A Velocidade Tática no Futebol

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“Penso que tem de haver no fundo de tudo, não uma equação, mas uma idéia extremamente simples. E para mim essa idéia, quando por fim a descobrirmos, será tão convincente, tão inevitável, que diremos uns aos outros: Que maravilha! Como poderia ter sido de outra maneira?” (John Archibald Wheeler)

por Rodrigo Leitão, Via Universidade do Futebol

Comecemos com o conto do “Macaco que queria ser mais rápido do que o Guepardo”.

“Depois de muitos anos sem se ver (havia pelo menos três, desde a última conversa no zoológico) o “Macaco da Floresta” e o “Guepardo das Savanas” marcaram de se encontrar. Já na época do zoológico os bichos mais chegados viviam desafiando os dois amigos a provar quem era o mais rápido. O guepardo, famoso pelas arrancadas nos descampados do zôo nunca se incomodou; sempre teve claro para si que era o mais rápido. O macaco por sua vez acreditava que nenhum outro animal poderia ser mais rápido do que ele nos emaranhados labirintos de árvores da mini-floresta em que vivia.

Meio dia era o horário do encontro; mas faltando cinco minutos, lá já estavam os dois a conversar. Falaram do passado, das saudades, da boa e velha amizade e (impossível não resgatar o assunto!) sobre o “desafio da velocidade”.

Os dois perceberam que se esperassem mais algum tempo, com a idade chegando, já não estariam aptos a desenvolver as grandes velocidades que os faziam famosos no zoológico. Como não sabiam quanto tempo mais levariam para se encontrar novamente resolveram enfim por em prova o desafio.

O guepardo, sem hesitar, logo propôs uma corrida de 300 metros numa savana próxima dali. O macaco, reflexivo, não gostou muito da idéia e disse que o melhor mesmo era que corressem por um trecho de 500 metros por uma floresta que os humanos chamavam de Amazônia.

Como não chegavam a um consenso, sabiamente resolveram fazer duas provas: uma na savana e uma na floresta.

Sem avisar os outros bichos (só a águia ficou sabendo), prepararam o desafio. No primeiro dia iriam à savana, e no outro à floresta.

Na savana, com mais de 15 segundos de diferença o guepardo venceu tranqüilo e sorridente. O macaco, por mais que tenha se esforçado não conseguiu chegar nem perto.

Na floresta, não teve jeito. O guepardo acelerava e logo dava de frente com uma árvore. A cada um ou dois segundos precisava desviar de um obstáculo. Resultado, com mais de 15 segundos o macaco chegou na frente.

Embaraçados e sem saber quem era o mais rápido consultaram a velha e sábia águia, que sem pestanejar logo concluiu: vocês dois são os mais rápidos. Cada um no seu ambiente específico; cada um naquilo que faz diariamente no seu habitat.

O guepardo, insatisfeito com a conclusão da águia, resolveu consultar uma equipe de bichos fisiologistas acostumados a trabalhar com atletas. Depois de algumas fotocélulas e alguns “tiros” (leia sprints) de 30, 40, 100 e 400 metros a conclusão (os fisiologistas foram taxativos!) chegou nua e crua: o mais rápido era o guepardo.

Como o macaco e o guepardo eram amigos e não queriam ficar discutindo o assunto, foram até a casa do macaco na floresta beber uma “seiva”. E foi aí que ocorreu uma tragédia. Depois da queda de um balão a floresta ficou em chamas e o fogo rapidamente começou a se alastrar. Quando o macaco e o guepardo perceberam já era tarde e precisaram sair correndo (estavam a uns 30 segundos da clareira mais próxima).

Tinham que correr; rápido, 30 segundos talvez não fosse tempo suficiente. E realmente não foi. O macaco conseguiu escapar (em 10 segundos estava livre do fogo). O guepardo, pressionado pela necessidade de ser rápido e desorientado pelas mudanças de direção que fazia para não bater nas árvores, acabou virando cinzas junto com elas”.

Ainda que isso tudo seja somente um “conto”, me traz boas reflexões a respeito do jogo de futebol.

Em um passado recente o futebol fora dominado pelo raciocínio de que a “supremacia” física seria a solução imediata para conquistar êxitos nos resultados dos jogos. Jogadores mais fortes, velozes e resistentes levariam vantagem sobre seus pares não tão avantajados, e esse deveria ser o novo norte da preparação do jogo.

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Perdendo e Aprendendo

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“…Imagine o discurso do técnico do Estudiantes num vestiário brasileiro. Cartolas e boleiros recomendariam sua internação.”

Por que o Estudiantes é Tetra

por André Kouri

“Eu pedi aos jogadores que olhassem para o céu. Eles veriam uma enorme camisa do Estudiantes, encontrariam os ex-campeões, estariam na sala de suas casas. Pedi que saltassem e se agarrassem nas estrelas, que levassem essa camisa. E disse que essa camisa iria a todas as partes do mundo. Era a camisa deles.”

Essas foram as últimas palavras do técnico Alejandro Sabella, aos jogadores do Estudiantes de La Plata, antes da decisão contra o Cruzeiro.

No vestiário, os argentinos podiam ouvir o Mineirão lotado.

Sabella os preparou para que não sucumbissem ao ambiente hostil.

Tratou de criar uma conexão entre seus comandados e o sentimento que não os deixaria sozinhos, num gramado brasileiro: os 35 anos de saudade do último título de Libertadores conquistado pelo clube.

A história do futebol é quase sempre contada pelos vencedores.

É óbvio que Adílson Batista também falou com seus jogadores, também lhes mostrou um vídeo motivacional.

Esta coluna não é uma supervalorização do discurso de um treinador, não credita o título do Estudiantes às subjetividades propostas por Sabella.

É apenas uma constatação das diferenças entre as duas principais escolas de futebol do mundo.

Diferenças que são, acima de tudo, culturais.

No momento em que um clube brasileiro perde, mais uma vez, e em casa, a decisão de Libertadores para um adversário argentino, a análise precisa sair do campo.

O que decidiu o jogo?

A maneira como o Estudiantes absorveu o gol do Cruzeiro, e a maneira com o Cruzeiro não absorveu o empate.

Do 1 x 0 ao 1 x 1, seis minutos.

Do 1 x 1 ao 1 x 2, quinze, tempo em que o goleiro Andújar não sofreu ameaça.

Atrás no placar, e com o Mineirão em festa, o time argentino continuou jogando.

Após o empate, que apenas prolongaria a final, o time brasileiro parou.

Já vimos filmes parecidos, com outras cores e em outros cinemas nacionais.

Os (bons) times argentinos raramente abandonam seu plano de jogo.

Levam gols e parecem nem ligar.

Fazem gols e tomam conta.

E quanto mais festejam títulos por aqui, menos se preocupam em decidir aqui.

São times mais obedientes taticamente, mais conscientes do que podem e não podem fazer, mentalmente mais fortes.

O que não tem só a ver com futebol.

Tem a ver com a formação das pessoas.

O jogador argentino “standard”, nota 6, é melhor do que o brasileiro.

E é mais profissional do que o brasileiro.

Como nas competições entre clubes há mais jogadores comuns dos dois lados, a superioridade fica exposta, principalmente na hora mais importante.

Superioridade que aumenta quando há um “top-de-linha” envolvido, como Juan Sebastián Verón.

Quando a parada é entre os “tops” de cada país, seleção contra seleção, a vantagem é nossa, porque os temos em maior quantidade.

Imagine o discurso de Alejandro Sabella, num vestiário brasileiro.

Cartolas e boleiros recomendariam sua internação.

E alguém ainda perguntaria quem eram os “ex-campeões”, ou o que aconteceu há 35 anos.

A evolução do nosso futebol acompanhará nossa evolução como sociedade.

Conhecimento Tático ou Inexperiência?

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“…talvez a vantagem de Dunga seja não ter tido tempo e experiência como técnico dentro do nosso bom futebol brasileiro; e só com isso, já apresenta resultados mais satisfatórios do que seus antecessores em vários aspectos.”

por Rodrigo Leitão, via Universidade do Futebol

Começo a pensar que aquela que era para mim a principal fragilidade do treinador da seleção do Brasil, é na verdade sua principal virtude

Não estou aqui a escrever esse texto para defender esse ou aquele treinador, nem tão pouco para apontar defeitos personificados em um sujeito qualquer que um dia decidiu se tornar treinador de futebol.

Quando aponto falhas no comportamento organizacional de uma equipe, não tenho pretensão alguma de criticar o trabalho do “comandante” da tal equipe, apenas quero discutir como ela joga o jogo.

Hoje, vou então abrir uma exceção, para escrever sobre o treinador da seleção brasileira de futebol, o Dunga.

Confesso ainda achar muito estranho que alguém assuma como primeiro trabalho em sua profissão (em sua carreira), aquele que é tido como o mais importante, difícil e valorizado dentre seus pares.

O fato é que depois de ouvir recentes depoimentos de jogadores brasileiros que jogam ou jogaram na Europa nos últimos anos, começo a pensar que aquela que era para mim a principal fragilidade (defeito, problema!) do treinador da seleção do Brasil, é na verdade sua principal arma (vantagem, qualidade, virtude).

Explico. É muitas vezes assustador assistir nos programas “especializados” em futebol na televisão brasileira as comparações infundadas sobre o futebol praticado na Europa e o praticado no Brasil. Um sem número de argumentos vazios é usado para tentar convencer aos ouvidos menos atentos de que dentro do campo, seja no âmbito da preparação física, técnica ou tática, nós brasileiros somos imbatíveis.

É um velho-novo discurso que, reduzindo o futebol à relações de causa-efeito, simplifica ao bel prazer dos achismos, fatos e teorias que explicam o ponto de vista que se quer defender.

É incontestável que fatores como a preocupação da Uefa com a qualidade da formação dos treinadores em ação no território europeu (da base ao profissional), a proximidade entre as Universidades (Ciência) e a prática em alguns centros, e o grande número de eventos que promovem discussão entre profissionais em diversos países da Europa têm garantido já há algum tempo um grande salto de qualidade no jogar das equipes européias.

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Como Analisar uma Equipe Campeã ?

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“…A análise torna-se mais ampla e desencadeia uma visão mais sistêmica das coisas, detectando fragilidades e permitindo intervenções que, na maioria das vezes, não seriam notadas.”

A cultura do campeão em nosso país traz consigo várias mazelas, quase impossíveis de serem tratadas no curto prazo. Estamos falando de um paradigma existente em nossa sociedade, que contamina a todos: torcedores, profissionais do esporte, críticos e, principalmente, a imprensa em sua maior parte.

A referência principal, é claro, passa a ser a equipe que alcançou a primeira colocação. Seus atletas e a comissão técnica passam a ser imitados e, igualmente, seus métodos de trabalho.

E a análise sobre o vencedor, que poderia ser rica e ampliada à diversos fatores, quase sempre é óbvia e unânime.

E a unanimidade não é burra, como diria Nelson Rodrigues. A unanimidade é míope… mas com certeza, nos permite enxergar exceções.

Uma equipe de jogadores bem treinados ou uma comissão técnica integrada e bem articulada são exemplos de unanimidade inteligente. Outro bom exemplo são os pedagogos do esporte, unânimes ao afirmar que o aluno (ou atleta) pode descobrir o prazer de aprender se for devidamente bem estimulado.

E quais aspectos poderiam ser analisados numa equipe que é referência por ter alcançado um título ou a primeira posição da tabela? Aspectos que permitam ir além dos números estatísticos e dos scouts técnicos do jogo e que efetivamente revele a qualidade do trabalho realizado?

Abaixo são apresentados 15 aspectos gerais de uma equipe de futebol, onde cada um é composto de parâmetros específicos e que podem ser coletados no dia-a-dia dos treinamentos e jogos. A análise de cada aspecto pode ser realizada periodicamente, de acordo com os objetivos da comissão técnica.

1. Qualidade Técnica da Equipe;

2. Condição Atlética da Equipe;

3. Padrão Tático de Jogo da Equipe;

4. Perfil Psicológico dos Atletas;

5. Coesão de Grupo – Consciência Profissional Coletiva;

6. Atitude dos Atletas nos Treinamentos;

7. Atitude dos Atletas nos Jogos;

8. Nível Geral de Performance da Equipe;

9. Índice (Ausência) de Lesões;

10. Infraestrutura de Treinamento;

11. Observação Técnico-Tática dos Adversários;

12. Política de Contratações de Atletas;

13. Relacionamento com a Imprensa (para a Direção);

14. Relacionamento com a Imprensa (Comissão Técnica e Atletas);

15. Grau de Cobrança Interna para a Qualidade.

A análise torna-se mais ampla e desencadeia uma visão mais sistêmica das coisas, detectando fragilidades e permitindo intervenções que, em sua maioria, não seriam notadas.

E muitas vezes, percebe-se que alguns aspectos são mais importantes numa conquista do que a somatória de vários outros juntos.

Quantas equipes campeãs alcançaram um nível de coesão tão grande que superou a falta de qualidade técnica de seus jogadores? Ou vice-versa?

E em quantas oportunidades a política de contratações de atletas causou impacto positivo na melhor classificação da equipe, mesmo com uma fraca infraestrutura para treinamentos? Ou vice-versa?

Essa é a beleza e a complexidade do futebol.

O Jogo de Futebol tem Lógica?

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“A lógica do jogo tem de ser construída mentalmente, porque ela não é um dado, como o são o tabuleiro e as peças”. (Rubem Alves)

via Universidade do Futebol, por Rodrigo Leitão.

Todo jogo, seja ele qual for, tem uma lógica. Inexorável, soberana. O jogo de futebol não escapa a isso.

Todo jogo, por ser jogo, traz como característica inerente, a imprevisibilidade.

No futebol, é comum que tanto lógica quanto imprevisibilidade levem “especialistas”, treinadores e torcedores à distorção da percepção dos fenômenos da complexidade do jogo.

Poucos são os esportes em que o “melhor” perde para o “pior” com tanta freqüência. Quando esse fato é misturado com reflexões rasas sobre o que significa lógica do jogo, fica pronto o “pacote” e se reforça o discurso: “futebol não tem lógica, quando a gente acha que o time grande vai ganhar fácil, ele perde”.

Para entender melhor o que quero dizer é preciso primeiramente entender que a “lógica do jogo” está no âmago do jogo; não vai fugir, escapar, desaparecer, etc. e tal. Sua existência independe do adversário “A” ou “B”, independe se quem vai vencer é a equipe “X” ou a equipe “Y”, independe da minha vontade, da vossa ou de quem quer que seja.

O entendimento disso não é trivial, mas acreditar que o jogo de futebol não possui lógica é o mesmo que criar uma “sombra” capaz de ocultar o brilho da complexidade do jogo real e se distanciar cada vez maior do seu cumprimento.

Vencerá o jogo aquela equipe que resolver melhor os problemas do jogo, aproximando-se do cumprimento de sua lógica.

A lógica do resultado então não é aquela criada no imaginário coletivo a favor dessa ou daquela equipe e sim a aproximação ao cumprimento da lógica do jogo por uma equipe, mais do que pela outra.

A lógica do jogo não veste camisa, veste o jogo, e como o jogo é JOGO, lá sempre estará a imprevisibilidade; e é aí que mora outro perigo de interpretação e entendimento.

Nenhuma partida de futebol é igual a outra. Situações trazem a cada fração de segundo uma nova circunstância. Cada circunstância, novos problemas, e por aí vai. Nunca se sabe exatamente o que vai acontecer.

Então cumprir a lógica do jogo é também saber que não se pode tornar o imprevisível previsível, mas que entendendo a imprevisibilidade, é possível torná-la menos imprevisível.

“Todo pensamento começa com um problema. Quem não é capaz de perceber e formular problemas com clareza não pode fazer ciência[futebol é arte, ciência, os dois?].(…) Não é curioso que os nossos processos de ensino de ciência se concentrem mais na capacidade do aluno para responder? Você já viu alguma prova ou exame em que o professor pedisse que o aluno formulasse o problema? O que se testa nos vestibulares, e o que os cursinhos ensinam, não é simplesmente a capacidade para dar respostas? Frequentemente, fracassamos no ensino da ciência porque apresentamos soluções perfeitas para problemas que nunca chegaram a ser formulados e compreendidos pelo aluno”. (Rubem Alves)

Qual é o problema do jogo de futebol? Qual é o problema para se alcançar a lógica do jogo de futebol?

“O sábio começa do fim; o tolo termina no começo”. (Polya)

Desumanização no Futebol

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“Outro erro é achar que qualquer substituição ou mudança tática seja a principal responsável pelas vitórias e pelas derrotas.”

por Tostão, mestre e filósofo do futebol

Sei e reconheço a importância dos técnicos. Ao escrever que até Ricardo Teixeira, mesmo sem entender nem gostar de futebol, teria bons resultados como técnico da seleção, quis apenas criticar e ironizar com um exagerado exemplo a supervalorização dos treinadores.

Nelson Rodrigues foi o grande craque e mestre do exagero, das hipérboles, das metáforas extravagantes e da aproximação dos contrários.

Já escrevi mil vezes que os atletas só atuam bem quando jogam em equipes organizadas. Os treinamentos corretos, a repetição de detalhes, a disciplina tática, as informações e as observações dos adversários, a capacidade de manter os jogadores atentos e motivados em todos os jogos e outros trabalhos que são feitos pelos bons técnicos são fundamentais para a equipe.

Isso é um fato. Outro é achar que qualquer substituição ou mudança tática seja a principal responsável pelas vitórias e pelas derrotas. Com freqüência, um técnico erra na substituição, o time piora, ganha por outros motivos, e o treinador é bastante elogiado. Outras vezes, ocorre o contrário.

Não foi tão surpreendente a perda do título pelo Palmeiras nem os erros de Vanderlei Luxemburgo na formação do elenco. Ele é só um excelente treinador, que erra e acerta, e não um mágico que decide as partidas e os títulos, ainda mais depois que quis ser o dono do mundo.

Não há mais nenhuma dúvida de que Muricy Ramalho é outro excelente treinador. O que não se deve é achar que o São Paulo tem jogadores modestos e que só ganha porque é muito bem treinado. Individualmente, o São Paulo é o único time que tem três jogadores que merecem estar na seleção (Rogério Ceni, Miranda e Hernanes), além de outros bons.

Além disso, o São Paulo, há muitos anos, é um clube maior que o técnico. Quando contrata um treinador, não traz uma nova comissão técnica. Se os outros clubes quiserem ganhar mais títulos, precisam se organizar melhor para não dependerem de técnicos e de jogadores estrelas e caros, muitas vezes de eficiência duvidosa.

A principal diferença de Muricy para outros técnicos, principalmente para os jovens Caio Júnior e Adilson Batista, que acertaram mais que erraram, é que os comentaristas e até os torcedores que torcem de costas para o gol entendem as mudanças que Muricy faz durante as partidas ou entre uma partida e outra. Quando só o técnico entende o que faz, há grande chance de dar errado.

Muricy faz muito bem, e os jogadores executam com eficiência o que é comum, essencial. O treinador conhece profundamente o que é básico.

Técnico adora afirmar nas entrevistas que é o responsável por 30% das vitórias, e os jogadores, por 70%. Uma das maneiras de o ser humano expressar a vaidade é se parecer modesto.

Com o inevitável e bem-vindo progresso científico, o futebol passou dos jogadores para os técnicos. Esses deveriam, no mínimo, dividi-lo com os atletas.

O que mais me preocupa hoje é a transformação progressiva do futebol em um esporte robotizado, utilitário, tecnicista e previsível. Será a perda do encanto e a desumanização do futebol.

O Coordenador Técnico de Futebol

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“O Coordenador Técnico é um agente facilitador no dia-a-dia da área técnica. É o canivete suíço do treinador”

Coordenador Técnico de Futebol é a função capaz de facilitar e fazer funcionar, na forma e no conteúdo, cada aspecto do trabalho técnico esportivo de modo integrado, com uniformização de diretrizes e princípios, estimulando o desempenho e a produtividade de todos os envolvidos no complexo processo de funcionamento de um departamento de futebol, facilitando o alcance de um rendimento ótimo sustentado.

Por ser um agente facilitador entre os vários profissionais da comissão técnica – preparador físico, preparador de goleiros, assistentes técnicos, nutricionista, psicóloga, assistentes sociais, fisiologistas etc. – permite que o treinador tenha mais tempo para ficar focado na parte técnica e tática de sua equipe.

O Perfil do Coordenador Técnico

Para exercer esta função, nova e complexa, nos clubes de futebol, o Coordenador Técnico deve possuir alguns conhecimentos e qualificações especiais. Deve ter noções básicas a respeito de todas as áreas que coordena, sejam elas técnicas, de saúde ou de serviços, sem que precise ser um especialista em qualquer uma delas – “conhecer de tudo um pouco e um pouco de tudo”. Se possível, ter uma formação de nível superior, e, sobretudo, que acompanhe permanentemente os avanços constantes das técnicas e ciências esportivas e administrativas. Além disso é indispensável que este profissional tenha também liderança, capacidade de avaliar situações com ponderação e equilíbrio, objetividade, eficiência e eficácia no conjunto de suas ações e, finalmente (mas não menos importante), capacidade de comunicação e relacionamento.

Níveis de Atuação do Coordenador Técnico

Em síntese, o trabalho do Coordenador Técnico envolve, basicamente, três níveis de atuação:

1) Planejamento das atividades voltadas para o alto rendimento esportivo;
2) Controle rigoroso, individual e coletivo, desse rendimento;
3) Melhoria permanente dos processos que conduzem ao alto rendimento esportivo.

A Evolução das Comissões Técnicas no Futebol

“O técnico tem de estar livre para ficar focado 24 horas por dia na parte técnica e tática.”

A estrutura de poder do futebol atual ainda sobrecarrega o técnico, o ser ‘todo poderoso’ que, na cabeça do dirigente, da imprensa e do torcedor, tudo pode. E de quem é toda a culpa em caso de fracasso.

Não é uma coisa nem outra.

É um profissional fragilizado e que não pode ser responsabilizado sozinho – nem pelo sucesso nem pelo fracasso. Um sistema massacrante, já que é impossível que o treinador domine todas as disciplinas necessárias para o sucesso do seu trabalho.

Em 2000 e 2001, o prof. João Paulo Medina implantou no Internacional de Porto Alegre um projeto moderno, que transformou o clube e deu frutos.

Mas ainda não chegou ao limiar da comissão técnica do futuro que propõe. Uma comissão técnica onde o treinador seria substituído pela figura do ‘orientador tático’. Ele explica:

“Nos anos 50, sobressaía a figura do técnico centralizador, quase sempre um ex-jogador que acumulava até a função de preparador físico. Na década seguinte, o futebol sofreu a primeira modificação, com a introdução da preparação física, do médico acompanhando os atletas. Nos anos 70, surgiu a figura do assistente-técnico, do preparador de goleiros e foram agregados à comissão técnica dos clubes e seleções profissionais de áreas como Nutrição, Psicologia, etc. “

Esta comissão técnica multidisciplinar, no entendimento de Medina, foi um passo importante, mas gerou um problema que, hoje, é mal crônico nos clubes: a crise de liderança.

“A necessidade de compor uma comissão técnica com profissionais de diferentes áreas, se por um lado aliviou o trabalho do técnico, por outro acabou criando áreas de atrito. Na comissão técnica do futuro, cresce a importância da figura do coordenador técnico, o agente facilitador para o trabalho do técnico”, explica Medina.

Quando trabalhou com Parreira em 2001, no Internacional, Medina acumulou experiência prática suficiente para saber que este é o caminho. “A função do coordenador não é dar ordens ao técnico, que é o homem que, entre outras responsabilidades, detém a liderança e a confiança do time. Sua função é a de facilitar e fazer funcionar, na forma e no conteúdo, cada aspecto do trabalho técnico de modo integrado. Em síntese, ser o agente facilitador da busca do melhor rendimento do time. O técnico tem de estar livre para ficar focado 24 horas por dia na parte técnica e tática.”