A Encruzilhada do Futebol Brasileiro

por Paulo André Benini, no especial da Universidade do Futebol sobre o trabalho metodológico desenvolvido no Brasil.

“Nos esquecemos de investir em planejamento, estruturação e, principalmente, capacitação de profissionais para darmos sequência à produção e consolidação da nossa hegemonia no futebol mundial.”

 

Se dissermos que o jogo de futebol se divide em três princípios básicos e deles, todas as variações são possíveis, eu diria que:

tecnicamente sempre fomos muito superiores a qualquer outra nação;

fisicamente, em algum período, chegamos a ser inferiores;

taticamente sempre sofremos com a falta de disciplina na aplicação da estratégia porque éramos tão melhores jogadores de bola que sempre achamos um jeito de vencer nossos rivais.

Assim sendo, inicialmente decidimos resolver a discrepância física e incrementamos toda a cientificidade oferecida pelos melhores estudos e artigos já produzidos para construirmos o atleta ideal. O intuito era nos equipararmos aos europeus e para isso, quebramos inúmeras barreiras culturais introduzindo a musculação e os treinos físicos específicos para jogadores de futebol.

Durante anos os especialistas na área tinham vontade de vomitar ao escutar dirigentes, treinadores e comentaristas dizendo que a musculação deixaria o jogador travado. De qualquer forma e com certa demora, evoluímos muito na qualidade dos treinos físicos e permitimos que a ciência entrasse no futebol brasileiro.

Até aí, tudo bem.

Conseguimos igualar a valência física e continuamos com a supremacia técnica. Éramos então praticamente imbatíveis. Mas em algum momento da história do futebol e da economia brasileira, os clubes se encontravam em péssima condição financeira e não conseguiam gerar outro tipo de renda que não com a venda de jogadores para o mercado europeu.

Demoramos muito para nos estruturarmos, explorarmos o marketing e a paixão doentia do nosso torcedor, gerando receitas que, aliadas aos direitos de TV, tornassem o clube auto-suficiente. Então, o único meio de sobrevivência encontrado por dirigentes amadores e despreparados naquela época era vender atletas à Europa para solver dívidas e contratar medalhões, ganhando assim, o apoio popular.

Desde então, estamos produzindo jogadores para os europeus, buscando selecioná-los e prepará-los de acordo com o perfil de jogo que facilita essa negociação.

Pior que isso, o nosso erro foi acreditar que o atleta ideal era aquele que existia na Europa. Boa estatura, forte, sem muita ginga (pois futebol já não era mais brincadeira), disciplinado, com bom jogo aéreo e o mais importante, com nome e sobrenome. Chegamos ao cúmulo de tirar até os apelidos dos nossos meninos da base para que eles ficassem mais vendáveis aos olhos e aos cofres do velho continente. Em pleno século 20, ainda éramos colônia, explorados pelos europeus que compravam barato e lucravam com o desempenho e as futuras transferências daqueles “produtos” importados. Apesar disso, nós brasileiros estávamos felizes e pensávamos que essa “facilidade” de achar matéria-prima abundante e vendê-la para o além-mar era a salvação da lavoura. Não nos preocupávamos com o êxodo de jogadores porque a renovação e o talento eram tão naturais do nosso povo que a cada ano surgiam mais e mais jogadores de qualidade. Se quiséssemos, montaríamos três ou quatro seleções em condições de ganhar uma mesma Copa do Mundo.

Nesse período (e durante esse processo), ainda mantínhamos a supremacia técnica e por isso demoramos anos para perceber que o jogo também evoluiu. O futebol passou a ser estudado e analisado tanto quanto o organismo humano ou a economia mundial. Também pudera, algo que gera tantos bilhões de dólares e movimenta outros tantos bilhões de torcedores ao redor do planeta não poderia ser deixado ao azar ou ao talento nato de seus praticantes.

Então, enquanto nos dedicávamos aos treinos físicos – com tiros de 1000m, 300m etc… – os europeus faziam tudo dentro do campo, com a bola. Trabalhos mais intensos e disputados, mini jogos que exploravam especificamente um princípio de ataque ou de defesa, tudo inserido ao jogo.

Cada treino tinha um objetivo e o sincronismo dos movimentos de pressão ao adversário, de bloco alto (encurtar o campo), de trocas de passes rápidas e com o menor número possível de toques na bola se tornaram exigências do futebol contemporâneo.

A linha de 4 defensiva e a tentativa de roubar a bola no campo adversário já eram praticadas muito antes de eu chegar à Europa em 2006. Estamos em 2012 e no Brasil tem gente que ainda fala em ala, três zagueiros e volante de contenção.

A falta de visão, de protecionismo, de estímulos para a manutenção de talentos e de desenvolvimento do estilo brasileiro de se jogar futebol se revela hoje, duas décadas depois, um grave problema.

Nos esquecemos de investir em planejamento, estruturação e, principalmente, capacitação de profissionais para darmos sequência à produção e consolidação da nossa hegemonia no futebol mundial.

Nos preocupamos em vender a nossa Seleção e esquecemos-nos de reinvestir o lucro nas futuras gerações.

Usamos os “produtos” produzidos e formados pelos nossos clubes, mas esquecemos de retribuir o serviço com a criação de campeonatos mais fortes e rentáveis, infra-estrutura de qualidade (estádios, gramados, etc…) e capacitação de pessoas em todas as áreas do esporte brasileiro (gestores, técnicos, preparadores físicos, scouts etc…).

Estamos atrasados.

Quase não temos cursos capacitantes que valham à pena.

O círculo do futebol brasileiro é restrito, fechado e avesso a novas ideias.

Quase não temos estudiosos do jogo, das variações táticas ou dos treinamentos específicos.

Nossa formação de base não ensina para o futebol atual, mas, sim, para o futebol de outrora.

Insistimos em coisas do arco da velha simplesmente porque a maioria dos nossos ex-jogadores (atuais treinadores) não está preparada para formar novos atletas.

Falta conhecimento e posteriormente a aplicação de ferramentas como a teoria do jogo, a psicologia e a pedagogia aplicadas ao esporte para que possamos sair do marasmo em que nos encontramos.

Precisamos abdicar de fórmulas que um dia deram certo e que se tornaram tradicionais para chacoalhar os estaduais, as divisões inferiores e os times “pequenos”, assim como um dia passamos do sistema de mata-mata para pontos corridos, dando mais estabilidade financeira aos clubes e atletas.

Talvez seja a hora de quebrarmos outros paradigmas.

Admitir que o modelo está ultrapassado e que precisamos mudar é o primeiro passo. O problema é que poucas pessoas estão preocupadas com isso. Na verdade poucos enxergam o atraso, só reclamam que a Seleção não está bem.

Novos valores e estudiosos do jogo não conseguem se inserir no meio porque não jogaram futebol e não tem a confiança do mercado. A categoria de base da maioria dos clubes brasileiros está jogada ao Deus dará. Os cargos dentro dos clubes, federações e confederações ainda são políticos e não técnicos. Isso tem que mudar!

O Brasil se encontra em uma encruzilhada.

Na verdade, estamos parados diante dela há alguns anos, observando, com olhos fixos, a estrada que nos trouxe até aqui.

Ela é repleta de flores, encantos e conquistas. Revendo o trajeto, nos apaixonamos pela construção da nossa história e temos a certeza e o orgulho de saber que os melhores times e os maiores jogadores que o planeta já viu foram brasileiros.

Enxergamos também que ganhamos, orgulhosa e merecidamente, o apelido de “País do futebol”, o maior exportador de pé-de-obra que o mundo conheceu.

Dominamos o futebol mundial e possuímos, por anos, estrelas em todos os grandes campeonatos nacionais do velho continente. Todos tinham medo da camisa amarela e os brasileiros, encantados, paravam para ver a seleção canarinho jogar. Por tudo isso, passamos anos desfrutando da beleza do nosso futebol e do avanço que tínhamos sobre os demais.

Acreditamos que tudo era possível ao país que tem no DNA de seu povo, o talento do futebol.

Hoje, olhando ao redor, mais próximos da encruzilhada, ainda pelo caminho que construímos, vemos sonhos, delírios e extravagâncias que desperdiçaram tempo e dinheiro e não se transformaram em nada. Um período sonolento em que a falta de capacidade se justificou de inúmeras formas, especialmente pelo passado esplendoroso que construímos.

Mas eis que recentemente, atônitos e ainda parados na estrada, fomos despertados pelo barulho ruidoso dos motores espanhóis, holandeses e alemães que passaram por nós sem pedir licença. Aceleraram em tamanha velocidade que ainda não conseguimos reparar quais as novas peças da engrenagem os fazem acelerar tão depressa.

E cá estamos nós, olhando fixamente para a encruzilhada buscando dicas de para onde seguir ou qual o melhor caminho a tomar…

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O Currículo de Formação do Atleta de Futebol – Parte I

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“Saber o que ensinar e desenvolver, do sub-11 ao sub-20, é papel dos profissionais das categorias de base.”

por Eduardo Barros, via Universidade do Futebol

O nosso futebol passa por um gradativo processo de profissionalização. As mudanças na Lei Pelé, que privilegiam o clube formador, como por exemplo, o direito da verba de solidariedade inclusive para transferências nacionais, são indicativos de que a formação do atleta brasileiro está sendo redimensionada e que a devida importância lhe está sendo conferida.

É certo, também, que os futuros craques do Brasil, em cinco, sete, 10, 12 anos, hoje estão nas categorias de base dos milhares de clubes existentes no país e que será insignificante a quantidade de atletas que sairão direto dos campos de várzea para o alto nível profissional.

Sob este viés, a gestão integrada da base será pré requisito para que, após os oito a 10 anos de processo de formação de uma determinada categoria, a quantidade de atletas de alta performance seja satisfatória. Além disso, a comunicação entre todas as comissões técnicas dos clubes deverá ser constante no que tange a definição dos pontos fortes e fracos de cada atleta e equipe ao longo dos anos, para nortear as decisões estratégicas, técnicas e administrativas da empresa.

O grande diferencial do trabalho de campo diante dessa nova perspectiva deve ser o desenvolvimento, por parte de cada clube de base, do currículo de formação do atleta de futebol. Nele, cada instituição pode definir os perfis dos atletas que pretendem formar e quais serão os conteúdos ensinados para que os diferentes perfis sejam alcançados.

Entretanto, conforme foi citado anteriormente, a profissionalização do futebol brasileiro é gradativa, logo, a gestão integrada da base, que é fundamental para modificações sensíveis nos corpos técnicos de cada clube (com profissionais competentes e capacitados continuamente), ainda é considerada utópica. Então, se a grande parcela dos gestores não está preparada para o “novo” futebol, qual é o papel de cada profissional inserido (ou que pretende se inserir) no mercado em quaisquer clubes, nas categorias de base, dentre os milhares existentes no Brasil?

O papel de cada um desses profissionais é buscar a elaboração e aplicação de um currículo do atleta. Assim como todo curso profissionalizante, graduação, ensino técnico, médio, supletivo, entre outros, existem conteúdos (disciplinas) que cada atleta deve aprender (de maneira circunscrita ao jogo) para se tornar um grande jogador de futebol.

Além da falta de conhecimento técnico da gestão, outros fatores já conhecidos por quem vive o “ambiente do futebol” podem ser apontados como limitantes para a elaboração do referido material. São eles:

• Falta de comunicação intra comissão técnica, em que predominam preocupações com os fragmentos do jogo em relação ao “todo” da equipe (e jogo);

• Falta de comunicação inter comissões técnicas, em que o treinador do sub-15 pouco se importa com o que está acontecendo no sub-17, nunca assistiu a um jogo do sub-14 e, talvez, nem saiba o nome do técnico do sub-11;

• Ausência de um ambiente de discussões e aprendizagem oferecido pelo clube;

• Futebol profissional desvinculado das categorias de base, em que os treinadores e dirigentes do departamento profissional optam por negociações intermediadas por agentes em detrimento dos atletas formados no clube.

• Lacunas nas idades do processo de formação com manutenção somente das categorias com competições oficiais;

• A pressão por vitórias a qualquer custo como “garantia” de permanência no cargo;

Neste cenário não muito animador, para muitos, “sobreviver” é o grande objetivo. E, seguramente, a sobrevivência não está garantida. Você pode ganhar todos os jogos e a diretoria, de uma hora para outra, ser modificada e você, demitido. Os patrocinadores que financiavam os custos da categoria de base podem abandonar o clube e você, por consequência, perder o emprego. Você pode ser preparador físico do sub-15 e, de repente, receber um convite para integrar a comissão sub-20 que durará somente enquanto houver vitórias. Porém, neste mesmo cenário instável, oportunidades positivas tendem a surgir.

Como, por exemplo, chegar ao clube em que você trabalha um gestor com conhecimento técnico suficiente (acredite que eles já existem!) para saber como um plano coerente de trabalho de formação a médio/longo prazo traz resultados (lucro) e sustentabilidade ao negócio. Esse gestor precisará de pessoas que ponham em prática tal plano de trabalho.

Cresce o número de profissionais do futebol que acreditam que a categoria de base é a grande responsável pelo nosso futuro no cenário futebolístico mundial. Você pode trabalhar ao lado de um destes e não ter ciência justamente por fazer somente a sua função de sobrevivência. Um dirigente (quem sabe um dia algum headhunter) pode procurá-lo para fazer-lhe uma proposta de trabalho por conhecer e acreditar no seu potencial profissional.

Nessa área de atuação, profissionais de destaque do mercado (salvo aqueles que dependem exclusivamente de indicação, amizade ou qualquer outra relação que, lembre-se, faz parte do cenário) devem saber tudo sobre a base, do sub-11 ao sub-20. Devem ter bem definidas quais são as competências necessárias para um jovem, captado do processo de iniciação esportiva e inserido nos processos de transição e especialização, se tornar atleta profissional.

Os primeiros passos são muito simples de serem executados. Uma reunião com sua comissão técnica pode se tornar uma hora de discussão semanal que tem como temática a formação do atleta. Num e-mail para os funcionários da base do clube pode constar um convite para a divulgação da ideia, pois com certeza algumas pessoas têm com o que contribuir. Uma conversa informal com um dos dirigentes do clube pode ser um ótimo momento para demonstrar sua opinião.

Se com esses passos você permanecer sozinho, mesmo assim avance em sua caminhada. Se mais pessoas aderirem à ideia, há um longo trabalho pela frente.

Como início, a definição de todos os conteúdos que um jogador (e equipe) precisa aprender (é bom lembrar que de forma circunscrita ao jogo) para se tornar atleta de alto nível. Marcação zonal, transição ofensiva, relação com a bola, pressing, ultrapassagem, zonas de risco, estratégias, tomada de decisão, lógica do jogo, plataformas, bolas paradas, regras de ação, são simples exemplos para ilustrar a infinidade de conhecimento que, indubitavelmente, precisa ser internalizado.

Após esta trabalhosa, porém, prazerosa definição, diversas reflexões surgirão, dentre elas:

• Qual a plataforma de jogo ideal para iniciar um processo de formação?

• Deve-se sempre utilizá-la durante todas as categorias?

• O zagueiro do sub-11 fará sempre a função de zagueiro ao longo da formação?

• Como classificar os diferentes tipos de jogos elaborados?

• Quando iniciar a aplicação da ultrapassagem?

• Quando iniciar a aplicação do pressing?

• Como definir qual linha de referência de marcação utilizar?

Não bastará definir os conteúdos! Saber distribuí-los em cada categoria, para assegurar que eles se encontram na zona de desenvolvimento proximal dos jogadores de determinada equipe e faixa etária, será fundamental para evitar equívocos.

O que você está esperando? Faça sua parte para que a transformação da base, impulsionada pelas tendências do mercado (Lei Pelé, conhecimento científico, esporte como negócio), beneficie a clubes, atletas e profissionais do futebol.

Para aqueles que acham que tudo isso é bobagem e que não há o que (re)inventar nas categorias de base no Brasil, cuidado: a transformação é inevitável! Para os que utilizam a famosa expressão “o futebol é assim”, ele (o futebol) não é! Já as pessoas…

 

 

Parte II

Parte III

Entrevista com Júlio Garganta, doutor em Ciência do Desporto

via Universidade do Futebol

“No meu ponto de vista, o futebol se joga com ideias. O bom futebol se joga com boas ideias. O mau futebol se joga com más ideias ou sem ideias. Portanto, (no futebol) as questões táticas e estratégicas são fundamentais”. (Júlio Garganta)

A discussão sobre a importância do treino no desenvolvimento do talento esportivo no futebol permeia o ambiente acadêmico e profissional. Entre diversas referências, o Prof. Dr. Júlio Manuel Garganta da Silva tem contribuído de maneira decisiva para esse tipo de análise e reflexão.

O restante da entrevista inédita e exclusiva com este especialista português pode ser acompanhada aqui

Você Sabe Fazer as Perguntas Certas?

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Via Ser Professor Universitário

Sempre que estou ensinando Tecnicas de Avaliação da Aprendizagem e como preparar provas, utilizo este texto que oferece uma interessante e divertida reflexão sobre a complexidade de fazer perguntas em prova. O texto relata a experiencia de um professor que fora convocado por um colega (Professor de Física) para ajudá-lo a responder um pedido de revisão de prova, solicitado por seu aluno.

Há algum tempo recebi um convite de um colega para servir de árbitro na revisão de uma prova. Tratava-se de avaliar uma questão de prova de Física, que recebera nota zero. O aluno contestava tal conceito, alegando que merecia nota máxima pela resposta, a não ser que houvesse uma “conspiração do sistema” contra ele. Professor e aluno concordaram em submeter o problema a um juiz imparcial, e eu fui o escolhido.

Chegando à sala de meu colega, li a questão da prova, que dizia: “Mostre como pode-se determinar a altura de um edifício bem alto com o auxilio de um barômetro.”

A resposta do estudante foi a seguinte: “Leve o barômetro ao alto do edifício e amarre uma corda nele; baixe o barômetro até a calçada e em seguida levante, medindo o comprimento da corda; este comprimento será igual à altura do edifício.” Sem dúvida era uma resposta interessante, e de alguma forma correta, pois satisfazia o enunciado. Por instantes vacilei quanto ao veredicto.

Recompondo-me rapidamente, disse ao estudante que ele tinha forte razão para ter nota máxima, já que havia respondido a questão completa e corretamente. Alem disso esse aluno gosava de otimo conceito como estudante

Entretanto, se ele tirasse nota máxima, estaria caracterizada uma aprovação em um curso de física, mas a resposta não confirmava isso. Sugeri então que fizesse uma outra tentativa para responder a questão. Não me surpreendi quando meu colega concordou, mas sim quando o estudante resolveu encarar aquilo que eu imaginei lhe seria um bom desafio

Segundo o acordo, ele teria seis minutos para responder à questão, isto após ter sido prevenido de que sua resposta deveria mostrar, necessariamente, algum conhecimento de física. Passados cinco minutos ele não havia escrito nada, apenas olhava pensativamente para o forro da sala. Perguntei-lhe então se desejava desistir, pois eu tinha um compromisso logo em seguida, e não tinha tempo a perder. Mais surpreso ainda fiquei quando o estudante anunciou que não havia desistido. Na realidade tinha muitas respostas, e estava justamente escolhendo a melhor. Desculpei-me pela interrupção e solicitei que continuasse.

No momento seguinte ele escreveu esta resposta: “Vá ao alto do edifico, incline-se numa ponta do telhado e solte o barômetro, medindo o tempo t de queda desde a largada até o toque com o solo. Depois, empregando a fórmula h = (1/2)gt^2 , calcule a altura do edifício.” Perguntei então ao meu colega se ele estava satisfeito com a nova resposta, e se concordava com a minha disposição em conferir praticamente a nota máxima à prova. Concordou, embora sentisse nele uma expressão de descontentamento, talvez inconformismo.

Ao sair da sala, lembrei-me que o estudante havia dito ter outras respostas para o problema. Embora já sem tempo, não resisti à curiosidade e perguntei-lhe quais eram essas respostas. “Ah!, sim,” – disse ele – “há muitas maneiras de se achar a altura de um edifício com a ajuda de um barômetro.” Perante a minha curiosidade e a já perplexidade de meu colega, o estudante desfilou as seguintes explicações. “Por exemplo, num belo dia de sol pode-se medir a altura do barômetro e o comprimento de sua sombra projetada no solo, bem como a do edifício”. Depois, usando-se uma simples regra de três, determina-se a altura do edifício. “Um outro método básico de medida, aliás bastante simples e direto, é subir as escadas do edifício fazendo marcas na parede, espaçadas da altura do barômetro. Contando o número de marcas tem-se a altura do edifício em unidades barométricas”. Um método mais complexo seria amarrar o barômetro na ponta de uma corda e balançá-lo como um pêndulo, o que permite a determinação da aceleração da gravidade (g). Repetindo a operação ao nível da rua e no topo do edifício, tem-se dois g’s, e a altura do edifício pode, a princípio, ser calculada com base nessa diferença. “Finalmente”, – concluiu, – “se não for cobrada uma solução física para o problema, existem outras respostas. Por exemplo, pode-se ir até o edifício e bater à porta do síndico. Quando ele aparecer; diz-se: “Caro Sr. síndico, trago aqui um ótimo barômetro; se o Sr. me disser a altura deste edifício, eu lhe darei o barômetro de presente.”.

A esta altura, perguntei ao estudante se ele não sabia qual era a resposta ‘esperada’ para o problema. Ele admitiu que sabia, mas estava tão farto com as tentativas dos professores de controlar o seu raciocínio e cobrar respostas prontas com base em informações mecanicamente arroladas, que ele resolveu contestar aquilo que considerava, principalmente, uma farsa.

“Não basta ensinar ao homem uma especialidade, porque se tornará assim uma máquina utilizável e não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto.” (Albert Einstein)

“O especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, e , por fim, acaba sabendo tudo sobre nada.” (Bernard Shaw)

Aula Gratuita: O Talento Esportivo

O que é ter talento para jogar futebol? Será que nós já nascemos com ele (inato) ou o adquirimos a partir de estímulos e oportunidades durante os treinamentos (adquirido)? Nesta aula trouxemos artigos e vídeos de alguns autores que discutem esse tema tão polêmico e interessante.

Talento Esportivo
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Fim de Jogo

Já com saudades, publico a última coluna de Bernardo, o ermitão – personagem do mestre João Batista Freire – que desde 2008  nos brinda na Universidade do Futebol com a vida deste ex-torcedor fanático, que decidiu largar tudo e viver numa caverna com seus companheiros Aurora, Oto e Arnaldo, a amiga coruja questionadora, o simpático morcego e o bagre cego deslumbrado-com-os-prazeres -mundanos, respectivamente.
Todas as colunas do Bernardo você lê aqui.
“Quando a gente joga alguma coisa, nunca sabe o que vai acontecer, não conhece o fim da história, e é isso que dá graça ao jogo. Se sabe o fim, não é jogo”

 

Sem risco não há jogo, dizia-me Aurora, a coruja, na madrugada que declinava, cedendo lugar ao sol, um fino traço dourado no horizonte. No céu as estrelas aproveitavam-se de um resto de noite e eu aproveitava o que poderiam ser minhas últimas madrugadas neste lugar. Sim, eu pensava deixar a caverna, e já antecipava as saudades que sentiria de Aurora, minha amiga coruja, e das auroras que consumimos em conversas sobre a vida. Saudades que terei de Oto, meu amigo e mensageiro morcego, e do bagre cego Arnaldo, aquele que nunca me viu, mas que muito bem me conheceu.

Sem risco não há jogo, ia dizendo Aurora, como no caso daquele piloto brasileiro, o Felipe Massa, que deixou o companheiro passá-lo no final da corrida. Massa descumpriu a regra das regras do jogo, acabou com o risco, contou o final do filme, e tudo perdeu a graça. As crianças, quando o jogo perde a graça, dizem que não brincam mais e vão fazer outra coisa.

De fato, comentei com Aurora, quando a gente joga alguma coisa, nunca sabe o que vai acontecer, não conhece o fim da história, e é isso que dá graça ao jogo. Se sabe o fim, não é jogo. Numa conversa de trabalho, conversa-se para se achar uma solução. Numa conversa entre amigos que se encontram num bar, não há esse compromisso, a conversa se desenrola sem que haja compromisso com um fim.

Pena que os técnicos, mais que os jogadores de futebol, não saibam disso, disse Aurora. Fazem de tudo para não correr riscos, para contar o fim da história, para tornar o jogo sem graça. O futebol é um jogo e os técnicos insistem em não reconhecer isso.

Para mim, eu disse à coruja, o melhor técnico é aquele que entende que o futebol é um jogo, aquele que sabe que o técnico é um jogador, que é impossível saber o final da história, que sabe caminhar no escuro, que sabe lidar com o risco, com o imprevisível. O melhor técnico é um jogador de dados, o que tem a habilidade de caminhar pelo labirinto de imprevisibilidades.

E o melhor jogador de futebol, prosseguiu Aurora, é aquele que tira prazer, acima de tudo, da arte de correr o risco, de jogar o jogo da bola sem saber o que vai acontecer, e gostando de não saber. No jogo, não há compromisso com o resultado, mas apenas com o ato de jogar. O grande jogador não se compromete com o resultado, porque não é possível firmar esse compromisso com o desconhecido.

Afinal, completei, o que há de mais aborrecido que, no meio de um filme de suspense, alguém ao lado contar o final?

Penso em deixar a caverna, mas reluto. Os amanheceres que amanheci aqui talvez eu não amanheça em mais lugar nenhum. Mas acho que não conseguirei resistir à sedução do desconhecido que anda a me chamar para além da caverna, uma tentação que me roi a cada aurora. Se troco o certo pelo duvidoso? Sem dúvida, pois, acima de tudo, sou um jogador.

* Bernardo, o eremita, é um ex-torcedor fanático que vive isolado em uma caverna. Ele é um personagem fictício de João Batista Freire.

Aula Gratuita: Como Ensinar Futebol?

Como ensinamos futebol? Por mais incrível que possa parecer,  essa pergunta é um dos grandes enigmas que pairam na cabeça de muitos brasileiros. O senso comum diz que, ou os craques já nascem sabendo jogar, dotados de uma genética privilegiada (o gene futebol!), ou atribuem o talento a um dom divino. Nesta aula discutiremos todas essas questões.

Como ensinar Futebol?
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Football for Education Catalyzing Opportunities for Social Change

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Entrevista concedida ao Changemakers Ashoka/Nike

“Nowadays, sports are much more focused on financial reward than on educational development. We know that among those trying to start a career in football, very few actually become professional players. Education on the football field should go beyond its four boundary lines” said Thyago Luques, the manager of the “Corinthias Licensed School Initial Kick,” reflecting the current discussion among the first partners group established within the Changing Lives Through Football competition on Changemakers.com.

After submitting its idea, Universidade do Futebol, or the University of Football (or soccer as it is known in the United States) is getting attention from other projects that also use football as a tool for social change.

It is the kick-off for developing and implementing an educational program that aims to expand its methodology, focused on better exploration of all aspects of the world’s most popular sport, especially its social and educational dimensions, for all of Brazil.

Every year Brazil unveils completely new professional football teams with generations of athletes who are constantly trained in the art of playing well. But how does the process of becoming a professional happen in football? What are the roles of the different football schools and teams in Brazil?

These are the main concerns of Como educar pelo futebol, or the “How to Educate Through Football” project, developed by the University of Football, which aims to prevent football schools from turning into “frustration factories.”

Exploring football’s educational, social and well-being dimensions is the University of Football’s motto. The organization was established in 2003 to be an online platform for professional education of athletes, coaches, educators and any other people interested in working in football. The University’s challenging mission is to become a national and global resource for Brazil’s approach to teaching football. In order to achieve its mission, the University relies on a scientific-based instruction strategies and a methodology that, above all, aims to preserve the playful, artistic and creative aspects of Brazilian football.

“The University of Football’s methodology relates to the need to understand the complexity inherent in the reality in which we live. And football is a part of this reality,” explains Eduardo Tega, managing director of the University of Football. “This is the reason the project builds on the teaching idea known as the ‘knowledge web,’ that interconnects several areas, sub-areas and sectors of football’s knowledge universe through an interdisciplinary approach.”

The “How to Educate Through Football” project wants to take advantage of the enormous potential of sports to promote health, education and culture to vulnerable children and teenagers. This year a pilot stage is being conducted in Brazil, with plans for national expansion leading up to the next World Cup in Brazil in 2014. The University of Football’s goal is to modernize Brazilian football, but also impact other sports. That modernization includes proper training for trainers, leaders and managers of football schools.

Participation in the Changing Lives Through Football competition generated recognition by football schools and other organizations that share University of Football’s goal of using sports as a tool for education, inclusion and professionalization. Thyago Luques, manager of Escolas Licenciadas Chute Inicial Corinthias (Corinthias Licensed School First Kick), told Ashoka Changemakers and Nike that he is interested in establishing a partnership with the University of Football. While he already knew about the University, he intends to become more involved with the project developed for football schools.

“I think it is necessary to provide more support to those boys who will not achieve their dreams,” said Luques. “We can show them that even if their dream does not happen inside the field, their goals can be achieved outside it. Hundreds of lawyers, physicians, marketing professionals, journalists, managers, teachers and other professionals work hard to make sport possible. The main change is to clarify, though education and tutoring, that this sport is more than just a goal. In addition to the professional mentoring, sport itself is an important educational tool that we cannot disregard. Educating citizens through sport is much more rewarding than simply training athletes with no values.”

The University has its own methodology, which is based on critical, humanistic strategies for instruction that uses open spaces and students’ contributions in the teaching-learning relationship and searching for enjoyment and interest. “The objective of sports practices goes beyond the simple repetition of movements,” said Tega. “It enables a conscious sport education that is critical, conscious and reflexive, and rooted in diversity, cooperation and autonomy. It is based on human movement, and multiple levels of intelligence, psychology, philosophical principles, and social learning.”

Tega asks, “How do you teach passing in football to kids? On only a technical level, it is mandatory to learn this to be able to play football. This means putting a boy in front of other to mechanically repeat movements with the ball until it becomes automatic. Instead, in the University of Football’s approach, ‘Game Intelligence,’ we developed several short games to help kids learning by playing the pass.

“Take the ‘Fool’s Game’ as an example. Several kids stand in a circle and one kid in the middle tries to touch the ball. Depending on the complexity level required, it is possible to change the number of times the boys are allowed to touch the ball. This game develops the technical action of a pass, as well as movements, such as running forward, sideways and backwards. It also develops multiple intelligences, such as motor, spatial, sensory and interpersonal, and deals with psychological aspects, such as facing challenges and pressure, among others.

“The ‘Fool’s Game’ is just one very basic example from a vast repertoire of activities that allow a differentiated pedagogical approach for teaching football, based on kids’ street play and games, which forms the basis for the playful and creative aspects of Brazilian football.”

Futebol de Rua, or “Street Soccer,” is an organization with a similar approach that also intends to participate in “How to Educate Through Football” project. “We already have places available in Sao Paulo, Curitiba and Rio de Janeiro to start this project,” explains Alceu Neto, president of Street Soccer. Street Soccer also entered the Changemakers’ online challenge, where the two organizations started their interaction.

Neto agrees that in Brazil, an educational approach to sports is rare. “The use of sports as an educational tool is almost nonexistent, with only a few experiences conducted by civil society or private organizations. Without a doubt, if sports were used for educational purposes as well, we would have kids with better school results and would also discover new talents. The most important is not to create new stars, but to insure that 100 percent of these students become citizens, conscious of theirs rights and duties.”

The University of Football is increasingly worried about the purely competitive and financial character that Brazilian and world football is developing. Through its platform, the University is advocating a more social role for football clubs.

“Over the years the University of Football is positioning itself as an institution that debates the most diversified topics about football, expanding reflections from the competitive world to education and leisure dimensions,” said Tega. “Therefore, social responsibility is a part of our debates that have allowed us to develop some projects, including “How to Educate Through Football” and “Citizen Cup and Olympic”.

As the 2014 World Cup approaches, the University of Football believes that this is the right time to lead and encourage a process that trains and identifies qualified professionals from different areas to raise awareness and give attention to subjects that can foster relevant change in Brazilian sports, education, culture and society.

By Changemakers contributing writer, Vanuza de Araújo Ramos.

Sinal dos Tempos

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via Universidade do Futebol, por Rodrigo Leitão

(…)

“E a ciência da altíssima performance, necessária e contada pela tecnologia das filmagens, dos recursos de análise de imagem, da medicina que opera milagres e cura ossos quebrados, chegou à final, representada pela pedagogia do esporte, do treinamento desportivo integrado, onde o que é tático, físico, técnico, psicológico e sócio-cultural não se separa.

Chegou à final representada pela seleção da Espanha, país que tem estudado e pesquisado a fundo questões que envolvem meios e métodos de treino no futebol, onde treinadores e cientistas se confundem em uma coisa só, onde teoria e prática não se separam; lugar em que o futebol é um ambiente riquíssimo para se aprender e produzir coisas novas.

Espanha e Holanda não chegaram à final por obra do acaso (certo Einstein?). Enquanto uma vem se construindo com bases sólidas em uma ciência que vê pelos óculos da complexidade, a outra faz do investimento em sua cultura de jogo, temperada por novas idéias e princípios, o ponto forte de sua jornada invicta.”

Além da Espanha, quem ganhou foi o futebol, onde muitos ainda acreditam, que não há mais nada para se “inventar”…

Novos Tempos?

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via Prof. Ms. Aldemir Teles Dema

A matéria principal da revista Época desta semana, anunciada em sua capa, tem o seguinte título: “O cérebro do craque de futebol – A ciência comprova: eles não são bons só com os pés – também são geniais com a cabeça”.

Salvo engano, é a primeira vez que o tema relativo às funções cognitivas no esporte (e o papel do esporte no desenvolvimento dessas funções) é divulgado na grande mídia brasileira, embora já publicado por órgãos de imprensa aqui no estado.

O texto é de excelente qualidade e fiel aos achados científicos, mesmo considerando que o público-alvo, em sua maioria, é leigo no assunto.

Chamaria atenção apenas para a não referência aos aspectos da dinâmica do jogo e a sua imprevisibilidade, que demandam mais atenção, percepção apurada, velocidade na tomada de decisão etc. e, como resposta a essa demanda, as funções que são desenvolvidas.


Acredito que estamos em plena travessia de uma nova fronteira do conhecimento no esporte, ao demonstrar o papel desse no desenvolvimento cognitivo, que tenho defendido como importante mudança no paradigma, (outro paradigma ao qual tenho me aventurado a estudar e defender é o que trata do esporte como meio de “modulação das emoções”).

Assim sendo, podemos atribuir ao esporte função mais “nobre”, condizente com a expectativa da visão cartesiana que impera ainda na sociedade, que supervaloriza a atividade intelectual em contraposição as atividades corporais. Portanto, podemos afirmar que a prática do esporte é também uma atividade intelectual.

Outros sentidos atribuídos ao esporte são popularmente conhecidos como: “esporte é saúde” e “esporte é lazer”, além do famigerado e reducionista conceito de que “o esporte livra os jovens da droga”, como se fosse um antídoto, um contraveneno. 


O próximo passo é sensibilizar os gestores da área esportiva, da educação, pública e privada, educadores, pedagogos, pais de alunos e estudantes para mudar a realidade presente nas escolas, onde a prática esportiva, ao contrário dos países desenvolvidos, quase inexiste, com algumas honrosas exceções. 


A Criatividade no Desenvolvimento do nosso Futebol.

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“Outros países, com doses maiores de humildade e clareza de suas deficiências, fazem cada vez melhores trabalhos com seus jovens nas categorias de base. Nós, por outro lado, neste aspecto continuamos dormindo ‘em berço esplêndido’…”

por João Paulo S. Medina

Podemos analisar o trabalho com as categorias de base nos clubes de futebol sob diversos ângulos. Preferi abordá-lo na perspectiva do seu potencial criativo, tentando com isto dar uma contribuição para a reflexão sobre o nível do nosso futebol.

Durante muito tempo a formação de jovens talentos para a prática do futebol em nosso país se deu de forma quase espontânea, germinado nos quintais das casas, ruas, campinhos, praias, entre outros lugares mais inusitados. Com o desenvolvimento urbano e mudanças de hábitos e mesmo de cultura (a cultura rural, por exemplo, foi praticamente substituída pela urbana nas últimas 6 ou 7 décadas), estes locais foram sendo seqüestrados da população ou, quando não, fortemente “disciplinados”.

Hoje em dia é comum, por exemplo, vermos regras rígidas para que o futebol possa ser praticado até em certas praias que tenham grande movimento de pessoas. Aos poucos, a imaginação e a criatividade, que são exercidas nestas circunstâncias de práticas livres e espontâneas, foram sendo substituídas por práticas cada vez mais reguladas, regulamentadas, disciplinadas, por modelos que tentam reproduzir, desde tenra idade (8, 7, 6, 5 anos), o modelo de futebol profissional, adulto e altamente competitivo.

As chamadas “escolinhas de futebol” e o trabalho feito por muitos clubes em suas categorias de base são os exemplos mais bem acabados destas mudanças. Muitas vezes, liderados por profissionais incríveis e surpreendentemente despreparados (às vezes são professores “formados”), nossas crianças e adolescentes são submetidas a verdadeiras torturas motoras, emocionais e psicológicas. Não fosse o alto grau de resistência presente em nossa maravilhosa e rica cultura brasileira, que acaba driblando com ginga e “malandragem” estas limitações impostas, conseguindo colocar alegria e vida em tudo que faz, e já teríamos destruído este aparentemente inesgotável potencial criativo do nosso povo e, e em especial, do nosso futebol.

Bem, mas já imagino o que você leitor pode estar pensando. Afinal de contas somos 5 vezes campeões mundiais e atualmente somos considerados os melhores do mundo e ainda temos grandes talentos jogando no Brasil e fora dele. Portanto a situação não deve ser tão dramática assim…

No meu modo de ver, temos que rapidamente reconhecer que estamos gradativamente perdendo nossa criatividade, este fundamental ingrediente do futebol brasileiro. E isto não quer dizer que não estejam nascendo mais crianças talentosas com este potencial, como antigamente. O que acontece é que aquilo que surgia de forma quase espontânea, às vezes com a ajuda de alguns adultos com alguma dose de bom senso (pais, professores, treinadores), hoje necessita de uma estimulação cada vez mais consciente e mesmo profissional. Se for verdade que a adequada preparação orgânica, motora, técnica, tática, emocional, social etc. é fundamental, não se pode esquecer de, ao mesmo tempo, criar-se um ambiente de liberdade, favorável às expressões de criatividade. Infelizmente o esforço, através dos processos educativos formais, não-formais ou informais, tem sido muito maior no sentido de matá-la do que de desenvolvê-la. Infelizmente…

Torço para que as nossas conquistas nos campos de futebol, que tantos benefícios profissionais podem nos trazer, não nos deixem cegos para as enormes possibilidades que temos de sermos ainda mais brilhantes neste século XXI. Outros países, com doses maiores de humildade e clareza de suas deficiências, fazem cada vez melhores trabalhos com seus jovens nas categorias de base. Nós, por outro lado, neste aspecto continuamos dormindo “em berço esplêndido”.

Se concordarmos que este potencial já não pode ser desenvolvido de forma tão espontânea como em tempos passados, em virtude de mudanças na nossa maneira de viver, precisamos começar a fazer uma reflexão crítica sobre como melhorarmos este nosso ainda elevado nível de prática futebolística.

Não se constrói um ambiente favorável à criatividade da noite para o dia. Muitas vezes este processo leva anos. Sabemos que existem profissionais competentes com estas preocupações em nossa comunidade do futebol e que estudam seriamente este fenômeno, mas é preciso que esta consciência se amplie e, mais do que isso, que haja políticas (principalmente nos clubes e escolas) incentivando e estimulando a criatividade, este que é, hoje em dia, não só uma matéria prima diferenciada para o futebol, mas para o próprio desenvolvimento humano e social.

A Escola Brasileira Descaracterizada de Futebol

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“A minha preocupação hoje no futebol brasileiro é ver o sub-12 e o sub-13 com cargas excessivas de trabalhos técnicos e físicos. Você perde a vontade de jogar futebol. Nesta fase, você tem que estimular o moleque a gostar de jogar bola, a entender o espírito do jogo. Não ter a preocupação de ganhar, mas de fazer o processo bem feito… que transportando do passado, era o futebol de rua.”

Devemos medir a capacidade de um treinador das categorias de base em relação ao número de atletas revelados que atingiram (e permaneceram!) na equipe principal ou pelo número de títulos conquistados em torneios amadores?

Paulo Autuori, um dos principais treinadores no país, destaca as falhas e carências no processo de desenvolvimento de atletas no futebol brasileiro, quanto a maneira de produzirmos nossos camisas 10, ou seja, sobre o resgate e preservação dos aspectos lúdicos, artísticos e criativos (habilidade criativa!) que levaram o futebol brasileiro a ocupar um lugar de destaque no cenário mundial.

Dica do vídeo enviada pelo http://www.fernandomartinho.com

Confira aqui trechos da entrevista do treinador

Vai Apitar Jogo de Botão!

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Alguém já mandou algum juiz apitar jogo de botão?

Eu já. O Dunga também.

Não estou desmerecendo o nobre esporte bretão de botão… longe disso. Aliás, esporte de mesa apaixonante que me traz saudosas recordações nos confrontos com meu irmão.

Por exemplo, do “homem-gol”, o camisa 11 do Vitória. Seu poder ofensivo era inacreditável. Bastava encostar a palheta com certa habilidade que a bolinha de feltro tinha endereço certo: as caprichosas redes de filó do meu Estrelão.

Mas voltando ao “xingamento”, mandar o juiz apitar jogo de botão era o meu teste de autoridade preferido nos tempos em que eu era bom de bola.

Lembro-me até de uma passagem, onde o treinador do selecionado sub-14 em que jogava, procurando inibir seus atletas a não tomar cartões, repetiu por diversas vezes no vestiário que para aquele jogo em especial, não existiria cartão vermelho. O cartão amarelo seria o suficiente para irmos pro chuveiro mais cedo.

Como as regras sobre cartões mudavam quase sempre para as categorias de base, achei normal o reforço do treinador.

Lá pela metade do primeiro tempo, após algumas botinadas dos zagueiros adversários, me levantei de mais uma falta e encarei o juiz lhe perguntando se não tinha cartão…

Cinicamente, o árbitro veio ao meu encontro e me presenteou com o cartão amarelo. “Tem sim! Esse é só pra você…” – disse o homem de preto.

Recordando-me da preleção do treinador e já me imaginando no chuveiro, educadamente solicitei ao digníssimo que fosse apitar jogo de botão.

E para a minha surpresa, um outro cartão saiu do bolso esquerdo do peito do árbitro, agora da cor vermelha.

Foi o suficiente para eu encarar o juiz com cara de bobo, abaixar a cabeça, seguir pro vestiário e tomar um banho refletindo se o meu treinador estaria preparado ou não para comandar o “homem-gol” no meu Estrelão.

Escola de Futebol ou Fábrica de Frustrações?

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“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”

(Paulo Freire)

Estatisticamente mais de 99% das crianças e adolescentes que sonham em ser atletas de futebol não conseguem seus objetivos.

Portanto se todos aqueles que participam do processo de aprendizagem desses jovens não estiverem muito bem preparados, correm o risco de transformarem os espaços de ensino do futebol em verdadeiras fábricas de frustração.

Por outro lado, o futebol, se bem orientado, pode ser um poderosíssimo instrumento de educação e de construção da cidadania para 100% desses jovens.

Visita ao Bernardo

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Bernardo, o eremita, é um personagem fictício de João Batista Freire, criado para a Universidade do Futebol.

Ontem encontramos Bernardo.

Foi o jovem João Paulo, o JotaPê, quem arranjou o encontro.

Não nos prometeu coisa alguma. Disse apenas que, se tivéssemos sorte, Bernardo poderia quebrar mais uma vez os votos e nos receber para uma visita.

A turma toda quis ir, é claro, mas nem todos puderam. E não é todo dia que se pode conhecer um ermitão. Ainda mais, um ermitão como Bernardo!

Como bem sabemos, Bernardo é um eremita que abriu mão dos escândalos da política brasileira, da falta de ética e da vergonha na cara, que respingam no futebol e na educação deste país. Foi viver no fundo de uma caverna, na companhia de três simpáticos personagens: Aurora, sábia coruja e companheira de muitas noites; Oto, adorável morceguinho e fiel mensageiro; e Arnaldo, o bagre cego deslumbrado com os prazeres mundanos.

JotaPê nos alertou sobre vários cuidados que deveríamos ter no contato com seu velho amigo. Pensar dez vezes antes de falar ou responder alguma coisa eram dois deles. O motivo? Algumas palavras poderiam relembrar traumas antigos. A sigla ‘CBF’ e a palavra ‘Brasília’ estavam praticamente deletadas do nosso vocabulário temporário.

Perguntas? Infelizmente, apenas uma por pessoa. A justificativa era que o tempo seria curto demais e todos ali eram questionadores natos.

Celular ou qualquer outra coisa que fizesse barulho também estava terminantemente proibido.

– Imagine se Bernardo escuta um toque polifônico, tipo 007 ou Cidinho e Doca… Nunca mais teríamos notícias do meu amigo. – reforçou JotaPê.

Demoramos menos do que imaginávamos e, apesar do atraso de ÁS e Luquinha, nosso comboio aproximou-se da caverna lá pelo início da noite. Estávamos em cinco pessoas, incluindo este que vos escreve.

JotaPê parou em frente a caverna e encorpou a voz chamando pelo amigo:

– Bernardo! Bernardo! Sou eu, João Paulo.

Em poucos segundos, algo saiu zumbindo da caverna. Era Oto, que deu um rasante por nossas cabeças sobrevoando o grupo. Voou em círculos por algum tempo, fez uma manobra arriscada e entrou novamente no buraco. O mensageiro era eficiente no reconhecimento de estranhos. Pouco depois, uma voz grave ecoou da caverna:

– Quem está com você, João Paulo? – a voz dava forma à imagem na minha cabeça. Bernardo começava a se materializar finalmente!

– São do bem e de confiança, meu amigo. Vim lhe pagar aquela aposta e arrisquei trazê-los comigo. Há tempos que me pedem este favor.

– Que safra é? – perguntou o ermitão, confundindo alguns. Ninguém sabia da aposta, muito menos qual era o pagamento.

– 1973. – respondeu JotaPê, tirando da mochila uma garrafa de Chateau Mouton.

– Você nunca se esquece de nada, não é mesmo, meu bom amigo? – agradeceu o eremita, com uma voz mais próxima e sem tanto eco.

JotaPê caminhou até a entrada da caverna e colocou no chão batido a garrafa da safra famosa. Em seguida afastou-se e voltamos a olhar numa só direção.

Mais um rasante. E outro! Eram Oto e Aurora que anunciavam a chegada do ilustre habitante.

Finalmente, surgia Bernardo! Um rosto simpático, de um metro e setenta de altura, encoberto por cabelos e pêlos longos e mal aparados. Vestia um manto de trapos bem cerzidos que lhe encobriam até abaixo dos joelhos. As canelas, com algumas marcas profundas, denunciavam, quiçá, um atacante habilidoso que outrora sofrera muito com beques lentos e maldosos. Vinha segurando o prêmio da aposta como quem segura um recém-nascido.

– Desculpem-me pela aparência, mas não costumo receber visitas. – apresentou-se o famoso eremita.

Todos vibraram silenciosamente com a apresentação, mas ninguém arriscou fugir ao protocolo e estender a mão.

– Oto! – gritou Bernardo. – Por favor, vá acalmar o Arnaldo lá dentro. Ele está assistindo novamente o canal da TV Senado e fica empolgado com o tom da voz e as palavras difíceis daquele político de Alagoas. Além disso, a bateria da TV está no fim e hoje a noite tem jogo.

Oto obedeceu imediatamente e sumiu caverna escura a dentro.

Bernardo nos contou depois, que há muitos anos desistiu de argumentar com Arnaldo sobre sua simpatia por pessoas que discursam bem. Para o bagre cego, a regra era clara: Nuzman no céu e Ricardo Teixeira na terra. Mas nos últimos tempos, o senador alagoano vinha correndo por fora com seu imponente linguajar, desafiando a supremacia dos ídolos de sempre.

Pensei comigo: como é que um bagre cego assiste a alguma coisa… E se o Nuzman ou o Ricardo Teixeira eram referência em oratória. Mas, deixa pra lá.

JotaPê foi o primeiro a se aproximar do antigo amigo. Deu-lhe um abraço demorado, com cuidado para não pressionar a garrafa contra o peito de Bernardo.

– Bernardo, estes são meus amigos que lhe falei. A maioria deles já escreveu alguma coisa sobre suas ideias e talvez não pareçam tão estranhos assim. – foi a deixa de JotaPê para que pudéssemos fazer as perguntas.

– Como é que a sua TV funciona, se não vejo fios de energia aqui por perto? – indagou Luquinha.

– O jovem João Paulo, me presenteou com esta maravilha na última vez em que esteve aqui. Trouxe do Oriente e é movida a bateria solar. Uma vez por semana, brindo-a com o sol da manhã, aqui mesmo onde estamos. Tem autonomia para até quatro jogos, com prorrogação e pênaltis. – completou.

– Do que você mais sente falta? – foi a vez de ÁS.

– Dos dribles do Rivellino e do Mário Sérgio, meu querido amigo. Todos entenderam que a resposta não precisava de explicação.

– O senhor acha que o Brasil tem jeito? – perguntou Rodrigo.

– Acho sim. Veja o caso do João Paulo, que há décadas se empenha para fazer do futebol um instrumento de educação, cultura e cidadania. E, cada vez mais, sinto que outros adeptos e colaboradores compartilham desta visão com ele. Outro dia mesmo, Oto me trouxe uma carta de uma menina, que assinava por Aninha M. Ela insistia em dizer que iria mudar o país através do vôlei. Se mais sementes destas germinarem, o Brasil terá jeito sim! E como digo sempre: me dê uma bola que eu ensino qualquer coisa… geografia, história, matemática… – suspirou.

– Qual foi o melhor jogador de todos os tempos do seu time de coração? – emendei.

– Rogério Ceni. – respondeu Bernardo de prima. – E olha que eu já vi até o mestre Ziza jogar… – continuou na defesa da escolha.

Na vez de JotaPê, preferiu não fazer pergunta alguma. Sabia que o velho amigo tinha gostado da visita e do vinho.

– Vou guardar meia garrafa para a sua próxima visita. – agradeceu Bernardo já em tom de despedida.

– Obrigado meu amigo. Sinto a sua falta nessa caminhada para mudar as coisas. – respondeu com voz de saudades o jovem João Paulo.

No caminho de volta, iria me criticar pela pergunta banal. Simples demais. Boba até! Mas confesso que naquele momento, o espontâneo deu lugar ao decorado e saber quem era a sua maior referência no futebol e seu time de coração era o que importava.

De repente vibra um celular. Mensagem SMS recebida.

Nos olhamos preocupados em assustar Bernardo ou lembrá-lo de vícios de uma civilização que um dia abandonara. Quem poderia ter deixado o aparelho ligado depois das orientações tão claras do JotaPê?

E foi o próprio Bernardo quem pediu desculpas para sacar do bolso do monte de trapos cerzidos o celular e ler a mensagem recebida.

“Você é uma gracinha!” – leu em voz alta.

Concordou que era hora de jogar fora aquele aparelho pré-pago e sem créditos que havia encontrado dentro do armário.

Regras do Futebol de Rua

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por Luis Fernando Veríssimo, Para Gostar de Ler – Volume 7

1. A BOLA

A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do irmão menor.

2. O GOL

O gol pode ser feito com o que estiver à mão: tijolos, paralelepípedos, camisas emboladas, chinelos, os livros da escola e até o seu irmão menor.

3. O CAMPO

O campo pode ser só até o fio da calçada, calçada e rua, rua e a calçada do outro lado e, nos clássicos, o quarteirão inteiro.

4. DURAÇÃO DO JOGO

O jogo normalmente vira 5 e termina 10, pode durar até a mãe do dono da bola chamar ou escurecer. Nos jogos noturnos, até alguém da vizinhança ameaçar chamar a polícia.

5. FORMAÇÃO DOS TIMES

Varia de 3 a 70 jogadores de cada lado. Ruim vai para o gol. Perneta joga na ponta, esquerda ou a direita, dependendo da perna que faltar. De óculos é meia-armador, para evitar os choques. Gordo é beque.

6. O JUIZ

Não tem juiz.

7. AS INTERRUPÇÕES

No futebol de rua, a partida só pode ser paralisada em 3 eventualidades:

a) Se a bola entrar por uma janela. Neste caso os jogadores devem esperar 10 minutos pela devolução voluntária da bola. Se isso não ocorrer, os jogadores devem designar voluntários para bater na porta da casa e solicitar a devolução, primeiro com bons modos e depois com ameaças de depredação.

b) Quando passar na rua qualquer garota gostosa.

c) Quando passarem veículos pesados. De ônibus para cima. Bicicletas e Fusquinhas podem ser chutados junto com a bola e, se entrar, é Gol.

8. AS SUBSTITUIÇÕES

São permitidas substituições no caso de um jogador ser carregado para casa pela orelha para fazer lição ou em caso de atropelamento.

9. AS PENALIDADES

A única falta prevista nas regras do futebol de rua é atirar o adversário dentro do bueiro.

10. A JUSTIÇA ESPORTIVA

Os casos de litígio serão resolvidos na porrada.

O Saber de Cada Um

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Reflexões do Mestre João Batista Freire.

Somos muito críticos as vezes com jogadores e técnicos que dizem coisas de senso comum.

Por exemplo, um técnico de futebol sem formação acadêmica, que ao dar entrevista, fala coisas óbvias e que qualquer torcedor mais antenado falaria.

“Como é possível que uma pessoa como esta, que sabe tão pouco, comande uma grande equipe?”

Mas este técnico sabe pouco? Talvez ele apenas não consiga expressar o que sabe.

O saber acumulado, com a experiência do dia-a-dia, tornou-se conhecimento, só que não consegue ser traduzido em discursos falados ou escritos.

No entanto, este técnico é um grande vencedor e que já mostrou repetidas vezes que isso talvez não seja somente obra do acaso ou da sorte. Seu conhecimento contribuiu para diversas conquistas.

Mas se este conhecimento não consegue ser expressado e não vem à público, como saberemos o que ele sabe? Todos nós estamos perdendo com isso.

Há algo a ensinar a este técnico?

Como transformar o conhecimento guardado em discurso falado e escrito?

Desafio este da Universidade do Futebol, que poderá revelar o enorme conhecimento que muitos profissionais possuem e, ao mesmo tempo, enriquecer o conhecimento de muitas outras pessoas.


A Metodologia do Futebol Brasileiro – Vide Bula

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Este medicamento deve ser mantido ao alcance das crianças!

A metodologia do futebol brasileiro, caso viesse com bula, deveria ter marca registrada ( * ) e conter o seguinte:

Informações ao Paciente

Metodologia é o estudo das diferentes maneiras como se ensina.

Portanto, essa maneira de se ensinar, procura resgatar a tradição e a essência do futebol brasileiro, que se construiu mais espontaneamente, através dos jogos populares, disseminada em campos de várzea, campinhos, praias e espaços urbanos improvisados, o que nos garantiu um estilo próprio, peculiar, belo e refinado de jogar futebol, que se aproxima da arte.

É o jeito brasileiro de jogar futebol tão admirado em todo o mundo.

Informações Técnicas

Ação esperada do medicamento: para que este método funcione, há a necessidade de se criar ambientes favoráveis e adequados capazes de provocar estímulos e que possam, além de trazer informações, facilitar o desenvolvimento de conhecimentos, atitudes e habilidades, desenvolvendo atletas com condições de solucionar problemas, dentro e fora de campo.

O método deverá ser pautado no jogo. Dessa maneira, dará condições de formar atletas adaptados ao seu contexto, e não formar atletas deficientes na leitura do jogo ou malabaristas com a bola nos pés.

Informação Técnica Adicional:

Pautar pelo jogo significa procurar desenvolver as competências técnicas, táticas, físicas e emocionais dentro do contexto em que são requeridos no jogo de futebol.

Indicações

Este remédio é indicado para a construção e resgate de atletas talentosos, criativos e inteligentes: os antigos Camisas 10.

Indicado para atletas e seus formadores que pretendam desenvolver um rico repertório de possibilidades de respostas para as diferentes e imprevisíveis situações de jogo.

Contra-Indicações

Não há contra-indicações para esse método. Jogue e brinque a vontade.

Precauções e Advertências

Ao priorizar o ensino fragmentado dos fundamentos (chute, passe, lançamentos, dribles etc.), de forma limitadora, repetitiva e individual, estamos nos distanciando dos aspectos mais criativos, do imprevisível, do intuitivo, do lúdico, do coletivo e das necessárias tomadas de decisão que caracterizam a essência do jogo de futebol.

Reações Adversas / Colaterais

Pode causar estranheza à muitos que assistem de fora este processo de desenvolvimento. Principalmente se não presenciarem práticas tradicionais de treinos, como chutes a gol, dribles em cones, jogadas ensaiadas onde todos respeitam o script etc.

Posologia

Ministrar através de pequenos, médios e grandes jogos, onde os aspectos lúdicos, competitivos e de constantes desafios possam estar inseridos.

Dosar de acordo com o grau de desenvolvimento (da iniciação à especialização), respeitando os níveis de maturação em cada faixa etária.

( * ) A marca registrada do futebol brasileiro é o talento técnico de seus jogadores, caracterizado principalmente pela sua capacidade de improvisação e criatividade.

Maneiras de Ensinar Futebol

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“Quando o cara é da rua, não tem o preparo técnico, ele tem a chance de ser muito mais único, muito mais brasileiro, do que aquele que recebe a escolinha e o treinamento parecidos com o modelo europeu, americano e australiano.”

(Dan Stulbach – Ator, diretor e apresentador)

Entender o futebol não significa apenas entender a técnica, os fundamentos, os gestos isolados, ou mesmo as táticas aplicadas ao jogo.

É preciso compreender que por trás do atleta há sempre um ser humano, sensível, emotivo, que chora, que ri, que sente dores e tem, enfim, necessidades biológicas, psicológicas, sociais e espirituais.

Acreditar que continuaremos produzindo espontaneamente os atletas talentosos – os camisas 10 – em quantidade como antigamente, é um erro estratégico para a manutenção da nossa hegemonia no cenário mundial da bola.

Foram se os tempos em que os campinhos improvisados nas ruas, várzeas e praias eram em maior número do que as escolinhas de futebol.

A maneira espontânea de se aprender a jogar bola foi substituída pela mecanização dos gestos e técnicas, criando-se barreiras e limitações para esse desenvolvimento.

Foi desse aprendizado natural e pouco sistematizado que ‘brotaram’ nossos craques e que mais tarde acabariam por fascinar o mundo com a nossa maneira artística, criativa e lúdica dentro das quatro linhas.

Cabem aos nossos professores e pedagogos, que acompanham a evolução e as tendências da Pedagogia do Esporte, uma sistematização deste processo, numa metodologia capaz de compreender a nossa essência, além das nuances do jogo e do ser humano.

Uma metodologia do genuíno futebol brasileiro.