poder e influência como formadora de opinião dentro da cultura brasileira e é hoje provedora fundamental de receitas para os principais clubes do país. Estes, devido ao seu próprio modelo constitutivo e de gestão tradicional, se tornaram reféns das próprias receitas dos direitos televisivos. Diante deste quadro distorcido e/ou desequilibrado, todos os outros atores acabam sendo influenciados, tendo que se adaptar conservadoramente a esta realidade.

De forma sistêmica, até mesmo as demais empresas patrocinadoras acabam tendo que se ajustar aos princípios comerciais estabelecidos pela detentora dos direitos de transmissão. Também no afã de “premiar” os clubes com maiores torcidas e consequentemente, que propiciam maiores audiências, estabelece-se uma correlação de forças nefasta em termos competitivos entre as equipes, estimulando práticas menos saudáveis e justas no futebol como um todo.

Alguns analistas afirmam que está em andamento no Brasil um processo de “espanholização” do futebol, onde poucos clubes recebem boa parte dos recursos dos patrocinadores, abrindo distâncias extremamente desiguais entre as equipes em termos de competitividade.

4. CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL (CBF) E FEDERAÇÕES ESTADUAIS – São associações de direito privado, de caráter desportivo, e que dirigem o futebol brasileiro, em nível nacional e estadual, respectivamente. Conforme o seu estatuto – Capítulo I, Art. 5o. – a Confederação Brasileira de Futebol tem como um dos seus fins básicos “administrar, dirigir, controlar, fomentar, difundir, incentivar, melhorar, regulamentar e fiscalizar, constantemente e de forma única e exclusiva, a prática de futebol não profissional e profissional, em todo o território nacional”.

Deve também “colaborar para o funcionamento e desenvolvimento das Federações filiadas e entidades de prática do futebol, proporcionando-lhes assistência técnica e financeira”. Em conjunto, portanto, deveriam ser as principais responsáveis pela implantação e implementação de uma abrangente política para esta modalidade desportiva em nosso país, nas dimensões do alto rendimento, educacional e social. CBF e Federações Estaduais poderiam ser as grandes coordenadoras do processo de desenvolvimento do futebol brasileiro, seguindo o exemplo do que já consegue fazer com sucesso a Uefa em relação aos seus 53 países filiados, e cuja complexidade em nada pode ser considerada menor que administrar o futebol no Brasil.

Entretanto, quer seja por falta de visão, quer seja por interesses particulares ou mesmo escusos, a verdade é que, apesar de nosso inegável potencial, estamos muito distantes de medidas efetivas capazes de resgatar o futebol brasileiro a patamares que permitam almejar a hegemonia do futebol mundial.

Voltando ao estatuto, podemos constatar que o seu Artigo 6o. é bem claro quando diz que: “a CBF não tem objetivos lucrativos, devendo aplicar suas receitas e recurso financeiros na realização de suas finalidades, bem como na organização, na administração, na divulgação e no fomento do futebol.” Basta, enfim, uma análise superficial para perceber que tanto CBF quanto as Federações Estaduais não cumprem as suas próprias finalidades. Pelo contrário, além deste descumprimento, com uma estrutura institucional jurídica que as protegem, seus dirigentes conseguem se eternizar no poder, propiciando pouquíssimas possibilidades para transformações mais democráticas e modernizadoras.

Em um balanço atual, estima-se que a CBF tem um faturamento anual bruto próximo de R$ 350 milhões, com lucro líquido em torno de R$ 75 milhões, o que daria, por si só, para subsidiar grandes mudanças e estruturar toda a pirâmide de sustentação do nosso futebol. Hoje são distribuídos valores e benesses da CBF para as Federações e destas para os clubes, com contrapartidas mais relacionadas e preocupadas com a manutenção da estrutura de poder do que com o desenvolvimento do futebol propriamente dito.

5. MÍDIA ESPECIALIZADA – Na sociedade de consumo do mundo contemporâneo em que vivemos, a imprensa de forma geral tem se destacado não só como meio de comunicação e expressão que reforça, de diversas maneiras, a identidade sociocultural de um povo, como também exerce um papel preponderante – para o bem e para o mal – em diferentes dimensões da esfera pública.

Neste sentido, o jornalismo esportivo brasileiro tem se destacado, em particular através do futebol, enquanto entretenimento, espetáculo e prática social. Apesar desse esporte ser reconhecidamente uma das mais expressivas manifestações da nossa identidade nacional e que possui, além de tudo, um inegável caráter unificador (de uma comunidade ou nacionalidade), este fenômeno pode também ser visto simplesmente como uma mercadoria, e assim ser explorado por diversos segmentos, inclusive pela própria mídia especializada.

Neste ponto, pode-se perceber, de um lado, uma forte tendência ao exercício da modalidade de jornalismo esportivo opinativo, com pouca preocupação realmente informativa e investigativa, que deveria ser a essência do próprio jornalismo, de forma geral. O que se observa, muitas vezes, é tão somente a valorização do processo de espetacularização do evento esportivo e a consequente veiculação das marcas, que não raramente são confundidas com alguns jornalistas, adeptos do merchandising.

Como forma de entretenimento, percebe-se uma tendência onde cada vez se fala menos de futebol e mais de superficialidades. Como nos ensina o sociólogo francês Pierre Bourdieu: “As notícias de variedades consistem nessa espécie elementar, rudimentar, da informação que é muito importante porque interessa a todo mundo sem ter consequências e porque ocupa tempo; tempo que poderia ser empregado para dizer outra coisa. E se minutos tão preciosos são empregados para dizer coisas tão fúteis é porque as futilidades têm o papel de esconder os assuntos que deveriam ser debatidos. Ora, ao insistir nas variedades, preenchendo esse tempo raro com o vazio, com nada ou quase nada, afastam-se as informações pertinentes que deveria possuir o cidadão para exercer seus direitos democráticos.”

De outra parte, entretanto, é possível observar um jornalismo esportivo mais crítico, combativo e investigativo, que longe de ser hegemônico – e nos limites de nossa ainda frágil democracia – é, contudo, capaz de fazer contrapontos significativos com esta visão, estabelecendo-se aí uma correlação de forças que, de certa forma, influencia a opinião pública.

6. PÚBLICO EM GERAL – O futebol é um fenômeno sociocultural e esportivo admirado por milhões, praticado por muitos, mas – em especial no Brasil – ainda infelizmente estudado por muito poucos. Por seu significado e expressão simbólica em nossa cultura, tentar entender o envolvimento do público em geral com esta modalidade esportiva é tentar entender a própria sociedade. Embora o futebol tenha historicamente começado há mais de 100 anos em nosso país como uma prática elitista e que só se popularizou definitivamente em meados do século XX, a verdade é que uma de suas características mais marcantes é que atualmente ele é apreciado por grande parte da população em praticamente todas as camadas sociais.

Isto quer dizer que haverá sempre simpatizantes e torcedores de futebol em qualquer nível social e/ou educacional, seja entre os pouco mais de 10% dos brasileiros que conseguem completar um curso superior, seja entre os quase 10% de analfabetos, ou ainda seja entre os cerca de 30% (ou seria 40%?) de nossa população enquadrados como analfabetos funcionais.

É, portanto, natural e perfeitamente compreensível que esta modalidade, apelidada pelos ingleses como “the beautiful game”, reflita todos as injustiças, conflitos e contradições da sociedade como um todo. Não há, portanto, um padrão monolítico de torcedores. No seu conjunto eles podem ser apaixonados, passionais, agressivos, sensíveis, violentos, lógicos, racionais, críticos, solitários, enturmados, festeiros, organizados ou desorganizados. E haverá sempre, em última instância, desde aqueles que se identificam mais com causas conservadoras e reacionárias até aqueles que gostariam de se engajar em causas inovadoras e contemporâneos e que beneficiariam todos que apreciam o futebol bem jogado.

Qualquer plano que pretenda estabelecer uma política séria para o futebol brasileiro deveria conhecer melhor o seu público, que no caso são homens e mulheres, crianças e adolescentes, que torcem, assistem, jogam, participam, ouvem, leem, falam e discutem o futebol.
***

Que bom seria para o Brasil se conseguíssemos nos próximos anos reunir todas as forças que querem mudanças conjunturais e estruturais para o nosso país de uma forma geral, e dentro deste contexto, almejassem também mudanças no próprio futebol, através de um plano nacional de desenvolvimento, integrando estas forças no sentido de se valorizar este extraordinário patrimônio da humanidade que tanto significado tem para nós brasileiros!

Afinal, um futebol melhor, dentro de um país melhor, pode significar a contribuição brasileira para um mundo melhor!

Ou isto significaria sonhar o impossível?
“Alguns homens veem as coisas como são, e dizem ‘Por quê?’
Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo ‘Por que não?’”
(George Bernard Shaw)

*João Paulo Medina é Diretor da Universidade do Futebol

Um Livro às Quintas

n_meros_do_jogo_abre“É inacreditável o quanto você não sabe do jogo que tem jogado a vida toda.” (parafraseando Michael Lewis, autor de Moneyball, o homem que mudou o jogo)

Segue um dos meus trechos preferidos dos autores Chris Anderson e David Sally:

“Ficou para trás o tempo em que se confiava puramente no instinto, no palpite e na tradição para saber o que era bom e mau futebol. Em vez disso, agora podemos recorrer a provas objetivas. O uso de informações objetivas está mexendo com o equilíbrio do jogo bonito. O futebol não é mais comandado por uma mistura de autoridade, costume e adivinhação, e está entrando em uma fase nova, mais meritocrática.

Isso é uma ameaça para os poderosos tradicionais do esporte, porque indica que eles deixaram de ver alguma coisa, durante todo esse tempo.

Nesse sentido, o futebol é um pouco de religião: sempre houve a percepção de que, para se tornar um especialista, era preciso ter nascido no lugar certo e ter sido iniciado nos rituais desde a mais tenra idade. O futebol tem credos, dogmas, a comunhão com os coirmãos, confissões, códigos de vestimenta, rituais de imersão, cantorias e tudo o mais.

Mas, se os dados permitem que qualquer um se torne um especialista, alguém com uma opinião bem embasada, aqueles que praticam os métodos antigos se tornam menos poderosos, menos especiais, mais sujeitos a questionamento. No limite, eles podem acabar sendo desmentidos; e quanto mais forem desmentidos, menos poder terão.

Se eles são os sacerdotes e os fazedores de papas, nosso papel, como autores de Os números do Jogo, é ensinar a você como ser e como apreciar os iconoclastas e os combatentes da reforma do futebol.”

________________________________________________________________

Os Números do Jogo também é um relato honesto sobre a menos romântica das situações: o momento em que o futebol parou de ser 100% jogado no campo para ser pré-definido em números. 

Mas como não ser romântico sobre futebol quando o fator humano está presente em cada momento do jogo e insiste em ignorar nossas certezas?

Entender para Transformar – o futuro do futebol brasileiro em jogo.

changes

O grupo O JOGO, formado por João Paulo Medina, Sandro Orlandelli, Thiago Scuro e este que vos escreve, buscou neste período de reflexões e encontros propostos pelo Futebol do Futuro, responder a estas questões. Embora tenhamos juntado e construido vários elementos para respondê-las, é fundamental, a partir de agora, que estes questionamentos técnicos entrem nas agendas dos responsáveis e dirigentes do futebol brasileiro.

1) Que tipo de jogo os clubes pretendem que suas equipes (principal e categorias de base) joguem no atual cenário do futebol mundial? Já existe esta referência? Como ela é (ou pode ser) construída metodologicamente? Os clubes têm noções claras sobre a importância destas questões estratégicas?

2) Podemos dizer que temos hoje uma “Escola Brasileira de Futebol” que defina modelos de jogo, estilo, padrões táticos? Neste aspecto, em que estágio estamos em relação a, por exemplo, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Holanda?

3) Continuamos produzindo “talentos” (craques) em profusão para o futebol como em décadas passadas? Se não, sabemos por quê? Não haveria um mecanismo de “exclusão” dos verdadeiros talentos (jovens mais habilidosos, mas fracos fisicamente) no atual processo de seleção de atletas na maioria dos clubes do futebol brasileiro, ao se priorizar apenas jogadores que sejam bem dotados fisicamente e mais aptos para ganharem campeonatos e competições nas categorias de base?

4) Os clubes tem clareza sobre como desenvolver seus processos de seleção, captação e desenvolvimento de atletas, sintonizados com as demandas do século XXI e seu processo intenso de globalização?

5) As instituições responsáveis, direta ou indiretamente, pela prática do futebol no Brasil (Confederação, Federações, Clubes, Escolinhas de Futebol, Ministério do Esporte…) tem consciência da importância estratégica de desenvolvermos mecanismos e processos de formação, capacitação e atualização profissionais no futebol (e não apenas para o alto rendimento)? Como são formados hoje os profissionais que atuam no futebol? Este tema está na agenda de nossos dirigentes?

Palestra sobre a Formação do Treinador na Europa

A Formação do Treinador na Europa

Edição da palestra realizada no Footecon 2012 sobre o processo de qualificação profissional para atuação com o futebol na Europa e os desafios ao futebol brasileiro em encarar estrategicamente este cenário.

Episódio da WebSerie ” Especial Footecon” realizada pela Universidade do Futebol.

Feliz 2013 !

15506184-2012-and-new-year-2013-coming--waves-erase-year-2012-on-the-sandy-beach

Desejo de um 2013 repleto de saúde e de realizações positivas.

E de boas e saudáveis notícias ao futebol brasileiro, sonhadas para mais este Ano Novo:

  • Grandes marcas e patrocinadores optam por projetos que utilizam o futebol e o esporte como veículo de transformação social ao invés de investirem em atletas e equipes de ponta.
  • Jornalistas esportivos discutem sobre novas tendências nas metodologias de treinamento no futebol e questionam treinadores nas coletivas sobre seus métodos de treino.
  • Federações de futebol dos Estados brasileiros tornam-se pólos de ensino e de desenvolvimento ao esporte para quem atua ou pretende atuar com o futebol.
  • Treinadores consagrados do futebol brasileiro fazem intercâmbio com Universidades e trocam conhecimento com jovens acadêmicos.
  • Liga Universitária Nacional de Futebol é sucesso de crítica e público.
  • Liga Feminina Nacional de Futebol finalmente é uma realidade em todos os Estados do país.
  • Empresários de Jogadores cedem parte dos lucros ao fundo de incentivo à educação e desenvolvimento de atletas;
  • Democratização do conhecimento no futebol é incentivada por dezenas de instituições de ensino e refletem em oportunidades para várias profissões ligadas ao futebol;
  • Ministérios da Educação, do Esporte e do Trabalho alinham com a CBF, Federações, Sindicatos de Treinadores e Conselho Nacional de Educação Física uma política institucional para a regularização definitiva da profissão de treinador e demais gestores de campo.
  • Clubes e Universidades fecham parcerias para aproximar a teoria da prática no futebol brasileiro.
  • Mais uma turma de executivos e presidentes de clubes de futebol conclui especialização em ciências humanas no futebol.
  • Inteligência de Jogo é privilegiada e clubes formadores brasileiros passam a buscar perfis de atletas que não precisam ser necessária e simplesmente altos e fortes.
  • Indicadores sociais, culturais, educacionais, econômicos e esportivos dão salto positivo na última prévia.
  • Escolinhas de Futebol pelo país tornam-se alvos da política institucional do Governo, que visa a organização e orientação pedagógica no ensino do futebol à meninas e meninos.
  • Treinadores finalmente percebem que não basta apenas ter sido jogador de futebol ou mesmo ter frequentado uma Escola de Educação Física para ser um treinador bem sucedido.
  • Calendário nacional do futebol é ajustado aos interesses dos atletas, dos clubes e à cultura do nosso país.
  • CBF e Globo entendem que seus interesses particulares não podem conflitar com os interesses do desenvolvimento do futebol brasileiro.

Amém!

O Conceito de Educação Corporativa no Futebol

de Eduardo Conde Tega e João Paulo S. Medina

Os processos e métodos de trabalho técnico nos clubes de futebol não pertencem à instituição. Sua sistematização e aplicação são quase sempre de exclusiva responsabilidade dos profissionais contratados pelo próprio clube e que fazem a gestão técnica de campo de suas equipes (treinadores, preparadores físicos, treinadores de goleiro etc.).

É bem verdade que não há como se fazer de outra forma, uma vez que os clubes não possuem – via de regra – uma filosofia definida de acordo com a sua identidade e modelo de jogo que pretendem implantar em seu departamento de futebol, quer em sua equipe principal, quer em suas categorias de base.

A ideia de o clube ter sua própria proposta metodológica de treinamento e de trabalho é algo novo entre nós. Porém, mesmo na Europa, onde os clubes historicamente tendem a se profissionalizar com mais rapidez do que no Brasil, ainda não são todos que a possuem. Mesmo assim, estão mais avançados em relação à realidade brasileira. Barcelona, Manchester United, Arsenal, Ajax, Porto e Bayern de Munique são alguns dos clubes que investem na construção desta estrutura metodológica institucional.

Nos clubes brasileiros, a dificuldade para a implantação de um modelo técnico consistente de trabalho aumenta em razão da alta rotatividade das comissões técnicas, principalmente do treinador. Frequentemente, um planejamento ou uma proposta de trabalho de médio ou longo prazo não resiste a alguns poucos resultados negativos seguidos.

Desta forma, não há como fugir de um círculo vicioso. É como se comparássemos o clube a um computador (“hardware”), e a metodologia de seu departamento de futebol ao programa (“software”) que faz o computador funcionar. Cada troca de treinador ou equipe técnica o “computador” fica vazio à espera de uma nova “programação”.

Por isso, tudo indica que a tendência contemporânea é que os clubes comecem a definir a sua filosofia de trabalho, a partir de sua própria identidade futebolística ou modelo de jogo de suas equipes e, assim, possam contratar melhor seus profissionais e formar seus atletas conforme o perfil exigido, para darem conta de seus objetivos.

Dentro deste novo contexto é que surge a necessidade dos clubes criarem seus próprios ambientes de aprendizagem, através do conceito de “Universidade Corporativa” ou “Educação Corporativa”.

Este conceito já vem sendo aplicado há um bom tempo – e com sucesso – no mundo empresarial, mas só recentemente começa a ser pensado para o futebol.

A ideia surgiu, originalmente, na cabeça do genial CEO e líder empresarial Jack Welch, que entre 1981 e 2001 conduziu um processo inovador de gestão, transformando a General Eletric em uma das maiores empresas do mundo.

Ele percebeu, por exemplo, que enviar seus melhores funcionários para universidades em busca de conhecimentos de ponta (pós-graduações, mestrados etc.) para capacitá-los e/ou atualizá-los era um erro estratégico, devido a duas questões básicas. Em primeiro lugar porque os custos de investimento em capacitação de um funcionário, que ficava um bom tempo ausente da empresa, eram muito elevados. E em segundo, mas não menos importante, porque o assédio de outras empresas por profissionais qualificados resultava, muitas vezes, em perder seus melhores talentos após todo o investimento feito neles.

Jack Welch resolveu, então, trazer a capacitação para dentro da companhia, treinando e desenvolvendo seus melhores colaboradores na cultura da própria empresa. Ao invés de levar os funcionários à universidade, trouxe a universidade aos funcionários.

Institucionalizou os processos, melhorou o ‘software’ e alargou os caminhos para o desenvolvimento de melhores gestores. Deu a esta ideia o nome de “Universidade Corporativa”.

Trazendo estas reflexões para o cenário do futebol podemos perguntar: Quantos clubes no Brasil têm uma “Universidade Corporativa” ou aplicam o conceito de “Educação Corporativa”?

E mais: quantos clubes irão trocar seus treinadores e/ou comissões técnicas durante a temporada, jogando fora um “software” e trazendo outro novo, dando assim continuidade a um círculo vicioso que tem atrasado o futebol brasileiro?

O Rei está Nu

Poder

Estamos no início de novos tempos para o nosso futebol. Não sou vidente, mas é claro o sentimento que mudanças estão por acontecer. E intuo que muitas delas, virão para o bem, ou pelo menos, virão para gerar uma maior reflexão crítica do que vem sendo realizado até então, seja na gestão do espetáculo, na gestão dos clubes ou na maneira de tratar o desenvolvimento dos nossos atletas.

Sempre acreditei que faríamos bem mais pelo futebol brasileiro (e através dele) do que foi realizado nas últimas décadas e o que se percebe é que existe muita gente boa espalhada pelo Brasil na gestão de campo, em especial, os que estão envolvidos nas categorias de base, mas reféns, quase sempre, da estrutura e cultura vigente do clube ou de interesses capazes de mudar a lógica da proposta da formação do atleta, ou da gestão esportiva em si.

E o conhecimento, mesmo que seja considerado relevante, inovador e bem-vindo, torna-se igualmente refém da questão mais antiga na cadeia de evolução da raça humana: as relações de poder.

Ou seja, o quanto de poder vou perder com a chegada dessa pessoa, dessa nova ideia, dessa nova proposta ou projeto?

Quantas vezes estivemos na posição do ameaçador ou do ameaçado?

Comunicação e humildade

Tenho entrevistado ou tido contato com vários profissionais, principalmente treinadores em atividade. Nessas oportunidades, acabamos por discutir as metodologias de trabalho que algumas das principais equipes do mundo desenvolvem, bem como suas aplicações práticas e percebo um índice altíssimo de respostas da maioria desses treinadores, afirmando realizar o mesmo tipo de trabalho que as referências discutidas.

Por exemplo, se discutimos sobre Periodização Táticaque é a maneira de organizar os períodos do treino tendo como norte o modelo de jogo da equipe – escuto que fazem exatamente a mesma coisa no seu dia-a-dia (e sei que NÃO o fazem…).

Se conversamos sobre um trabalho focado em princípios de ataque ou de defesa, também escuto a mesma resposta: “– Faço exatamente isso! ” – mesmo sabendo que esse profissional não tem discernimento sobre um trabalho relacionado à lógica do jogo (inteligência coletiva) de um trabalho fragmentado do jogo.

O que se procura concluir com essa reflexão é que, a grande maioria dos nossos treinadores tem acesso às teorias e conhecimentos produzidos acerca da evolução do “como treinar“, mas não conseguem sistematizá-los na prática. Continuam com uma visão distorcida e fragmentada da construção do jogo, o que vem resultando no nosso distanciamento entre outras tradicionais escolas de futebol.

Precisamos urgentemente de um grito avisando que o rei está nu e um posicionamento mais humilde desta porção de treinadores super valorizada, muitas vezes insensível à revisão de seus conceitos, em função do momento de transição em que se encontra o futebol brasileiro. Em tese, significaria conhecer (entender) teorias que direcionassem seus métodos de trabalho, sem interferir necessariamente no estilo de cada um.

Esta reciclagem conceitual, por exemplo, facilitaria a comunicação entre os profissionais da comissão técnica e atletas, visando o melhor entendimento dos métodos de treinamento e, principalmente, aproximá-los da realidade encontrada no próprio jogo.

Treinar para deixar de dar tanto a posse de bola para o adversário, ou para manter as linhas de zagueiros e volantes sempre próximas e compactadas dos recuos e avanços da equipe ou para aumentar a troca de passes entre seus jogadores.

Alinhar nomenclaturas já poderia ser considerado um primeiro passo dessa reciclagem, onde muitos profissionais poderiam rever detalhes que seus jogadores não conseguiram executar, muitas vezes em função de uma comunicação mal feita do que se pretendia obter no treinamento.

Só dessa forma mais pessoas entenderão o que realmente está acontecendo com o futebol brasileiro, em especial, os próprios treinadores.


L’Equip Petit

Esse não é uma história de uma equipe de futebol de meninos e meninas que durante a temporada, toma 271 gols e faz apenas 1. É uma demonstração da grandeza do ser humano e da vida, através das crianças e do futebol.

Frase da Semana

Teoria e Prática

 

 

 

 

 

 

 

 

“Aqueles que trabalharam no futebol por muitos anos,  jogadores ou treinadores, devem buscar mais conhecimento na área acadêmica e em cursos relacionados ao futebol. Ao mesmo tempo, as pessoas que saem da universidade, devem buscar experiência em categorias de base e equipes menores. Só assim teremos profissionais mais completos e capacitados no futebol.”

(Renê Simões)

O que Steve Jobs significa para mim

por Tiago Doria

Acredito que o grande mérito de Steve Jobs foi:

1) Ter transformado computadores em objetos de consumo, em objetos que não fossem utilizados somente por especialistas, mas que pudessem ser tão intuitivos e corriqueiros de usar quanto um aparelho de televisão
2) E ter descoberto a “competência central” da Apple (usabilidade e design), em seu retorno à empresa em 1996. A partir daí, Jobs aplicou essa competência a diversos mercados e produtos. iPad, iPod, iTunes foram consequência dessa atitude.

Entre outras coisas, ele mostrou ao mercado que a internet é device agnostic e que, antes de tudo, as pessoas estão atrás de facilidade na web.

Jobs entendeu muito bem a dinâmica da área de tecnologia, um meio onde você é valorizado não por quem é, mas sim pelo que faz. Não é à toa que, mesmo após ter o seu nome garantido na história da computação, ele insistiu em trabalhar dia e noite e lançar novos produtos.

Para mim, ficam várias lições. Por mais estranho que possa parecer, todas elas não-tecnológicas.

A importância do peopleware, de trabalhar com o que gosta e de estar no lugar certo e na hora certa, além do equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Há uma frase de Steve Jobs que define bem tudo isso. Aliás, ela foi dita ao lado de outro ícone, quando Jobs se encontrou com Bill Gates durante a conferência D: All Things Digital, em 2007.

No palco da conferência, ao lado de Gates, Jobs fez uma rápida avaliação da sua própria vida.

“Vejo-nos como dois dos caras mais sortudos do planeta. (…) Encontramos o que amamos no lugar certo e no tempo certo, família, trabalho, amigos. Que mais poderíamos pedir?”

Ambição e Desambição no Futebol

Técnicos e atletas estão divididos entre a ousadia e a prudência, a ambição e a desambição

por Tostão

Nota do autor: Como é bom ler um mestre da bola e das palavras como o filósofo Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, que simplifica nossa crença sobre o futebol, em sua realidade, sua complexidade e suas tendências.

Falam que esquema tático bom é o que dá certo. Nem isso podemos dizer, pois há muitos outros fatores envolvidos no resultado de um jogo.

Muito mais importante que o desenho tático, os números, é a estratégia, a filosofia. É saber onde começa a marcação, com quantos jogadores um time ataca e defende, se há muitos ou poucos espaços entre os setores, se a prioridade é o domínio do jogo, a posse de bola ou os contra-ataques e vários outros detalhes.

Ruim é não ter nada bem definido. Um técnico é melhor que outro quando seus jogadores executam com mais eficiência o que foi planejado, e não por causa do esquema tático. Todos têm vantagens e desvantagens.

Como temos o hábito de tentar achar uma única causa para explicar o resultado, para mostrar sabedoria -ou ignorância-, fica mais fácil dizer que um time ganhou ou perdeu por causa da escalação, da substituição ou porque o técnico colocou um jogador cinco metros mais para a direita ou para a esquerda.

Os treinadores, supervalorizados, muitas vezes, iludidos e prepotentes, pensam também que seu esquema tático decidiu o jogo.

A maioria das equipes começa e termina uma partida com os jogadores nas mesmas posições, compartimentados, robotizados. Volante não se mistura com meia. Há armadores pela direita e pela esquerda. O meia dá o passe, e o centroavante faz o gol.

Há exceções.

Até hoje, ninguém sabe se Xavi, do Barcelona, é volante ou meia, se joga mais pela esquerda ou pela direita. O veloz e aguerrido Herrera, do Botafogo, marca o lateral e ainda faz dupla de ataque com Loco Abreu.

Esquema tático bom é o que deixa o comentarista ansioso, tentando descobrir, pela movimentação dos jogadores, ocasional ou habitual, qual foi a mudança tática que o técnico fez durante a partida. Algumas vezes, o técnico nem percebe.

Os treinadores ficam divididos entre a ousadia e a segurança. Querem arriscar e, ao mesmo tempo, não querem dar chance ao adversário. O conflito costuma terminar em conciliação, por prudência ou por covardia. Assim é também na vida. É a disputa entre o princípio do prazer e a realidade, entre o desejo e a razão.

O sonho da maioria dos treinadores é atingir o equilíbrio perfeito. Como os atletas são, como os humanos, imperfeitos, emocionalmente instáveis e também divididos entre a ambição, o desejo de ser herói, e a desambição, o equilíbrio perfeito nunca é atingido. Ainda bem. Ficaria muito chato.

Frase da Semana

Jordi Melero Busquets, ex-jogador do F.C. Barcelona e atual Gerente de Prospecção na América Latina e Europa, sobre o perfil de atleta que o clube catalão cultiva.

“O clube procura através da sua filosofia de jogo,  selecionar e desenvolver atletas que não precisam ser simplesmente altos e fortes, mas se exige boa técnica individual, com destaque para o fundamento do passe, inteligência e pensamento rápido, velocidade de bola e dinamismo em campo para todas as posições, sentido coletivo de marcação (incluindo-se os atacantes); além de requisitos comportamentais, onde ser discreto deve ser uma das suas características.”

Nota do autor: 

Talvez seja por isso que o atacante Neymar, um dos melhores da atualidade, não seja uma das preferências do F.C. Barcelona.

A Grande Sacada para as Categorias de Base: Capacitar seus Atletas

“Chegará o dia em que estará criado um processo irreversível nas categorias de base, onde trocas de comando de um clube – técnicas, administrativas ou políticas – não terão o efeito necessário para que os atletas deixem de refletir e contestar os métodos de treinamento.”

Em tempos de crises e mídias sociais, muita coisa vem acontecendo por todo o planeta. Corruptos são presos pela manhã e soltos à tarde, países ricos ficam pobres ao anoitecer e a consciência coletiva de que algo precisa ser feito pela nossa subsistência e qualidade de vida deixa de ser clichê.

E o futebol (ah o futebol!), também vive suas particularidades. Apesar dos clubes continuarem a gastar mais do que recebem e das seleções tradicionais não mais figurarem isoladas no topo do ranking da FIFA, mais pessoas comuns analisam o jogo: estudiosos, curiosos e gente interessada em saber de verdade o que acontece dentro das quatro linhas.

Principalmente no continente europeu, onde há décadas se estudam e aplicam as novas teorias relacionadas ao jogo e treinamento do futebol e, muito em função disso, começamos a perceber um distanciamento qualitativo de algumas equipes e seleções em relação ao resto do mundo. E, infelizmente, o Brasil está incluído neste resto.

O grande desafio nos próximos anos será pela busca da popularização em solo tupiniquim, desse olhar mais científico, lógico e nem menos apaixonante sobre o futebol.

Muito embora as novas maneiras de enxergar o jogo e o treino do futebol sejam positivas, permitindo inclusive que alguns desvios no processo de formação de atletas sejam corrigidos, resistências a este novo olhar sempre irão ocorrer. E as comparações entre metodologias de trabalho, muitas vezes sem embasamento científico, serão inevitáveis.

Como treinar uma equipe de futebol aproximando-a da imprevisibilidade (e realidade) do jogo, e como trabalhar nas equipes técnicas de maneira integrada e com mais qualidade, são questões essenciais a serem respondidas por quem pretende estar à frente do seu tempo.

Nos esportes coletivos, e no futebol em particular, pesquisadores e especialistas dissecaram as dinâmicas do jogo, que apontaram para eventos comuns e com padrões que se repetem. Foram identificados quatro momentos que nos permitem entender as tais dinâmicas: defesa, transição ao ataque, ataque e transição à defesa.

Nessas quatro situações, todos os jogadores tem um comportamento muito particular em campo, com ou sem a bola.

Os jogadores se relacionam e formam um todo organizado, que é a equipe. Cada equipe tem seus próprios jogadores que se relacionam uns com os outros de maneira particular e essas relações variam quando a equipe está atacando, defendendo e realizando as transições.

Por exemplo: com a bola, os jogadores agem com o objetivo de manter a sua posse na busca pelo gol adversário. Os atletas irão se relacionar dentro do campo de uma forma bastante específica para que isso ocorra. Quando a equipe está sem a bola, os jogadores irão criar dificuldades para que a equipe adversária progrida no campo de jogo e consiga chegar à sua meta. Nestes dois exemplos, os comportamentos e intenções dos jogadores e da equipe são bem distintos.

E o treinador pode moldar a forma como a equipe joga nesses momentos. Modelo de Jogo é o nome dado à forma como a sua equipe deve se comportar no jogo de uma maneira geral, ou seja, como ela defende, ataca e faz as transições. Está intrinsecamente ligado à estrutura da equipe, ou seja, como ela pretende construir o seu jeito de jogar.

A escolha dos atletas é realizada respeitando essas características e devem estar sintonizadas com as ideias do treinador, que por sua vez, irá procurar estar conectado com a cultura e filosofia do clube.

O comportamento dos jogadores e da equipe, em cada momento, pode variar com intenções diferentes, ou seja, o treinador pode influenciar a forma como a relação entre os jogadores acontecerá em cada um dos quatro momentos do jogo.

Na teoria, chamamos de princípios estruturais a forma como os atletas devem se posicionar no campo de jogo. Já princípios operacionais é o nome dado ao que fazer em cada momento do jogo (defesa, ataque e transições).

O futebol é um jogo complexo e saber fazer funcionar as relações entre os jogadores durante a partida é a chave para a obtenção de sucesso.

Saber o que e como fazer nos momentos do jogo é o xis da questão.

A partir deste entendimento é que podemos moldar a forma de como a equipe deve treinar, aproximando-a da realidade da partida e do que ela poderá encontrar diante de um adversário. Inicia-se a construção do jogar da equipe, ou seja, o Modelo de Jogo começa a ganhar vida.

Os jogos reduzidos e adaptados tem papel importante em algumas propostas metodológicas no futebol. Mas como qualquer remédio, não basta apenas ler a bula para aplicá-lo. Um médico deve ser consultado e, de preferência, um que reconheça e reflita o valor das teorias antes de sair cortando com seu bisturi.

De maneira muito incipiente, algumas boas iniciativas começam a ser percebidas em nosso país, muito em função da sensibilidade de profissionais em cargos de direção e coordenação, que partem para um processo de reciclagem de seus recursos humanos, particularmente dos profissionais que atuam dentro de campo.

E mesmo restrito às categorias de base, alguns clubes brasileiros dão seus primeiros passos em direção aos novos tempos, criando ambientes de aprendizagem aos gestores de campo, buscando reciclar suas equipes técnicas com profissionais mais sintonizados com esta nova perspectiva.

A próxima e mais importante etapa, será a conscientização e capacitação dos atletas das categorias de base, melhorando o canal de comunicação com seus treinadores e facilitando o diálogo sobre o porquê deste ou daquele tipo de treinamento.

Dessa forma, estará criado um processo irreversível, onde trocas de comando de um clube – técnicas, administrativas ou políticas – não terão o efeito necessário para que os atletas deixem de refletir e contestar os métodos de trabalho

O Currículo de Formação do Atleta de Futebol – Parte I

fotodotexto.jpg

“Saber o que ensinar e desenvolver, do sub-11 ao sub-20, é papel dos profissionais das categorias de base.”

por Eduardo Barros, via Universidade do Futebol

O nosso futebol passa por um gradativo processo de profissionalização. As mudanças na Lei Pelé, que privilegiam o clube formador, como por exemplo, o direito da verba de solidariedade inclusive para transferências nacionais, são indicativos de que a formação do atleta brasileiro está sendo redimensionada e que a devida importância lhe está sendo conferida.

É certo, também, que os futuros craques do Brasil, em cinco, sete, 10, 12 anos, hoje estão nas categorias de base dos milhares de clubes existentes no país e que será insignificante a quantidade de atletas que sairão direto dos campos de várzea para o alto nível profissional.

Sob este viés, a gestão integrada da base será pré requisito para que, após os oito a 10 anos de processo de formação de uma determinada categoria, a quantidade de atletas de alta performance seja satisfatória. Além disso, a comunicação entre todas as comissões técnicas dos clubes deverá ser constante no que tange a definição dos pontos fortes e fracos de cada atleta e equipe ao longo dos anos, para nortear as decisões estratégicas, técnicas e administrativas da empresa.

O grande diferencial do trabalho de campo diante dessa nova perspectiva deve ser o desenvolvimento, por parte de cada clube de base, do currículo de formação do atleta de futebol. Nele, cada instituição pode definir os perfis dos atletas que pretendem formar e quais serão os conteúdos ensinados para que os diferentes perfis sejam alcançados.

Entretanto, conforme foi citado anteriormente, a profissionalização do futebol brasileiro é gradativa, logo, a gestão integrada da base, que é fundamental para modificações sensíveis nos corpos técnicos de cada clube (com profissionais competentes e capacitados continuamente), ainda é considerada utópica. Então, se a grande parcela dos gestores não está preparada para o “novo” futebol, qual é o papel de cada profissional inserido (ou que pretende se inserir) no mercado em quaisquer clubes, nas categorias de base, dentre os milhares existentes no Brasil?

O papel de cada um desses profissionais é buscar a elaboração e aplicação de um currículo do atleta. Assim como todo curso profissionalizante, graduação, ensino técnico, médio, supletivo, entre outros, existem conteúdos (disciplinas) que cada atleta deve aprender (de maneira circunscrita ao jogo) para se tornar um grande jogador de futebol.

Além da falta de conhecimento técnico da gestão, outros fatores já conhecidos por quem vive o “ambiente do futebol” podem ser apontados como limitantes para a elaboração do referido material. São eles:

• Falta de comunicação intra comissão técnica, em que predominam preocupações com os fragmentos do jogo em relação ao “todo” da equipe (e jogo);

• Falta de comunicação inter comissões técnicas, em que o treinador do sub-15 pouco se importa com o que está acontecendo no sub-17, nunca assistiu a um jogo do sub-14 e, talvez, nem saiba o nome do técnico do sub-11;

• Ausência de um ambiente de discussões e aprendizagem oferecido pelo clube;

• Futebol profissional desvinculado das categorias de base, em que os treinadores e dirigentes do departamento profissional optam por negociações intermediadas por agentes em detrimento dos atletas formados no clube.

• Lacunas nas idades do processo de formação com manutenção somente das categorias com competições oficiais;

• A pressão por vitórias a qualquer custo como “garantia” de permanência no cargo;

Neste cenário não muito animador, para muitos, “sobreviver” é o grande objetivo. E, seguramente, a sobrevivência não está garantida. Você pode ganhar todos os jogos e a diretoria, de uma hora para outra, ser modificada e você, demitido. Os patrocinadores que financiavam os custos da categoria de base podem abandonar o clube e você, por consequência, perder o emprego. Você pode ser preparador físico do sub-15 e, de repente, receber um convite para integrar a comissão sub-20 que durará somente enquanto houver vitórias. Porém, neste mesmo cenário instável, oportunidades positivas tendem a surgir.

Como, por exemplo, chegar ao clube em que você trabalha um gestor com conhecimento técnico suficiente (acredite que eles já existem!) para saber como um plano coerente de trabalho de formação a médio/longo prazo traz resultados (lucro) e sustentabilidade ao negócio. Esse gestor precisará de pessoas que ponham em prática tal plano de trabalho.

Cresce o número de profissionais do futebol que acreditam que a categoria de base é a grande responsável pelo nosso futuro no cenário futebolístico mundial. Você pode trabalhar ao lado de um destes e não ter ciência justamente por fazer somente a sua função de sobrevivência. Um dirigente (quem sabe um dia algum headhunter) pode procurá-lo para fazer-lhe uma proposta de trabalho por conhecer e acreditar no seu potencial profissional.

Nessa área de atuação, profissionais de destaque do mercado (salvo aqueles que dependem exclusivamente de indicação, amizade ou qualquer outra relação que, lembre-se, faz parte do cenário) devem saber tudo sobre a base, do sub-11 ao sub-20. Devem ter bem definidas quais são as competências necessárias para um jovem, captado do processo de iniciação esportiva e inserido nos processos de transição e especialização, se tornar atleta profissional.

Os primeiros passos são muito simples de serem executados. Uma reunião com sua comissão técnica pode se tornar uma hora de discussão semanal que tem como temática a formação do atleta. Num e-mail para os funcionários da base do clube pode constar um convite para a divulgação da ideia, pois com certeza algumas pessoas têm com o que contribuir. Uma conversa informal com um dos dirigentes do clube pode ser um ótimo momento para demonstrar sua opinião.

Se com esses passos você permanecer sozinho, mesmo assim avance em sua caminhada. Se mais pessoas aderirem à ideia, há um longo trabalho pela frente.

Como início, a definição de todos os conteúdos que um jogador (e equipe) precisa aprender (é bom lembrar que de forma circunscrita ao jogo) para se tornar atleta de alto nível. Marcação zonal, transição ofensiva, relação com a bola, pressing, ultrapassagem, zonas de risco, estratégias, tomada de decisão, lógica do jogo, plataformas, bolas paradas, regras de ação, são simples exemplos para ilustrar a infinidade de conhecimento que, indubitavelmente, precisa ser internalizado.

Após esta trabalhosa, porém, prazerosa definição, diversas reflexões surgirão, dentre elas:

• Qual a plataforma de jogo ideal para iniciar um processo de formação?

• Deve-se sempre utilizá-la durante todas as categorias?

• O zagueiro do sub-11 fará sempre a função de zagueiro ao longo da formação?

• Como classificar os diferentes tipos de jogos elaborados?

• Quando iniciar a aplicação da ultrapassagem?

• Quando iniciar a aplicação do pressing?

• Como definir qual linha de referência de marcação utilizar?

Não bastará definir os conteúdos! Saber distribuí-los em cada categoria, para assegurar que eles se encontram na zona de desenvolvimento proximal dos jogadores de determinada equipe e faixa etária, será fundamental para evitar equívocos.

O que você está esperando? Faça sua parte para que a transformação da base, impulsionada pelas tendências do mercado (Lei Pelé, conhecimento científico, esporte como negócio), beneficie a clubes, atletas e profissionais do futebol.

Para aqueles que acham que tudo isso é bobagem e que não há o que (re)inventar nas categorias de base no Brasil, cuidado: a transformação é inevitável! Para os que utilizam a famosa expressão “o futebol é assim”, ele (o futebol) não é! Já as pessoas…

 

 

Parte II

Parte III