Futebol Brasileiro: Fechado para Balanço

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Diagnóstico do Futebol Brasileiro

por Eduardo Conde Tega, CEO da Universidade do Futebol.

Como reflexo natural do fracasso do futebol brasileiro na Copa do Mundo, a sociedade passou a refletir em diversos níveis sobre assuntos que comumente não eram aprofundados em tempos de fartura: calendário, qualidade do jogo, fairplay financeiro, dívida dos clubes, governança, violência, público nos estádios, formação de atletas e outros temas fundamentais na compreensão mais ampliada sobre o quão inóspito e desestimulante se tornou o ambiente para quem pratica e participa do futebol de alguma maneira.

Muitas das saídas encontradas para este cenário, que ainda não se estagnou e que deve piorar, são soluções paliativas e que tratam de forma muito individualizada os reflexos desta inércia. Geralmente, nem mesmo o melhor gestor, a sorte, recursos, competência e vontade de fazer direito acabam sendo suficientes para que o clube encontre uma solução no seu crescimento sustentado, através da busca equilibrada de receitas, por exemplo.

Em que ambiente são tomadas decisões impactantes sem conhecer mais profundamente suas causas?

O futebol deveria ter fechado para balanço e diagnosticado em todas as suas dimensões de atuação, de forma profunda e responsável, desde a derrota para a Holanda por 3 a zero, no dia 12 de julho de 2014.

Durante este ano, teríamos compreendido nossas fragilidades e potencialidades, com os diferentes e relevantes agentes que participam deste mesmo ambiente ruim e pouco atrativo onde o futebol é praticado.

Saberíamos, por exemplo, que as categorias de base foi um dos setores que mais avançou nos últimos dez anos, com profissionais preparados, que buscam equilibrar a prática com o conhecimento científico, mas quase sempre estão reféns de um dirigente amador sem fundamentação técnica nas decisões mais estratégicas.

Ficaríamos intrigados com a transformação do perfil do nosso jogador, que há décadas se desenvolvia de uma forma natural e espontânea nos campinhos e nas ruas, e que passou a ser “desenvolvido” numa prática mais sistematizada, regulada e mecanizada nas Escolinhas, tornando o ensino do futebol de hoje em dia muito diferente da forma como o aprendíamos antigamente.

Entenderíamos que o Brasil é ainda um dos poucos países do mundo que não exige qualificação ou certificação profissional para quem atua como técnico de futebol, revelando o descaso de décadas na formação adequada de seus profissionais.

Perceberíamos que o método de formação de atletas ainda é tratado pela maioria de forma fragmentada e autoritária, supervalorizando os aspectos técnicos e provocando ações mecânicas pouco criativas e comportamentos estereotipados, produzindo uma leitura insuficiente do jogo.

Perguntaríamos a quem poderia interessar a lógica deste calendário irracional e improdutivo, que durante a maior parte da temporada mantém milhares de profissionais desempregados e centenas de clubes do interior inativos, dificultando o vínculo com seu torcedor, que passa mais da metade do ano sem assistir seu time de coração jogar.

Acordaríamos para a realidade de que a camisa infantil mais vendida em nosso país é a do F.C. Barcelona, de Messi e cia.

Questionaríamos a origem associativa dos clubes, que em seus estatutos não possui fins lucrativos, mas que, na prática, movimentam cifras milionárias e com pouca transparência na negociação dos atletas.

Reforçaríamos o entendimento sobre o papel desregulado e desproporcional entre agentes, empresários e clubes formadores.

Lamentaríamos a relação entre o grande fluxo de exportação de jovens atletas e a importação das grandes Ligas Europeias na forma de pay-per-view.

Ficaríamos preocupados ao saber que em recentes pesquisas sobre o comportamento do torcedor brasileiro, o índice de pessoas que declararam não torcer para time algum, inclusive para a Seleção Brasileira, aumentou em 25% nos últimos quatro anos.

E, finalmente, duvidaríamos se estamos realmente no século XXI, o de democracia e redes sociais, ao entender que as entidades organizadoras de competições (federações e confederação) são praticamente feudos do século XIII, que concentram a riqueza do futebol brasileiro e definem seu rumo de acordo com os seus respectivos interesses privados.

O maior vexame do futebol brasileiro faz seu primeiro aniversário e, lamentavelmente, continuamos sem um norte, sem um plano de desenvolvimento para o nosso futebol.

Até quando este enfermo futebol brasileiro, paciente da UTI há anos, vai aguentar permanecer nas mãos dos especialistas de sempre?

Vamos continuar dependendo de um eventual fracasso ou sucesso da Seleção Brasileira para reverem suas prescrições?

Parabéns a vocês!

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Mano Menezes, Treinador das Categorias de Base do Internacional de Porto Alegre

por João Paulo Medina

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Há dez anos novo treinador da seleção brasileira já demonstrava potencial diferenciado

Fico feliz com a notícia de que Mano Menezes é o novo treinador da Seleção Brasileira. Não deixando de considerar as enormes dificuldades que o novo comandante técnico terá que enfrentar, diante da falta de preocupação efetiva da CBF em contribuir para a estruturação do futebol brasileiro, creio que ele poderá levar um pouco de modernidade ao difícil trabalho a ser realizado.

Conheci o Mano no ano 2000. Nesta época eu era Coordenador Técnico do Departamento de Futebol do S. C. Internacional e tínhamos uma vaga para treinador da equipe juvenil. Buscando modernizar o modelo de contratação de nossos profissionais, anunciamos a vaga após definirmos internamente o perfil de profissional que queríamos. Alguns itens deste perfil incluíam que o candidato fosse formado em educação física, atualizado e atento à evolução do futebol em todos os seus aspectos, tivesse experiência com o trabalho de categorias de base, facilidade de comunicação e, sobretudo tivesse ambição de crescimento e liderança.

Lembro-me que recebemos dezenas de currículos de pretendentes ao cargo. Alguns deles meus amigos e que – não obstante suas qualificações – viam nesta amizade um caminho mais curto para que fossem o escolhido.

Após analisar cuidadosamente cada CV, uma equipe formada para este propósito selecionou 5 candidatos para uma entrevista individualizada. Além de mim, faziam parte desta comissão de avaliação, o coordenador e o diretor de futebol das categorias de base e, por um interesse especial e particular, o próprio presidente do clube na época, Fernando Miranda.

Como já havíamos feito uma seleção prévia, não nos surpreendeu o fato de que todos os 5 treinadores e candidatos entrevistados apresentassem boas qualificações. Porém nenhum parecido com as qualidades apresentadas por Mano Menezes. Em pouco mais de meia hora de conversa ele desfilou amor e dedicação por seu trabalho, segurança e convicções sobre vários temas relacionados ao futebol, conhecimentos gerais e específicos e capacidade para lidar com grupos e situações-problema (ou seja, liderança).

Não hesitamos em escolhê-lo como o novo treinador da nossa equipe juvenil. Suas atuações no desenvolvimento do seu trabalho, na sequência, nos deram a convicção de que tínhamos feito a escolha certa.

Deixo registrado aqui este período da carreira do Mano Menezes, já que ele próprio não gosta muito de lembrar-se dele, uma vez que terminada a gestão da diretoria eleita para administrar o Inter nos anos 2000 e2001, foi dispensado pelos novos dirigentes do clube, apesar de suas enormes potencialidades.

Da minha parte fico orgulhoso de ter contado com a participação ativa deste profissional em um trabalho que, sem nenhuma dúvida, resgatou a saúde de um clube que durante muito tempo lutava por sua sobrevivência entre os grandes do futebol brasileiro.

Desejo ao Mano Menezes um pouco de sorte em seu novo desafio já que competência para contribuir com a evolução do futebol brasileiro não lhe falta.

Felipão e Mano Menezes: uma dupla para a Seleção


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Na semana que antecede a divulgação do nome para o cargo de treinador da Seleção Brasileira até a Copa de 2014, ouvi de um sábio uma interessante sugestão.

E se a CBF convidasse para compor sua comissão técnica a dupla Luís Felipe Scolari e Mano Menezes?

Felipão como treinador e Mano Menezes como assistente técnico.

Os salários não seriam um problema para a CBF, nem tampouco a questão de ego dos dois, profissionais bem resolvidos e conhecedores de seus papéis.

Luís Felipe administraria qualquer crise de curto prazo e, com a devida experiência, levaria uma boa e renovada equipe até 2014.

Mano seria preparado para a passagem do bastão, assumindo a equipe para o Mundial de 2018, já conhecedor das dificuldades e pressões que um treinador de Seleção Brasileira tem que passar.

Com dois profissionais deste nível, a (boa) ideia da renovação pretendida pelo presidente Ricardo Teixeira poderia acontecer além da equipe principal, estendendo-se às equipes de base e permitindo uma real intervenção no atual trabalho de convocação dos melhores atletas pelo país, que ainda são chamados com base no “Q.I”.

Afinal, estamos falando de renovação não apenas para 2014.

Os atletas que irão compor a base da Seleção de 2018 possuem hoje entre 11 e 16 anos, portanto já foram captados por algum clube formador.

E onde estão sendo realizados os melhores trabalhos de desenvolvimento de talentos pelo país?

Não responda baseando-se apenas nos clubes que possuem Centros de Treinamento de luxo.

Questiono sobre os métodos de trabalho, ou seja, os processos para desenvolvermos atletas acima da média mundial e que saibam resolver os problemas mais adversos dentro e fora de campo.

Talvez um caminho para esta resposta seja investigar em quantos destes trabalhos a educação tem peso.

E escola pública não conta.