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“…Meu nome é Luiz Antônio e tomei a liberdade de ligar para o senhor. Eu gostaria de participar do processo seletivo para o cargo de técnico da equipe juvenil do Internacional.”
Era inverno e início de semana na fria Porto Alegre. O termômetro da Avenida Independência alertava para uma noite das mais geladas e o dirigente estava naquela mesma mesa, no mesmo restaurante.
Fernando, o presidente do Internacional, organizava a pauta da reunião do dia seguinte enquanto aguardava o jantar, que mais era sinônimo de trabalho-fora-do-expediente do que de refeição, propriamente dito.
Muitas frentes estavam se estruturando e um novo clube parecia nascer naquele gigante da Beira-Rio. Em verdade, as críticas também cresciam nas mesmas proporções e muitos eram os assuntos que circulavam nos programas de TV.
Onde já se viu entrevistar técnico de futebol? Investir em centro de informação e inteligência (Intercenter) pra quê? Universidade corporativa, então? Nós precisamos de jogadores e não de alunos! O Inter irá cair sem nossos principais jogadores! Socorro!
Fernando não se continha em felicidade com o pagamento de boa parte das dívidas, conseguido através da venda de Fábio Rockembach ao Barcelona da Espanha. Os investimentos futuros estariam voltados ao crescimento sustentado do clube, através de fatores importantes, como a capacitação de profissionais, busca equilibrada de receita e foco no processo de desenvolvimento dos atletas, buscando valorizar cada vez mais o produto final.
Tinha uma oportunidade única em tentar mudar a história daquela instituição de pouco mais de 90 anos e que se via cercada pelas mesmices do nosso futebol: dívidas, salários de atletas incompatíveis com a realidade do país, receita concentrada nos direitos televisivos, ausência de um planejamento de longo prazo, ambiente contaminado por empresários de atletas sanguessugas e por aí vai.
Um projeto audacioso que estava sendo conduzido por um engenheiro de formação, homem sério, de gênio forte e pulso firme, capaz de olhar seus atletas e colaboradores nos olhos, dar apoio e transmitir segurança de que esse era o caminho.
Era uma das tarefas mais difíceis de toda a sua vida. Colorado e apaixonado pelo Inter desde guri, havia planejado se tornar presidente de seu clube do coração oito anos antes.
Junto de seu coordenador técnico, homem de confiança e co-responsavel na reestruturação do clube, enfrentou toda uma nação colorada de frente, ao anunciar que uma transformação estava por vir. Jogadores custosos seriam dispensados e outros substituídos, dando lugar a atletas pouco conhecidos, alguns deles já formados no próprio clube.
E o mais fantástico, e talvez, mais chocante para os gaúchos colorados: divulgaram uma previsão que o grande Inter de Porto Alegre poderia voltar a sonhar com um título de expressão somente em 4 ou 5 anos a partir das mudanças.
Estávamos no ano de 2001.
Em determinado momento daquela noite, toca o telefone do dirigente:
- Muito boa noite. É o presidente Fernando?
- Boa noite. Sim, quem é? – responde o dirigente.
- Meu nome é Luiz Antônio e tomei a liberdade de ligar para o senhor. Eu gostaria de participar do processo seletivo para o cargo de técnico da equipe juvenil do Internacional. O senhor poderia me auxiliar com algumas informações?
- Pois não, Luiz. Vou lhe passar os dados do nosso responsável e peço que entre em contato ainda nesta semana, tudo bem? – interagiu o presidente.
- Muito obrigado, Sr. Fernando. Farei este contato o mais breve possível. Agradeço a sua atenção e lhe desejo uma boa noite. – despediu-se Luiz Antonio.
- Boa noite e boa sorte! Será um prazer encontrá-lo por lá. – agradeceu o presidente.
Luiz Antonio é Luiz Antonio Venker Menezes, o Mano Menezes. Um dos principais técnicos e conhecedores da gestão de campo (e de gente!) no futebol da atualidade.
E o presidente Fernando, não é o mesmo que saiu na foto do título mundial do Inter. Nem tampouco é o que passou vergonha há alguns dias com declarações típicas de dirigentes que tentam se passar por heróis.
Seu nome é Fernando Miranda.



23 respostas Até agora ↓
anonimo // 16/11/2009 às 14:20 |
Conheço a historia com detalhes pois vivenciei isso ao lado dos dois fernandos…
O Miranda merece o apreço de toda naçao colorada. Ele quebrou os paradigmas amadores que seguravam o crescimento do inter e deixou as bases do sucesso plantada à muito custo, inclusive pessoal. O outro fernando , o carvalho, merece tb todo nosso respeito pois conduziu o clube ao titulo mundial que tanto sonhavamos. Mas o que passou, passou, agora é hora de novas pessoas surgirem pra conduzir o inter. O tempo dos 2 fernandos já passou.
Um sabe disso, pena que o outro ainda nao se deu conta…..
Tega // 16/11/2009 às 14:25 |
Obrigado pela gentileza de compartilhar sua opinião. Um abraço.
Fabinho // 16/07/2009 às 10:55 |
Em síntese, o texto chama a atenção para a iniciativa de Mano, em início de carreira, junto a um dirigente esclarecido com seus projetos futuros- raros nos dias de hoje- e não para julgamento de qual foi o melhor para os torcedores colorados. Coisa rara um presidente atender a um pedido direto de um “desconhecido´´.
Abraço, meu amigo
Fabio // 06/07/2009 às 17:24 |
Lamentável esse demonização que está sendo feita do Fernando Carvalho, encabeçada pelo Sr. Juca Kfouri. O F. Carvalho errou feio, na minha opinião, com esta história do DVD. Mas daí a tentar reescrever a história do Internacional e de todas as suas conquistas para tentar fazer dele um mero oportunista é, um golpe muito baixo. F. Carvalho assumiu um clube em 2002 sem grupo de jogadores. Montou um grupo às pressas em 2002, com resultados desastrosos. Refez tudo a partir de 2003, com os resultados que conhecemos. Foi ele, por exemplo, quem deu a primeira chance em um clube grande ao Muricy Ramalho, tri-campeão brasileiro e quatro vezes seguidas escolhido o melhor técnico do Brasil. Não é porque o Mano Menezes e seu Corinthians ganharam uma copinha do Brasil e uma segundona que agora os detratores do F. Carvalho vão se achar os donos da verdade. O Mano é ótimo treinador, mas vai ter que ganhar muito ainda para igualar o que o F. Carvalho fez pelo Inter. O time do Inter Campeão da Libertadores e do Mundo tinha muito poucos jogadores vindos da base. F. Miranda não teve nada a ver com a formação daquele time. Mano Menezes também não.
Celiba - colorado de Curitiba // 06/07/2009 às 10:24 |
Caro Tega, ambos os Fernandos foram decisivos para o que hoje conhecemos como Sport Club Internacional, um dos maiores clubes do Brasil e também um dos mais vencedores. Ambos tiveram sua grande parcela e ambos são heróis reconhecidos pela torcida colorada. Fernando Miranda foi um visionário, empreendedor e corajoso. Fernando Carvalho foi o torcedor de terno, a alma do time e o grande capitão das conquistas. O DVD não pode ser julgado da forma como está sendo, pricipalmente pela mídia de São Paulo.
Parabéns pela matéria, ambos são heróis!
Luiz Carlos Brollo // 05/07/2009 às 01:52 |
Nao me surpreende um texto desta grandeza quando descrito por pessoas como voce, profundo conhecedor da gestao do futebol.
Parabens e sucesso sempre.
Um forte abraco.
Tega // 05/07/2009 às 10:59 |
Oi Mestre! Obrigado pelas sempre carinhosas palavras. Como estão as coisas aí do outro lado do mundo? Um carinhoso abraço de saudades e sucesso!
Schneider // 04/07/2009 às 19:37 |
É verdade, Fernando Mirando disse que havia chegado para pagar contas e não ganhar títulos. Daí veio outro Fernando, o Carvalho e fez o que todos os colorados sabem. O título desse artigo é claramente uma provocação e uma tentativa (inútil) de “demonizar” Fernando Carvalho, ao expressar “Heróis e Vilões”, indicando que o herói é o Miranda e o Vilão o Carvalho. Você Eduardo, “estudioso do futebol, sic”, joga rasteiro e pra torcida – paulista, é claro – , joga pra esses que desde a semana passada gostam de resumir F. Carvalho a um “fanfarrão do dvd” e que ajudou o Inter a perder a Copa do Brasil. Injusto! Analisa a coisa a distância e usa a uma estórinha bonitinha de comédia romântica como lição de vida. Ambos são dirigentes diferenciados. Ambos pessoas corretíssimas. Ambos erraram e acertaram. Talvez se o teu título fosse diferente esse poderia ser um bom texto, mas é “marrom” e oportunista. Miranda fez sua parte e é hoje uma nota de rodapé na história do Inter, já Fernando Carvalho é um capitulo à parte dessa história.
Tega // 05/07/2009 às 10:19 |
Caro Andrei, a ideia foi resgatar a história, muitas vezes esquecida pelos considerados “vencedores” (aqueles que ganham títulos), em detrimento dos considerados “perdedores” (porém vencedores no sentido de mudar paradigmas, apesar das resistências dos que só querem resultados imediatos). De fato, como disse há pouco, todos erramos e isso não seria diferente com F. Carvalho e F. Miranda. Mas a verdade não pode ser exclusividade daqueles que ganham jogos. Há muito mais vida por trás dos resultados de jogos de futebol, sempre efêmeros. Enfim, ser “capítulo à parte” ou “nota de rodapé” na história é uma questão de ponto de vista. E o futebol está cheio destes exemplos.
Um abraço e obrigado por passar por aqui.
roberto ribeiro // 04/07/2009 às 18:26 |
Parabéns pelo texto.
Ficou com gostinho de “o que aconteceu depois?”. Acho que a história de Fernando Miranda como presidente do Inter deveria ser melhor contada. Era notório que tinha ele um projeto de ressurreição do clube, que vivia momento de ostracismo profundo no futebol brasileiro. E, pelo que acompanhei de longe, parece ter sido ele forçado a abondoná-lo mesmo que parcialmente no final da sua gestão pela pressão interna e tb da imprensa, que não aceitava mais a ausência de resultados. Trouxe o Parreira para o Brasileirão 2001 e os resultados continuaram não aparecendo, embora o Inter tivesse, nos dois brasileirões nos quais Miranda foi presidente, passado ao largo da zona de rebaixamento – o que não aconteceu com o presidente anterior (Paulo Rogério Amoretty, em 1999) e com o posterior, Fernando Carvalho, cujo primeiro ano de gestão (2002) foi marcado por uma briga feroz durante todo aquele Brasileirão para escapar da degola – só sendo salvo na última rodada. Tenho impressão de que se o Inter deixou pra trás o longo tempo de coadjuvância no futebol brasileiro e internacional, deve-se tb à semente plantada por Fernando Miranda. Isto é correto?
Tega // 05/07/2009 às 10:41 |
Caro Roberto, obrigado pela visita e pelo comentário. O Inter tem uma grande história e a ideia deste texto foi resgatar a memória de pessoas que nem sempre são valorizadas ao não sair numa foto de campeão. Muito dos méritos da gestão de F. Carvalho deve-se por ter encontrado uma estrutura bem mais sadia financeiramente e com raízes plantadas de maneira profunda na cultura do clube e de seus profissionais, principalmente em diretrizes e conceitos técnicos no desenvolvimento de atletas, e que geram bons resultados até hoje. Um abraço!
Cezar // 04/07/2009 às 16:14 |
A função de um dirigente é defender os interesses de seu clube/empresa. Ficar calado e ver ano após ano uma determinada agremiação ser “agraciada” por máfias do apito ou na parceria obscura de uma MSI seria uma covardia! Porque não falas da ação do Sr Zeiver quando ameaçou o INTER de ser retirado das competições caso mantivesse o protesto contra o título roubado de 2005?! Quem é vilão?!
Tega // 05/07/2009 às 10:28 |
Obrigado pelo comentário, Cezar. Na minha opinião, a função de um dirigente está muito além do que defender os interesses de sua instituição. Tanto a parceria obscura da MSI, o episódio negativo na arbitragem brasileira e o papel do sr. Zveiter foram e serão contestados por um longo tempo, inclusive por este que vos escreve. Mas tais fatos do passado não deveriam ser tratados como justificativas, para que se montem estratégias extra-campo e que acabem por deixar o espetáculo do futebol em segundo plano. Um abraço.
Sinclair // 04/07/2009 às 15:41 |
Teguinha , já sabia desta estória exemplar da vida , do mundo do futebol e de todos nós que vivenciamos o dia a dia do futebol , mas ficou espetacular narrada por vc e descrita a todos através de um texto inspirado e mostrado aqui no seu blog .
Tudo isto pode ser visto de vários pontos de vista, mas é profundamente inspirador para que sigamos acreditando em nossos sonhos e fazendo tudo que é possível para realizá-los .
Acreditando e valorizando em todos os seres humanos e agradecendo a Deus por colocar pessoas que vão nos ajudar a realizar aquilo que mais desajamos….
Mauro Bellenzier // 04/07/2009 às 08:08 |
Caro Tega, acompanho a Universidade do Futebol, e por meio dela que conheci o blog. Parabéns pelo belo texto! Lá pelas tantas, como bom torcedor colorado que sou, percebi que tratava do Miranda e não do Carvalho. O Carvalho foi e é ótimo. Uma lástima que os dois não se bicavam, pois o Miranda tinha boas idéias e poderia contribuir muito com o Internacional e com futebol. Você saberia dizer onde por onde ele anda? Abraços!
José de Souza Teixeira // 04/07/2009 às 07:36 |
Prof. Tega,
Obrigado pelo e-mail, demonstrando com o exemplo do Mano Menezes, que o espírito de iniciativa e criatividade não é indispensavel somente para os atletas durante o jogo, mas tambem para aqueles que os dirigem.
Abraços
Prof. Teixeira.
Alcides Scaglia // 04/07/2009 às 01:18 |
Tega, volto a dizer que a universidade do futebol está precisando de um novo colunista semanal. Seu texto está muito interessante e com peculiaridades literárias muito significativas e criativas. Pense nisso!!!
Um saudoso abraço
Juliano // 03/07/2009 às 18:21 |
Fernando de Carvalho é um idiota. Não surpreende saber que as coisas corretas que o Inter fez não saíram da cabeça dele.
Gustavo // 03/07/2009 às 17:02 |
Tega,
Sensacional o resumo da história que conhecemos tão bem.
Melhor hora para essa história acho que não teria
Abs
clovis bueno junior // 03/07/2009 às 14:08 |
Fui lendo o texto e pensando o que escrever, aí deparei com a opinião do Afif e resolvi que:
SENSACIONAL TEXTO. A GRANDE IMPRENSA PRECISA TOMAR CONHECIMENTO!
PARABÉNS
Tega // 03/07/2009 às 14:17 |
Oi Clóvis! Muito gentis as suas palavras. Obrigado e um grande abraço!
Tega
Antonio Afif // 03/07/2009 às 11:47 |
Sensacional texto. A grande imprensa precisa tomar conhecimento. Parabéns!
Tega // 03/07/2009 às 14:16 |
Obrigado, mestre Afif! Um forte abraço!