Ambição e Desambição no Futebol

Técnicos e atletas estão divididos entre a ousadia e a prudência, a ambição e a desambição

por Tostão

Nota do autor: Como é bom ler um mestre da bola e das palavras como o filósofo Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, que simplifica nossa crença sobre o futebol, em sua realidade, sua complexidade e suas tendências.

Falam que esquema tático bom é o que dá certo. Nem isso podemos dizer, pois há muitos outros fatores envolvidos no resultado de um jogo.

Muito mais importante que o desenho tático, os números, é a estratégia, a filosofia. É saber onde começa a marcação, com quantos jogadores um time ataca e defende, se há muitos ou poucos espaços entre os setores, se a prioridade é o domínio do jogo, a posse de bola ou os contra-ataques e vários outros detalhes.

Ruim é não ter nada bem definido. Um técnico é melhor que outro quando seus jogadores executam com mais eficiência o que foi planejado, e não por causa do esquema tático. Todos têm vantagens e desvantagens.

Como temos o hábito de tentar achar uma única causa para explicar o resultado, para mostrar sabedoria -ou ignorância-, fica mais fácil dizer que um time ganhou ou perdeu por causa da escalação, da substituição ou porque o técnico colocou um jogador cinco metros mais para a direita ou para a esquerda.

Os treinadores, supervalorizados, muitas vezes, iludidos e prepotentes, pensam também que seu esquema tático decidiu o jogo.

A maioria das equipes começa e termina uma partida com os jogadores nas mesmas posições, compartimentados, robotizados. Volante não se mistura com meia. Há armadores pela direita e pela esquerda. O meia dá o passe, e o centroavante faz o gol.

Há exceções.

Até hoje, ninguém sabe se Xavi, do Barcelona, é volante ou meia, se joga mais pela esquerda ou pela direita. O veloz e aguerrido Herrera, do Botafogo, marca o lateral e ainda faz dupla de ataque com Loco Abreu.

Esquema tático bom é o que deixa o comentarista ansioso, tentando descobrir, pela movimentação dos jogadores, ocasional ou habitual, qual foi a mudança tática que o técnico fez durante a partida. Algumas vezes, o técnico nem percebe.

Os treinadores ficam divididos entre a ousadia e a segurança. Querem arriscar e, ao mesmo tempo, não querem dar chance ao adversário. O conflito costuma terminar em conciliação, por prudência ou por covardia. Assim é também na vida. É a disputa entre o princípio do prazer e a realidade, entre o desejo e a razão.

O sonho da maioria dos treinadores é atingir o equilíbrio perfeito. Como os atletas são, como os humanos, imperfeitos, emocionalmente instáveis e também divididos entre a ambição, o desejo de ser herói, e a desambição, o equilíbrio perfeito nunca é atingido. Ainda bem. Ficaria muito chato.

Quem Entende Alguma Coisa de Futebol?

futmar.jpg

Quem entende alguma coisa de futebol?

Faço esta pergunta todo começo de ano, tentando encontrar alguma sábia resposta para uma das principais questões sobre o esporte bretão, ponderando o que aconteceu no ano anterior e o que pode vir a acontecer no ano que se inicia.

E a resposta ainda permanece a mesma: ninguém.

Simples assim.

Há alguns anos, chegava até a me incomodar com as tamanhas certezas dos principais “conhecedores de futebol” no país.

Agora, um pouco mais maduro, anoto algumas dessas verdades e dou risada com os amigos, confrontando-as com a realidade que se consumou.

Talvez o futebol seja o esporte mais parecido com o homem: complexo, racional (lógico), intuitivo, sensível, criativo e, repleto de fé e outras crendices.

E, da mesma maneira, talvez seja por essa razão que nunca será tão simples assim dar certezas absolutas antes da bola rolar.

Viramos o ano e nossa principal referência no futebol é o Flamengo, atual campeão brasileiro, com sua maravilhosa e imensa torcida e de igual magnitude em dívidas.

Mas vale reforçar que, se não fosse a falta de ego do treinador Andrade em perguntar ao recém contratado Petkovic de que maneira o camisa 10 gostaria de atuar, duvido que a sexta estrela estaria no peito dos rubro-negros este ano.

O humilde Andrade ouviu e colocou em prática: organizou a equipe em função do talentoso sérvio de 37 anos, que produziu como poucos, atuando mais solto pela esquerda, chegando para finalizar e ajudando na marcação até o meio-campo.

E quantos de nós não imaginou o óbvio: que Petkovic, contratado pelo Flamengo em troca de dívidas, era uma barca furada?

E em relação a Ronaldo? E ao forte Palmeiras, que ficava ainda mais forte com Muricy e Wagner Love?

A reflexão aqui não está por conta das análises e previsões de jornalistas e da grande mídia em geral. Nem sobre as besteiras repetidas todos os anos por alguns comentaristas. Longe disso.

Para quem quer enxergar, o futebol está cercado de ciências aplicadas. No seu sentido mais amplo, ciência (do Latim scientia, significando “conhecimento”) refere-se a qualquer conhecimento ou prática sistematizada.

E, por não sermos conhecedores mais profundos desses conhecimentos, não sabemos de futebol como deveríamos. Simples assim.

“O futebol nos mostra com suas subjetividades, com o seu dia a dia e com suas incertezas, tudo isso que a gente sabe que pode acontecer para uma equipe ou para a outra.” (Mano Menezes, 2009.)

Para 2010, já anotei algumas certezas dos “conhecedores de futebol” e gostaria de compartilhar com os leitores deste blog:

a África do Sul já está desclassificada na primeira fase da Copa do Mundo;

o Brasil será o primeiro do grupo G na primeira fase da Copa do Mundo;

o Corinthians é franco favorito para o título da Libertadores;

o Corinthians será desclassificado na primeira fase da Libertadores, pois os jogadores contratados são velhos e futebol é pra gente jovem;

o Barueri irá cair para a série B.

Desculpem me por saber tão pouco sobre futebol, mas será que vai ser simples assim?

Um Livro às Quintas

aprender a viver.jpg

“…oferece muito mais do que uma leitura superficial de textos fundamentais para o entendimento do mundo.”

Aprender a Viver, Luc Ferry.

Editora Objetiva, 2006.

Luc Ferry é um dos principais defensores do Humanismo Secular – visão de mundo que se contrapõe a religião, por conta de seu compromisso com o uso da razão crítica em lugar da fé, na busca de respostas para as questões humanas mais importantes. Foi Ministro da Educação na França de 2002 a 2004. Com Aprender a Viver venceu o prêmio Aujourd’hui 2006, uma das mais conceituadas premiações de não-ficção contemporânea da França. Enquanto ministro, foi dele a proibição de uso de trajes religiosos (isto é, véus sobre a cabeça e rosto de mulheres islâmicas) em escolas públicas da França.

Uma leitura prazerosa, onde o autor apresenta o essencial da filosofia em linguagem acessível para leigos, mostrando como a sabedoria pode ser o caminho para uma vida melhor.