Orquestra X Exército

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“A bola não entra por acaso?”

Para quem gosta de futebol, falar de Barcelona e Real Madrid é inevitável nos dias de hoje. Principalmente porque num intervalo de 18 dias, teremos o privilégio de acompanhar quatro partidas sendo disputadas entre as duas equipes espanholas: uma pelo Campeonato Espanhol 2010-2011 (empate em 1X1, em Madrid), uma pela final da Copa do Rei (vitória do Real Madrid por 1X0, em Valência) e duas pelas semifinais da Liga dos Campeões da Europa (0X2 em Madrid e 1X1 em Barcelona).

Confesso que há tempos não escrevia um texto mais elaborado, em parte por ter encontrado no Twitter (@tega) uma saída mais rápida para descarregar as ideias, mesmo que limitadas a 140 caracteres. Mas nos últimos dias consegui reunir algumas anotações, contando com ajuda dos amigos, ao fazer a seguinte provocação: como uma orquestra pode vencer um exército?

Esta analogia pode ser percebida se compararmos os desempenhos de duas das principais equipes de futebol do mundo.

O F.C. Barcelona, seria a orquestra. Repleto de músicos tecnicamente excelentes e com inteligência de jogo (*) mais consolidada e acima da média. Possui um maestro competente, de comprovada liderança e de conhecimentos suficientes para reger seus atletas e manter a harmonia da equipe, mas que não é tão fundamental…

O modelo de jogo (o norte, ou seja, como a equipe treina e se porta nos jogos, no sistema defensivo, nas transições e no sistema ofensivo) é muito bem definido e aproxima-se da excelência, e não muda em função do adversário. A posse de bola é muito valorizada durante toda a construção desse processo.

A cultura de jogo mistura-se à sua filosofia: ‘Més que un Club’ e vem sendo construída há anos, reproduzindo-se desde suas categorias de base. O perfil de seus atletas reflete muito bem esta cultura e dificilmente desafinam ou saem do tom, principalmente porque o F.C. Barcelona é um clube formador.

Já o Real Madrid seria o exército. Muito mais dependente de seu comandante, que além de ser um grande líder é peça fundamental ao criar as estratégias e armadilhas que sejam bem executadas em cada batalha. Compromete seus atletas com uma meta principal e extrai o máximo deles, individual e coletivamente. Os soldados também são considerados tecnicamente excelentes, mas com inteligência de jogo em processo de desenvolvimento. Recrutados a peso de ouro, coadunam com o perfil de clube comprador que é o Real Madrid.

Talvez por este motivo fique mais fácil perceber que o clube ainda não possui uma cultura de jogo definida. Já o seu modelo de jogo é bem executado, mas ainda distante da excelência. Mais flexível, muda de acordo com o adversário, valorizando a progressão rápida ao gol.

Se constatarmos que os imaginários “exército” e “orquestra” estão em condições iguais de disputa: mesmo número de jogadores, treinadores ávidos por colocarem seus nomes na história e onde “armas” e “instrumentos” se transformam simplesmente em suor e chuteiras, conseguiríamos determinar quem tem mais chances de sair vencedor dos confrontos?

Em quem você apostaria: na orquestra ou no exército?

Entender melhor o contexto das duas equipes pode nos preparar para realizar escolhas mais acertadas e permitir um melhor convívio com fatores que não podemos controlar. Neste sentido, competência, dedicação, estrutura de trabalho e recursos financeiros são ingredientes importantes, mas não representam tudo o que deve ser considerado.

No futebol, e na vida de forma geral, existem novas maneiras de enxergarmos uma situação, e que coloca em xeque tudo o que acreditamos saber até então.

Como afirma o ex- vice presidente do F.C. Barcelona, Ferrán Sorian, ‘A bola não entra por acaso’.

Mas talvez ela entre sim, mais do que possamos imaginar.

(*) a inteligência de jogo é a capacidade de resolver as situações-problema do jogo de maneira eficiente utilizando seu acervo técnico, tático, físico e psicológico.

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Leitura para Entender de Futebol

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Se você acredita que para entender de futebol basta apenas ler e saber tudo sobre futebol, este livro não é indicado para você.

O Andar do Bêbado, do físico americano Leonard Mlodinow, oferece uma didática introdução aos mecanismos do acaso, nos quais estamos direta ou indiretamente enredados.

A ilusão de que temos o conhecimento necessário para controlar as variáveis mais doidas do mundo cotidiano – como os números de uma roleta – provoca equívocos nas mais diversas atividades.

Em todos os esportes profissionais, o técnico de um time costuma ser responsabilizado quando amarga várias derrotas sucessivas. É comum que ele seja demitido e substituído por outro…

Economistas já fizeram análises rigorosas dos resultados obtidos por equipes que mudaram de técnico e chegaram a uma conclusão que surpreende torcedores e cartolas: a mudança não faz diferença, porque, com perdão do trocadilho, há muitas outras coisas em jogo.

A moral do livro de Mlodinow é que fracasso ou sucesso estão sujeitos a forças que nenhum sistema ou indivíduo pode controlar plenamente. A consciência do acaso pode ser libertadora.

Instinto Falho

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Um paralelo de duas jovens promessas do futebol mundial com histórias bem distintas

por Oliver Seitz, via Universidade do Futebol

Aos 15 anos de idade, Neymar da Silva Santos Júnior já era apontado como uma grande promessa do futebol brasileiro. Destaque das categorias de base do Santos, recebia salário, comida em roupa lavada em sua cobertura, que – ao que tudo indica – ganhou com treze anos.

Durante seu período na base do Santos, Neymar foi convocado diversas vezes para a seleção brasileira de base e com 17 anos estreou no time profissional do Santos. Demorou pouco para Neymar começar a se destacar. No seu primeiro ano como profissional, ainda aos 17, foi eleito o melhor jogador do campeonato paulista.

No ano seguinte, em julho de 2010, aos 18 anos, foi convocado para a seleção brasileira adulta. Apontado, e apontando-se, como a grande revelação do futebol brasileiro nos últimos anos, recebeu uma proposta de 35 milhões de Euros do Chelsea em agosto de 2010 e recusou.

Em setembro do mesmo ano, envolveu-se em uma série de polêmicas que culminou com ofensas públicas ao seu técnico durante uma partida, que acabou gerando a demissão do mesmo técnico. Na convocação seguinte para a seleção brasileira adulta, seu nome não apareceu.

Aos 15 de idade, Tiago Manuel Dias Correia perambulava livremente pelos becos de Lisboa, sem lá grandes perspectivas para vida. Abandonado pelos pais desde muito cedo, havia sido inicialmente cuidado pela vó, mas uma ordem judicial o obrigou a se mudar para um abrigo administrado por uma igreja na periferia lisbonense aos doze anos de idade. Logo depois da mudança, começou a treinar em um clube amador das redondezas, mas sem despertar maiores atenções.

Aos 19 anos, foi convidado, junto com outros sete colegas de abrigo, a integrar o time da CAIS, uma ONG portuguesa que trabalha na melhoria das condições de vida de pessoas sem-teto, que viajaria para a Bósnia para participar do campeonato mundial de futebol de rua. Em seis jogos, Tiago marcou 40 gols. Logo em seguida, quase foi convocado para participar do campeonato mundial dos sem-teto, mas, no mesmo ano, acabou indo parar no Estrela da Amadora, clube da segunda divisão portuguesa.

Depois de uma temporada em que marcou quatro gols em 26 jogos, Tiago assinou de graça com o Vitória Guimarães, uma vez que o Estrela não pagou seus salários. No Vitória Guimarães, Tiago não jogou nem uma partida oficial sequer. Depois de uma impressionante pré-temporada em que marcou cinco gols em seis partidas, Tiago mudou de time.

Ontem, Tiago, o Bebé, fez sua estréia oficial com a camisa do Manchester United, que pagou mais de sete milhões de libras para contratar um jogador que a pouco mais de um ano estava disputando um torneio de futebol de rua no time de uma ONG que cuida de sem-teto.

Neymar pode se tornar o maior jogador brasileiro de todos os tempos. Bebé pode se tornar uma aposta romântica, mas fracassada de Alex Ferguson. Mas Neymar pode se tornar mais uma promessa brasileira que não vingou e Bebé pode vir a ser o maior jogador português da história. Ninguém sabe dizer ao certo. A complexidade humana impede qualquer prognóstico razoável sobre o que torna um jogador bom ou ruim. É tudo baseado em percepções intuitivas que nos levam a determinar fatos e ações. Mas a nossa intuição é bastante falha. Um ano e meio atrás, Neymar morava em uma cobertura e Bebé morava em um abrigo para sem-teto. Quem consegue prever qual será a situação um ano e meio pra frente?

Um Livro às Quintas

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“…Como exercício prático, seguindo sua intuição, analise cada rosto em dois segundos e decida por quem parece ser confiável.”

Blink, A Decisão num Piscar de Olhos, Malcolm Gladwell.

Editora Rocco, 2005.

O livro analisa a importância do que chamamos de intuição.Trata das decisões instantâneas da parte do nosso cérebro conhecida como ‘inconsciente adaptável’, capaz de realizar raciocínios imediatos e chegar a conclusões antes que tomemos noção consciente do que está acontecendo. O livro explica como funciona esse processo mental e mostra mais exemplos de situações relativas a ele. Como conclusão, Gladwell defende a importância dos dois primeiros segundos em que o ser humano reage a uma situação. Blink trata a intuição como importante ferramenta de decisão, um diferencial que deve ser cada vez mais valorizado no mercado de trabalho e na vida pessoal.

Como exercício prático, seguindo sua intuição, analise cada rosto em dois segundos e decida por quem parece ser confiável.

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Se a sua resposta foi Tom Hanks, bateu com a minha…