Um Livro às Quintas

n_meros_do_jogo_abre“É inacreditável o quanto você não sabe do jogo que tem jogado a vida toda.” (parafraseando Michael Lewis, autor de Moneyball, o homem que mudou o jogo)

Segue um dos meus trechos preferidos dos autores Chris Anderson e David Sally:

“Ficou para trás o tempo em que se confiava puramente no instinto, no palpite e na tradição para saber o que era bom e mau futebol. Em vez disso, agora podemos recorrer a provas objetivas. O uso de informações objetivas está mexendo com o equilíbrio do jogo bonito. O futebol não é mais comandado por uma mistura de autoridade, costume e adivinhação, e está entrando em uma fase nova, mais meritocrática.

Isso é uma ameaça para os poderosos tradicionais do esporte, porque indica que eles deixaram de ver alguma coisa, durante todo esse tempo.

Nesse sentido, o futebol é um pouco de religião: sempre houve a percepção de que, para se tornar um especialista, era preciso ter nascido no lugar certo e ter sido iniciado nos rituais desde a mais tenra idade. O futebol tem credos, dogmas, a comunhão com os coirmãos, confissões, códigos de vestimenta, rituais de imersão, cantorias e tudo o mais.

Mas, se os dados permitem que qualquer um se torne um especialista, alguém com uma opinião bem embasada, aqueles que praticam os métodos antigos se tornam menos poderosos, menos especiais, mais sujeitos a questionamento. No limite, eles podem acabar sendo desmentidos; e quanto mais forem desmentidos, menos poder terão.

Se eles são os sacerdotes e os fazedores de papas, nosso papel, como autores de Os números do Jogo, é ensinar a você como ser e como apreciar os iconoclastas e os combatentes da reforma do futebol.”

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Os Números do Jogo também é um relato honesto sobre a menos romântica das situações: o momento em que o futebol parou de ser 100% jogado no campo para ser pré-definido em números. 

Mas como não ser romântico sobre futebol quando o fator humano está presente em cada momento do jogo e insiste em ignorar nossas certezas?

Entender para Transformar – o futuro do futebol brasileiro em jogo.

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O grupo O JOGO, formado por João Paulo Medina, Sandro Orlandelli, Thiago Scuro e este que vos escreve, buscou neste período de reflexões e encontros propostos pelo Futebol do Futuro, responder a estas questões. Embora tenhamos juntado e construido vários elementos para respondê-las, é fundamental, a partir de agora, que estes questionamentos técnicos entrem nas agendas dos responsáveis e dirigentes do futebol brasileiro.

1) Que tipo de jogo os clubes pretendem que suas equipes (principal e categorias de base) joguem no atual cenário do futebol mundial? Já existe esta referência? Como ela é (ou pode ser) construída metodologicamente? Os clubes têm noções claras sobre a importância destas questões estratégicas?

2) Podemos dizer que temos hoje uma “Escola Brasileira de Futebol” que defina modelos de jogo, estilo, padrões táticos? Neste aspecto, em que estágio estamos em relação a, por exemplo, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Holanda?

3) Continuamos produzindo “talentos” (craques) em profusão para o futebol como em décadas passadas? Se não, sabemos por quê? Não haveria um mecanismo de “exclusão” dos verdadeiros talentos (jovens mais habilidosos, mas fracos fisicamente) no atual processo de seleção de atletas na maioria dos clubes do futebol brasileiro, ao se priorizar apenas jogadores que sejam bem dotados fisicamente e mais aptos para ganharem campeonatos e competições nas categorias de base?

4) Os clubes tem clareza sobre como desenvolver seus processos de seleção, captação e desenvolvimento de atletas, sintonizados com as demandas do século XXI e seu processo intenso de globalização?

5) As instituições responsáveis, direta ou indiretamente, pela prática do futebol no Brasil (Confederação, Federações, Clubes, Escolinhas de Futebol, Ministério do Esporte…) tem consciência da importância estratégica de desenvolvermos mecanismos e processos de formação, capacitação e atualização profissionais no futebol (e não apenas para o alto rendimento)? Como são formados hoje os profissionais que atuam no futebol? Este tema está na agenda de nossos dirigentes?

Palestra sobre a Formação do Treinador na Europa

A Formação do Treinador na Europa

Edição da palestra realizada no Footecon 2012 sobre o processo de qualificação profissional para atuação com o futebol na Europa e os desafios ao futebol brasileiro em encarar estrategicamente este cenário.

Episódio da WebSerie ” Especial Footecon” realizada pela Universidade do Futebol.

O Conceito de Educação Corporativa no Futebol

de Eduardo Conde Tega e João Paulo S. Medina

Os processos e métodos de trabalho técnico nos clubes de futebol não pertencem à instituição. Sua sistematização e aplicação são quase sempre de exclusiva responsabilidade dos profissionais contratados pelo próprio clube e que fazem a gestão técnica de campo de suas equipes (treinadores, preparadores físicos, treinadores de goleiro etc.).

É bem verdade que não há como se fazer de outra forma, uma vez que os clubes não possuem – via de regra – uma filosofia definida de acordo com a sua identidade e modelo de jogo que pretendem implantar em seu departamento de futebol, quer em sua equipe principal, quer em suas categorias de base.

A ideia de o clube ter sua própria proposta metodológica de treinamento e de trabalho é algo novo entre nós. Porém, mesmo na Europa, onde os clubes historicamente tendem a se profissionalizar com mais rapidez do que no Brasil, ainda não são todos que a possuem. Mesmo assim, estão mais avançados em relação à realidade brasileira. Barcelona, Manchester United, Arsenal, Ajax, Porto e Bayern de Munique são alguns dos clubes que investem na construção desta estrutura metodológica institucional.

Nos clubes brasileiros, a dificuldade para a implantação de um modelo técnico consistente de trabalho aumenta em razão da alta rotatividade das comissões técnicas, principalmente do treinador. Frequentemente, um planejamento ou uma proposta de trabalho de médio ou longo prazo não resiste a alguns poucos resultados negativos seguidos.

Desta forma, não há como fugir de um círculo vicioso. É como se comparássemos o clube a um computador (“hardware”), e a metodologia de seu departamento de futebol ao programa (“software”) que faz o computador funcionar. Cada troca de treinador ou equipe técnica o “computador” fica vazio à espera de uma nova “programação”.

Por isso, tudo indica que a tendência contemporânea é que os clubes comecem a definir a sua filosofia de trabalho, a partir de sua própria identidade futebolística ou modelo de jogo de suas equipes e, assim, possam contratar melhor seus profissionais e formar seus atletas conforme o perfil exigido, para darem conta de seus objetivos.

Dentro deste novo contexto é que surge a necessidade dos clubes criarem seus próprios ambientes de aprendizagem, através do conceito de “Universidade Corporativa” ou “Educação Corporativa”.

Este conceito já vem sendo aplicado há um bom tempo – e com sucesso – no mundo empresarial, mas só recentemente começa a ser pensado para o futebol.

A ideia surgiu, originalmente, na cabeça do genial CEO e líder empresarial Jack Welch, que entre 1981 e 2001 conduziu um processo inovador de gestão, transformando a General Eletric em uma das maiores empresas do mundo.

Ele percebeu, por exemplo, que enviar seus melhores funcionários para universidades em busca de conhecimentos de ponta (pós-graduações, mestrados etc.) para capacitá-los e/ou atualizá-los era um erro estratégico, devido a duas questões básicas. Em primeiro lugar porque os custos de investimento em capacitação de um funcionário, que ficava um bom tempo ausente da empresa, eram muito elevados. E em segundo, mas não menos importante, porque o assédio de outras empresas por profissionais qualificados resultava, muitas vezes, em perder seus melhores talentos após todo o investimento feito neles.

Jack Welch resolveu, então, trazer a capacitação para dentro da companhia, treinando e desenvolvendo seus melhores colaboradores na cultura da própria empresa. Ao invés de levar os funcionários à universidade, trouxe a universidade aos funcionários.

Institucionalizou os processos, melhorou o ‘software’ e alargou os caminhos para o desenvolvimento de melhores gestores. Deu a esta ideia o nome de “Universidade Corporativa”.

Trazendo estas reflexões para o cenário do futebol podemos perguntar: Quantos clubes no Brasil têm uma “Universidade Corporativa” ou aplicam o conceito de “Educação Corporativa”?

E mais: quantos clubes irão trocar seus treinadores e/ou comissões técnicas durante a temporada, jogando fora um “software” e trazendo outro novo, dando assim continuidade a um círculo vicioso que tem atrasado o futebol brasileiro?

O Rei está Nu

Poder

Estamos no início de novos tempos para o nosso futebol. Não sou vidente, mas é claro o sentimento que mudanças estão por acontecer. E intuo que muitas delas, virão para o bem, ou pelo menos, virão para gerar uma maior reflexão crítica do que vem sendo realizado até então, seja na gestão do espetáculo, na gestão dos clubes ou na maneira de tratar o desenvolvimento dos nossos atletas.

Sempre acreditei que faríamos bem mais pelo futebol brasileiro (e através dele) do que foi realizado nas últimas décadas e o que se percebe é que existe muita gente boa espalhada pelo Brasil na gestão de campo, em especial, os que estão envolvidos nas categorias de base, mas reféns, quase sempre, da estrutura e cultura vigente do clube ou de interesses capazes de mudar a lógica da proposta da formação do atleta, ou da gestão esportiva em si.

E o conhecimento, mesmo que seja considerado relevante, inovador e bem-vindo, torna-se igualmente refém da questão mais antiga na cadeia de evolução da raça humana: as relações de poder.

Ou seja, o quanto de poder vou perder com a chegada dessa pessoa, dessa nova ideia, dessa nova proposta ou projeto?

Quantas vezes estivemos na posição do ameaçador ou do ameaçado?

Comunicação e humildade

Tenho entrevistado ou tido contato com vários profissionais, principalmente treinadores em atividade. Nessas oportunidades, acabamos por discutir as metodologias de trabalho que algumas das principais equipes do mundo desenvolvem, bem como suas aplicações práticas e percebo um índice altíssimo de respostas da maioria desses treinadores, afirmando realizar o mesmo tipo de trabalho que as referências discutidas.

Por exemplo, se discutimos sobre Periodização Táticaque é a maneira de organizar os períodos do treino tendo como norte o modelo de jogo da equipe – escuto que fazem exatamente a mesma coisa no seu dia-a-dia (e sei que NÃO o fazem…).

Se conversamos sobre um trabalho focado em princípios de ataque ou de defesa, também escuto a mesma resposta: “– Faço exatamente isso! ” – mesmo sabendo que esse profissional não tem discernimento sobre um trabalho relacionado à lógica do jogo (inteligência coletiva) de um trabalho fragmentado do jogo.

O que se procura concluir com essa reflexão é que, a grande maioria dos nossos treinadores tem acesso às teorias e conhecimentos produzidos acerca da evolução do “como treinar“, mas não conseguem sistematizá-los na prática. Continuam com uma visão distorcida e fragmentada da construção do jogo, o que vem resultando no nosso distanciamento entre outras tradicionais escolas de futebol.

Precisamos urgentemente de um grito avisando que o rei está nu e um posicionamento mais humilde desta porção de treinadores super valorizada, muitas vezes insensível à revisão de seus conceitos, em função do momento de transição em que se encontra o futebol brasileiro. Em tese, significaria conhecer (entender) teorias que direcionassem seus métodos de trabalho, sem interferir necessariamente no estilo de cada um.

Esta reciclagem conceitual, por exemplo, facilitaria a comunicação entre os profissionais da comissão técnica e atletas, visando o melhor entendimento dos métodos de treinamento e, principalmente, aproximá-los da realidade encontrada no próprio jogo.

Treinar para deixar de dar tanto a posse de bola para o adversário, ou para manter as linhas de zagueiros e volantes sempre próximas e compactadas dos recuos e avanços da equipe ou para aumentar a troca de passes entre seus jogadores.

Alinhar nomenclaturas já poderia ser considerado um primeiro passo dessa reciclagem, onde muitos profissionais poderiam rever detalhes que seus jogadores não conseguiram executar, muitas vezes em função de uma comunicação mal feita do que se pretendia obter no treinamento.

Só dessa forma mais pessoas entenderão o que realmente está acontecendo com o futebol brasileiro, em especial, os próprios treinadores.


Frase da Semana

Teoria e Prática

 

 

 

 

 

 

 

 

“Aqueles que trabalharam no futebol por muitos anos,  jogadores ou treinadores, devem buscar mais conhecimento na área acadêmica e em cursos relacionados ao futebol. Ao mesmo tempo, as pessoas que saem da universidade, devem buscar experiência em categorias de base e equipes menores. Só assim teremos profissionais mais completos e capacitados no futebol.”

(Renê Simões)

A Encruzilhada do Futebol Brasileiro

por Paulo André Benini, no especial da Universidade do Futebol sobre o trabalho metodológico desenvolvido no Brasil.

“Nos esquecemos de investir em planejamento, estruturação e, principalmente, capacitação de profissionais para darmos sequência à produção e consolidação da nossa hegemonia no futebol mundial.”

 

Se dissermos que o jogo de futebol se divide em três princípios básicos e deles, todas as variações são possíveis, eu diria que:

tecnicamente sempre fomos muito superiores a qualquer outra nação;

fisicamente, em algum período, chegamos a ser inferiores;

taticamente sempre sofremos com a falta de disciplina na aplicação da estratégia porque éramos tão melhores jogadores de bola que sempre achamos um jeito de vencer nossos rivais.

Assim sendo, inicialmente decidimos resolver a discrepância física e incrementamos toda a cientificidade oferecida pelos melhores estudos e artigos já produzidos para construirmos o atleta ideal. O intuito era nos equipararmos aos europeus e para isso, quebramos inúmeras barreiras culturais introduzindo a musculação e os treinos físicos específicos para jogadores de futebol.

Durante anos os especialistas na área tinham vontade de vomitar ao escutar dirigentes, treinadores e comentaristas dizendo que a musculação deixaria o jogador travado. De qualquer forma e com certa demora, evoluímos muito na qualidade dos treinos físicos e permitimos que a ciência entrasse no futebol brasileiro.

Até aí, tudo bem.

Conseguimos igualar a valência física e continuamos com a supremacia técnica. Éramos então praticamente imbatíveis. Mas em algum momento da história do futebol e da economia brasileira, os clubes se encontravam em péssima condição financeira e não conseguiam gerar outro tipo de renda que não com a venda de jogadores para o mercado europeu.

Demoramos muito para nos estruturarmos, explorarmos o marketing e a paixão doentia do nosso torcedor, gerando receitas que, aliadas aos direitos de TV, tornassem o clube auto-suficiente. Então, o único meio de sobrevivência encontrado por dirigentes amadores e despreparados naquela época era vender atletas à Europa para solver dívidas e contratar medalhões, ganhando assim, o apoio popular.

Desde então, estamos produzindo jogadores para os europeus, buscando selecioná-los e prepará-los de acordo com o perfil de jogo que facilita essa negociação.

Pior que isso, o nosso erro foi acreditar que o atleta ideal era aquele que existia na Europa. Boa estatura, forte, sem muita ginga (pois futebol já não era mais brincadeira), disciplinado, com bom jogo aéreo e o mais importante, com nome e sobrenome. Chegamos ao cúmulo de tirar até os apelidos dos nossos meninos da base para que eles ficassem mais vendáveis aos olhos e aos cofres do velho continente. Em pleno século 20, ainda éramos colônia, explorados pelos europeus que compravam barato e lucravam com o desempenho e as futuras transferências daqueles “produtos” importados. Apesar disso, nós brasileiros estávamos felizes e pensávamos que essa “facilidade” de achar matéria-prima abundante e vendê-la para o além-mar era a salvação da lavoura. Não nos preocupávamos com o êxodo de jogadores porque a renovação e o talento eram tão naturais do nosso povo que a cada ano surgiam mais e mais jogadores de qualidade. Se quiséssemos, montaríamos três ou quatro seleções em condições de ganhar uma mesma Copa do Mundo.

Nesse período (e durante esse processo), ainda mantínhamos a supremacia técnica e por isso demoramos anos para perceber que o jogo também evoluiu. O futebol passou a ser estudado e analisado tanto quanto o organismo humano ou a economia mundial. Também pudera, algo que gera tantos bilhões de dólares e movimenta outros tantos bilhões de torcedores ao redor do planeta não poderia ser deixado ao azar ou ao talento nato de seus praticantes.

Então, enquanto nos dedicávamos aos treinos físicos – com tiros de 1000m, 300m etc… – os europeus faziam tudo dentro do campo, com a bola. Trabalhos mais intensos e disputados, mini jogos que exploravam especificamente um princípio de ataque ou de defesa, tudo inserido ao jogo.

Cada treino tinha um objetivo e o sincronismo dos movimentos de pressão ao adversário, de bloco alto (encurtar o campo), de trocas de passes rápidas e com o menor número possível de toques na bola se tornaram exigências do futebol contemporâneo.

A linha de 4 defensiva e a tentativa de roubar a bola no campo adversário já eram praticadas muito antes de eu chegar à Europa em 2006. Estamos em 2012 e no Brasil tem gente que ainda fala em ala, três zagueiros e volante de contenção.

A falta de visão, de protecionismo, de estímulos para a manutenção de talentos e de desenvolvimento do estilo brasileiro de se jogar futebol se revela hoje, duas décadas depois, um grave problema.

Nos esquecemos de investir em planejamento, estruturação e, principalmente, capacitação de profissionais para darmos sequência à produção e consolidação da nossa hegemonia no futebol mundial.

Nos preocupamos em vender a nossa Seleção e esquecemos-nos de reinvestir o lucro nas futuras gerações.

Usamos os “produtos” produzidos e formados pelos nossos clubes, mas esquecemos de retribuir o serviço com a criação de campeonatos mais fortes e rentáveis, infra-estrutura de qualidade (estádios, gramados, etc…) e capacitação de pessoas em todas as áreas do esporte brasileiro (gestores, técnicos, preparadores físicos, scouts etc…).

Estamos atrasados.

Quase não temos cursos capacitantes que valham à pena.

O círculo do futebol brasileiro é restrito, fechado e avesso a novas ideias.

Quase não temos estudiosos do jogo, das variações táticas ou dos treinamentos específicos.

Nossa formação de base não ensina para o futebol atual, mas, sim, para o futebol de outrora.

Insistimos em coisas do arco da velha simplesmente porque a maioria dos nossos ex-jogadores (atuais treinadores) não está preparada para formar novos atletas.

Falta conhecimento e posteriormente a aplicação de ferramentas como a teoria do jogo, a psicologia e a pedagogia aplicadas ao esporte para que possamos sair do marasmo em que nos encontramos.

Precisamos abdicar de fórmulas que um dia deram certo e que se tornaram tradicionais para chacoalhar os estaduais, as divisões inferiores e os times “pequenos”, assim como um dia passamos do sistema de mata-mata para pontos corridos, dando mais estabilidade financeira aos clubes e atletas.

Talvez seja a hora de quebrarmos outros paradigmas.

Admitir que o modelo está ultrapassado e que precisamos mudar é o primeiro passo. O problema é que poucas pessoas estão preocupadas com isso. Na verdade poucos enxergam o atraso, só reclamam que a Seleção não está bem.

Novos valores e estudiosos do jogo não conseguem se inserir no meio porque não jogaram futebol e não tem a confiança do mercado. A categoria de base da maioria dos clubes brasileiros está jogada ao Deus dará. Os cargos dentro dos clubes, federações e confederações ainda são políticos e não técnicos. Isso tem que mudar!

O Brasil se encontra em uma encruzilhada.

Na verdade, estamos parados diante dela há alguns anos, observando, com olhos fixos, a estrada que nos trouxe até aqui.

Ela é repleta de flores, encantos e conquistas. Revendo o trajeto, nos apaixonamos pela construção da nossa história e temos a certeza e o orgulho de saber que os melhores times e os maiores jogadores que o planeta já viu foram brasileiros.

Enxergamos também que ganhamos, orgulhosa e merecidamente, o apelido de “País do futebol”, o maior exportador de pé-de-obra que o mundo conheceu.

Dominamos o futebol mundial e possuímos, por anos, estrelas em todos os grandes campeonatos nacionais do velho continente. Todos tinham medo da camisa amarela e os brasileiros, encantados, paravam para ver a seleção canarinho jogar. Por tudo isso, passamos anos desfrutando da beleza do nosso futebol e do avanço que tínhamos sobre os demais.

Acreditamos que tudo era possível ao país que tem no DNA de seu povo, o talento do futebol.

Hoje, olhando ao redor, mais próximos da encruzilhada, ainda pelo caminho que construímos, vemos sonhos, delírios e extravagâncias que desperdiçaram tempo e dinheiro e não se transformaram em nada. Um período sonolento em que a falta de capacidade se justificou de inúmeras formas, especialmente pelo passado esplendoroso que construímos.

Mas eis que recentemente, atônitos e ainda parados na estrada, fomos despertados pelo barulho ruidoso dos motores espanhóis, holandeses e alemães que passaram por nós sem pedir licença. Aceleraram em tamanha velocidade que ainda não conseguimos reparar quais as novas peças da engrenagem os fazem acelerar tão depressa.

E cá estamos nós, olhando fixamente para a encruzilhada buscando dicas de para onde seguir ou qual o melhor caminho a tomar…

Um Livro às Quintas

“Una red de significado interpretada desde el paradigma de la complejidad”

El Modelo de Juego del FC Barcelona – Oscar P. Cano Moreno

MC Sports, 2010.

Oscar Moreno condena e derruba a barreira existente entre teoria e prática, nos conduzindo pelo sinuoso universo das teorias dos sistemas dinâmicos e nos convidando a entender a complexidade do jogo –  desde as evidências da imprevisibilidade à análise minusciosa da construção do modelo de jogo do F.C. Barcelona.

Uma Proposta para as Equipes de Base da Seleção Brasileira

Ney Franco, atual coordenador das categorias de base da CBF, foi o professor convidado no último final de semana, no curso Master em Técnica de Campo, parceria entre Universidade do Futebol e Federação Paulista de Futebol.

Já o conhecia de outras oportunidades, mas esta foi a primeira vez em que debatemos alguns assuntos com mais profundidade.

Talvez o de maior relevância, foi o da intenção do coordenador em estruturar um projeto metodológico para as categorias de base nas seleções amadoras do nosso país, do Sub-15 ao Sub-20.

Foi gratificante escutar este mineiro simpático e de boa conversa – quase uma redundância – e que recentemente se tornou um dos treinadores mais vencedores dos últimos anos, falar criticamente sobre os trabalhos de (de)formação nas categorias de base em nosso país, bem como de sua penúltima experiência frente à Seleção Brasileira Sub-20, que culminou com o título sul-americano.

Independente de sua escolha sobre qual metodologia de desenvolvimento de atletas que pretenda adotar – das tradicionais às pautadas pela complexidade do jogo – o fato mais importante é a existência de um projeto norteador.

As críticas à (de)formação de atletas nos clubes brasileiros tornaram-se comuns nos debates técnicos dos treinadores e coordenadores que acompanham a realidade das categorias de base: inexistência de uma metodologia unificada entre as equipes de um mesmo clube, priorizar a conquista de títulos, desconsiderar aspectos técnicos da inteligência de jogo, falta de critérios técnicos e científicos durante a evolução do processo de desenvolvimento (quando desenvolver o quê e em qual idade), além da ausência de capacitação de qualidade para os profissionais que atuam na gestão de campo, entre tantas outras.

Desejo ao nosso coordenador toda a sorte e as melhores condições de trabalho, necessárias para a implantação de suas ideias.

Orquestra X Exército

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“A bola não entra por acaso?”

Para quem gosta de futebol, falar de Barcelona e Real Madrid é inevitável nos dias de hoje. Principalmente porque num intervalo de 18 dias, teremos o privilégio de acompanhar quatro partidas sendo disputadas entre as duas equipes espanholas: uma pelo Campeonato Espanhol 2010-2011 (empate em 1X1, em Madrid), uma pela final da Copa do Rei (vitória do Real Madrid por 1X0, em Valência) e duas pelas semifinais da Liga dos Campeões da Europa (0X2 em Madrid e 1X1 em Barcelona).

Confesso que há tempos não escrevia um texto mais elaborado, em parte por ter encontrado no Twitter (@tega) uma saída mais rápida para descarregar as ideias, mesmo que limitadas a 140 caracteres. Mas nos últimos dias consegui reunir algumas anotações, contando com ajuda dos amigos, ao fazer a seguinte provocação: como uma orquestra pode vencer um exército?

Esta analogia pode ser percebida se compararmos os desempenhos de duas das principais equipes de futebol do mundo.

O F.C. Barcelona, seria a orquestra. Repleto de músicos tecnicamente excelentes e com inteligência de jogo (*) mais consolidada e acima da média. Possui um maestro competente, de comprovada liderança e de conhecimentos suficientes para reger seus atletas e manter a harmonia da equipe, mas que não é tão fundamental…

O modelo de jogo (o norte, ou seja, como a equipe treina e se porta nos jogos, no sistema defensivo, nas transições e no sistema ofensivo) é muito bem definido e aproxima-se da excelência, e não muda em função do adversário. A posse de bola é muito valorizada durante toda a construção desse processo.

A cultura de jogo mistura-se à sua filosofia: ‘Més que un Club’ e vem sendo construída há anos, reproduzindo-se desde suas categorias de base. O perfil de seus atletas reflete muito bem esta cultura e dificilmente desafinam ou saem do tom, principalmente porque o F.C. Barcelona é um clube formador.

Já o Real Madrid seria o exército. Muito mais dependente de seu comandante, que além de ser um grande líder é peça fundamental ao criar as estratégias e armadilhas que sejam bem executadas em cada batalha. Compromete seus atletas com uma meta principal e extrai o máximo deles, individual e coletivamente. Os soldados também são considerados tecnicamente excelentes, mas com inteligência de jogo em processo de desenvolvimento. Recrutados a peso de ouro, coadunam com o perfil de clube comprador que é o Real Madrid.

Talvez por este motivo fique mais fácil perceber que o clube ainda não possui uma cultura de jogo definida. Já o seu modelo de jogo é bem executado, mas ainda distante da excelência. Mais flexível, muda de acordo com o adversário, valorizando a progressão rápida ao gol.

Se constatarmos que os imaginários “exército” e “orquestra” estão em condições iguais de disputa: mesmo número de jogadores, treinadores ávidos por colocarem seus nomes na história e onde “armas” e “instrumentos” se transformam simplesmente em suor e chuteiras, conseguiríamos determinar quem tem mais chances de sair vencedor dos confrontos?

Em quem você apostaria: na orquestra ou no exército?

Entender melhor o contexto das duas equipes pode nos preparar para realizar escolhas mais acertadas e permitir um melhor convívio com fatores que não podemos controlar. Neste sentido, competência, dedicação, estrutura de trabalho e recursos financeiros são ingredientes importantes, mas não representam tudo o que deve ser considerado.

No futebol, e na vida de forma geral, existem novas maneiras de enxergarmos uma situação, e que coloca em xeque tudo o que acreditamos saber até então.

Como afirma o ex- vice presidente do F.C. Barcelona, Ferrán Sorian, ‘A bola não entra por acaso’.

Mas talvez ela entre sim, mais do que possamos imaginar.

(*) a inteligência de jogo é a capacidade de resolver as situações-problema do jogo de maneira eficiente utilizando seu acervo técnico, tático, físico e psicológico.

O Jogo de Futebol como um Sistema: a Questão do Encaixe


de Luiz Lima, engenheiro.

Quando, lá atrás, comecei a enxergar o jogo como um sistema dinâmico e funcional, penso ter dado um passo importante – vejo isto claramente, hoje – na compreensão do futebol. Todavia, como Norbert Wiener e os cibernéticos da primeira geração, eu não conhecia a natureza intrínseca do sistema, mas sabia o que ele fazia ou realizava o que já era algo de valor. Evidentemente que o Minotauro continuava a me aguardar, no labirinto escuro do mundo da bola (sic), mas o tênue fio de Ariadne começava a se mostrar e orientar meu caminho.

Assim, uma das qualidades ou características do jogo que me despertou especial atenção foi a do “encaixe” (uso o termo na linguagem comum do esporte de propósito). Considero-a tão extraordinária que a pergunta mais dramática ou mais embaraçosa que se pode fazer a um treinador (ou a um analista esportivo) é indagar-lhe das razões pelas quais um time “se encontra” dentro de campo, desenvolve uma prática esportiva eficaz e agradável aos olhos, ditando o ritmo do jogo e auferindo uma vitória daquelas que “vence e convence”, ao final do encontro.

Não deixa de ser curioso, pois a qualidade do “encaixe” de um time pode ser apreendida inclusive a olho nu. Aliás, qualquer menino que acompanha seu pai ao estádio logo percebe se seu time do coração está jogando bem, ou se os atletas estão batendo cabeças. Outra coisa, bem diferente, é sermos capazes de avaliar o status de “encaixado” de uma equipe, ou mesmo de um atleta isolado, lançando mão de algum meio adequado.

O fator que faz a diferença: o “encaixe”

É comum ver pessoas que trabalham ou analisam o futebol preocupadas em identificar aqueles elementos cruciais, que a seu juízo “fazem a diferença” no jogo.

Tais fatores podem ser a entrega, a doação, a determinação, a disciplina, a atitude, a obediência tática, o jogador diferenciado, o esquema tático, o preparo físico, os treinos, o dedo do técnico, a estrutura oferecida pelo clube, o jogo inteligente, e assim por diante.

Na investigação científica, esta é a etapa da identificação e seleção das variáveis que, por suposição, têm o maior poder explicativo ou alta correlação com a variável explicada. Em outras reflexões que faremos neste espaço, oportunamente, voltaremos a este assunto, já que a elaboração de um modelo transita por esta etapa, de forma crucial.

Quando os estudiosos e especialistas em futebol elegem as variáveis acima (ou outras) como as mais importantes ou determinantes para se compreender o modus operandi do jogo, e deixam de fora o “encaixe”, como se fora uma quantité négligeable (*), elas estão cometendo aquele erro fatídico que nos meios acadêmicos é conhecido como “jogar fora o bebê junto com a água do banho”. O bebê, no caso, é o “encaixe” do time.

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Football for Education Catalyzing Opportunities for Social Change

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Entrevista concedida ao Changemakers Ashoka/Nike

“Nowadays, sports are much more focused on financial reward than on educational development. We know that among those trying to start a career in football, very few actually become professional players. Education on the football field should go beyond its four boundary lines” said Thyago Luques, the manager of the “Corinthias Licensed School Initial Kick,” reflecting the current discussion among the first partners group established within the Changing Lives Through Football competition on Changemakers.com.

After submitting its idea, Universidade do Futebol, or the University of Football (or soccer as it is known in the United States) is getting attention from other projects that also use football as a tool for social change.

It is the kick-off for developing and implementing an educational program that aims to expand its methodology, focused on better exploration of all aspects of the world’s most popular sport, especially its social and educational dimensions, for all of Brazil.

Every year Brazil unveils completely new professional football teams with generations of athletes who are constantly trained in the art of playing well. But how does the process of becoming a professional happen in football? What are the roles of the different football schools and teams in Brazil?

These are the main concerns of Como educar pelo futebol, or the “How to Educate Through Football” project, developed by the University of Football, which aims to prevent football schools from turning into “frustration factories.”

Exploring football’s educational, social and well-being dimensions is the University of Football’s motto. The organization was established in 2003 to be an online platform for professional education of athletes, coaches, educators and any other people interested in working in football. The University’s challenging mission is to become a national and global resource for Brazil’s approach to teaching football. In order to achieve its mission, the University relies on a scientific-based instruction strategies and a methodology that, above all, aims to preserve the playful, artistic and creative aspects of Brazilian football.

“The University of Football’s methodology relates to the need to understand the complexity inherent in the reality in which we live. And football is a part of this reality,” explains Eduardo Tega, managing director of the University of Football. “This is the reason the project builds on the teaching idea known as the ‘knowledge web,’ that interconnects several areas, sub-areas and sectors of football’s knowledge universe through an interdisciplinary approach.”

The “How to Educate Through Football” project wants to take advantage of the enormous potential of sports to promote health, education and culture to vulnerable children and teenagers. This year a pilot stage is being conducted in Brazil, with plans for national expansion leading up to the next World Cup in Brazil in 2014. The University of Football’s goal is to modernize Brazilian football, but also impact other sports. That modernization includes proper training for trainers, leaders and managers of football schools.

Participation in the Changing Lives Through Football competition generated recognition by football schools and other organizations that share University of Football’s goal of using sports as a tool for education, inclusion and professionalization. Thyago Luques, manager of Escolas Licenciadas Chute Inicial Corinthias (Corinthias Licensed School First Kick), told Ashoka Changemakers and Nike that he is interested in establishing a partnership with the University of Football. While he already knew about the University, he intends to become more involved with the project developed for football schools.

“I think it is necessary to provide more support to those boys who will not achieve their dreams,” said Luques. “We can show them that even if their dream does not happen inside the field, their goals can be achieved outside it. Hundreds of lawyers, physicians, marketing professionals, journalists, managers, teachers and other professionals work hard to make sport possible. The main change is to clarify, though education and tutoring, that this sport is more than just a goal. In addition to the professional mentoring, sport itself is an important educational tool that we cannot disregard. Educating citizens through sport is much more rewarding than simply training athletes with no values.”

The University has its own methodology, which is based on critical, humanistic strategies for instruction that uses open spaces and students’ contributions in the teaching-learning relationship and searching for enjoyment and interest. “The objective of sports practices goes beyond the simple repetition of movements,” said Tega. “It enables a conscious sport education that is critical, conscious and reflexive, and rooted in diversity, cooperation and autonomy. It is based on human movement, and multiple levels of intelligence, psychology, philosophical principles, and social learning.”

Tega asks, “How do you teach passing in football to kids? On only a technical level, it is mandatory to learn this to be able to play football. This means putting a boy in front of other to mechanically repeat movements with the ball until it becomes automatic. Instead, in the University of Football’s approach, ‘Game Intelligence,’ we developed several short games to help kids learning by playing the pass.

“Take the ‘Fool’s Game’ as an example. Several kids stand in a circle and one kid in the middle tries to touch the ball. Depending on the complexity level required, it is possible to change the number of times the boys are allowed to touch the ball. This game develops the technical action of a pass, as well as movements, such as running forward, sideways and backwards. It also develops multiple intelligences, such as motor, spatial, sensory and interpersonal, and deals with psychological aspects, such as facing challenges and pressure, among others.

“The ‘Fool’s Game’ is just one very basic example from a vast repertoire of activities that allow a differentiated pedagogical approach for teaching football, based on kids’ street play and games, which forms the basis for the playful and creative aspects of Brazilian football.”

Futebol de Rua, or “Street Soccer,” is an organization with a similar approach that also intends to participate in “How to Educate Through Football” project. “We already have places available in Sao Paulo, Curitiba and Rio de Janeiro to start this project,” explains Alceu Neto, president of Street Soccer. Street Soccer also entered the Changemakers’ online challenge, where the two organizations started their interaction.

Neto agrees that in Brazil, an educational approach to sports is rare. “The use of sports as an educational tool is almost nonexistent, with only a few experiences conducted by civil society or private organizations. Without a doubt, if sports were used for educational purposes as well, we would have kids with better school results and would also discover new talents. The most important is not to create new stars, but to insure that 100 percent of these students become citizens, conscious of theirs rights and duties.”

The University of Football is increasingly worried about the purely competitive and financial character that Brazilian and world football is developing. Through its platform, the University is advocating a more social role for football clubs.

“Over the years the University of Football is positioning itself as an institution that debates the most diversified topics about football, expanding reflections from the competitive world to education and leisure dimensions,” said Tega. “Therefore, social responsibility is a part of our debates that have allowed us to develop some projects, including “How to Educate Through Football” and “Citizen Cup and Olympic”.

As the 2014 World Cup approaches, the University of Football believes that this is the right time to lead and encourage a process that trains and identifies qualified professionals from different areas to raise awareness and give attention to subjects that can foster relevant change in Brazilian sports, education, culture and society.

By Changemakers contributing writer, Vanuza de Araújo Ramos.

Ordem no Caos

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“Tornar simples o que é complexo é uma dificuldade de qualquer profissional”

por Tostão

Quando entrei no curso de psicanálise, imaginei que jamais entenderia as ideias de Freud. Logo, percebi que seus textos eram tão claros, convincentes e simples, que até os mistérios da alma tinham lógica. Freud colocou ordem no caos.

Quando joguei ao lado de Pelé, percebi que uma de suas principais qualidades era tornar simples o que era complexo. Tudo se iluminava à sua frente. Antes de a bola chegar, Pelé parecia me dizer, com seu olhar vivo e amplo, tudo o que ia fazer. E fazia, porque tinha uma excepcional técnica. Muitos pensam e não fazem. Outros fazem (mal), sem pensar.

Há muitos jogadores habilidosos, que ensaiam grandes jogadas, mas nada acontece, por falta de técnica e/ou porque não sabem os caminhos mais simples. Enrolam. Parecem talentosos, mas não são. O talento vai muito além da habilidade. O talento é a união da habilidade, da técnica, da criatividade e de condições físicas e psicológicas.

Nada disso é suficiente se não houver o sopro, a chama, que ilumina e incendeia nossas vidas.

O mesmo ocorre em todas as atividades. Assim como os melhores professores não são sempre os melhores médicos, os melhores treinadores não são sempre os que têm mais conhecimentos técnicos, táticos e informações. São os que possuem tudo isso e mais a capacidade de observar, intuir e simplificar.

Não existe também o ótimo técnico somente prático, que fala a “linguagem dos boleiros”, sem ter conhecimentos científicos. A teoria sem a prática é incompleta. A prática sem a teoria é uma grosseira simplificação.

O jovem técnico do São Paulo, Sérgio Baresi, chama atenção em suas entrevistas pelo excesso de palavras e expressões técnicas, acadêmicas, algumas incompreensíveis. Além da insegurança de um jovem, tentando mostrar seus conhecimentos, Baresi, por seus gestos e palavras, parece um estudioso, um CDF, que acabou de sair, após longo tempo, de um laboratório de pesquisas.

Uma ótima reportagem mostrou em um jornal paulista mostrou que Baresi dá treinos com cinco gols, cinco goleiros, faz coletivos com mais de 22 jogadores e outros detalhes, além de distribuir pendrives e DVD´s para os jogadores conhecerem os adversários. Tudo com base científica.

Tomara que Baresi não seja apenas um teórico. O futebol precisa de treinadores e de profissionais que saibam como fazer e que saibam fazer.

Novos Tempos?

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via Prof. Ms. Aldemir Teles Dema

A matéria principal da revista Época desta semana, anunciada em sua capa, tem o seguinte título: “O cérebro do craque de futebol – A ciência comprova: eles não são bons só com os pés – também são geniais com a cabeça”.

Salvo engano, é a primeira vez que o tema relativo às funções cognitivas no esporte (e o papel do esporte no desenvolvimento dessas funções) é divulgado na grande mídia brasileira, embora já publicado por órgãos de imprensa aqui no estado.

O texto é de excelente qualidade e fiel aos achados científicos, mesmo considerando que o público-alvo, em sua maioria, é leigo no assunto.

Chamaria atenção apenas para a não referência aos aspectos da dinâmica do jogo e a sua imprevisibilidade, que demandam mais atenção, percepção apurada, velocidade na tomada de decisão etc. e, como resposta a essa demanda, as funções que são desenvolvidas.


Acredito que estamos em plena travessia de uma nova fronteira do conhecimento no esporte, ao demonstrar o papel desse no desenvolvimento cognitivo, que tenho defendido como importante mudança no paradigma, (outro paradigma ao qual tenho me aventurado a estudar e defender é o que trata do esporte como meio de “modulação das emoções”).

Assim sendo, podemos atribuir ao esporte função mais “nobre”, condizente com a expectativa da visão cartesiana que impera ainda na sociedade, que supervaloriza a atividade intelectual em contraposição as atividades corporais. Portanto, podemos afirmar que a prática do esporte é também uma atividade intelectual.

Outros sentidos atribuídos ao esporte são popularmente conhecidos como: “esporte é saúde” e “esporte é lazer”, além do famigerado e reducionista conceito de que “o esporte livra os jovens da droga”, como se fosse um antídoto, um contraveneno. 


O próximo passo é sensibilizar os gestores da área esportiva, da educação, pública e privada, educadores, pedagogos, pais de alunos e estudantes para mudar a realidade presente nas escolas, onde a prática esportiva, ao contrário dos países desenvolvidos, quase inexiste, com algumas honrosas exceções.