Reflexões sobre o Jeito de ser do Brasileiro: em campo e fora dele

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Por Andrea Sebben

Faz alguns anos li um livro que muito me impressionou e tinha ligação direta com meu trabalho – chamava-se Brasileiros Pocotó. O livro, de Luciano Pires, era uma coletânea de artigos sobre a mediocridade que assola o Brasil em seus diferentes momentos.

O que isso tem a ver com o que faço? Sou psicóloga culturalista, cinco anos praticamente fora do Brasil, vivendo nas melhores universidades européias, ajudo hoje executivos expatriados – ou seja, estrangeiros que chegam ao Brasil ou brasileiros que vão ao exterior por tempo determinado, jogadores de futebol trasladados ao exterior e jovens que vão de intercâmbio. Muitas das empresas que atendemos HSBC, EMBRAER, Nissan, Vivo, Nestlé, Banco do Brasil, Bosch, entendem que nada é mais importante do que a pessoa entender de fato os povos que irão recebê-las. E eu falei entender, não conhecer.

Muita gente acha que basta olhar a etiqueta, a gastronomia, a religião e falar bem um idioma – de preferência o inglês, não necessariamente o idioma dos nativos (o que por si só já justificaria uma grande gafe), que está apto para entrar no cenário global. Não está. Primeiro passo talvez seja mesmo conhecer o país, mas o mais difícil vem depois: compreender.

“- Alguém aí pode me explicar o Brasil?” Dirá um estrangeiro desesperado mergulhado em seus dez primeiros minutos no caos que é o Aeroporto de Guarulhos, onde nós mesmos não nos entendemos. Me explicar, por favor, porque acontecem tantas barbaridades? Alguém pode explicar a um estrangeiro nossa facilidade intrínseca de colocar a responsabilidade no outro e, portanto, nunca responsabilizar-se por nada nem por ninguém. Vocês acham que estou exagerando?

Quantas vezes na sua vida já esteve envolvido em infindáveis telefonemas para os 0800 de telefonia móvel, de internet, de redes de televisão, de clínicas médicas, de órgãos do governo e ouviu: Senhor me desculpa, mas não podemos fazer nada? Ou ainda: desculpa, Senhor, políticas da empresa (quer dizer, não podemos fazer nada novamente.). Ou quem sabe o: Sr, mil desculpas, o sistema não permite (idem ibidem)… Isso quando a ligação não cai depois de quarenta e dois minutos…

Ah, Brasil… Meu papel, como psicóloga culturalista é explicar, aprofundarmos na complexidade do pensamento de cada povo – porque pensa dessa maneira, porque decide de outra, porque comunica numa outra esfera ainda. Mas fazer isso no papel de brasileira para mim é, ás vezes, motivo de vergonha.

Alguns povos lidam com seu ambiente de uma forma irresponsável – ou seja: por ele não tenho gerência alguma. Talvez seja uma questão de sorte, talvez de azar, talvez seja tudo culpa do governo mesmo, ou de Deus (que quis assim) – mas eu? Ah, eu? Eu não conto nada… Afinal de que adianta reclamar? Vai mudar? Não vai mesmo… E assim entramos (todos) no infindável ciclo Pocotó que meu colega tanto comenta.

Ao ausentar-me da responsabilidade, naturalmente o segundo passo é procurar o culpado: e assim o fazemos com Deus, com o trânsito, com a filha doente, com o governo, com o fornecedor, com o cliente ou com um ente querido que muito gostamos de evocar: “a gente”.

Sempre brinco com meus clientes: a gente quem? Tu e teu guia espiritual? Tu e teu amigo imaginário? Quem é a gente?

Como todos sabem, a língua portuguesa nos autoriza a ter seis pronomes pessoais e o brasileiro – com sua infinita criatividade criou um sétimo – a Gente.

“A gente” é uma excelente expressão para eximir-se da responsabilidade. Ela não apenas ilude o interlocutor dando a idéia de que “estou incluído nisso”, mas ainda melhor ela pulveriza o sujeito, esconde ele, mascara num grupo secreto. Será “a Gente” um grupo religioso sectarista ortodoxo que trabalha num porão escuro ás expensas do pobre brasileiro que queria responsabilizar-se, mas “a Gente” proíbe?

Quem disse para fazer isso? A gente.

Quem não quis mandar o mail? A gente.

Quem se esqueceu do documento? A gente.

Quem decidiu ir embora mais cedo? A gente.

E como explicar para o estrangeiro o pronome “A gente”?

Sempre digo que a gente pode de fato ser um grupo, mas freqüentemente é a própria pessoa que está falando. Mas então porque não usa o “eu”? Ah… Porque “eu” não vou me expor dessa maneira. Será que ” a gente” se dá conta disso?

A responsabilidade, portanto não é lá uma grande virtude em solo brasileiro. É confundida com exposição, com maturidade, com autoridade. Sabe lá (Deus) o que vão fazer se eu me pronunciar? Melhor mesmo é seguir escondidinho aqui.

E num país coletivista, onde o indivíduo vale tão pouco mesmo, acrescentado o fato de que somos jovens, imaturos, um grande adolescente em conflitos de crescimento por que preocuparmo-nos com a responsabilidade? Ah, isso o tempo resolve…

E sem percebermos, cria-se a cultura da corrupção e da negligência. Corrompem-se as normas da boa conduta, da honestidade, da integridade, do olho-no-olho, do ser escutado e respeitado como cidadão e do que sei que posso contar com você. Á propósito, alguém aí se sente realmente amparado a fim de poder contar com alguém nessas situações?

Vamos ao futebol.

Como disse anteriormente, trabalho nas melhores empresas multinacionais deste país, fazendo o Treinamento Intercultural de presidentes, vice-presidentes, diretores e uma infinidade de pessoas altamente qualificadas que estarão se mudando para o exterior em breve a fim de cumprir suas missões profissionais. Em um público bem diferente deste, faço a mesma coisa com adolescentes entre catorze e vinte e poucos anos que vão para o exterior estudar. E no meio do caminho, tenho um público muito especial que é a fusão de ambos: o jogador de futebol.

Este, similar ao executivo, irá para o exterior com uma sobrecarga de tarefas e responsabilidades que todos sabemos é tão grande quanto, ou se não maior da que o profissional brasileiro da empresa americana que acaba de assumir a presidência na Coréia do Sul. Ou seja: só desafios pela frente, de toda ordem.

Na mesma linha, salários altíssimos e pressões ainda mais para fazer o gol de placa que todos esperam. Concordam? Soma-se a isso o fato de que assim como o executivo, o jogador poderá levar junto sua esposa e seus filhos – um capítulo ainda mais complexo da novela migratória, que neste caso, começa a assumir contornos diferentes do esperado.

Quando comecei a ofertar nosso trabalho junto aos jogadores e suas famílias – todos eles então sobrecarregados de esperança e pouco municiados em ferramentas sócio-cognitivas ( até pela pouca idade ou pela absoluta falta de experiência com culturas estrangeiras) o resultado natural da oferta, em meu ponto de vista e daqueles com quem conversava era de que todos os envolvidos, fossem eles, os clubes ou os empresários se deleitariam com a possibilidade de mais qualificação e suporte num momento tão importante de suas vidas. Correto?

Infelizmente não. Começam os telefonemas para os clubes brasileiros, cuja telefonista nos passa para a assistente social, que por sua vez nunca está presente e menos ainda retorna nossas chamadas. A cada tentativa, a resposta: “Não sei Sra, quando ela vai estar. Quer deixar recado?” E na ciência de que o recado não seria eficiente, pergunta-se: E como posso fazer para encontrá-la então? A resposta é sempre fatídica: “A gente não tem como prever…”

Previsões à parte, algumas poucas vezes os telefonemas são atendidos, e não mais que meia dúzia de vezes somos jogadas entre a assistente social e a psicóloga, cujas respostas harmoniosas são: “A gente já faz isso que você está oferecendo”. Mas a gente quem? Você ou a psicóloga?, pergunto. “Nós duas…” E partíamos dali com a certeza de que nem uma, nem a outra, haviam entendido sequer o que fazíamos.

E finalmente, os empresários, também sócios ativos da “Sociedade Secreta A Gente”, cujas respostas são: “A gente até queria que o jogador fizesse este tipo de trabalho, mas ele não quis…”… E podemos falar com ele? “Olha, isso a gente não pode fazer… É complicado falar com ele.”

Quando podemos encontrar com Sr. Fulano? “Ah, isso é bem difícil… a gente nunca sabe por onde ele anda…” E talvez uns sete ou dez meses de telefonemas tentado encontrá-lo para que as respostas sejam: “Acho muito importante esse trabalho, mas sabe como é o futebol, né? A gente quer profissionalizar, quer mudar as coisas… mas é difícil. Um dia a gente chega lá..”

E termino minha reflexão me perguntando com uma desesperada curiosidade: quem é o futebol? Quem faz esse grupo secreto, inatingível, cujos objetivos todos são truncados pela “gente”?

Quem se responsabiliza pela mudança? Pelo bem-estar do jogador? Pela competência intercultural dele, de sua família? Pela sua qualificação como profissional e como ser humano que o Treinamento Intercultural propõe?

“Não sei Senhora, não sou eu quem cuida disso”, ouvimos. Quem cuida então (uma vez que eu estava falando com todos os envolvidos no tema)? “Não sei Senhora.” Mas quem se responsabiliza??? “Também não sei, Senhora.”

Bem, eu também não sei.

Mas sei que estamos mergulhados numa cultura de exclusão: a exclusão da responsabilidade pessoal, a exclusão do indivíduo, a exclusão da cidadania, a exclusão do auto-respeito, inclusive, que desmoraliza a todos nós quando nos escondemos de nós mesmos. Hoje “a gente” se misturou uns aos outros, a palavra do indivíduo pouco vale, o pensamento individual foi banido, a responsabilidade mais ainda, e tudo, – tudo – pulverizamos entre “a gente” mesmo, que talvez um dia, acabe decidindo por dar mais atenção a competência intercultural de nossos jogadores.

Perdendo e Aprendendo

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“…Imagine o discurso do técnico do Estudiantes num vestiário brasileiro. Cartolas e boleiros recomendariam sua internação.”

Por que o Estudiantes é Tetra

por André Kouri

“Eu pedi aos jogadores que olhassem para o céu. Eles veriam uma enorme camisa do Estudiantes, encontrariam os ex-campeões, estariam na sala de suas casas. Pedi que saltassem e se agarrassem nas estrelas, que levassem essa camisa. E disse que essa camisa iria a todas as partes do mundo. Era a camisa deles.”

Essas foram as últimas palavras do técnico Alejandro Sabella, aos jogadores do Estudiantes de La Plata, antes da decisão contra o Cruzeiro.

No vestiário, os argentinos podiam ouvir o Mineirão lotado.

Sabella os preparou para que não sucumbissem ao ambiente hostil.

Tratou de criar uma conexão entre seus comandados e o sentimento que não os deixaria sozinhos, num gramado brasileiro: os 35 anos de saudade do último título de Libertadores conquistado pelo clube.

A história do futebol é quase sempre contada pelos vencedores.

É óbvio que Adílson Batista também falou com seus jogadores, também lhes mostrou um vídeo motivacional.

Esta coluna não é uma supervalorização do discurso de um treinador, não credita o título do Estudiantes às subjetividades propostas por Sabella.

É apenas uma constatação das diferenças entre as duas principais escolas de futebol do mundo.

Diferenças que são, acima de tudo, culturais.

No momento em que um clube brasileiro perde, mais uma vez, e em casa, a decisão de Libertadores para um adversário argentino, a análise precisa sair do campo.

O que decidiu o jogo?

A maneira como o Estudiantes absorveu o gol do Cruzeiro, e a maneira com o Cruzeiro não absorveu o empate.

Do 1 x 0 ao 1 x 1, seis minutos.

Do 1 x 1 ao 1 x 2, quinze, tempo em que o goleiro Andújar não sofreu ameaça.

Atrás no placar, e com o Mineirão em festa, o time argentino continuou jogando.

Após o empate, que apenas prolongaria a final, o time brasileiro parou.

Já vimos filmes parecidos, com outras cores e em outros cinemas nacionais.

Os (bons) times argentinos raramente abandonam seu plano de jogo.

Levam gols e parecem nem ligar.

Fazem gols e tomam conta.

E quanto mais festejam títulos por aqui, menos se preocupam em decidir aqui.

São times mais obedientes taticamente, mais conscientes do que podem e não podem fazer, mentalmente mais fortes.

O que não tem só a ver com futebol.

Tem a ver com a formação das pessoas.

O jogador argentino “standard”, nota 6, é melhor do que o brasileiro.

E é mais profissional do que o brasileiro.

Como nas competições entre clubes há mais jogadores comuns dos dois lados, a superioridade fica exposta, principalmente na hora mais importante.

Superioridade que aumenta quando há um “top-de-linha” envolvido, como Juan Sebastián Verón.

Quando a parada é entre os “tops” de cada país, seleção contra seleção, a vantagem é nossa, porque os temos em maior quantidade.

Imagine o discurso de Alejandro Sabella, num vestiário brasileiro.

Cartolas e boleiros recomendariam sua internação.

E alguém ainda perguntaria quem eram os “ex-campeões”, ou o que aconteceu há 35 anos.

A evolução do nosso futebol acompanhará nossa evolução como sociedade.

Gol e Música

“O que acontece conosco ao assistirmos uma história como a de Paul Potts?  Emoção semelhante ao momento do gol?”

O comercial da Telekom da Alemanha capta uma série de emoções e sentimentos do caso Paul Potts, um ex-vendedor de celulares que em 2007 participou de um show de calouros promovido por um canal de tv inglês, onde o prêmio maior seria cantar pessoalmente para a rainha da Inglaterra.

De terno surrado, aparência simples e desacreditado por muitos, conquistou jurados, crítica e público, acabando por cantar para a senhora Elizabeth, no palácio de Buckingham.

Paul sempre acreditou que nascera para fazer o que mais gosta. Realizou seu sonho ao cantar ópera e emocionar milhões de pessoas pela tv e internet.

O que acontece conosco ao assistirmos uma história como a de Paul Potts? Seria a música que nos arrancaria sentimentos parecidos com a comemoração de um gol? Ou seria simplesmente o enredo de Gata Borralheira que nos torna mais sentimentais?

Ao questionar alguns atletas, as emoções são parecidas: momentaneamente, buscamos um abraço, um sorriso e sentimos uma estranha alegria que contagia a alma, extravasando o brilho dos olhos molhados com um grito de gol.

A história completa (e real) pode ser vista no link abaixo e é tão, ou mais emocionante, que o comercial deste post.

Paul Potts – Youtube legendado